O CAJADO


O CAJADO PEREGRINO


De cada viagem tenho um cajado guardado. Cada um têm uma história que só eu conheço; por isso, às vezes, tenho com eles um diálogo mudo, sempre carregado de muita emoção.”




Muito se tem escrito sobre os equipamentos usados pelos peregrinos ou caminhantes. Traçam-se comparações entre os milhares tipos de Mochilas, sejam elas pequenas médias ou grandes, impermeáveis ou não; compêndios são escritos com referências às Botas ou simplesmente tecendo-se considerações se devemos utilizar Botas ou Tênis e de que procedência é a sua fabricação; enveredamos pelos Sacos de dormir os quais o chamamos de “sleeping bag”, classificando-os quando ao seu puder de nos manter aquecidos a uma determinada temperatura ambiente, ou quanto ao seu peso; e outras quinquilharias que os peregrinos usam durante o seu caminho, no entanto pouco se tem escrito sobre os mesmos.

O cajado, também chamado de bastão, além de possuir um aspecto simbólico (vide que a maioria dos nossos Santos possui um cajado como um símbolo), é um objeto tradicional em uma caminhada, é um instrumento importantíssimo, vai desde a sua utilização no equilíbrio do corpo cujo centro de gravidade foi modificado devido ao peso da mochila, principalmente ao caminharmos em terrenos pedregosos ou barrentos, bem como para facilitar o peregrino nas suas subidas e descidas. Os peregrinos de antigamente amarravam na extremidade superior uma cabaça utilizada para recolher água nas fontes, atualmente as mesmas foram substituídas pelos cantis.

O cajado permite a transferência para os nossos braços de uma parte do nosso esforço nas caminhadas, ajudando a manter o ritmo da mesma, permitindo uma maior facilidade nos trechos íngremes ao efetuar a transferência para os nossos braços de uma parcela do nosso esforço, bem como ajuda a descansar os joelhos e as coxas nas descidas longas e nos terrenos bastante irregulares os quase em forma de uma escada. 


Vários modelos...

Além do acima mencionado, o cajado permite a verificação da profundidade do terreno lamacento com a finalidade de não mergulharmos as botas além de uma profundidade aconselhável, saltar determinados obstáculos (devemos tomar cuidados para que o mesmo não venha a se quebrar – cajados não devem ser utilizados como “salto com vara”), permite nos defendermos em determinadas ocasiões, quer sejam contra alguns animais ou mesmo contra o próprio homem e por que não dizermos, servir utilizando sua ponta como de um instrumento verificador, pesquisando algo que não queremos utilizar as nossas mãos.

O peregrino poderá levar o seu cajado efetuado sob medida e construído com aquela madeira que ele acredita ser a melhor; poderá conseguir através do galho de uma árvore caída no chão, verificando a sua consistência, adequando-o ao seu tamanho e limpando-o para melhor utilizá-lo, devendo ter o cuidado de na parte onde deverá segurar manter um devido polimento (raspando toda à sua casca) a fim de não vir prejudicar as mãos; ou simplesmente adquirindo nas lojas existentes. Para quem efetua a peregrinação a Santiago de Compostela pelo caminho francês, em Azqueta (Navarra), Pablito oferece cajados de avelã gratuitamente, troca o seu por um outro adequado a sua altura, bem como ensina a melhor maneira da sua utilização.

Um bom cajado deve ser leve, resistente e ter um comprimento próximo à sua altura. Na parte superior do cajado, existem muitos dos peregrinos que costumam efetuar algumas modificações, decorando de maneiras as mais variadas possíveis, vai aí um pouco da parte artística de cada um, a maioria costuma gravar o seu nome.

Atualmente com o desenvolvimento tecnológico, existem cajados denominados de “stick” que são extremamente leves, bastantes resistentes e são telescópicos, permitindo adequá-los ao tamanho do seu portador, inclusive portando uma manopla ou empunhadura para as mãos bastante confortáveis. Possuem um sistema “anti-chock”, que proporciona conforto em situações inóspitas, onde os impactos tornam-se inevitáveis, possuem ponteira de alta resistência e um disco circular protetor para impedir a sua penetração em areia ou neve. Alguns peregrinos utilizam dois cajados o que vem a proporcionar uma perfeita simetria na caminhada. 



Cajado Telescópico

Recomendamos a utilização da seguinte regra básica.

- Mantenha o braço e o antebraço num ângulo de 90 graus;

- Pouse simplesmente o cajado no solo não batendo o mesmo como a querer marcar compasso;

- No caso da utilização de apenas um cajado, alterne as mãos, mais ou menos a cada meia hora, visa facilitar o equilíbrio na distribuição do peso permitindo a movimentação dos dois lados do corpo e evitando o vício de postura;

- O cajado deve acompanhar a passada da perna oposta à mão que a segura;

- O pulso deve movimentar o cajado quando o terreno for plano. 


Vários modelos.. trabalhados ou não...

No retorno de uma peregrinação ou caminhada, existem uma divergência muito grande quanto a trazê-lo ou não, alguns seguem um ritual espiritual de simplesmente deixá-lo no ponto final da sua peregrinação, outros retornam trazendo-o e colocando-o em um ponto de destaque em sua casa (é o que eu fiz). Deveremos ter o cuidado quando ao embarque do mesmo no retorno, as companhias de aviação não permitem trazê-lo como bagagem de mão (é uma arma), terá de despachá-lo como bagagem desacompanhada devidamente embalada.

Sobre cajados, não poderia deixar de aqui transcrever um lindo trecho de fé e humildade do livro de Maqui: “Guia do Peregrino do Caminho de Santiago”, um dos primeiros livros que li antes de efetuar a minha peregrinação a Santiago de Compostela.

Perto do cemitério, a mais ou menos um quilômetro de Viscaret, depois de um escorregão muito coreográfico, decidi que precisava de um apoio, uma perna a mais. Deixei a mochila no chão, tirei o canivete e procurei uma árvore. Num pequeno bosque, escolhi uma aveleira não muito grande e realizei um pequeno ritual. Ajoelhado, toquei o tronco com as duas mãos. A chuva tamborilava nas folhas e no meu chapéu. Um pingo grosso caía de tempos em tempos e regulei a minha respiração por aquele compasso lento. Era a minha maneira de dizer à chuva que respirava com ela. Pedi desculpas à árvore e expliquei que precisava de um de seus galhos para um bastão. Esperei alguns minutos para que ela se resolvesse e se preparasse para o corte. Escolhi um galho reto, um pouco mais grosso do que um polegar, e cantarolei uma música inventada, enquanto separava o galho do tronco. A letra da música falava das aventuras que esperavam o galho ao longo do Caminho, convidava-o a seguir comigo a Santiago e talvez mais distante ainda. Terminei a canção com uma promessa solene de devolvê-lo a terra, quando tudo estivesse terminado. O galho cedeu e aparei as pontas até ter um bastão castanho-escuro, de mais ou menos um metro e meio. Era razoavelmente reto e um apoio confiável. Agradeci à árvore, deixei uma maçã junto ao tronco e voltei ao trabalho.” 

Fonte: http://www.walterjorge.com/

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