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Sétima Etapa

CRISÓLIA (OURO FINO-MG) à BORDA DA MATA (MG) – 36 quilômetros


Após uma ótima noite de sono, acordei às 4 h, plenamente restabelecido da jornada anterior. 

Assim, após ingerir farto café da manhã, gentilmente preparado por Dona Adelaide, parti às 5 h, no escuro, lanterna na mão, sob um céu coalhado de estrelas, em direção ao meu objetivo.

Após deixar Crisólia, segui por uma estrada larga e bem conservada, plana em quase toda a sua extensão, o que me propiciou uma caminhada tranqüila e sem percalços. 

Exatamente, às 6 h, adentrava em área urbana, instante esse em que o dia começava a clarear.

Logo depois, às 6 h 15 m, parei para fotografar e admirar o gigantesco monumento erigido em homenagem à música “Menino da Porteira”, composição de Teddy Vieira, inicialmente cantada por Luizinho e Limeira, mais tarde imortalizada nas vozes de Tonico e Tinoco, que tornou Ouro Fino famosa no Brasil todo.

A estátua de 10 m de altura, por 16 m de largura, impressiona pelo seu tamanho, e está localizada no trevo principal da rodovia MG 290. 

Nunca é demais relembrar, que a não menos famosa música “Chico Mineiro”, também, tem seu desfecho fatal, numa “Festa do Divino Espírito Santo”, ocorrida nesta mesma cidade.

Integrante do Circuito das Malhas, Ouro Fino surgiu com a descoberta de ouro e, mais tarde, a cafeicultura tornou-se a principal fonte de subsistência dos moradores.

A Igreja Matriz, o Museu de Arte Sacra, os casarões centenários, a Casa Café-com-Leite e a mega escultura do Menino da Porteira, além de matas, montanhas e cachoeiras, são algumas das atrações que a cidade reúne em mais de 250 anos de história. 

Conta atualmente com 29.000 habitantes e está situada numa altitude média de 900 metros.

Seguindo as flechas, próximo ao Centro de Artesanato e Turismo, pude carimbar minha credencial na Pousada Arco-Íris. 

Em seguida, passei pela praça principal da urbe e, concomitantemente, à sua Igreja Matriz, que é dedicada a São Francisco de Paula. Depois, desci inclinada ladeira de paralelepípedos e prossegui por ruas secundárias até acessar uma silenciosa estradinha de terra.

O caminho sombreado e bastante largo conduziu-me em meio a bosques de eucaliptos e outras árvores, em suave descenso, rodeado por bucólicos cenários de belezas indescritíveis.

Foi, sem dúvida, o trecho mais fácil e agradável que trilhei e, às 8 h, após transpor a ponte sobre o rio Mogi Guaçu, cheguei à cidade de Inconfidentes.

Esse Município, com 6.500 habitantes, situa-se numa altitude de 750 metros, e é repleto de atrações naturais. 

A cidade é conhecida, também, como a “terra do crochê e do alho”. Sua Igreja Matriz tem como padroeiro São Geraldo Magela.

Parei no Bar do Maurão para carimbar minha credencial e me senti em casa. Mauro Bertachin, o proprietário do estabelecimento, é uma pessoa incrível e bonachona, com um profundo conhecimento sobre o Caminho, pois já foi por 16 vezes, como romeiro, caminhando até Aparecida.

Inclusive, escreveu um relato divertido sobre suas incríveis aventuras, que foi impresso e encadernado em forma de livro, o qual me mostrou orgulhoso. 

Conversamos por um bom tempo, assessorados por sua esposa Dalva, e ele, alegremente, declinou-me inúmeros “causos” singulares e hilariantes envolvendo os peregrinos que por ali passaram.

Deixei a cidade, caminhando pelo acostamento da rodovia que liga Inconfidentes à Pouso Alegre. 

Depois de uns três quilômetros sob um sol ardente, finalmente, entrei à esquerda, numa via vicinal de terra, larga e arborizada. 

A estrada por onde segui estava bastante movimentada, com intenso tráfego de veículos, além de conter em suas margens, inúmeras residências e alguns bares.

Seis quilômetros depois, passei defronte ao Albergue Águas Livres, mas não entrei para carimbar minha credencial, porque o portão da chácara se encontrava fechado com um cadeado, e o silêncio naquele lugar me fez deduzir que não havia ninguém ali no momento.

O Caminho, a partir dali, é bastante agradável e solitário, com muitas árvores, alguns cafezais, e enormes fazendas de gado leiteiro. Uma hora depois calculei ter vencido metade de minha jornada, ao ultrapassar, ainda que simbolicamente, o quilômetro 200 de minha peregrinação.

A garrafa onde carregava água encontrava-se quase vazia, e com o sol no zênite, comecei a me preocupar.                

Todavia, logo à frente tive uma agradável surpresa ao encontrar, num local arborizado, uma bica d’água, com uma torneira jorrando.

Uma placa indicativa, ao lado, explicava: “Água potável, gentileza do Sr. Joaquim”. 

O líquido transparente e gelado proporcionou-me dessedentar com avidez. Aproveitei, também, para tomar um “mini” banho, molhando cabeça, pescoço e braços.

O Sr. Joaquim Moreira mora numa chácara em frente ao local, e foi quem construiu a “fonte” naquele aprazível lugar. 

Não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, porém, soube posteriormente pelo Sr. Almiro Grings, que ele, além de grande benfeitor é, também, um dos maiores aficionados do Caminho da Fé.

A oportuna pausa forneceu-me providencial energia, porque mais à frente, enfrentei empinada e ríspida subida. Ao atingir o topo, pude avistar ao longe a cidade de Borda da Mata, meu objetivo naquele dia.

Já descendo pelo outro lado da encosta, por volta das 12 h, encontrei dois trabalhadores rurais, enxadas nos ombros, que retornavam do trabalho, porque era sábado, dia de meio expediente.

Especularam-me sobre a aventura peregrina, contaram sobre o labor diário do homem do campo, depois, simpaticamente, desejaram-me boa sorte na “viagem”.

Enfrentei, então, brusca descida, e ao final desta, depois de leve ascensão e mais uma grande subida, adentrei a zona urbana da cidade, trilhando em meio a pequenas chácaras e sofisticadas construções. Após atravessar uma larga avenida asfaltada, segui por uma rua secundária até o Hotel Village, onde me hospedei, exatamente, às 14 h.


Deixando Inconfidentes e adentrando à 
Borda da Mata

A cidade de Borda da Mata, atualmente com 16.000 habitantes, é também conhecida como a “Capital Nacional do Pijama”, desde que há 10 anos deixou de ser uma cidade prioritariamente agropecuária e voltou sua economia para a produção desse vestuário.

Hoje uma grande responsável pela geração de empregos e renda no Município, ao lado dos teares, malharias, artesanatos em madeira e decoração. 

Outro atrativo é a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, uma das mais belas que conheci em todo o trajeto.

Tive muita sorte naquele sábado, pois logo depois que acomodei nos aposentos a mim destinados, o tempo mudou bruscamente e, logo em seguida, desabou pesado temporal que se prolongou por mais de hora, o que me obrigou a lançar mão da capa de chuva, quando saí para me alimentar.

O Restaurante San Diego só abre aos sábados para almoço, e fecha às 14 h, todavia, graças a um telefonema do Sr. Carlos, gerente do Hotel, o proprietário, cavalheirescamente, mesmo com as portas já cerradas, aguardou-me por meia hora, servindo-me farta e deliciosa refeição.

À noite assisti missa na igreja matriz, e durante a cerimônia pude ver o ardor e a religiosidade com que a população local expressa sua devoção a Nossa Senhora. Foi uma manifestação de fé externada de forma tão veemente, que ao final da celebração, senti-me profundamente comovido e abençoado.

AVALIAÇÃO PESSOAL:

Uma etapa muito agradável, uma das mais belas de todo o trajeto, todavia, um tanto extensa e cansativa no final, porque deixa o peregrino exaurido nos últimos quilômetros face à sucessão interminável de aclives e declives, exatamente quando ele já se encontra desgastado pela longa jornada cumprida.

Subpáginas (1): Oitava Etapa