01º dia – PORTO a VILA DO CONDE – 34 quilômetros


01º dia – PORTO a VILA DO CONDE – 34 quilômetros

E que venham novas histórias, novos sorrisos e novas amizades.




Conforme pressagiava há alguns dias a meteorologia, choveu torrencialmente durante a noite toda e quando me levantei às 4 h 30 min, o temporal seguia a pleno vapor.

Para o percurso desse dia eu tinha duas opções: a primeira era descender até o rio Douro e segui-lo até sua foz, depois, prosseguir à beira do mar.

Já o percurso sinalizado, que tem início defronte à Sé do Porto, leva o caminhante em direção ao povoado de Padrão de Légua, em seguida, transita ao lado do aeroporto, depois, segue em direção à Vila do Conde, num trajeto histórico, mas extremamente urbano em seu traçado que, em nenhum momento, transita próximo ao mar.

Como eu estava distante do início das duas opções, com meu GPS, tracei um percurso alternativo, a partir do local onde eu me hospedara, assim, às 6 h, assim que a chuva amainou, eu parti em direção à grande Rotunda da Boa Vista, localizada no coração da cidade.

Quando ali cheguei, ainda debaixo de fria garoa, observei atentamente o entorno, depois, acessei a Avenida da Boa Vista e segui adiante, num trajeto linear e, praticamente, em face do horário, todo deserto.

Sem maiores dificuldades, já que seu trajeto é retilíneo e levemente descendente, percorridos 9 quilômetros em bom ritmo, eu cheguei à beira do Oceano Atlântico, quando a persistente garoa que me acompanhava desde a partida, finalmente, cessou.

Então, próximo ao Forte de São Francisco Xavier, eu girei à direita, prossegui caminhando por um largo calçadão e logo avistei a primeira flecha amarela desse roteiro.

Sem maiores intercorrências, eu segui caminhando pelo município de Matosinhos, cuja praia é muito frequentada por surfistas.

Superada uma rotatória, mais à frente, observei uma curiosa escultura móvel, que simboliza uma rede de pesca, mais conhecida como “A Anêmora”, porém, ao final da praia, há uma outra, mais figurativa, intitulada “Tragédia do Mar”, dedicada ao desastre acontecido nesse local, em uma noite de dezembro de 1947, quando naufragaram vários barcos de pesca e morreram 152 marinheiros.

Logo à frente, por uma ponte metálica e levadiça, eu atravessei um braço de mar, que se confunde com a foz do rio Leça, onde se localiza o porto de Leixões, e adentrei ao bairro de Leça da Palmeira, também pertence a Matosinhos.

E, logo eu estava caminhando pela praia de Perafita.

O dia estava escuro e enfarruscado, mas a chuva dera uma trégua e eu pude curtir intensamente o belíssimo visual que se descortinava a minha frente.

Alguns quilômetros adiante, eu passei a caminhar sobre passarelas de madeira, situadas sobre dunas e localizadas entre o mar e a civilização, num percurso ermo, cujo silêncio somente era quebrado pelo barulho do mar agitado batendo nos rochedos.

Em determinado local, eu ultrapassei um casal de peregrinos americanos, com o qual conversei por alguns minutos, mas eles logo adentraram em um café e eu prossegui em frente.

Mais tarde, o sol apareceu e tudo ficou mais nítido e brilhante em meu solitário percurso.

Nesse pique, eu passei pelas praias da Memória, Agudela, Pedras do Corgo, Angeiras e, percorridos 23 quilômetros, eu transitei por Labruge, um bairro de Vila do Conde, com uma população de 2.300 pessoas, onde existe um concorrido albergue de peregrinos, localizado no centro da vila, a uns 900 m da orla marítima.

Uns 500 m adiante, eu encontrei um bar aberto, localizado ao lado do caminho, e aproveitei para tomar café, comprar água e carimbar minha credencial.

Ali havia um casal de peregrinos bebendo cerveja e fumando do lado externo, e eu passei ao largo e sem cumprimentá-los, evitando aspirar a venenosa fumaça que expeliam, enquanto, sofregamente, acessavam seus aparelhos celulares.

O trajeto seguiu belíssimo e nesse trecho final encontrei pessoas caminhando no sentido oposto, outras pedalando, outros mais passeando com seus cães, e alternei passarelas de madeira com calçadões de pedra, sempre à beira do mar.

Na praia de Mindelo, o caminho perpassa pelo interior de uma extensa reserva ornitológica que, ao longo do ano, alberga mais de 150 espécies de aves.

Após Labruge, eu transitei pelas povoações de Vila Chá, Louçá-Mindelo, Árvore e, quase no final, por Azurara, uma pequena vila, onde o trajeto histórico do Caminho da Costa, que também sai do Porto, se confunde com o do Mar, por onde eu seguia.

Essa faixa litorânea, por onde eu transitei, plena de grandes rochedos e extensos arrecifes, era conhecida até meados do século XX, como “A Costa Negra”, por ser a mais perigosa do país para a navegação, fato possível de ser comprovado pelas numerosas placas alusivas a tragédias de naufrágios que encontrei ao largo do meu trajeto.

No trecho final, ultrapassei, alternadamente, uns 10 peregrinos, que caminhavam pausadamente, talvez, porque fossem pernoitar no albergue de Póvoa do Varzim, que só abre após às 14 h.

Próximo ao final da jornada, por uma ponte, eu transpus a foz do rio Ave, e adentrei à cidade de Vila do Conde, onde pernoitei nesse dia.

Algumas fotos do percurso desse dia:


A primeira flecha que encontrei nesse dia. A garoa persiste..


Zimbório do Senhor do Padrão, em Matosinhos.


Placa explicativa.


Caminhando pela orla..


Uma igrejinha à beira mar, recentemente revitalizada.


Início das passarelas de madeira.


À frente, o Obelisco da praia da Memória.


Placa alusiva ao local.


As passarelas prosseguem...


Calçadão em Labruje.


Locais ermos e silenciosos.


Caminho reto e plano, a perder de vista.


Trajeto pela praia de Mindelo.


Locais belíssimos!


Uma caminhada solitária, mas, extremamente agradável.


A foz do rio Ave. Do outro lado já é Vila do Conde.

Localizada na margem Norte da foz do rio Ave, Vila do Conde é um importante centro industrial, porto de pesca e zona turística, configurando-se como um dos principais e mais procurados balneários do país.

Com 80 mil habitantes, a cidade faz parte do mesmo aglomerado urbano de Póvoa de Varzim, pois ambas estão separadas por ruas comuns.

A povoação de Vila do Conde é muito antiga, anterior à fundação de Portugal, e a primeira referência à sua instalação é do ano de 953, no livro da condessa Mumadona Dias, onde é citada como Villa de Comite.

Dom Sancho I casou-se com Dona Maria Pais, fazendo com que a vila passasse à posse dela.


Uma belíssima praça, situada em Vila do Conde.

A sua tetraneta, Dona Teresa Martins e o seu esposo Afonso Sanches, filho ilegítimo de Dom Dinís, fundaram o Real Mosteiro de Santa Clara, em 1318.

Dom Manuel I concedeu-lhe foral em 1516 e a população da vila participou ativamente dos descobrimentos portugueses, entre eles, Paulo e Francisco Faria, na viagem de Vasco da Gama à Índia.

A Praça Nova, hoje Praça Vasco da Gama, foi aberta em 1538, no reinado de Dom João III, onde foram construídos novos edifícios para os Paços do Concelho.

No século XIX, as Invasões Francesas causaram grandes danos à sua população.

Em 1987, ela foi elevada à categoria de cidade.

O Rio Ave Futebol Clube, que disputa a 1ª divisão do Campeonato Português de Futebol, tem sua sede nessa cidade.


Em primeiro plano, do lado direito, o Mosteiro de Santa Clara, em Vila do Conde.

RESUMO DO DIA - Tempo gasto, computado desde o Hotel Paulista, localizado na cidade do Porto, até o Residencial A Princesa do Ave, em Vila do Conde: 7 h.

Clima: Chuvoso, depois nublado/ensolarado, variando a temperatura entre 10 e 20 graus.

Pernoite no Residencial A Princesa do Ave: Excelente!

Almoço no Restaurante Pinhal da Vila: Excelente! - Preço: 8 Euros.


IMPRESSÃO PESSOAL: Trata-se de uma etapa de grande extensão, mas que não apresenta nenhuma dificuldade altimétrica. Possui alguns trechos em asfalto, outros sobre calçadões de pedra, porém, grande parte do percurso se dá sobre passarelas de madeira, construídas sobre as dunas, localizados entre o mar e as vilas que o margeiam. No global, um trajeto belíssimo, ermo e pleno de cenários surpreendentes.