2006 - Caminho da Fé-II Ramal Norte-Mococa/SP



2006 - CAMINHO DA FÉ – RAMAL NORTE

MOCOCA à ÁGUAS DA PRATA, 95 quilômetros, a pé, em 4 etapas

  

   
Em julho de 2.006, o ramal Norte, com início na cidade de Mococa/SP, foi solenemente incorporado ao Caminho da Fé, unindo-se ao tramo principal no município de São Roque da Fartura.

Dois meses após essa data, curioso, aproveitei o feriado de 7 de setembro daquele ano e percorri esse roteiro até a cidade Águas da Prata, postergando o restante do percurso para uma ocasião mais propícia.

Assim, deixei meu lar numa quarta-feira à tarde, dia 06/09/2006, e embarquei num confortável ônibus da Viação Nasser que, após 3 h de viagem, com paradas intermediárias em Mogi-Mirim, Aguaí e Casa Branca, aportou finalmente em Mococa.

A progressista cidade paulista está localizada entre as bacias dos rios, Pardo e Canoas, numa altitude de 640 m, e o seu clima é temperado.

Possui, atualmente, uma população de 75 mil habitantes, sendo que as principais atividades econômicas do município são a agropecuária, o comércio, a indústria e o turismo.

Segundo a tradição, o nome Mococa apareceu em 1844, quando o capitão-mor, Custódio José Dias, que fora até ali para caçar, empregou a frase: “Olhem aí para a mocoquinha”. MU – significa pequeno; CO – que quer dizer esteio; OCA – casa.

Portanto, ele naquele momento estava se referindo às casas de pequeno esteio do lugar. 

 
Assim, ao chegar ao local, rapidamente, me registrei no Hotel Plaza.

Depois saí para conhecer a urbe, e verificar o local por onde partiria na manhã do dia posterior.

Mais tarde, fiz contato telefônico com o Toninho, o representante do Caminho da Fé naquela localidade, que compareceu no local onde eu estava hospedado.

Durante sua visita, me informou que um um grupo procedente do sul de Minas Gerais, composto de 14 pessoas, outro de São Paulo, com 16 pessoas, mais 4, provenientes de outras localidades, além de 3 ciclistas procedentes de Franca/SP, se encontravam alojados na cidade, porém, em estabelecimentos comerciais distintos.

Em sequência,, depois de expedir minha Credencial, confidenciou-me orgulhoso que 38 pessoas seguiriam no dia seguinte com destino à Aparecida do Norte.

À noite, após tomar banho e finalizar os preparativos para a iminente partida, fui jantar no Restaurante Ponto Chic, localizado na praça existente defronte à igreja matriz de São Sebastião.


1º dia – MOCOCA à SÃO JOSÉ DO RIO PARDO – 25 quilômetros


Acordei às 5 h e calmamente fiz minhas abluções matinais.

Na saída, ingeri apenas um copo de café, gentilmente, preparado pelo porteiro noturno.

Parti exatamente às 5 h 30 min, sob o manto das luzes urbanas e um vento gélido, seguindo escoteiro pelas ruas desertas da urbe.
 
    
Mais acima, passei defronte de bela igrejinha dedicada à Nossa Senhora Aparecida e, depois de 3 quilômetros percorridos em zona urbana, transpus o Portal existente na saída da cidade, ao lado do sítio São Sebastião, onde o asfalto termina. 

Acessei, então, uma larga estrada de terra batida e, animado e bem disposto, por ela prossegui firme, enquanto o dia principiava a clarear. 

O percurso manteve-se agradável, pois o clima estava fresco. 

Contudo, a rota seguia sempre em perene, mas, lenta ascensão. 

Assim, enquanto caminhava, como motivação aproveitei o silêncio ao meu redor e fui fazendo minhas orações matinais, porquanto, ainda que de maneira insólita, iniciava uma nova peregrinação em direção à casa de minha “Mãe Maior”. 

Mas, afinal, ponderava: qual seria o significado exato ou amplo, do verbo peregrinar? 

Peregrinar, acudia-me, antes de tudo, é um ato de fé que se faz através de um Caminho e, como tal, pressupõe um itinerário, mas não se esgota nele. 

Tendo lhe que associar uma intenção e um objetivo, cuja motivação, despertam e alimentam a busca interior, promovendo assim o enriquecimento espiritual e cultural. 

Entre nós cristãos, as peregrinações mergulham suas raízes no Antigo Testamento, no Êxodo do povo eleito para a Terra Prometida. 

E a Igreja, desde os primeiros tempos, promove o culto dos lugares santos e fomenta essa saudável prática. 

Ao observarmos a Bíblia, veremos que muito nos falam de peregrinações.

Era o povo de Deus que caminhava unido, ora rumo à Cidade Santa, ora aos lugares sagrados.
 

Todos nos lembramos da grande peregrinação que o povo de Deus fez pelo deserto junto com Moisés. 

Os salmos proclamam “Que alegria quando me disseram, vamos para casa do Senhor: Eis que meus pés se estacam diante de tuas portas, oh Jerusalém” (Salmo 121). 

Jesus também foi um peregrino. 

Como bom judeu, saía da Galiléia e em peregrinação dirigia-se até a Judéia (Jerusalém), para celebrar grandes festas solenes. 

Inspirados pelas Sagradas Escrituras, os cristãos sempre se utilizaram desse exemplo e rumaram aos lugares sagrados, alimentando a fé das Comunidades que caminham ao encontro de Deus. 

Afinal, todos somos peregrinos: na vida, no nosso dia a dia, e também, em visita a Santuários de Nossa Senhora Aparecida, Lourdes, Fátima, Terra Santa e outros, ainda que utilizando de modernos meios de transporte, como trem, navio, avião ou ônibus. 

Assim peregrinar não é só viajar, tirar férias, passear com os amigos ou viver o povo da Igreja, posto que esse verbo engloba um sentido mais amplo: É levar algo dentro de si e acolher a todos também!

Nesse contexto, o importante é sabermos que Deus nos convida a construir seu Reino, caminhando junto Dele e dos irmãos!

 

Essas rememorações findaram às 7 h, quando passei defronte à Fazenda Santa Maria e, 30 min depois, deixei a entrada para a Fazenda Santa Eliza, à direita, e prossegui, tendo como constante, por ambos lados, imensas fazendas destinadas à criação de gado bovino.

Às 8 h 30 min, ultrapassei a placa que marca a divisa entre os municípios de Mococa e São José do Rio Pardo. Prossegui sempre em leve, porém constante ascensão.

O sol brilhava num céu sem nuvens, mas àquela hora matinal o ar estava fresco e extremamente agradável.

Finalmente, às 9 h, alcancei o topo da elevação pela qual eu ascendia e, de lá, a 1.000 m de altitude, depois de percorrer 13 quilômetros, pude ter uma visão do início de minha “viagem”.

Assim, observando o local por onde eu viera caminhando, podia ver, distintamente, apesar da distância, a cidade de Mococa, esparramada ao fundo de um grande vale.

Prossegui, então, por uma fazenda especializada no plantio de hortifrutigranjeiros, onde existam enormes canteiros com plantações de cenoura, couve-flor, quiabo, pimentão, entre outros.


Mas o forte mesmo, era a cultura de batata e cebola, cuja safra estava sendo colhida. Trabalhadores rurais faziam tal trabalho e acenaram alegremente à minha passagem.

Próximo da sede daquela bela herdade, havia uma grande seringueira e, debaixo de sua umbrosa copa, fiz breve pausa para descanso, hidratação e alongamentos.

Já renovado, continuei minha jornada.

O clima persistia frio e ventoso, com a temperatura oscilando na marca dos 15 graus.

Após contornar pequeno bosque, passei a caminhar num planalto, tendo um área coberta por eucaliptos, pelo lado direito.
 
 
  
Num intervalo da floresta, um alento para meu espírito, pude ver do alto, a uns 10 quilômetros de distância, minha meta para aquele dia: a cidade de São José do Rio Pardo.

Animado, passei a caminhar pelo topo de morros, com ampla visão pelas laterais.

Por sinal, do meu lado esquerdo, havia uma magnífica cadeia de montanhas, que demarcava a divisa do estado de São Paulo com o das “Alterosas.”

Depois de quatro quilômetros nessa toada, às 10 h, encontrei a rodovia que liga São José a Guaxupé/MG.

Utilizando-me do acostamento e caminhando em sentido contrário ao fluxo de veículos, prossegui por cinco quilômetros até acessar a zona urbana, exatamente às 11 h.

Logo na entrada da cidade, avistei um supermercado e, aproveitei para comprar água, chocolate e mantimentos que utilizaria na jornada seguinte, pois sabia que naquele feriado de 07 de setembro, os estabelecimentos comercias encerrariam suas atividades às 12 h.

Depois, seguindo em frente, atravessei a ponte sobre o rio que empresta seu nome à cidade e, após vencer leve aclive, me hospedei no Hotel Paulista, localizado próximo ao centro da urbe.

Contudo, como comprovei “in loco”, apresentava sofrível padrão de qualidade.

A simpática e belíssima cidade de São José do Rio Pardo foi fundada em 1.865, está situada numa altitude de 705 m, e conta atualmente, com 53 mil habitantes.

Depois de reconfortante banho, fui almoçar no Restaurante Ranchão, que recomendo, pela primazia no atendimento e qualidade dos alimentos ali servidos.

Em seguida, me recolhi para profícuo descanso.
 
 
   
Mais tarde, às 16 h, quando saía para visitar a cidade, encontrei com o pessoal proveniente de Minas, que também se encontrava hospedado no mesmo local em que eu estava e que acabara de aportar à cidade.

No comando do grupo estava o Padre Carlos, que tencionava celebrar uma missa no “hall” do Hotel que, por sinal, já estava preparado para a singela cerimônia.

No entanto, ele havia esquecido de trazer em sua bagagem, alguns componentes imprescindíveis para tal ofício, como a estola, a patena e velas.

Um solícito e compenetrado componente da simpática trupe contou-me que tentou contato telefônico com o pároco local para empréstimo de tais objetos.

Contudo não lograram êxito, de forma que não se sabia exatamente o horário em que a celebração teria início.

Assim, face a imprevisibilidade do evento, resolvi cumprir meu cronograma de visitas, e fui conhecer a belíssima igreja matriz, dedicada à São José, uma construção datada de 1.890.

Dali segui para Casa da Cultura Euclides da Cunha, abrigada no sobrado onde o escritor residiu.

Em seguida, fui visitar a “Casa Euclidiana”, na verdade, a popular “cabana de zinco”, lugar em que Euclides da Cunha terminou de escrever o livro “Os Sertões”, lançado em 1.902,

À época, o insigne jornalista contou com a colaboração do prefeito da cidade, Sr. Francisco Escobar, que se tornara seu grande amigo.

É bom lembrar que além de renomado escritor, ele foi também militar, professor, sociólogo, repórter jornalístico e competente engenheiro.

Em 1.898 foi contratado para supervisionar a construção da ponte metálica que transpõe o rio Pardo.

Residiu na cidade até 1.901, período de duração dessa obra, que foi definido por ele, como o mais produtivo de sua existência.

Morto tragicamente em 1.909, seus restos mortais, bem como de seu filho Euclides da Cunha Filho (falecido em circunstâncias similares às de seu pai), foram transladados do Rio de Janeiro, e se encontram enterrados no cemitério da cidade, num jazigo perpétuo da família.

De volta ao hotel, reencontrei o pessoal de Minas desmontando o altar improvisado, pois a missa acabara de findar.

Pude verificar que o grupo era composto por pessoas de ambos os sexos, inclusive, com algumas senhoras idosas, corajosamente integrando a animada comitiva.

À noite fui a uma padaria ingerir um lanche e lá me encontrei com o grupo de peregrinos de São Paulo, sendo este formado, em sua maioria, por pessoas jovens e bem dispostas.

Conversamos alegremente e eles me confirmaram o encerramento da caminhada no domingo, assim que aportassem à Águas da Prata, onde tomariam um ônibus e retornariam à capital.

Logo depois me despedi do pessoal e fui dormir às 21 h, já prelibando a etapa sequente.

Altimetria dessa etapa

  

                                                                                                                                                               
 




AVALIAÇÃO PESSOAL: Tempo gasto: 6 h - Uma jornada tranquila, porém, é bom ressaltar que os 13 quilômetros iniciais são trilhados em lenta e perene ascensão. Depois, mais 5 quilômetros por um planalto e, o restante do trecho, em asfalto, em
grande declive. É importante realçar que a paisagem é monótona, pobre em belezas naturais, e não há sombras no percurso.


2º dia – SÃO JOSÉ DO RIO PARDO à SÃO SEBASTIÃO DA GRAMA – 25 quilômetros


Levantei-me às 4 h 30 min, e às 5 h fui até o refeitório ingerir o desjejum.

Parti às 5 h 30 min, passei próximo à Padaria Alvorada e logo acessei uma larga estrada de terra, onde encontrei inúmeras pessoas da localidade, fazendo seu “treking” matinal.

 
O caminho, levemente ascendente, me levou depois de 1 h de caminhada, até a sede da Fazenda Santa Maria.

Dali, numa altitude de 700 m, tinha uma visão privilegiada de toda a região ao redor, inclusive da cidade de São José, situada no fundo de um vale, cortado pelo majestoso rio Pardo.

Na sequência, passei por dentro de um grande cafezal, cujos pés estavam em floração, todos vestidos de branco.

No ar, rescendia o aroma delicioso das flores, além do zumbido persistente dos insetos, no seu incansável trabalho de polinização, fazendo-me lembrar escritos de Monteiro Lobato, do livro “Urupês”:

“Era setembro, e o aspecto das árvores estrelejadas de florinhas dava uma sensação farta de riqueza e futuro. Corremo-lo em parte, gozando o "prazer paulista" de ver ondular por espigões e grotas a onda verde-escura dos cafeeiros alinhados”.

Depois de pausa para fotos e água, prossegui e, mais à frente, ultrapassei a Fazenda Santana.

Logo em seguida, depois de descer empinada ladeira, acessei uma larga estrada de terra, que segue em direção à cidade de Divinolândia, cognominada de “A Capital da Batata”, do estado de São Paulo.

 
   
Por conta disso, era intenso o tráfego de caminhões que transportavam tal produto, cobrindo todo horizonte com pesadas nuvens de poeira, pois havia muito tempo que não chovia naquele local.

Ali, obedecendo as flechas amarelas, virei à direita e, para descontrair, comecei a meditar sobre um fato ocorrido na data pretérita, quando em contato com os componentes dos grupos de Minas e São Paulo, soube que ambos encerrariam a peregrinação no domingo, em razão de compromissos profissionais.

Aparentemente, apenas um casal da cidade de Americana seguiria em frente.

Os demais, tal como eu, retornariam a seus lares e aguardariam uma nova oportunidade para prosseguir adiante.

Tudo por conta da falta de tempo, esse componente impalpável e essencial de toda existência, que nos sufoca, subjuga, manipula e atrela a obrigações, das quais não conseguimos nos desvencilhar facilmente.

Por sinal, o tempo, cientificamente falando, sempre foi tratado como um conceito adquirido por vivência, indefinível em palavras.


Sua concepção tem sido muito discutida desde o início da cultura ocidental, até os dias de hoje.
 
 
   
A esse respeito, Parmenides (530 - 460 a.C.) defendia o ponto de vista de que todas as transformações que observamos no mundo físico resultam da nossa percepção, isto é, de um processo mental. Elas, de fato, não ocorreriam.

A realidade para ele seria ao mesmo tempo indivisível e destituída do conceito de tempo.

Já no século IV, Santo Agostinho respondia à indagação sobre o que é o tempo da seguinte forma:

``se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei''. E divagou sobre o conceito do tempo nos seguintes termos: "ouvi dizer a um homem instruído que o tempo não é mais do que o movimento do Sol, da Lua e dos astros. Não concordei!!! Porque não seria antes o movimento de todos os corpos? Se os astros parassem e continuasse a mover-se a roda do oleiro, deixaria de haver tempo para medirmos as suas voltas? Não poderíamos dizer que estes se realizam em espaços iguais, ou, se a roda umas vezes se movessem mais devagar, outras depressa, não poderíamos afirmar que umas voltas demoravam mais, outras menos?''

Em termos pessoais, a partir de certa idade, parece que o tempo passa mais depressa, a correr, sem quase nos apercebermos, e que os anos, à semelhança dos bólides modernos, circulam a uma velocidade tal, que nem dá tempo para apreciar a paisagem.

É como se viajássemos numa cápsula com janelas de vidros foscos donde apenas se vê o desfilar de sombras, a passagem de objetos sem contornos definidos, a sucessão de imagens fantasmagóricas - tudo isso perpassando ao som do barulho infernal das preocupações do dia a dia que nos contagiam e se apossam das nossas mentes.

Nesta sociedade materialista, que nos comanda e escraviza, nada podemos fazer para nos libertarmos dessa engrenagem cruel , que por obra e graça do progresso, fomos acorrentados. Elos da mesma cadeia, parte do mesmo todo, giramos à volta do mesmo eixo e sofremos a influência dos mesmos ventos. 

 
Por consequência, toda esta corrida desenfreada da vida moderna roubou-nos a paz de espírito, a religiosidade do silêncio de outrora e a quimera de sermos interiormente livres, o sonhos da criança que fomos!

E assim vai passando o tempo....

Veloz, indiferente à nossa insatisfação, desenganos, frustrações e queixumes.

É dessa forma o jogo cotidiano da própria vida, feito de competições e indiferenças! Contudo, ainda assim, todos os dias fazemos planos, gizamos projetos, acalentamos esperanças, mesmo correndo o risco de ver o sonho transformado em pesadelo!...

O tempo voa. Foge...

Mas não será ele um aliado que Deus nos deu? Para nos dar consistência e valor às coisas? Posto que, quanto mais tempo passa, menos doem os desgostos...

Como bem disse o “imortal” Fernando Pessoa: façamos dele, então, um poema, porquanto, “Uma hora não é uma hora. É um vaso cheio de perfumes, de sons, de projetos, de alegrias e de esperanças...”

Minhas elucubrações chegaram ao final quando, depois de 3 quilômetros, exatamente, às 8 h, encontrei a rodovia que liga Vargem Grande do Sul a São Sebastião da Grama e, obedecendo as flechas, virei à esquerda.

Então, utilizando-me de largo acostamento, em terra, caminhei no sentido contrário ao fluxo de veículos por mais 4 quilômetros.

Às 9 h, encontrei uma flecha direcionando-me à esquerda, por uma estrada de terra, extremamente arborizada.

A partir dali, face à beleza da paisagem ao redor, meu coração se alegrou.

Depois de transpor um belíssimo bosque, composto de frondosas árvores, adentrei em um grande cafezal pertencente à Fazenda Boa Esperança.

Mais acima, me encontrei com a Sra. Patrícia, proprietária do lugar, que passeava com sua cachorra Loris, da raça Labrador.

Subimos conversando até a sede da fazenda, onde ela me serviu água e café.

À guisa de explicação, por estar sozinha naquela imensa casa, disse-me que seu marido se encontrava na cidade a negócios, porém naquele sítio habitavam inúmeros empregados, de forma que ela se sentia em segurança.

Contou-me, também, que seus 3 filhos estavam residindo e estudando em Poços de Caldas, e só retornavam àquele local nos finais de semana.



Depois de calorosas despedidas, prossegui em leve ascensão, até acessar a “Trilha Imperial”.

Caminhei, então, pelo topo de grande elevação, com ampla visão para todos os lados, inclusive, dos contornos da cidade de São Sebastião da Grama, minha meta para aquele dia.

No ponto de maior altitude, pude divisar abaixo, uma grande e rica propriedade, com diversas casas, mangueiro para bois e um enorme lago fronteiriço.

Logo à frente iniciou-se grande descida e no final desta, passei defronte a entrada da Fazenda Império, a mesma que eu visualizara do cimo do morro.

   


Iniciou-se, em seguida, severa ladeira e, no final dela, às 11 h 30 min, adentrei em zona urbana.

Em seguida, registrei-me no Dunha's Hotel, estabelecimento onde fizera reserva, cujos proprietários, Silvana e Deloro, foram extremamente simpáticos e prestativos.

Segundo seus “filhos”, São Sebastião da Grama é um recanto privilegiado pela generosidade da natureza, e com seu cenário de beleza transformou-se num verdadeiro paraíso, onde se respira ar puro e se desfruta do bom acolhimento dispensado por seu povo.

Cumpre destacar que sua vocação econômica, graças ao seu rico solo e ótimo clima, é baseada essencialmente na agricultura, principalmente, na cultura do café, hoje considerado um dos melhores do país, devido aos diversos prêmios recebidos nos últimos anos.

Ela está situada a 945 m de altitude, possui 13 mil habitantes e conta com 100% em água tratada e rede de esgoto.

Apesar da ênfase com a conservação de suas riquezas naturais, é uma cidade que cultua o progresso.

Embora pequena em dimensões, continua atraindo turistas pela sua hospitalidade e qualidade de vida, fatores que fazem com que ela tenha hoje, 10% de seus imóveis urbanos, utilizados para férias e veraneio.
 
 Na minha modesta visão, a cidade me pareceu um presépio, de tão bonita e enfeitada, com suas ruas centrais assimétricas, limpas e organizadas, compostas de casas arejadas, floridas e com pintura recente. 

Depois de demorado banho e atendendo ao recomendado pelo Deloro, fui almoçar no Restaurante Família Forti.

Depois, aproveitei para lavar as roupas e descansar.

Quanto me levantei, às 16 h, pude perceber intenso movimento nos corredores do prédio em que me encontrava hospedado: eram os romeiros de Minas que chegavam extremamente exauridos e famintos.

Mais à tarde, assim que o sol amainou, fui conhecer a igreja matriz do município, dedicada à São Sebastião, uma construção datada de 1.908. Em seguida, fui ao banco e numa “Lan House” próxima, onde pude acessar à Internet e enviar notícias.

À noite, optei por um simples lanche no quarto, confeccionado com mantimentos que adquiri num supermercado próximo. E logo fui dormir, pois a jornada seguinte seria bastante árdua.



Altimetria do percurso

       

AVALIAÇÃO PESSOAL: Tempo gasto: 7 h - Uma etapa de razoável dificuldade, mormente pelos quilômetros feitos através da rodovia que segue para Divinolândia, onde a poeira é um grande empecilho. Depois, existe o percurso pelo acostamento do asfalto, onde nos sentimos um tanto inseguros, face o intenso trânsito de veículos. No entanto, a partir do trajeto em terra, quando restam 9 quilômetros para a chegada, a paisagem transmuda-se radicalmente, e a alegria retorna à alma do peregrino, pelas inúmeras belezas naturais e o silêncio que ele irá desfrutar nesse trecho derradeiro.


3º dia – SÃO SEBASTIÃO DA GRAMA a SÃO ROQUE DA FARTURA – 28 quilômetros



No dia anterior, eu havia tomado informações com um experiente morador da cidade sobre o percurso a seguir nessa etapa.

Ainda, por conta do grande número de peregrinos no caminho e sabendo das precárias instalações da Pousada Cachoeira, em São Roque da Fartura, eu pretendia fazer 2 etapas nesse dia, num total de 45 quilômetros, pois minha intenção era pernoitar em Águas da Prata.
 
 
    
Dessa forma, me levantei às 4 h e deixei o Hotel, exatamente, às 5 h, sob intenso frio, quando a cidade ainda dormia.

A noite tépida e cheia de estrelas envolvia o ambiente urbano.

Nas ruas, nenhum passante, nem deste, nem do outro mundo.

Num belo jardim fronteiriço a uma praça, flores enviavam sua mensagem de perfume.

Utilizando minha lanterna, calmamente acessei uma agradável trilha que seguiu sob um frondoso bosque de eucaliptos.

A lua quase cheia no céu sem nuvens, fazia uma esteira de prata na tenebrosa senda.


E quando o dia principiou a clarear, exatamente, às 6 h da manhã, depois de percorrer 4 quilômetros, encontrei a rodovia que liga Vargem Grande Sul a São Roque da Fartura.

Então, caminhei pelo acostamento por um 500 m, quando, seguindo as flechas, adentrei à esquerda, bem em frente ao sítio Boa Vista da Fartura, prosseguindo, a partir dali, por larga e movimentada estrada de terra, onde o tráfego de caminhões era intenso.

Mais à frente, passei pela Fazenda São Caetano e, após uma hora de caminhada, próximo da Fazenda São José, entrei à direita e, então, segui uma via vicinal, muito arborizada e deserta.


Prossegui caminhando entre grandes plantações de cebola, milho e batata até que finalmente, às 8 h, passei por dentro da fazenda São Bento, onde existe uma Pousada homônima.

Numa límpida fonte de água cristalina, situada junto ao muro da propriedade, fiz uma pausa para lanche, descanso e hidratação.

Segui por mais um quilômetro e logo encontrei novamente a rodovia que seguia para São Roque da Fartura.

Prossegui, então, caminhando pelo acostamento por uns 5 quilômetros, numa cadência insossa e desassossegada.

O sol já crestava sem dó, quando encontrei o caminho procedente de Vargem Grande do Sul, local exato em que os dois ramais se unem.

E, 500 metros à frente, adentrei à direita, acessando larga e ascendente estrada de terra.

No lombo do morro me deparei com a antiga trilha do Caminho da Fé que naquele trecho, fora interditada mais abaixo pelo proprietário da fazenda, obrigando os peregrinos a perfazer uma grande volta pelo asfalto.

A partir daquele ponto já conhecia o roteiro, pois havia passado por ele em 2.004, de forma que fui vencendo com calma os aclives e depois de sobrelevar o último morro, às 10 h 45 min, atingi a rodovia que liga Águas a São Roque, no ponto de maior altimetria de todo o Caminho da Fé.


O calor se fazia insuportável àquela hora e todos os poros rorejavam o suor.

Eu obtinha momentâneo alívio molhando os cabelos, o pescoço e o peito com um pouco da água que me restava.

Então, segui pelo asfalto em brusco descenso até atingir a cidade de São Roque da Fartura.

O sol estava infernal, assim, rapidamente atravessei a pequena vila e prossegui por larga estrada de terra, minha velha conhecida.

Venci, então, empinada ladeira, até aportar à Pousada da Dona Cida, exatamente, às 12 h, com a roupa colada ao corpo pela abundante transpiração.
 
 
Conforme me explicitou o Sr. José Luiz, naquele sábado deveriam chegar ali 35 peregrinos procedentes do ramal de Mococa, de onde eu proviera.

Além desses, havia outras 12 pessoas que partiram de Tambaú, que também necessitavam de pernoite.

Como as instalações ali disponíveis eram insuficiente para abrigar a todos, ele já contactara a Pousada Peregrina de Águas de Prata e a Sra. Iracema, então, providenciaria uma condução para buscar os romeiros excedentes, afim de que lá pernoitassem.

Com o compromisso de, no domingo, pela manhã, devolvê-los ali novamente, para que pudessem trilhar a última etapa.

Enquanto tomava banho, fiz uma análise de meu caso em particular.

Sentia-me bastante cansado e sem condições de prosseguir em frente.

Também não queria onerar demais, o singelo espaço disponível para acolher os caminhantes. 

 Com Dona Cida e o Sr. José Luiz

Acrescente-se a isso, mudança de clima, prenunciando muita chuva para aquela noite e, possivelmente, para o dia seguinte. 
                



  


Assim, decisão sacramentada, almocei tranquilamente, carimbei minha credencial e depois tomei um táxi que me deixou na divisa com o estado de Minas Gerais, defronte ao portal de acesso para a cidade de Poços de Caldas.


Ali, embarquei num confortável ônibus da Viação Cometa e retornei ao meu lar com a promessa de regressar em breve, para cumprir a derradeira etapa a que me propusera, quando partira de Mococa.








Altimetria do percurso



                                                                                                                                   
AVALIAÇÃO PESSOAL: Tempo gasto: 7 h - Um percurso realmente complicado, mormente em seu trecho derradeiro, face às elevações que necessitam ser sobrepujadas. Além desses entraves, outro empecilho é a caminhada de 5 quilômetros em asfalto, num percurso perigoso, insosso, ascendente e desprovido de sombras.


 
4º dia – SÃO ROQUE DA FARTURA à ÁGUAS DA PRATA – 17 quilômetros 


Um mês depois, em outubro, numa sexta-feira à tarde, cumprindo o planejado, segui em meu carro até a cidade de Águas da Prata e me alojei na Pousada Peregrina.
 
Ali, já se encontravam hospedados outros 3 peregrinos, além de uma jornalista, que estava escrevendo uma reportagem sobre o roteiro da Fé.

Aproveitei a ocasião e mantive contato com a Sra. Iracema e, posteriormente, tive o prazer de jantar com o Sr. Almiro Grings.

Depois disso, retornei ao albergue, porque a chuva que ameaçava cair desde o início da tarde, desabou torrencialmente.

E prosseguiu, noite à dentro, a ponto de me deixar inseguro, se conseguiria cumprir minha programação para o sábado.

Ainda chovia forte quando me levantei às 4 h. Saí pontualmente às 5 h e o táxi que eu havia contratado no dia anterior me apanhou na porta da Pousada.

Depois de 18 quilômetros, sempre sob forte aguaceiro, me deixou defronte ao portal de acesso à cidade de Poços de Caldas, exatamente, no mesmo lugar onde eu embarcara para minha casa, um mês antes.

A chuva dera uma trégua, porém, persistia uma fina garoa, de forma que vesti minha capa de chuva e segui pelo asfalto em direção à São Roque da Fartura, afim de cumprir a derradeira etapa.

O trajeto todo em asfalto se encontrava deserto, silencioso e com escasso tráfego de veículos.

Calmamente segui caminhando escoteiro e depois de 10 quilômetros percorridos, às 7 h, já me encontrava defronte a casa de meus hospedeiros, o simpaticíssimo casal, Cida e José Luiz, proprietários da Pousada Cachoeira.

Eu já os havia contatado no dia anterior, avisando de minha chegada, de forma que estavam me aguardando para o saboroso café da manhã, o que ingeri com avidez, acompanhado de saboroso queijo caseiro, além de outros quitutes.

Assim, minha credencial foi novamente carimbada, e depois de calorosas despedidas, reiniciei minha jornada em direção à cidade de Águas da Prata.

Portava na ocasião, apenas uma pequena mochila, onde levava água e frutas, de forma que apesar da estrada encontrar-se barrenta e escorregadia, meu ritmo manteve-se intenso e equânime.

O dia permaneceu frio e nublado, ideal para a caminhada, de modo que fui vencendo os obstáculos já conhecidos, sem despender muito esforço físico.

A principal mudança que notei, em relação ao ano anterior, quando por ali passara no mês de abril, foi na vegetação e nos sons, pois estávamos próximo de adentrar à primavera.


   
Assim, pude visualizar muito verde, com inúmeras árvores em floração, ouvir o intermitente canto dos pássaros, apreciar o persistente deslocamento dos insetos, observar a natureza se rejuvenescendo, enfim, foi uma etapa muito rica e salutar para os meus sentidos.


Pude ver, ainda, grande extensão de campos lavrados, com sua cor característica de terra vermelha recém revolvida. 


Certamente, os agricultores se encontravam no aguardo da chuva benfazeja, para imediatamente semear o solo.

Foi, também, gratificante rever o maravilhoso Jequitibá que “reside” no quilômetro dez do roteiro.

De longe o avistei e logo reconheci sua imponência e majestade, vez que na floresta, árvore adulta desta espécie é emergente, isto é, pode ser vislumbrada bem acima das demais.

Acercando-se dele, o deslumbramento me deixou mudo, pois estava defronte à maior árvore de seu gênero naquela região, um magnífico exemplar de sua natureza selvagem.

A muitos metros de altura, altaneiro e dominante, a velha árvore abria a sua imensa copa sobre o bosque verdejante, sombreando ao seu redor.

Por sinal, em tupi-guarani, esse nome significa: gigante da floresta, o que é perfeitamente compreensível.

Quase no final da jornada, pude perceber pequena modificação no roteiro em relação àquele de 2.005, pois, ao invés de seguir à esquerda, junto a espesso bosque, acessei uma agradável estrada em terra, em meio a extenso cafezal e, sempre em pronunciada descida, aportei em Aguas da Prata, exatamente, às 11 h 30 min.

Rapidamente, então, me dirigi à Pousada Peregrina, tomei um banho, carimbei minha credencial, despedi-me do Sr. Cláudio e do Almiro que ali se encontravam reunidos à trabalho, e, em seguida, retornei ao meu lar, a tempo de almoçar com a família.


AVALIAÇÃO PESSOAL: Tempo gasto: 4 h - Sem dúvida nenhuma, a etapa mais tranqüila e de menor quilometragem, entre todas que concluí. Trata-se de um percurso fácil e agradável, quase sempre em descenso, que oferece belas paisagens, um colírio para os olhos, conjugado com muito verde em praticamente toda a sua extensão.


EPÍLOGO

                                                                                                                                                                 

   

Com o Sr. Claudio e o Sr. Almiro Grings


Ao encerrar o Ramal Norte, foi possível vivenciar em meu interior um sentimento de intensa alegria e júbilo por mais essa vitória, ainda que parcial.

É certo que essa realização somente foi possível, porque Nossa Senhora Aparecida abençoou meu sonho, permitindo que ele se tornasse real.

Afinal, durante quatro dias, nutri uma saudável e metronômica rotina de peregrino, qual seja caminhar, desfazer mochila, lavar roupas, curar dores, além de conhecer pessoas e lugares por onde dificilmente transitaria, não fosse o roteiro do Caminho da Fé a me incentivar nessa amistosa porfia.

Certamente outros desafios serão intentados, pois existem novos ramais a serem devassados, outras rotas a serem percorridas, vez que todo “Caminho” é uma excelente escola para se exercitar a paciência e a fraternidade, bem como aspirar conquistas e realizações.

E, para merecê-las, imprescindível ter audácia, disciplina, pertinência e disposição.

Por derradeiro, um pensamento que sempre norteou minhas peregrinações:

“A coragem é a maior de todas as virtudes humanas, pois torna as outras possíveis.” (Winston Churchill)

Bom Caminho a todos!


Março/2.010