A ROTA FINISTERRANA


A ROTA FINISTERRANA


Muitos vão tentar te demover da ideia de seguir a pé até Finisterra e Muxia a pé. As frases mais comuns que você peregrino vai ouvir são:

•  Não há nada para se ver neste Caminho...

•  É perigoso...

•  Tem pouca infraestrutura....

•  Neste trecho os cachorros não ficam presos...

•  Siga pela carreteira...

Mas a esta altura você tomou gosto pelo caminhar e quer mais é seguir em frente, desde que haja tempo suficiente.

Finisterre, Finisterra, Fisterre ou Finisterrae era o objetivo final das remotas peregrinações. Ou seja, chegar ao “fim da terra”, quando há milênios atrás acreditava-se que a Terra era plana. Ali, o homem ia se confrontar com o fim, mais especificamente com o seu fim.... com a morte, tão bem representados simbolicamente pelo por do sol no imenso oceano sem horizonte. Neste ponto o homem renascia, simbolicamente bem representado também pelo nascer do sol no dia seguinte.

Os povos antigos (celtas, druidas...) representaram em pinturas rupestres rituais de fecundidade em imemoriais ruínas.. Em um “leito do santo” na Capela de San Guilermo as mulheres inférteis tentavam engravidar, sendo religiosamente abençoadas.

Finisterra assim representa não somente o fim e uma jornada, mas também o inicio de uma outra, que é a sua volta, o reinício de uma nova vida, ou um novo recomeço estando o peregrino de certa forma mudado na sua forma de enfrentar a vida. Os rituais atualmente considerados como pagãos pela igreja não poderiam ser mais significativos: depois de ir até o fim da terra – onde há um farol – o peregrino desce até o mar onde devolve a sua Vieira (concha) queima as vestes de peregrino, mergulha seu corpo nas águas do mar, e vê o sol se por (ou morrer) no mar, e então retorna ao mundo renascido.

Efetivamente não dá para cumprir todo esse ritual de ônibus...

Até uma década atrás era muito difícil conseguir informações precisas e detalhadas sobre como ir de Santiago a Finisterra a pé. A Oficina de peregrinos dificultava de todas as formas as informações por motivos óbvios. Mas hoje, felizmente não é mais assim. Já há tais informações nos guias mais confiáveis.

Serão ao todo uns 80 quilômetros com boa infraestrutura de albergues em um trajeto bem demarcado com setas amarelas, cujo ponto de partida é a própria praça do Obradoiro, junto ao Hostal dos Reis Católicos.

Estes três ou quatro dias adicionais de caminhada certamente lhe farão um bem enorme, pois há poucos dias atrás, quanto mais você ia se aproximando de Santiago, maior a quantidade de peregrinos, grupos barulhentos, turistas, estudantes, ou seja, adeus paz de espírito! Pois caminhando até Finisterra, você retomará o seu contato com a natureza em toda a sua plenitude, tendo de volta a calma, a paz, o que facilitará a sua introspecção.

Finisterra (e Muxia também) é a mais maravilhosa recompensa que se pode encontrar ao fim da sua peregrinação. Não muito mais que uma grande vila de pescadores já acostumada a receber turistas de um ou no máximo dois dias. Não deixe de ir até o farol do fim do mundo, com seus penhascos que te trazem a mente diversas perguntas (e a certeza da inutilidade das respostas); a praia do mar de fora, ideal para cumprir o ritual final do peregrino e banhos de mar; a praia da Langosteira com sua cor inigualável. Na prefeitura (ayuntamento) você poderá conseguir a sua “finisterrana” caso tenha cumprido o trajeto a pé.  

Um trecho do século XIII exprime bem o que é o Caminho:

“La puerta se abre a todos, enfermos y sanos, no solo a católicos, sino aun a paganos, a judios, hereges, ociosos y vanos, y mas brevemente, a buenos y profanos”

Desta forma, o Caminho “está lá”, e pertence a quem caminha. Qualquer um pode colocar a mochila nas costas e botar o pé na estrada. Se o seu sentido de caminhar é o de exercitar a sua fé você terá ampla motivação para tal. Se o seu objetivo é puramente esportivo, procure um “sistema” que o coloque no rumo certo que o ajude a alcançar o seu objetivo, porque é preciso disciplina e dedicação.

Em ambos os casos, é preciso esvaziar o coração. No Caminho você estará exercitando constantemente a sua fé e experimentando o seu poder de superar desafios e adversidades. Esse é o grande segredo. O Caminho é a própria vida. Use esse seu poder a favor da harmonia do universo, ou então você estará nadando contra a correnteza. Siga o fluxo natural das coisas, dance a música que estiver tocando, deixe o Caminho te levar. Você irá perceber e se surpreender que as grandes lições e aprendizados virão das coisas mais triviais. Jamais subestime a simplicidade. Os mágicos ensinamentos do Caminho de Santiago estão nas pequenas coisas que se descortinarão aos seus olhos. Surgem como uma fonte de água pura e cristalina onde você menos espera, ou contemplando um inseto, na dança dos trigais, nas flores e nas pedras que cobrem o solo que recebe há séculos os passos dos peregrinos. 

Colaborador: Tácio Renato (AACS-Brasil)

 BOM CAMINHO A TODOS!

 ‎VOLTAR