CHUVA, CALOR E FRIO – COMO SE COMPORTAR?


CHUVA, CALOR E FRIO – COMO SE COMPORTAR?


Quando nos propomos a percorrer o Caminho de Santiago, partimos do princípio que as condições climáticas serão aquelas que consideramos ideais. Contudo, o Caminho reserva sempre alguma surpresa neste sentido, pois em num período de em média 30 dias muito provavelmente você irá pegar chuva, ou a chuva vai te pegar.

“Tenha então em mente que viver a exuberância da natureza exige um pouco mais de jogo de cintura, e conviver com o céu nublado e principalmente com a chuva é fundamental, e até isso o Caminho certamente irá lhe demonstrar: Um verdadeiro peregrino aprende a apreciar e desfrutar das diversas condições climáticas e meteorológicas”.

É certo que algum planejamento o livrará de muitos aborrecimentos. Ou seja, planeje sua etapa como se fosse fazê-la debaixo de chuva. E terás a certeza de terminá-la com o material seco e em perfeitas condições. Mais do que isso... apenas este detalhe já lhe garantirá pouca chateação durante a caminhada, pois você, com certeza, não ficará preocupado com o que está acontecendo ali atrás, nas suas costas, dentro da sua mochila, faça sol ou caia uma torrencial chuva.

Algumas recomendações poderão ser úteis para tornar a etapa (e o Caminho como um todo) ainda mais agradável, mesmo em condições adversas.

•  Sacos Impermeáveis (ou mesmo sacos plásticos) – acondicione tudo, rigorosamente tudo de sua mochila dentro de sacos plásticos sem furos nem rasgos ou dentro daqueles sacos estanques. Como os sacos estanques custam mais caros que os de plástico, você poderá utilizar as duas opções: roupas e coisas que podem, eventualmente, molhar, dentro dos sacos plásticos; coisas que não podem pegar uma gota d’água, como máquina fotográfica e outros aparelhos eletrônicos ou documentos e mapas, em sacos estanques. Para não complicar, uma boa dica é a conhecida sacola de supermercado que resolve muito bem esta questão, embora seja frágil.

•  Capa para a mochila – algumas mochilas já vêm com capas de chuva embutida. Tanto melhor, pois você não correrá o risco de esquecê-la. Mas há também no mercado a capa para mochila avulsa. Há ainda a capa “camelo” que protege o peregrino e a mochila.

•  Faça a mochila pensando na chuva – não basta apenas montar tudo organizadamente dentro de sacos plásticos e estanques... se você vai caminhar quando não está chovendo tanto faz onde você colocou a sua capa de chuva, não é? Mas, se estiver caindo muita água, você com certeza vai querer ter o acesso mais fácil e rápido até ela! Mais que isso, ela deverá estar protegida o suficiente para não ter molhado a parte interna.  Pense nisso quando estiver organizando sua mochila antes de uma caminhada longa... E não ligue muito para a previsão meteorológica.

•  Andar molhado e a regulagem da sua temperatura – Proteja-se antes mesmo de começar a sentir frio. Caminhe devagar e sempre quando estiver com o anorak, para não se esquentar mais do que devia... É muito desconfortável caminhar molhado por fora e por dentro, com um anorak que o deixa morto de calor! Por isso os zíperes situados debaixo do braço. Ao parar, coloque mais casacos por baixo do anorak, para não esfriar muito rapidamente, mesmo que não esteja sentindo frio, ainda.

•  Pés secos em dias de chuva – use botas tratadas com impermeabilizantes caso a sua botas não seja tratada de fábrica com Gore-tex ou similar compre um produto chamado Nikwax e, por cima delas, polainas de náilon, que irá fazer com que boa parte da água escorra da sua perna diretamente para o chão ou para a parte impermeabilizada de suas botas – e não direto para o interior das mesmas.

•  Quando sai o sol novamente – apesar do calor que possa sentir, cuide-se para não se molhar com a vegetação, que permanece encharcada mesmo depois da chuva parar. É o mesmo que acontece quando começamos uma caminhada muito cedo e o orvalho ainda não secou. Em menos de uma hora, nossas calças estão completamente ensopadas... Portanto, tenha um pouco de paciência e espere a vegetação secar para que você possa tirar a roupa de chuva.

•  Arejando o equipamento – se você está fazendo uma caminhada de vários dias e há muito não vê o sol, deixe tudo arejando tão logo ele saia... Seque suas roupas, coloque o saco de dormir estendido (cuidado com o vento!), tire as meias, abra bem as botas. Você verá como tudo estava úmido.

•  Comida à mão – esta dica é válida não só para dias de chuvas, mas para qualquer dia. Deixe sempre os lanches à mão, assim como a água, para que você não tenha de tirar a mochila toda hora que queira beber um gole ou comer alguma coisa. Em dias de chuva, este tira-e-põe da mochila é ainda pior pois, ao tirarmos a mochila das costas, ela poderá molhar justamente onde está em contato com o nosso corpo, nos deixando ainda mais úmidos e, muito pior, frios.

•  Meias molhadas – se, mesmo com todo o cuidado, você terminou o dia com as meias molhadas, torça-as e procure estendê-la onde der, para que seque um pouco durante a noite. Se o dia amanhecer bonito, vista as meias secas e limpas que estão dentro da mochila e, provavelmente, foram usadas durante a noite e deixe as molhadas penduradas do lado de fora da mochila, para irem secando durante o dia. Caso o dia amanheça chuvoso, vista as meias molhadas (caso não tenha outra alternativa), reservando as secas para passar a noite pois, parado, sentirás muito mais frio do que em movimento. Vestir as meias molhadas será terrível nos primeiros minutos mas, logo, você se esquentará, deixando de ser tão desagradável. E cuide-se mais do que o normal quanto a bolhas, pois a pele úmida tende a ser mais suscetível a elas.

•  Anorak, sempre! – se tem algo imprescindível em sua mochila, seja ela para poucas horas de caminhada ou semanas seguidas, é o abrigo de tempo, capa de chuva, poncho ou anorak. Em qualquer circunstância nunca, em tempo algum, saia para caminhar sem levá-lo na mochila.

Hipotermia:

Ela acontece quando o corpo não consegue mais reter o calor e a temperatura corporal abaixa muito. Isto pode acontecer em temperaturas bem acima do zero grau, não precisando de condições extremas, mas chuva e vento podem piorar bastante a situação. Então:

•  Prevenir é o melhor remédio, sempre.

•  Fique atento para não ficar molhado por muito tempo nem exposto ao vento.

•  Esteja preparado, tendo sempre bons equipamentos com você, mesmo no verão.

•  Lembre-se que você não deve sentir frio para começar a se aquecer – aqueça-se ANTES. Se esquentar, depois, pode ser tarde demais...

•  A hipotermia causa erros de julgamento e pode ‘aparecer’ de repente.

•  Perceba o quanto antes que você está frio, molhado e desconfortável.

•  Também observe sempre seus companheiros se você estiver caminhando em grupo, procurando sinais de hipotermia neles também.

•  Caso alguns sintomas apareçam – como tremedeira prolongada, redução de habilidades motoras, gagueira, andar cambaleante e, nos estágios finais, pele azulada, sonolência, falha na visão e raciocínio irracional, procure ajuda imediatamente, abrigue-se e coloque roupas secas e quentes.

•  Em hipótese alguma consuma bebidas alcoólicas!

•  Beba bebidas mornas ou ministre-a para vítimas apenas se elas estiverem conscientes.

•  Mantenha-a acordada e aquecida dentro do saco de dormir – em hipótese alguma deixe-a caminhar...

•  Não esqueça que hipotermia mata!

Hipertermia:

O excesso de calor pode ser um problema no Brasil e em lugares muito quentes e secos (como na Espanha, por exemplo, em julho), apesar do corpo normalmente “desistir” de continuar muito antes do perigo real aparecer. Assim:

•  Para minimizar os desconfortos, procure beber sempre muito líquido durante as caminhadas e atividades físicas.

•  Sempre use protetores solares, chapéus e bonés.

•  Preste atenção em dores de cabeça, náusea, tontura e pele fria e úmida.

•  Procure uma sombra, esfrie um pouco, beba muito líquido fresco e fique atento à pele seca e febre.

•  De novo, nada de bebidas alcoólicas.

A Altitude pode ser um problema, pois em alguns trechos do Caminho você estará em altitudes acima de 1.000 metros e poderão surgir problemas de oxigenação. Acima desta altitude, aumenta a possibilidade de dores de cabeça. Diante disso:

•  Preste atenção em sintomas como fadiga, dores de cabeça, náuseas e até a diminuição da coordenação motora.

•  Na presença de qualquer destes sintomas, pare imediatamente!

•  Se os sintomas incluem gagueira, irracionalidade e cambalear, não apenas pare como desça imediatamente – e rápido.

•  Mal de altitude pode matar, caso evolua para um edema pulmonar ou cerebral.

Com relação ao frio, vale dizer que o ser humano suporta bem o frio se ele estiver bem alimentado, bem agasalhado e tiver um abrigo (como casa, cabana ou mesmo barraca). É a comida que vai fazê-lo produzir calor e, assim, se aquecer em condições extremas. É o agasalho adequado que não vai deixar este calor produzido ir embora. E é um abrigo que irá protegê-lo das piores condições e, principalmente, do vento gelado. Condições extremas como longas caminhadas podem consumir mais de 4.000 calorias por dia.

Porque sentimos frio logo nas extremidades do corpo? Por uma mera questão de sobrevivência... O corpo “escolhe” o que vale mais a pena salvar, ou seja, ele concentra o envio de sangue e, consequentemente, de calor nas partes vitais (cabeça e tronco), sacrificando as extremidades. Por isso se diz que, quando temos frio nas mãos, devemos proteger a cabeça (e o pescoço)...! É por ali que se perde até 25% do calor produzido pelo corpo.

O que é “morrer de frio”? Esta expressão é bastante comum em nossa língua, mas pode corresponder 100% à realidade. A nossa temperatura corporal é de 36-38º C. A hipotermia começa a ser definida quando a temperatura basal cai a cerca de 35º C. Hipotermia branda, apesar de não causar a morte, é bastante perigosa e pode ser de difícil detecção, já causando uma série de, digamos, distúrbios na pessoa, como calafrios, destreza manual reduzida, cansaço, afeta o julgamento e a pessoa pode ficar propensa a discutir, além de não cooperar com a sua própria recuperação. A hipotermia moderada vem associada a calafrios violentos, a coordenação muscular e as habilidades mentais são afetadas e é aqui que a pessoa pode simplesmente ”se deixar morrer”, pois perde a capacidade de discernimento. Perdemos a consciência quando nosso corpo chega a 30º C. Na hipotermia profunda, tanto a respiração quanto os batimentos cardíacos podem acontecer ao ritmo de apenas um ou dois por minuto! O coração para quando a temperatura chega a 20º C.

Então, basta que a pessoa esteja mal alimentada e mal agasalhada, como já foi falado, e se está na sua caminhada e você ou alguém começa a sofrer de hipotermia, o que fazer? Aquecê-lo com seu próprio corpo e o corpo de outras pessoas é uma solução. Se possível, colocá-lo em uma banheira com água morna (mas isso não funciona com uma vítima de hipotermia profunda) – no caso das extremidades, um balde com água morna e curativos nos locais que sofreram o congelamento. Nunca esfregue um tecido congelado! E procure, o quanto antes, um hospital – lembre-se que descongelar e recongelar pode ser muito pior que mantê-lo congelado até o devido atendimento médico. Mas o mais importante é: SAIA PROGRAMADO E PROTEGIDO – com roupas e comida suficiente.

Colaborador: Tácio Renato (AACS-Brasil)

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