FONCEBADÓN E A CRUZ DE FERRO


FONCEBADÓN E A CRUZ DE FERRO

O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes. (Cora Coralina)





FONCEBADÓN


2004 - Chegando em Foncebadón, sob intensa nevasca.

Não podemos falar na Cruz de Ferro, sem abordarmos o antigo povoado de Foncebadón, situado na sua proximidade e, atualmente, reduzido a tristes ruínas.

Foncebadón foi uma importante localidade existente no Caminho de Santiago, e o seu nome aparece em vários documentos do século X.

Naquele local, o eremita Gaucelmo, por volta do ano 1123, construiu um hospital e um albergue para os peregrinos que transitavam por aquele penoso cimo.

Há documentos datados do ano de 1103, pelo qual o rei Alfonso VI, a pedido do próprio Gaucelmo, concedeu imunidade à albergaria de Foncebadón e a igreja de San Salvador de Irago.

Da documentação medieval existente, se depreende que houve ali um hospital, uma Igreja, a de Santa Magdalena, dependente do hospital, e a já referida, de San Salvador.

Posteriormente, fixou-se na região uma comunidade de eremitas que passou a depender da Junta de Astorga, a qual criou a dignidade de Abade de Foncebadón.

Apesar dos escombros existentes no lugar, facilmente descobre-se a condição de local de peregrinação, ao passar-se pela rua do antigo povoado.

Embora Alfonso VI engrandecesse essa aldeia, dando-lhe foros e privilégios, os mesmos não foram suficientes para evitar que seus habitantes imigrassem em buscas de terras menos hostis.

Atualmente, aquele local desabitado, tenta soergue-se das próprias cinzas, graças à iniciativa privada de Enrique Gaia, que montou ali uma espécie de hostal, contendo no seu sótão dependência para peregrinos, além de fornecer alimentação aos que por ali passam.



A CRUZ DE FERRO


2014 - Junto à Cruz de Ferro. Alegria imensa!

Nas proximidades de Foncebadón, a 1.504 metros de altitude, levanta-se a Cruz de Ferro, um dos monumentos mais simples, porém um dos mais antigos e emblemáticos do Caminho.

Sobre um montão de pedras está fincada uma pequena Cruz de Ferro, presa no alto de um tronco de madeira de uns 5 metros de altura.

Está localizada sobre o temido monte Irago, que serviu de passagem aos antigos e famosos peregrinos como, por exemplo: Aymeric Picaud, Kunig von Vach, Arnold von Harff e Laffi.

Os romanos utilizavam o monte como divisa territorial e o chamavam de “Monte de Mercúrio”, posto que se tratava um marco divisório entre as províncias de El Bierzo e Maragatería.

Posteriormente, o eremita Gaucelmo, protetor dos peregrinos nesse perigoso local, colocou uma cruz sobre o morro para orientar os peregrinos, nas épocas das grandes nevadas, cristianizando o ancestral monumento, cujo sentido se perde na antiguidade, fugindo de nossa compreensão, pois, os romanos anteriormente aquela época, tinham como tradição ao passar pelo lugar, jogar uma pedra sobre o mesmo.

Segundo a lenda, a atual cruz de ferro substitui a primitiva, instalada pelo próprio Gaucelmo, sobre um altar romano dedicado a Mercúrio, Deus patrono dos Caminhos.

Ela está fincada muito próxima do local mais alto da rota, visto que o ponto máximo, de 1.517 metros de altitude, encontra-se localizado poucos metros depois, sob uma antena de comunicações.

Sobre aquele monte, os peregrinos, seguindo a tradição, jogam uma pedra para pedir proteção em sua viagem, somando a uma tradição milenar que se perde com o tempo.

Existe ao seu lado uma pequena ermida, dedicada a Santiago, erigida por ocasião do Ano Santo Compostelano de 1982.

O lugar é considerado místico e a Cruz de Ferro é um ponto mágico entre o céu e a terra.


VANDALISMO NO LOCAL - I 


No dia quatro de agosto do ano de 1998, a Cruz de Ferro foi derrubada, segundo alguns, por ato de vandalismo.

No entanto, foi imediatamente recolocada pelos peregrinos que passavam pelo local, comandados por Tomás, hospedeiro do albergue de Manjarín, pertencente à Associação Circulo Templário de Ponferrada.

Sobre tal fato, tem-se o testemunho do peregrino Mário Luiz Campos Dias, brasileiro, radicado no Rio de Janeiro, que na oportunidade efetuava a sua peregrinação a Santiago de Compostela.

Na manhã do referido dia, Mário acordou e após tomar o seu café no albergue de Rabanal del Camiño, colocou a mochila sobre os ombros, partiu bem cedo em direção a Foncebadón, e atravessou aquele povoado abandonado.

Um pouco apreensivo com a possível existência dos cachorros bravios na região, seu coração acelerou os batimentos cardíacos, não só motivado pela subida, como também pela tensão na espreita dos cães. 


2004 - Eu, de capa azul, à esquerda da Cruz de Ferro, com muita neve no entorno.

Sem maiores problemas, ele conseguiu atravessar Foncebadón e respirou aliviado por mais uma etapa sobrepujada.

Mais acima, ele olhou em frente procurando sinais da Cruz de Ferro, mas não conseguiu localizá-la, acreditando que ela ainda encontrava-se longe, e como é ascenso, ele não conseguiu acelerar seus passos,

Porém, ao descortinar o monte de pedras sem a cruz, revoltou-se, blasfemou, largou a mochila no chão e correu para o topo a procura da mesma, depois, gritou e outros peregrinos que se aproximavam do local atenderam ao seu chamado.

Nesse momento, também chegou outro grupo de peregrinos, tendo a frente o hospedeiro Tomás, que já tinha sido avisado do ocorrido.

Ele, então, acalmou aquele brasileiro tenso e revoltado e, na sequência, partiram em conjunto para efetuar a recuperação da mesma.

Assim, o brasileiro Mário teve a ventura de dar a sua humilde e pequena contribuição na sua restauração.

(Adaptado de um texto publicado no site: www.walterjorge.com)



VANDALISMO NO LOCAL - II 


Domingo, 6 de junho de 1999 - Hospital de Órbigo a Rabanal Del Camino. - Por: Auro Lúcio, Autor do Livro O Caminho das Pedras

Como em todas as manhãs desta primavera, a temperatura é baixa quando saio do albergue. O objetivo hoje é alcançar Rabanal del Camiño, localizada a mais de 35 quilômetros de Hospital de Órbigo; aquela proposta de pernoitar em Astorga foi, é claro, eliminada pela estadia em Hospital.

Por que tentar direto Rabanal? Talvez para compensar a parada festiva em Hospital e ter caminhado tão pouco em um só dia. Talvez para chegar mais rapidamente à cidade imediatamente anterior a dois pontos muito conhecidos no Caminho de Santiago: as ruínas de Foncebadón e a Cruz de Ferro. Seja como for, o importante é que eu farei o possível. Apenas o possível.

A partir de Astorga, terminam as planícies que têm predominado na paisagem dos últimos duzentos ou mais quilômetros e começam as primeiras subidas em direção às elevações do Cantábrico. Essa cadeia de montanhas vem bordejando o litoral norte da Espanha e faz uma curva para o sul à altura da divisa com a província da Galícia, "fechando" a passagem aos peregrinos que insistem no rumo leste-oeste.

Campos floridos, estradinhas cascalhadas, céu azul e limpo. Chego a um vilarejo onde encontro um grande grupo tomando café, inclusive vários dos gaúchos que conheci ontem; saímos juntos e continuo a caminhar com eles.

Há alguns peregrinos na minha frente e outros mais atrás; volto àquela reflexão de que formamos uma enorme fila indiana que se estende de Roncesvalles a Santiago de Compostela. É apenas uma questão de se observar da altura certa, e mesmo o peregrino que se julga solitário na jornada faz parte do carreirão de formiguinhas nesse infindável caminhar leste-oeste. 


2014 - Chegando à Cruz de Ferro.

Passamos por Astorga quase sem parar, pois todos querem chegar a Rabanal. Os gaúchos (Carol, Márcio, Cynthia, Mário, Hedy e Solange) e o Reinaldo andam rápido, e preciso forçar um pouco para acompanhá-los. Desta vez, porém, não sinto qualquer cansaço, dor, ou outro incômodo físico.

O andadero de peregrinos, em direção a Rabanal, é confortável à marcha, e quase não percebo que nosso caminho está, aos poucos, começando a subir, lenta e constantemente; o regime de ascensão é sutil, de modo que não sinto sinais de cansaço, dores ou qualquer desconforto. Chegamos a Rabanal del Camiño antes das cinco da tarde, ainda com um sol talvez suficiente para secar as roupas que serão lavadas: nada mal como desempenho, considerando-se a distância e o ritmo tranquilo que seguimos durante o trajeto.

Há dois albergues em Rabanal, e nós optamos pelo Refúgio Gaucelmo, cuidado por voluntários da Confraria de Santiago (ou Saint James, uma vez que a sociedade é inglesa).

Demos sorte: o refúgio é fantástico, o acolhimento é cálido e respeitoso. Um casal de hospitaleiros ingleses faz as honras da casa, explicam a cada um as normas de convivência e nos encaminham ao dormitório. Banho quente, perfeito. Tudo arrumado, vou passear na cidade. Como o refúgio tem uma bela e bem aparelhada cozinha, resolvemos fazer um jantar.

Encontro mais brasileiros, inclusive alguns daqueles com quem caminhei após o "descaminho" de Carrión de los Condes.

Desço até a praça da cidade e dou de cara com um espetáculo encantador: homens e mulheres, todos na faixa dos sessenta ou mais anos, fazem a dança maragata, espécie de quadrilha acompanhada de acordeão, caixas e castanholas. Não é a primeira vez, durante essa caminhada, que o calendário de festas e tradições espanholas me faz um presente; esses homens e mulheres cantam e dançam com alegria, divertem-se e riem bastante; a luminosidade de todo o conjunto que está em frente aos meus olhos alegra o ambiente e vai se incorporando suavemente ao espírito deste peregrino.

Procuro uma tienda, onde compro coisas para o jantar e lanches. À noite, fui para a cozinha e rolou um prato de macarrão, com molho de tudo que pude achar no mercadinho, e mais o tomilho foi que colhido antes de Villar de Mazarife. Ficou bom, ainda mais acompanhado de muita conversa sobre o dia que nos espera amanhã - Foncebadón e a Cruz de Ferro - e do vinho do Bierzo, um dos melhores da Espanha.

A cozinha parecia um mercado persa, vários grupos preparando seus jantares e ocupando sucessivamente as mesas. O Clermont está fazendo um panelão de cozido de legumes; dois alemães assam salsichas; uns franceses preparam um rango que mistura feijão e omelete com presunto, e por aí vai. No final, a cozinha acabou se transformando num ambiente de conversas altas e cantoria, até que chegou a sagrada hora do silêncio.

No dormitório, espaçoso e muito bem-arrumado, com lençóis e cobertores nas camas, ainda pude ver e ouvir - ao lado do meu beliche - o grupo dos franceses divertindo-se com um concurso de arrotos e outros sinais evidentes de uma re-adolescência aguda. Enfim, ao contrário do nome do primeiro filme dos Beatles, foi a noite de um dia divertido.

Como venho fazendo todos os dias, aproveito o quase silêncio do dormitório para refletir sobre o dia de hoje, e pensar no que me espera amanhã.

O primeiro livro que li sobre o Caminho de Santiago foi - como deve ter sido para muitos dos que estão aqui - o Diário de um Mago. Dos relatos fantásticos de Paulo Coelho, foi a luta com o cachorro Legião o que mais me impressionou, pela dramaticidade da narrativa. Li esse livro há quase dez anos, mas ainda tenho na memória as informações básicas do trecho que se refere a esse lugar: Foncebadón é uma vila em ruínas, e diz a tradição (e o medo dos peregrinos) que há cães ferozes por lá. Mesmo no livro do Máqui, que li um pouco antes de vir para cá, é possível sentir sua expectativa e ansiedade antes da passagem pela aldeia abandonada.

Desde o início do caminho, em Saint Jean, estamos recebendo sempre informações tranquilizadoras sobre a ausência desse tipo de risco à nossa integridade física; de fato, como já escrevi antes, a maioria dos cães de guarda vive presa no interior das casas, e os viralatas soltos têm sempre mostrado, à minha passagem, mais curiosidade do que agressividade.

No caso da luta com o cachorro Legião, pelo que compreendi no livro de Coelho, houve a simbolização da disputa de poder entre o autor daquele livro e o que - pare ele - era a representação das forças demoníacas. Entendo que aquilo é a descrição de uma luta pessoal, por motivos pessoais, e que cada um de nós enfrenta seus demônios conforme sua realidade interior. As formas que representam o poder da Matéria apresentam-se a nós e apelam para que renunciemos à busca do espiritual superior e assumamos nossa forma orgânica e o mundo físico como únicas realidades. Demônios que convidam o Homem a viver apenas para o mundo terreno - Maya - existem em todas as formas de mitos e religiões. Lembro-me do relato evangélico sobre as tentações a que Cristo foi submetido, no deserto, e do mito do Paraíso, onde Adão e Eva cederam aos convites tentadores da serpente para que adquirissem a capacidade humana do juízo. Conforme todas essas histórias e mitos, o demônio - ou seja, aquilo que, em nós, nos quer apenas seres materiais - toma todas as formas possíveis para tentar convencer o homem que sua verdadeira natureza é o barro, e que é no plano da matéria que ele deve buscar sua realização. A beleza dramática e inigualável da disputa de Fausto com seu Príncipe das Trevas, ou o acordo feito por Dorian Gray para permanecer sempre jovem, bonito e poderoso, são alguns exemplos de batalhas que ocorrem entre nossa natureza humana e a nossa vocação para o sublime, para a busca do Absoluto.

Agora que o concurso de arrotos terminou, e que um dos franceses veio de cama em cama simulando beijinhos de boa noite para todos, repasso na memória as cenas finais do romance A última tentação de Cristo, que li em 1974: mesmo na agonia da cruz, o demônio - apresentando-se na forma de uma criança angelical - ainda tentou oferecer ao Cristo a opção por uma vida familiar, serena e cheia de encantos.

Mostrou-lhe como poderia ser bom e agradável assumir seu papel humano, ter uma mulher e filhos, resistindo do sacrifício cósmico pelo qual sublimaria o peso da matéria humana na criação do Homem. Poucas vezes um livro tocou-me tão fundo. Essa obra de Nikos Kazantzaki tem me ajudado a viver, e a compreender melhor, muitos momentos inicialmente confusos e obscuros de minha vida.

É assim que penso ser a relação com o demônio: não uma luta de vida e morte, onde um será vitorioso e o outro projetado em abismos eternos, mas uma convivência a ser estabelecida com atenção e cuidado contínuos. Em Foncebadón ou Caraguatatuba sempre haverá momentos em que minha porção carnal tentará se mostrar como meu verdadeiro Eu, no qual existiria uma "ideia" mental de Deus e do Absoluto. Com a mesma disposição que tive quando arrancava minha bota do barro de Zubiri, no início do caminho, estarei atento para a certeza de que meu Eu - parte do espírito divino - é que está se capacidade humana do juízo. Conforme todas essas histórias e mitos, o demônio - ou seja, aquilo que, em nós, nos quer apenas seres materiais - toma todas as formas possíveis para tentar convencer o homem que sua verdadeira natureza é o barro, e que é no plano da matéria que ele deve buscar sua realização. A beleza dramática e inigualável da disputa de Fausto com seu Príncipe das Trevas, ou o acordo feito por Dorian Gray para permanecer sempre jovem, bonito e poderoso, são alguns exemplos de batalhas que ocorrem entre nossa natureza humana e a nossa vocação para o sublime, para a busca do Absoluto.

A noite foi fria e eu acordo encorujado dentro do saco de dormir. Com a prática desenvolvida nos últimos dias, arrumar a mochila e cuidar da higiene matinal é coisa de alguns minutos. Em pouco tempo estou no refeitório para um rápido café da manhã.

Eu disse rápido café? O que encontro não é bem isso: as mesas estão arrumadas com toalhas limpas, pratinhos, taças e talheres elegantemente dispostos individualmente na frente de cada cadeira. Bules de café, leite e chá à disposição, manteiga, geleias e pães recém-saídos do forno! O que está acontecendo aqui é uma demonstração da hospitalidade dos ingleses para conosco: todos os dias eles oferecem esse supercafé, com o mesmo carinho que venho encontrando por parte de quase todos os hospitaleiros voluntários do caminho.

Sem regatear, tomei um café com leite quentinho, pão com manteiga e geleia; ao final, levanto-me e vou levando a xícara para lavar. A hospitaleira pede que eu deixe tudo na mesa.

- Por favor, deixe-me ao menos lavar o que usei! - Insisto, meio sem graça.

- Nada disso, vocês já têm muito o que fazer por hoje. Deixe tudo aí e que Deus o acompanhe!

Agradeci e fui à recepção esperar alguns companheiros. Conversei um pouco com a hospitaleira inglesa que servira o café, e ela me dá uma notícia que anuncia como desagradável:

- Não sei se você sabe, mas há uns dois dias algumas pessoas vandalizaram a Cruz de Ferro!...

Temendo não ter compreendido bem a frase (estávamos falando em inglês), pedi que repetisse a informação. Era aquilo mesmo.

- Alguns vândalos cortaram o mastro de madeira e levaram a Cruz de Ferro! Creio que estão trabalhando lá, agora, para colocar uma nova. Espero que vocês não fiquem muito frustrados quando chegarem lá em cima.

Como eu estava com o livro de Peregrinos aberto, deixei escrita uma opinião pessoal, endereçada aos amigos brasileiros (e a quem entendesse o português), sobre aquilo que acabara de ouvir; fechei o eficiente "Correio Peregrino" e fui para a frente do refúgio preparar o início da caminhada.

Ainda está meio escuro, o tempo é frio e há muita neblina. Faço os alongamentos matinais e, usando luvas, calça comprida e gorro de lã, inicio a subida em direção a Ponferrada, com passagem por Foncebadón, Manjarin e Molinaseca. Um longo trecho por campo aberto e chego a uma estreita estrada asfaltada que, sempre em regime de subida, vai penetrando na neblina. O frio aumenta bastante no nevoeiro, a temperatura agora é de cinco graus e o sol não consegue atravessar a nuvem de umidade. Depois de quase duas horas de caminhada, uma placa anuncia Foncebadón, a velha vila abandonada. Ainda pelo asfalto, vou subindo e já posso ver as primeiras casas da vila impondo-se no alto da elevação.

O visual é mesmo impressionante: são casas de pedra, todas em ruínas, e o ar de desolação é aumentado pela névoa que envolve todo o lugarejo. Na entrada, uma placa conta um pouco O Caminho das pedras da história do lugar, complementando o que se lê em quase todos os guias do caminho. Foncebadón já ocupou papel de destaque como centro de acolhimento de peregrinos, desde o estabelecimento do primeiro hospital de atendimento há alguns séculos. A vila foi se desenvolvendo, principalmente graças aos incentivos e benefícios oferecidos pelos reis de Espanha, como forma de incentivar a proteção aos que peregrinavam a Santiago.

Passeio pelas ruínas, entro nas casas abandonadas, faço uma foto junto ao cruzeiro na Calle Real e, sem qualquer momento de surpresa, tensão ou mistério, fico apenas com a emoção de conhecer os monumentos abandonados do que foi outrora uma grande cidade dentro da tradição jacobeia. A magia do ambiente é quebrada pela presença dos postes e fios elétricos que acompanham a rua principal, informando que os dias de cidade-fantasma de Foncebadón estão contados. Já posso ver, do lado direito, duas casas em reformas, sendo que uma delas já ostenta o signo máximo dos nossos tempos: uma miniantena parabólica fixada nas pedras seculares da parede.

Mesmo assim, Foncebadón é um lugar que emana um tipo de magia especial. Quase ao sair, olho para trás e vejo o sol começando a surgir atrás das ruínas da velha igreja; essa igreja também está sendo reformada, mas o sol, ao aparecer por trás de suas paredes, desenha aos meus olhos o sombreado secular de seu formato; é impossível não voltar às considerações que eu fazia ontem à noite, sobre as dificuldades que temos em viver nossa dualidade corpo/alma, e o nascer do sol em Foncebadón ilustra o que penso sobre a sempre repetida luta que travamos com nossos demônios: após cada disputa ressurgimos, plenos de luz, como esse sol atrás da igreja; nossa natureza humana - após o mergulho na noite dessas batalhas contra dragões e feras ameaçadoras - emerge cada vez mais próxima do grande objetivo: alcançar o inefável a partir de nossa estrutura humana, primitiva e propensa a cair em tentações.

Afasto-me das últimas ruínas do povoado deserto, iniciando uma pronunciada subida em direção à neblina. Ao longe, a imagem da vila parece ainda mais ser pedaço de algum sonho passado, e ter caminhado por ela, vivenciando tudo o que me foi permitido, foi - e está sendo - uma experiência espiritual poderosa. Lembro-me de todos os mitos de ressurreição: Jonas no ventre da baleia, Dante descendo aos infernos, o próprio Cristo vagando por três dias nos campos da Morte. Todas as civilizações possuem narrativas que, em última instância, representam o ciclo do herói: o abandono da segurança em busca de aventuras que sempre colocam em risco sua existência.

Cada um de nós é um Teseu entrando no labirinto do Minotauro que, apesar de parcialmente Humano, ainda conserva a cabeça do Animal primitivo. Nós podemos tentar adiar o confronto com nossos medos e com as forças que nos causam inquietação, mas isso apenas fará com que o Monstro continue a andar do nosso lado, esperando a hora do confronto. Felizmente, o mesmo Deus, que nos coloca frente a frente com esses perigos e desafios, oferece-nos os instrumentos para que os vençamos: basta pedir e buscar em nossa própria alma, pois lá está a representação completa Daquele de Que fazemos parte.

A neblina vai se esvaindo à medida que o tempo passa, encontro alguns conhecidos a caminho da Cruz de Ferro, continuo imerso em minhas reflexões.

- O que é a Cruz de Ferro? Por que os peregrinos teriam criado essa pequena montanha de seixos?

Num flash- back momentâneo vi a gaveta da minha escrivaninha, em Águas de Lindóia, onde esqueci a pedrinha que tinha planejado trazer para deixar aqui neste local. Era um pequeno cristal, coletado pelo primo Zezito no sítio da minha tia Maria, na cidade onde nasci. Nos preparativos para a viagem, a pedrinha foi o único objeto que esqueci de trazer.

Depois de uma hora de ascensão pesada, vejo ao longe e acima a montanha de pedras imortalizada nas fotos de todos os livros sobre a Compostela. Destacando-se no alto de uma elevação, lá está o resultado do acúmulo das preces e desejos de cada peregrino que, nos últimos séculos, tem passado por aqui. Como eu já esperava - graças à informação da hospedeira de Rabanal -, o ápice do monte não exibia o coroamento que o imortalizou: o poste com a cruz de ferro no alto. Aliás, nem havia ápice, pois um trator - indecentemente estacionado ao lado do monte de pedras - havia escavado o centro do sistema e aberto um buracão bem onde fora serrado o poste original. 


2001 - Pela primeira vez junto à Cruz de Ferro.

Subindo nas pedras, vejo uma estrutura de concreto recém-montada, onde será fixada a nova base da cruz. O núcleo da área de obras está isolado por aquelas fitas plásticas amarelas que aparecem nos filmes policiais americanos.

- Oi!...

Olho para trás e lá está a Márcia, que deve ter chegado um pouco antes de mim. Sentada e desconsolada, ela olha para o espaço vazio do que seria o esperado monumento. A pequena capela, um pouco acima do desarrumado monte de pedras, também foi "atacada" pelos vândalos: está toda suja e grafitada:"León solo! Autonomía para León!!!" Será que a luta pela "independência e autonomia" das províncias justifica esses atos de posicionamento político, atos que vão desde o ataque a patrimônios culturais - como este vandalismo estúpido - a manobras mais violentas e radicais - como sequestros, explosões em lugares públicos e mortes?"

Nasci e vivo em um país que, embora geograficamente imenso e com diferenças culturais enormes, ainda se reconhece como um todo; da Festa do Círio de Nazaré aos churrascos das querências gaúchas, os brasileiros conseguimos criar uma identidade única no mundo, na qual nossa diversidade étnica e cultural mesclou-se de tal forma que constituímos uma nação ímpar e voltada a uma nova forma de ser.

Essa luta separatista me parece - assumindo claramente que não conheço a realidade das pessoas que a praticam - equivocada em seu mérito. Mesmo que se considere que a Espanha é um conglomerado de pequenas regiões que diferem entre si étnica e culturalmente, e que há séculos a união entre esses povos tem sido obtida - quase sempre - pelo uso de força política e militar, essas tentativas de criação de países minúsculos caminham em sentido contrário à evolução cósmica. Uma coisa, válida e meritória, é manter a luta pela autonomia cultural de um povo e sua região, exigir que se respeitem os costumes, línguas e tradições regionais; outra coisa é canalizar energia para processos que, do ponto de vista deste peregrino, baixam os pratos da balança para o lado do não.

Quanto à luta pelos direitos da pessoa, acesso igualitário ao trabalho e aos bens e produtos da sociedade, a mim parece que isso é tarefa para cidadãos de qualquer país - independente do nome que possa figurar na carta política da região. Em qualquer língua ou cultura, o acúmulo da riqueza nas mãos de uma minoria sempre foi - e é cada vez mais - agressão maior à porção humana daquilo que somos neste planeta. Se tenho algumas dúvidas sobre a legitimidade do mérito dessas batalhas pela autonomia, posso afirmar que estou sendo atingido diretamente pelo método empregado desta vez:

- Cadê minha Cruz de Ferro?! Bem na minha vez!...

O que eu esperava encontrar aqui? Qual a representação deste local na minha expectativa de caminhante? Se fosse deixar aqui a pedra coletada em São Pedro do Turvo, isso já estaria frustrado: esqueci a dita cuja no Brasil. Uma pedra do lugar onde nasci... Olhando para o monte de pedras, todo desarrumado, vejo aquele mesmo gato da Alice, sorridente, que olha para mim e diz:

- Então pega uma!

Pegar onde? É claro, aqui! Em qualquer lugar! Aparecem duas imagens muito nítidas em minha mente, refletindo situações opostas: de um lado, uma série de atitudes violentas para que sejam reforçados limites geopolíticos entre países: o bombardeio em Kosovo, movimentos separatistas radicais, massacres étnicos e nações poderosas submetendo economicamente as mais fracas, escravizando seus povos; do outro lado, o primeiro astronauta russo olhando pela primeira vez a Terra, a partir do espaço e, iluminado pela luz de esferas superiores, vê o nosso planeta como um todo e diz:

- A Terra é azul!

Não viu países, povos, mares ou continentes; não descreveu diferenças entre brancos, pretos, amarelos; nem mesmo percebeu a existência de blocos de capitalistas e comunistas - que, na época, representavam o mais importante confronto político do mundo. Só viu uma coisa:

- A Terra é azul!

E é dessa Terra que eu recolho uma pedra, na base do monte que está à minha frente. Retenho o mineral, quase esférico e um pouco menor que a minha mão, durante alguns segundos e, agradecendo a tudo que estava ocorrendo, aos companheiros de caminhada e até aos ativistas do "León solo", deposito carinhosamente a pedra no mesmo local de onde a tinha levantado. Pronto! O débito para com o Monte de Pedras está cumprido.

- E a Cruz de Ferro? Qual é o papel dela aqui?

Esse é o ponto mais elevado do Caminho de Santiago, segundo o relato do guia; para ser mais preciso, consta que a antena de telecomunicações, localizada logo ali à frente, é apenas um pouco mais alta que este lugar. Olhando o perfil de todo o trajeto, de Saint Jean a Santiago, é nesta montanha que a Via Láctea - o caminho dos peregrinos refletido no céu, ou vice-versa - está mais próxima da Terra. Neste lugar, há centenas de anos, a Cruz de Ferro vem sendo o pára-raios que absorve a energia das estrelas e a conecta com o planeta. Através do metal no qual foi moldada, a cruz integra o Caminho das Pedras ao Caminho das Estrelas. O que está embaixo une-se ao de cima, pois ambos são manifestação da Coisa Única, como diz a Tábua de Esmeralda, onde Hermes Trimegisto gravou - em linguagem obviamente hermética - os passos e a descrição dos processos mágicos que explicam o Universo.

A simbologia da cruz (o vertical em direção ao alto e o horizontal ao nível da terra) apresenta-se como o veículo físico - moldado em ferro - para esse casamento alquímico. As etapas físicas pelas quais passamos até agora (o barro, a água, o vento, o frio e outros) são agora amalgamadas pela energia ígnea das esferas mais altas, que a nós vem trazida pela antena desenhada no símbolo da Paixão do Cristo.

Hoje, excepcionalmente, alguém retirou a cruz. O monte de pedras, ali edificado pelos peregrinos e que atua como elemento terra na absorção da energia dos astros, está descomposto. Somos nós, corpo físico de caminhantes que, do alto desta montanha, elevamos os braços para os céus, e oferecemos a via de descida para que a ligação entre as esferas terrenas e celestes seja mantida.

A Márcia me chama de volta à realidade:

- Faça uma foto minha aqui no lugar da Cruz de Ferro!

Desce até o local onde estava a base da cruz e abre os braços. Em cruz. Click!

Amanhã ou depois haverá uma nova Cruz de Ferro e certamente as pedras voltarão a formar um cone (ou pirâmide?) ao redor do novo mastro, e o símbolo maior do cristianismo estará novamente no ápice do Caminho de Santiago. Outros peregrinos depositarão, com suas pedras, seus pedidos, ofertas e expectativas relativas a esta viagem, além de sonhos pessoais tão ou mais complicados do que este que estou vivendo agora.

A Cruz de Ferro dos peregrinos não foi e nem poderia ser sequestrada daqui, pois não se pode tomar o símbolo pelo objeto que o representa; a verdadeira cruz, a antena que liga o humano ao divino, está plantada em cada ser humano, imediatamente antes do ponto onde, no corpo da alma de uma pessoa se produz a palavra Eu. E o divino - ainda que simbolizado pelas estrelas acima de nós - está verdadeiramente no interior de cada um.

E deixando mais um pouquinho do meu Eu junto daquelas pedras, passo um pouco abaixo da tal antena de comunicações, onde uma casinhola das Forças Armadas faz manutenção e evita qualquer vandalismo por arroubos separatistas. Mexer na antena simbólica do Caminho tudo bem, mas atrapalhar comunicações entre militares, empresas e consumidores, aí também é demais, não é verdade?...

Continuo subindo e confirmando que continuamos em fila, com alguns companheiros atrás de mim e outros mais à frente. Em cada lado da trilha, arbustos floridos em violeta esfregam-se com força contra as coxas e pernas dos caminhantes. Felizmente, apesar do frio imenso, não há umidade nas folhas e minha roupa não fica encharcada por esse "lava-rápido" natural.

Um pouco mais de sobe-e-desce e estou em um lugar que eu já conhecia por fotografias: o refúgio de Manjarin. É inconfundível - e imperdível: logo na chegada estão bem visíveis as placas de madeira onde, em letras coloridas, estão nomes de centros mundiais de peregrinação e suas respectivas distâncias, em quilômetros, a partir daqui.

- Machu Picchu, 9435... Jerusalém, 5000... Roma, 7475... e SANTIAGO, 222 quilômetros! Santiago, olha aí eu chegando!

Passando por um bando de gansos, fiéis guardiães do local, chego à choupana onde Tomás - por pura convicção pessoal - recebe e aloja os que querem pernoitar aqui. Entro, com os que chegaram comigo, para tomar um café e carimbar a credencial; alguns peregrinos, que dormiram aqui, ainda estão se arrumando para levantar acampamento. Um toca-fitas (funcionando a pilha, pois não há eletricidade) enche o ambiente de música barroca, aumentando a sensação de que estou de volta aos meus tempos de "hipongo", nas viagens para Trindade e afins: vários colchões e mantas espalhados pelo cômodo rústico, objetos diversos pendurados nas paredes, símbolos, artesanato. A lareira acesa ameniza o frio, e tomo um bom copo de café com leite quentinho e disponível sobre o fogão.

Apresento a credencial ao Ramón, hospitaleiro voluntário que faz companhia ao Tomás.

- Você viu o que fizeram à Cruz de Ferro? - perguntou-me enquanto abria meu documento.

- Sim, e eu fiquei frustrado quando passei por lá. Afinal, aquilo pertence um pouco a todos nós!

Ramón interrompeu o gesto de carimbar a credencial, ficou um tempo parado e olhando para um ponto à sua frente. Depois voltou os olhos para mim e disse:

- Os que fizeram aquilo cumprem ordens do demônio! Mas nós vamos continuar a fazer nosso papel, garantindo que a peregrinação não seja prejudicada; vocês, peregrinos, têm um papel muito importante: levar, para o mundo novo que vai surgir, os valores elevados que Deus colocou em nós; é por isso que vocês todos, mesmo sem se dar conta, estão fazendo essa caminhada até Santiago! E - pof! - carimbou a credencial. Apenas consegui ruminar algo como "... sim, claro, de acordo...", e saí, impressionado com sua segurança e com o clima que - pelo que pude entender e sentir - estava presente em suas palavras.

Moeda na caixinha de donativos e vou para o lado de fora me preparar para a continuação da marcha. Enquanto arrumo a mochila, converso com Tomás e o assunto - como teria que ser - era o ataque vândalo e roubo da Cruz de Ferro. 


2014 - Com Tomás, o último templário, hospitaleiro de Manjarín! Um reencontro emocionante!

- Não é a primeira vez que a Cruz é atacada - esclarece o albergueiro -, em julho do ano passado eles serraram o mastro, mas deixaram a cruz tombada no local. Nós erguemos e fixamos a cruz. Agora eles fizeram o trabalho completo.

- Por que estariam fazendo isso, Tomás? - pergunto, curioso para conhecer a opinião daquele que praticamente mora naquele lugar há vários anos.

- São mudanças dos tempos - responde-me o espanhol, como se estivesse falando de um assunto já muito conhecido. O Caminho de Santiago é sempre o mesmo, mas a sociedade vai mudando ao redor dele. O caminho geográfico representa o caminho individual de cada homem, e nosso dever é garantir que ele continue disponível a quem queira percorrê-lo!

- Deve ser difícil manter a tradição, pois eu, que faço a caminhada pela primeira vez, venho encontrando vários exemplos de interesses econômicos e políticos interferindo e modificando as características do Caminho...

- E você nem imagina o que tentaram fazer no ano passado!

Tomás me contou das tentativas feitas para abertura de licitação e instalação de uma lanchonete ao lado da Cruz de Ferro.

- Nós não permitimos, e - é claro - não vamos permitir!

Antes que eu me fosse, Tomás ainda me mostrou cópias de jornais denunciando um falso peregrino que se infiltrava nos refúgios, equipado com todos os acessórios usuais da marcha, em busca de graças bem mais terrenas que as indulgências oferecidas pelas autoridades eclesiásticas.

- É preciso tomar cuidado!...

Um abraço, uma foto e deixo Tomás sorridente, a cruz vermelha destacando-se na bandeira que ornamenta a entrada do albergue, acenando-me um adeus.

- Bom caminho, e Deus te acompanhe, peregrino!

A trilha agora desce quase abruptamente. Ainda faz muito frio, talvez abaixo dos três graus. Outros peregrinos seguem à minha frente e vamos nós morro abaixo. Imagino o Tomás, lá de cima, vendo nosso grupo se afastando e preparando a cabana para a chegada de novos caminhantes, ansiosos pelo ambiente cálido e café com leite idem. É fantástica sua dedicação ao atendimento dos caminhantes: no inverno, a cabana fica quase coberta pela neve e só se mantém graças à ajuda da brigada do Exército alojada ali perto. É um hospitaleiro especial, não apenas acolhe e incentiva, mas protege o Caminho e os caminhantes, cumprindo a missão que aceitou para si.

O cavaleiro templário de hoje não precisa mais defender os peregrinos contra os mouros e salteadores da Idade Média: homens de terno e gravata, reunidos em salas climatizadas, ao redor de mesas executivas, formam um exército muito mais devastador ao espírito da peregrinação do que centenas de adagas muçulmanas. O arroubo de ativistas políticos pode apenas fazer alguns arranhões no meio físico do Caminho, mas o perigo real vem da própria estrutura do mundo atual, da desqualificação dos valores éticos e da priorização absoluta da riqueza e do poder em detrimento dos direitos básicos das pessoas à vida, à paz e à felicidade. Essas conversas, com Tomás e Ramón, lembram-me um trecho do Apocalipse de São João, algo sobre a decadência da sociedade, mas cujas palavras exatas não consigo lembrar. Vou procurar na minha Bíblia, à noite.

Do alto do morro começa a aparecer um conjunto de telhados de ardósia, de cor cinza-chumbo: é a cidade de El Acebo, a primeira da Província do Bierzo. Agora deveremos entrar em um vale fértil, famoso pela qualidade de seu vinho, e que termina de supetão, cortado pela súbita elevação das cadeias do Cantábrico. A beleza dessa região prepara o corpo e o espírito para a tradicional e temida subida do Cebreiro, um dos lugares mais significativos desta caminhada.

Uma quente e reconfortante sopa de alho, na Meson El Acebo, e sigo em frente. Em pouco tempo de caminhada, tenho um vale incrível à minha frente! A silhueta de Ponferrada destaca-se contra a imagem dos Montes do Cantábrico; a digestão da sopa convidou-me a uma siesta à sombra de uns enormes carvalhos: aceitei. Um pouco antes de Ponferrada, encontro todo o grupo dos amigos gaúchos e formamos um vultoso exército Brancaleone em direção ao castelo templário que dá fama àquela cidade. Branca, Branca, Branca! León, León, León! Só não soltamos esse magnífico grito de guerra com medo que os ativistas serradores-de-cruz-de-ferro, atraídos pelo final do brado, nos seguissem para demolir o castelo ou sabe-se lá mais o quê. Esses caras não querem deixar pedra sobre pedra...

Guiados pelo Márcio, chegamos rapidamente ao refúgio. Como gentileza do albergueiro, em deferência ao número de pessoas de nosso grupo, recebemos um quarto exclusivo para nós, brasileiros. Um dos hospitaleiros me diz que eles estão acostumados com a presença de alemães, belgas, franceses, suíços e outros europeus nesse trajeto, mas não compreendem o que leva um brasileiro a voar dez mil quilômetros para caminhar oitocentos, aqui na Espanha. Pois é, nós também não... 


2001 -  Pela primeira vez, chegando ao albergue de Manjarín!

À tardinha, o Rescala - mouro baiano - convida-me para irmos visitar o castelo dos Templários, enquanto esperamos abrir o restaurante para o jantar. E lá vamos nós, roupa de passeio, marcha lenta e tranquila, subindo a rampa que leva à entrada da fantástica edificação. É uma visita que vale a pena, mesmo se você, peregrino, não estiver interessado nas histórias e no papel dos templários na formação do Caminho de Santiago. A construção é imponente, e é muito interessante apreciar as técnicas de construção usadas na Idade Média. Olhando a cidade, através das seteiras das torres do castelo, é fácil perceber o quão estratégica é sua posição: de cima podemos ver - e alcançar com flechas e lanças - a entrada da cidade e o curso do rio Boeza. Seria difícil a passagem de viajantes à revelia dos fiéis escudeiros templários, que tomavam como missão de vida a proteção dos peregrinos e do próprio Caminho.

É esse o espírito da cavalaria provençal a que me referi em Hospital de Órbigo: é a luta por um ideal sublime, pela defesa do que - para eles - era o direito de se chegar à cidade sagrada do Ocidente (uma vez que os caminhos a Roma e Jerusalém eram ainda mais complicados e perigosos). Essa profissão de fé teria que ser sustentada por uma estrutura física e econômica consistente, e assim foi com os templários: seu poder militar e econômico cresceu muito, assustando nobres franceses e espanhóis, colocando incômodas pulgas atrás da orelha dos representantes da Igreja Católica.

Não que esses cavaleiros fossem exatamente anticlericais (está bem, eles o eram...), mas sua concepção espiritual não seguia à risca todos os dogmas da Igreja Romana, e seus rituais e objetivos espirituais não coadunavam com a tradição eclesiástica da época. Somando-se a preocupação dos bispos com o surgimento de novas "heresias" (como a dos Cátaros, que tinham ocupado grande parte do sudoeste da França, nos séculos XI e XII) ao medo que o poder militar dos cavaleiros causou nos nobres espanhóis e franceses, a Igreja colocou a Ordem fora-da-lei. Após excomunhões, perseguições, torturas e confisco de bens, a Ordem dos Templários deixou de existir, e seus membros pulverizaram-se em outras formas de organização, espalhados pelo mundo medieval, moderno e contemporâneo.

No castelo, ao cair da tarde, ficamos curtindo a cidade e conversando sobre civilizações clássicas, religiões, história de povos, e por aí afora. Depois da visita, Rescala e eu fomos a um bom restaurante, onde degustei - prima volta! - um prato típico da região, o pulpo à gallega. Um cozido de polpudos pedaços de polvo, temperado com páprica picante - e põe picante nisso (e chega de pês!).

Antes de dormir, abro a minha pequena Bíblia e procuro a passagem do Apocalipse que me veio à mente quando Ramón me falou sobre as "mudanças", e Tomás e eu conversamos sobre os problemas atualmente trazidos pelo crescimento desmedido do poder econômico. É esse aqui: E sobre ela (Babilônia) choram e lamentam os mercadores da terra; porque ninguém mais compra as suas mercadorias; mercadorias de ouro, e de prata, e de pedras preciosas, e de pérolas, e de linho fino, e de púrpuras, e de seda, e de escarlate; e toda a madeira odorífera, e todo o vaso de marfim, e todo o vaso de madeira preciosíssima, de bronze e de ferro, e de mármore, e (...) cavalos e carros, e corpos e almas de homens (...) Os mercadores destas coisas, que com elas se enriqueceram, estarão longe, pelo temor do teu tormento, chorando e lamentando...

Meus colegas de caminhada conversam e riem alto, em nosso quarto exclusivo, e isso afasta as imagens nostradâmicas da minha cabeça: agora o Márcio põe o colchão no chão e o arrasta para perto da porta, porque o estrado da sua cama é mole demais; quando o barulho diminui, leio para os companheiros de quarto um trecho da "Investidura do Peregrino", para embalar o sono dos ouvintes compulsórios. Fez efeito até em mim: aos poucos entro num sono leve, incrementado pela ação do antigripal que me obriguei a tomar: prefiro uma pequena ajuda farmacológica descongestionante a acordar de madrugada com nariz tapado e boca seca.

Bom, não adiantaram as precauções para garantir a continuidade do sono que se iniciava tranquilo: todos acordamos de madrugada, por causa do grito do Márcio. O Carol levantou-se para ir ao banheiro e, como não sabia que o nosso companheiro tinha se deitado em frente à porta, pisou com tudo no pescoço do guia. Foi um grito seco e curto, porém suficiente para mais meia hora de risadas abafadas e conversas na madrugada. Ao final, o cansaço arrastou todos os bravos caminhantes para o que se costuma chamar de braços de Morfeu. Por via das dúvidas, tapones nos ouvidos.
Fonte: AACS/RJ