CAMINHO DO NORTE - DICAS IMPERDÍVEIS


"Camiño Norte" é opção litorânea do Caminho de Santiago de Compostela


Fonte: http://viagemempauta.com.br



Trecho litorâneo do Caminho Norte de Santiago de Compostela, entre Arenal de Moris e La Isla, nas Astúrias (foto: Eduardo Vessoni)


D
izem que todos os caminhos levam a Santiago de Compostela, e foi o que todo mundo fez. Só que pelo mesmo lugar e ao mesmo tempo.

Mas ao norte da Espanha, peregrinos de alma aventureira e dispostos a seguirem outras rotas se encontram (e encontram a si mesmo) no ‘Caminho do Norte’, conhecido também como ‘Caminho da Costa’.

Essa versão litorânea até Compostela, que cruza extensas faixas de areia sobre o Mar Cantábrico e penhascos rochosos, possui 815 km de extensão e 32 paradas, entre Irún, no País Basco, e a cobiçada Catedral de Santiago de Compostela, na Galícia.

Embora seja tão antigo como o medieval ‘Caminho Francês’, a opção pela costa tem se popularizado entre os que buscam rotas peregrinas menos frequentadas.


Considerado a única do Caminho Norte a seguir pela costa, a comunidade de Astúrias abriga paisagens que refrescam o peregrino, ao longo dos 815 km até Santiago de Compostela, como o trecho Arenal de Moris a La Isla, uma caminhada curta de 4,5 km de extensão (foto: Eduardo Vessoni)

Considerado a única do Caminho Norte a seguir pela costa, a comunidade de Astúrias abriga paisagens que refrescam o peregrino, ao longo dos 815 km até Santiago de Compostela, como o trecho de Arenal de Moris a La Isla, uma caminhada curta de 4,5 km de extensão (foto:

Eduardo Vessoni)


Com 31 etapas e 775 km de extensão, o tradicional Camino Francês é a rota mais popular para quem decide chegar a pé da francesa Saint Jean de Pied de Port até Santiago de Compostela, na Espanha.

O resultado é um caminho congestionado de ‘turisgrinos’, como são chamados os turistas fantasiados de peregrinos, e com opções de hospedagem comprometidas pela falta de camas, sobretudo na alta temporada do verão europeu.

“Em alguns meses do ano, é necessário levantar às quatro da manhã para garantir cama no povoado seguinte. Perde-se a dignidade”, afirma María Ángeles Cabo Setien, peregrina espanhola que desde, 2008, realiza o caminho todos os anos, por 

diferentes vias e quilometragens.

Seja qual for seu caminho, tudo segue igual desde o ano 830, quando o ermitão Pelayo descobriu o túmulo do apóstolo Santiago, na Galícia, que daria início à tradição da peregrinação até Compostela.

Gente que vai, gente que vem.


Peregrino segue até Santiago de Compostela, no trecho galego entre Lourenzá e Mondoñedo (foto: Eduardo Vessoni)


Uns com carros de apoio; outros sobre bicicletas; e muitos a pé, apoiados pela companhia do cajado e da mochila que leva o peso do mundo nas costas do peregrino, que vai deixando excessos para trás.

A mochila é uma espécie de cordão umbilical que conecta o caminhante com o exterior e as pessoas têm medo de perder o contato com o mundo. Por isso, é comum querer colocar de tudo na mala que vai nas costas, mas é ao longo do caminho que 

objetos desnecessários vão sendo largados, conforme se avança no caminho.

“O mais difícil mesmo é voltar do caminho e tomar as decisões certas”, descreve María Ángeles.

Daqui pra frente tudo é estrada.

De terra ou de asfalto. Entre povoados medievais ou ao longo de rodovias. Em direção ao próximo destino ou para dentro de si mesmo.

O ‘Caminho do Norte’ até Santiago de Compostela cruza quatro comunidades autônomas espanholas (País Vasco, Cantábria, Astúrias e Galícia) e em cada uma delas, uma geografia que faz até a gente esquecer que está em um mesmo caminho.

No final, a gente não sabe se fez o caminho ou se foi o caminho que fez a gente. Como se lê em um dos trechos do Caminho de Santiago de Compostela, no trecho basco, “não é o que, é como”.


foto: Eduardo Vessonif

foto: Eduardo Vessoni


Confira as atrações em cada uma das comunidades do ‘Caminho Norte’:

PAÍS BASCO 
 PAÍS BASCO, Espanha, Europa

Endereço de cidades como Guernica e Bilbao, o País Basco conta com trechos em que se vê o mar Cantábrico de um lado e cadeias montanhas do outro. Essa etapa de 214 km de extensão é marcada por desfiladeiros, sobretudo na região da província de Guipuzcoa, e apresenta clima chuvoso e temperado.

Os verões são quentes e os invernos são muito frios, porém com menos chuva.

O cenário vai se modificando ao longo da travessia, indo da paisagem montanhosa do interior de Guipuzcoa até as terras planas, de Álava a província de La Rioja, conhecidas por seus vinhedos.



Peregrina, durante travessia do trecho Getaria – Zumaia, no País Basco, na Espanha (foto: Eduardo Vessoni)


CANTÁBRIA Cantábria, Espanha, Europa

Diferente do sobe e desce da comunidade anterior, a caminhada pela Cantábria é sobre trreno mais plano, mais cômodo e com nova sinalização com flechas amarelas para peregrinos do Caminho Norte e vermelhas para quem vai 

pelo ‘Camino Lebaniego’, um desvio que une os caminhos do Norte e o Francês, entre San Vicente de la Barquera e o Monasterio de Santo Toribio, em Potes.

Essa variante do Caminho de Santiago possui 50 km de extensão, pela costa cantábrica até o interior dos Picos de Europa e de la Cordillera Cantábrica, e é declarada Patrimônio Mundial da Unesco.

Verões abafados e invernos com temperaturas baixas marcam o clima dessa região.



Vista do caminho entre Collado de Hoz e Cicera, destinos que fazem parte do ‘Caminho Lebaniego’, variante com 50 km de extensão que une os caminhos do Norte e o Francês, até Santiago de Compostela (foto: Eduardo Vessoni)


ASTÚRIAS Astúrias, Espanha, Europa

Considerado a única do Caminho Norte a seguir pela costa, essa comunidade é marcada por seu terreno plano que permite caminhadas mais suaves.

Algumas etapas apresentam sinalização confusa (ou ausentes) como na praia de Vega e em alguns trechos dos 4,5 km, entre Arenal de Moris e la Isla.



Considerado a única do ‘Caminho Norte’ a seguir pela costa, a comunidade de Astúrias abriga paisagens que refrescam o peregrino, ao longo dos 815 km até Santiago de Compostela, como o trecho de Arenal de Moris a La Isla, uma caminhada curta de 4,5 km de extensão (foto: 

Eduardo Vessoni)


GALÍCIA Galícia, Espanha, Europa

A última comunidade autônoma da caminhada é também a mais exigente, formada por pequenos montes e encostas "rompepiernas".

Por outro lado a maior concentração de vegetação que garante mais sombra para os caminhantes e o clima mais ameno amenizam a rigidez da geografia galega. O inverno na região é menos chuvoso.



Erguido na primeira metade do século 12, o Sobrado dos Monxes é um dos cenários mais impressionantes do ‘Caminho Norte’, onde o peregrino faz a sua última parada antes de chegar a Santiago de Compostela (foto: Eduardo Vessoni)


GUIA DE SOBREVIVÊNCIA

ONDE FICAR

Durante a viagem, há dois tipos de albergues: o turístico, que aceita caminhantes sem credencial e custam entre 15 e 20 euros; e o de peregrinos, voltado apenas para os que possuem a identificação e custa 5 euros (em alguns casos, pode ser gratuito, 

mediante doações). Sem fins lucrativos, essa segunda opção conta com estrutura mínima como quartos com até 30 camas, chuveiro quente e, em alguns endereços, cozinha de uso coletivo.



Vista de um dos quartos de peregrinos no Sobrado dos Monxes, na Galícia (foto: Eduardo Vessoni)

Com menos opções de hospedagem e mais chuvoso, o Caminho Norte exige reservas prévias, durante o inverno da Europa.

No popular Caminho Francês não é necessário reservar uma vaga no albergue, durante todo o ano.

REGRAS

Embora sejam locais informais e simples, os albergues de peregrinos contam com regras bem rígidas: são fechados após às 22 h, não se pode passar mais de uma noite em cada um dos estabelecimentos, reservas não são aceitas, bem como animais de estimação, e a preferência é para quem chega a pé.
Ciclistas são bem-vindos, mas devem aguardar a chegada dos que viajam a pé ou com limitações físicas.
PREPARO FÍSICO

Recomenda-se preparo físico prévio, mas é raro ver um peregrino que o faça, antes de cada caminhada diária. Por isso, a sugestão é ir se aquecendo ao longo dos dias.

Para encarar sem traumas os 25 km diários sugeridos, o ideal é começar a travessia aos poucos e ir elevando o ritmo da caminhada, de acordo com o desempenho de cada um.

Como costumam dizer por ali, “caminhe como um velho e você chegará como um jovem”.

QUANTO TEMPO

Vale lembrar que o caminho é seu e que você deve fazê-lo dentro de seus limites.

No entanto, o Caminho Norte de Santiago de Compostela possui 32 trechos (ou 32 dias), o que significa que você deverá andar, em média, 24 km diários, podendo chegar a 41 km em um único dia, como no trecho Santander-Queveda.

QUANDO IR

Seja no clássico Caminho Francês ou no alternativo Caminho Norte, a alta temporada vai de maio a setembro.

Porém os verdadeiros peregrinos evitam os meses de julho e agosto, temporada de verão europeu que atrai os ‘turisgrinos’, como são chamados os turistas que caminham sem nenhuma intenção espiritual ou religiosa. Vão mesmo pela ‘febre do Caminho’.

De março a maio, é a vez dos autênticos peregrinos, os que cruzam aquelas centenas de quilômetros para se encontrarem consigo mesmos.

O QUE LEVAR

Embora conte com serviços de transfer de bagagens, entre uma cidade e outra, o Caminho de Santiago de Compostela é uma experiência para praticar o desapego.

Por isso, tenha em conta que o peso desnecessário que você colocar em sua mochila será o mesmo que você terá que carregar, por mais de 30 dias.

A mochila não deve pesar mais do que 10% do peso do caminhante, ou seja, se você pesa 70 kg, seu limite recomendado é de 7 kg.



Sapatos de peregrinos no Sobrado dos Monxes, na Galícia (foto: Eduardo Vessoni)

Na mochila, procure colocar duas peças de cada roupa (2 camisetas de poliéster, 2 calças, 2 roupas íntimas, 2 pares de meia etc.). Inclua também um saco de dormir, dois bastões de caminhada, um kit de primeiros socorros (analgésico ou anti-

inflamatório e curativos), produtos de higiene pessoal (mas sem exageros!), canivete multiuso e um cantil.

Leve um tênis ou chinelo extra para o final do dia, nos albergues, e use botas específicas para trekking, durante as caminhadas. Mas não deixe para ser surpreendido, durante a travessia. Amacie os calçados, antes de viajar.
QUANTO

De acordo com a calculadora de gastos do site Consumer, o gasto médio diário, em albergues para peregrinos, é de 7 euros, totalizando 245 euros, entre Irun e Santiago de Compostela.

Se considerarmos gastos ocasionais como uso de lavanderia, possíveis remédios ou visitas a atrações turísticas, o valor sobre 1050 euros, uma média de 23 euros por dia.

O ‘Caminho do Norte’ em números

foto: Wkimedia Commons
foto: Wkimedia Commons


– Do País Basco a Galícia são 815 km de caminhada até Santiago de Compostela;

– A média de custos totais é de 1.200 euros;

– A hospedagem ao longo do caminho, em albergues exclusivos para peregrinos, custa em média  7,1 euros;

– No Caminho do Norte, há um povoado equipado com albergue, a cada 14,2 km;

– Segundo a página oficial da Oficina de Acogida al Peregrino de Santiago de Compostela, 237.886 peregrinos realizaram o Caminho de Santiago de Compostela, em 2014. Desse total, 45,98% eram mulheres e 54,02%, homens;

– Mais da metade dos peregrinos (55,39%) tinham entre 30 e 60 anos (também, segundo estatísticas de 2014);

– Os países que mais exportam peregrinos até Santiago de Compostela são Itália (16,29%), Alemanha (13,15%), Portugal (9,38%), Estados Unidos (9,32%), França (7,52%), Irlanda (4,04%), Reino Unido (3,54%) e Coréia (3,09%);

– O site Consumer lista 13 diferentes caminhos até Santiago de Compostela, incluindo a extensão até Fisterra (Camino Francês, Camino Aragonês, Camino Primitivo, Camino Vasco, Camino del Norte, Vía de la Plata, Camino Sanabrês, Camino Português, Camino Catalán por San Juan de la Peña, Camino Baztanés, Camino Inglês, Camino de San Salvador, Epílogo a Fisterra e Muxía)

(*fonte: Consumer)

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