Dicas

ALGUNS CONSELHOS E DICAS   



  1. Em todos os locais de pernoite são disponibilizadas roupas de cama e toalhas de banho, assim, desnecessário carregar o saco de dormir e acessórios afins. Indubitavelmente, um grande facilitador na caminhada, pois, desta forma, resta minimizado consideravelmente o peso da mochila. Entretanto, para as pessoas sensíveis ou alérgicas à poeira e mofo, talvez seja interessante levar uma fronha pessoal.

  2. Um bom cajado é imprescindível no Caminho, e o ideal é que seja da altura do ombro de quem vai manuseá-lo. Ele é, sem dúvida, um dos atributos do peregrino, pois facilita a locomoção e o equilíbrio em terrenos acidentados, bem como ajuda a determinar o ritmo da caminhada em terrenos planos e regulares, tornando-a mais agradável. E, ainda, atua como instrumento de autodefesa para, quando necessário, espantar algum animal na trilha.
  3. É aconselhável não fazer as etapas sozinho, pois o risco de imprevistos e acidentes é inerente, além do que, unir-se às pessoas com a mesma intenção, propicia uma peregrinação mais segura e enriquecedora.
  4. O peregrino deve ter em mente que, face o traçado da Rota ser basicamente de Oeste para Leste, caminhará pela manhã com o sol sempre incidindo em seu rosto, e levemente à sua esquerda. Incorrendo tal situação, será de bom alvitre reconferir o percurso à busca de flechas indicativas, pois poderá, eventualmente, estar seguindo em direção incorreta. 
  5. Um bom preparo físico é muito recomendável, eis que as etapas a serem cumpridas são quase sempre ásperas e desgastantes.

  6. Inicie sua caminhada diária de forma suave e pausada. Fatores como idade alimentação, peso corporal, peso da mochila, etc., precisam ser avaliados. Nos primeiros dias procure não caminhar muito rápido. Acelerando o passo, tente manter uma marcha contínua e ritmada entre uma parada e outra. Vá aos poucos aumentando a distância. 
  7. É aconselhável uma parada de descanso de pelo menos 10 minutos, ou mais, a cada uma ou duas horas. Sombras de árvores, fontes, margens de rios, são excelentes lugares para recuperar a energia despendida. Este período, quando respeitado, trará como resultado uma boa recuperação. Tire o calçado, sente-se ao chão, deixe seu pé ao vento para respirar, coloque-os para cima, e aproveite para desfrutar a paisagem ao redor, etc. 

  8. Apóie por completo a planta do pé no chão, mesmo que uma bolha atrapalhe esse procedimento. Não pise torto, certamente será pior. Sobrecarregar demasiadamente determinadas regiões da planta dos pés, facilita a ocorrência de tendinites e outros problemas de ordem física.  
  9. Em terreno plano, siga seu passo normal pisando com firmeza. Nas subidas não deixe a mochila muito apertada para que sua respiração possa fluir com naturalidade. Seus passos certamente serão mais curtos, mas exageros podem tornar o trecho mais cansativo do que realmente é. 

  10. Cuidado com as descidas. Existe um ditado popular que diz: "prá baixo todo santo ajuda". Para longas caminhadas essa máxima não vale. É justamente na descida que você estará mais propenso a sofrer algum tipo de queda ou torção. O andar torna-se mais rápido e os passos mais longos, o que significa que a atenção precisa ser redobrada. Apóie primeiro o calcanhar no chão e nunca a parte da frente do pé. Assegure-se de que sua mochila está bem presa na cintura para que seus ombros não fiquem sobrecarregados.

  11. Ao caminhar com alguém que tenha o passo mais ou menos rápido, que o seu, jamais procure acompanhá-lo. Caminhando fora do seu ritmo natural, em apenas algumas horas você estará completamente desgastado. Ao invés disso, marque lugares específicos para reencontrar seus companheiros ao longo do Caminho.  
  12. Desnecessário beber água em exagero. Para manter-se bem hidratado, é recomendável ingerir o equivalente a dois copos de água a cada hora, durante o dia. Primordialmente, recomenda-se a ingestão de um copo, 10 minutos antes de iniciar a jornada. Durante o trajeto beba o equivalente a um copo, a cada 20 minutos. No mais, evite bebida com cafeína (tipo coca-cola), pois elas provocam perda de líquido e, conseqüentemente, mais sede.

  13. Antes de iniciar sua peregrinação, corte o cabelo com máquina número 4 longa, assim ele não cresce muito durante a jornada. Às mulheres, também é recomendável cabelos curtos, bem como deixar de ir ao pedicuro uns 15 dias antes de iniciar a caminhada, objetivando engrossar e fortalecer a pele dos pés, como forma de prevenir o aparecimento de bolhas.
  14. Importante fazer uma revisão odontológica antes de iniciar o seu caminho, pois qualquer incidente pode incomodar o futuro peregrino em sua caminhada.

  15. Não esquecer de levar protetor solar e hidratante, com proteção mínima, de preferência o FPS 40. Eles são indispensáveis, em qualquer época do ano. 
  16. É importante comer uma banana por dia, pois essa fruta contém alto teor de potássio. Quando comprar laranjas para levar, descasque-as, pois assim você eliminará algum peso para carregar na trilha.

  17. Nas subidas, caminhe no sentido obliquo (cruzado), de uma ponta a outra. Assim a caminhada se tornará menos cansativa.
  18. No verão, evite as horas de maior calor, iniciando sua caminhada o mais cedo possível. 
  19. Não desanime, mesmo que surja algum problema. Dificuldades fazem parte do seu roteiro.

  20. As mágicas lições do Caminho estão nas pequenas coisas. Olhe a natureza com o coração.
  21. O segredo da velocidade do caminho é a constância. Dê passadas confortáveis e regulares.

  22. Caminhe rápido enquanto puder. Caminhe lentamente quando for preciso, mas, haja o que houver, não desista.

  23. O Caminho lhe dá a oportunidade de sentir verdadeiramente a natureza, você é acordado pelo sol e não pelo relógio. Come quando sente fome, e não em horários pré-determinados. Caminha o tanto que o corpo deixa e dorme quando e onde pode.

  24. É conveniente estar preparado para entrar em contato com o calor, o frio, a chuva, a neblina, a lama, o vento. Todos esses tipos de situações podem ocorrer num Caminho com uma extensão de 400 quilômetros.

  25. Quando estiver caminhando, ao sentir qualquer dor ou sensibilidade demasiada em algum lugar específico, pare imediatamente e verifique a causa.

  26. O objetivo maior do Caminho talvez não seja a chegada, mas o próprio caminhar. O que torna alguém um peregrino, não é o simples deslocamento geográfico até um Santuário, mas o aprendizado com as infinitas pequenas coisas que completam o seu dia-a-dia.

  27. Nunca, mas nunca mesmo, deixe lixo no percurso pelas trilhas. Isso inclui pedaços de papel, embalagens de comida, latas vazias, garrafas e tudo o mais que você possa imaginar. Mantenha limpo o próprio Caminho e a natureza que o rodeia.

  28. Olhe bem onde está colocando seus pés. Um passo mal dado pode ocasionar uma queda ou lesão que obrigue abandonar sua jornada, sobretudo quando enfrentar terrenos acidentados, com desníveis e pedras soltas.

  29. É oportuno carregar na mochila material de primeiros socorros. Nele, incluir pomada antialérgica e para queimaduras, como prevenção a eventuais picadas de vespas, abelhas, taturanas, e outros insetos.

  30. Recomenda-se, não caminhar em excesso. Até o criador descansou no sétimo dia. Não há porque não fazê-lo também. Exagerar na quilometragem pode surtir um efeito desfavorável, deixando-o cansado, irritado, sem entusiasmo e com dores, culminando por afastá-lo de seus objetivos.

  31. O caminhante deve carregar em seu coração uma intenção prescípua, como agradecer ou pedir algo a Nossa Senhora Aparecida, pois isto muito lhe servirá como amparo espiritual durante o percurso.

  32. É, também, muito importante estar preparado e cônscio dos infortúnios que certamente ocorrerão durante o trajeto todo, como o desconforto nos pernoites, a solidão, as bolhas, as dores, a saudade do lar, que poderão redundar, fortuitamente, em pensamentos de desistência. Nessas horas, a fé inabalável em nossa “Mãe Maria”, será providencial antídoto a essa maléfica tentação.
     

*Outras “dicas” interessantes estão disponíveis no seguinte endereço: “www.caminhodaluz.org.br/Dicas.htm”

 

IMPRESSÕES PESSOAIS

Voltar a caminhar como peregrino, desta vez em direção ao Santuário de Aparecida e sob a égide de Maria, propiciou-me vivenciar novamente a rotina nômade, típica do homem pré-histórico, e já olvidada pela geração atual.

Entretanto, ainda subsistente em nossa carga genética, com todas as suas surpresas, perigos, e superação de limites físicos e mentais. Porque a vida errante também tem seus encantos, como a sombra das árvores frondosas, o perfume das flores silvestres, o ar da montanha, o céu estrelado e outras surpresas indescritíveis.

Por tudo isso, peregrinar traduz-se numa experiência indizível e especial. Mesmo que se digam milhões de palavras acerca dessa pratica milenar, não se pode descrevê-la com exatidão, pois apresenta nuances que difere em cada ser humano.

Desse modo, faz-se necessário encará-la particularmente, para poder sentir o peso de sua profundidade, altura e extensão.

Porque há, também, momentos de extrema solidão e melancolia durante uma longa caminhada. Neles, os fantasmas interiores se assenhoreiam de nossas motivações e assombram. Nessas horas tendemos a questionar a jornada, e algumas vezes, até, somos propensos a crer na inutilidade de tão grande esforço.

Porém, existem momentos de amizade, paz, plenitude e de bem-aventurança. De profunda comunhão e integração com a natureza, companheiros peregrinos, e o povo ao longo da trilha. Podem durar horas ou frações de segundos, contudo, sempre deixam marcas indeléveis em nossa alma.

E, ao final, descobrimos que qualquer Caminho, sempre imita nossa própria vida: “Vita nostra, peregrinatio perpetua!” Nesse diapasão, vale a pena transcrever iluminado poema, correlato ao tema em questão:


 

“ATÉ O FIM”

Não, não pare,
é graça divina,
começar bem.
Graça maior,
é persistir,

na caminhada certa.

Manter o ritmo...

Mas a graça das graças,
é não desistir.
Podendo ou não podendo,
caindo, embora aos
pedaços,
chegar até o fim! 

(D. Helder Câmara)

 

 

FINALIZANDO


 Depois de percorrer o Caminho de Santiago por duas vezes (2.001 e 2.004), o Caminho do Sol em 2.002, e o Caminho das Missões em 2.003, concluir o Caminho da Fé em 2.005, prodigalizou-se, para mim, como um memorável feito, de incomensurável satisfação pessoal.

Nesse diapasão, peregrinar à Aparecida do Norte evidenciou-se, em meu interior, como uma “viagem” enriquecedora sob todos os aspectos, mormente, no plano espiritual.

Porque toda peregrinação é um ato sagrado, e todo peregrino um herói inquieto, que busca, mesmo sem saber, o centro luminoso interior, a conexão com alguma forma de divindade. 

E o que o atrai a uma romaria, na verdade, é a qualidade especial das experiências que é possível viver do decorrer da aventura.

Por isso, a jornada como benesse singular acontece em todo o percurso, e não apenas no seu ponto de chegada.  

Posto que, se partirmos depositando nossa expectativa nas eventuais gratificações que nos esperam ao atingirmos o alvo final, estaremos desatentos e perderemos a miríade de pequenas e grandes vivências que nos aguardam perfiladas ao longo do Caminho.

Nessa consonância, para auferirmos todos os beneplácitos desse roteiro, é aconselhável que ele seja cumprido sob algumas condições essenciais, qual seja: estejamos sempre com a consciência desperta, os cinco sentidos ligados, a mente aberta, e o coração puro, como das crianças.

Quando alguém costuma a agir desse modo, a vida, mesmo em seus episódios mais banais, transforma-se numa permanente e excitante viagem. E cada um de nós em peregrino da existência.

  

Bom Caminho a todos!

  

(Junho/2005)