02º dia – VILA DO CONDE a ESPOSENDE – 26 quilômetros


02º dia – VILA DO CONDE a ESPOSENDE – 26 quilômetros

O corpo alcança o que a mente acredita.




Fazia frio e ventava bastante quando às 6 h 30 min eu deixei o local de pernoite, retrocedi uns 300 m e logo me enlacei, novamente, com o roteiro do Caminho.

Inicialmente, eu caminhei 4 quilômetros por ruas e avenidas desertas, planas e profusamente iluminadas, até adentrar à progressista e bela cidade de Póvoa do Varzim, um município com quase 30 mil habitantes.

Prossegui, depois, por um calçadão situado à beira mar e logo passei diante das piscinas municipais, um edifício futurista e muito frequentado.

Do meu lado esquerdo, além da praia, observei a existência de bares, instalações para esporte na areia e ninguém se movimentando pelas imediações.

Um quilômetro adiante, já na localidade de A Ver-o-Mar, sem ocorrer mudança na paisagem, passei a transitar pela Avenida dos Pescadores.

Mil metros adiante, finalmente, passei a caminhar sobre a areia, utilizando passarelas de madeira, num trajeto ermo e silencioso, onde cruzei com algumas pessoas que faziam seu “footing” matinal.

Apenas, à guisa de informação: esses passadiços amadeirados não foram construídos visando a utilização específica de peregrinos, mas para uso comum, objetivando evitar a degradação das dunas e, consequentemente, de sua vegetação, que constituem um ecossistema protegido.

Na praia de Santo André, encontrei uma placa explicativa, orlada por inúmeras conchas em seu exterior, fincada junto ao “Caminho Beach Bar”, informando as distâncias até Santiago e à cidade do Porto, vez que muitos peregrinos também utilizam esse roteiro em sentido inverso.

Durante boa parte dessa jornada, tanto nas praias como junto às plantações agrícolas, observei estranhos montículos de detritos amarronzados que, posteriormente, soube serem de sargaços, um tipo de alga gelatinosa extraída do mar e utilizada como fertilizante.

Mais dois quilômetros percorridos, já no povoado de Aguçadoura, voltei a caminhar à beira de uma avenida, contudo, duzentos metros depois, retornei aos passadiços, em outro trajeto silencioso e deserto.

Como curiosidade, há trechos de passarelas onde as bicicletas são permitidas, contudo elas devem circular lentamente e com extrema cautela, pois os caminhantes têm a preferência.

Finalmente, percorridos 12 quilômetros, sem maiores empecilhos, meu passeio pelas praias teve fim, quando cheguei às instalações do Aguçadoura Futebol Clube, pois ali as flechas me direcionaram para o interior, onde acessei a rodovia vicinal M-501, que discorre paralela ao mar, distante uns 500 metros.

Nesse trecho, passei junto a inúmeras plantações de hortaliças, das mais variadas qualidades, desde tomatais a culturas de alcachofras e abóboras, e até extensas hortas frutícolas.

O caminho derivou à direita e logo alcancei Nicole, uma peregrina francesa, com quem segui conversando até a igreja matriz de Apúlia, onde adentramos para orações e carimbo da credencial.

O local conta com uma área de descanso sob as árvores, onde há bancos, mesas e, inclusive, sanitários.

Minha amiga preferiu ficar lanchando naquele local e eu prossegui adiante, agora por um bosque de pinheiros.

Foi um trajeto de pequena extensão, mas agradável e silencioso, até que saí na localidade de Fão, onde passei diante do santuário do Bom Jesus.

Nessa localidade nasce um ramal sinalizado, que segue em direção à cidade de São Pedro de Rates, onde se enlaça com o Caminho Português Central.

Enquanto batia fotos, conheci o Alex, um peregrino italiano com quem segui conversando até o final da jornada.

Depois de transitar pelo “casco antíguo” da pequena povoação, nós atravessamos o rio Cádavo pela ponte metálica D. Luís Felipe, construída em 1892 e, já do outro lado, passamos a caminhar por ruas e avenidas da cidade de Esposende, local onde pernoitei nesse dia.

Já o meu amigo ítalo, um policial de fronteira, após fraternas despedidas, prosseguiu em frente, pois pernoitaria no alberque de Marinhas, situado a 4 quilômetros dali, com a expectativa de nos encontrarmos nas jornadas sequentes, contudo, tanto ele quanto a Nicole, jamais revi.

Algumas fotos do percurso desse dia:


Sinalização numa rua de Vila do Conde. O dia ainda não clareou...


Caminhando por um calçadão, à beira mar, na belíssima cidade de Póvoa do Varzim.


Calçadão, ainda em Póvoa do Varzim.


Caminho vazio e silencioso. Ninguém se movimenta no horizonte..


Retornam os agradáveis passadiços de madeira.


Sinalização estilizada, situada próximo do Beach Bar.


Praia de Aguçadoura.


Nesse trecho, o caminho passa ao lado de grandes cultivos e hortas agrícolas.


Igreja de Apúlia.


Nesse trecho. um trajeto extremamente agradável e fresco.


Santuário do Bom Jesus, em Fão.


Sinalização personalizada em Fão.



Ponte sobre o rio Cádavo. Do outro lado fica Esposende.

Esposende conta atualmente com 34 mil habitantes, foi elevada à categoria de vila pelo rei D. Sebastião, em 1572, e à sede de município em 1993.

A cidade tem sido designada, na promoção turística, como um “privilégio da natureza”, visto que está confinada entre o oceano, o rio, a planície e o Monte de Faro, posto que seu território acompanha a costa atlântica ao longo de 16 quilômetros.

Sua faixa costeira está protegida pelas normas do Parque Natural do Litoral Norte, que é constituído por praias fluviais e marinhas, com recifes, dunas, pinhais, carvalhais e zonas agrícolas, além de inúmeros ribeirões que desaguam diretamente no mar.


"Monumento "Homem do Mar." Ao fundo, a igreja matriz de Esposende.

Suas terras foram um ponto de fixação desde a pré-história. Nos seus arredores foram encontrados restos de Castros e de uma Vila Romana, provavelmente, centrada em salinas.

A população medieval de 'Esposendi' vivia intimamente ligada a setores como o da pesca e o comércio marítimo e a construção naval. O Oceano Atlântico e os Rios Cávado e Neiva eram os principais fatores de riqueza e desenvolvimento da população.

No século XVI foi uma época dourada para Esposende. Como reconhecimento a seu inestimável papel durante a Época das Descobertas, D. Sebastião lhe concede o título de Vila no ano de 1572. É a partir deste século quando tem lugar algumas das mais importantes construções, incrementando a já considerada riqueza arquitetônica.

Desde o século XVII, o porto que tinha uma grande atividade em outros tempos, inicia uma queda devido à obstrução do rio Cádavo. O resultado foi a decadência dos principais setores econômicos, desaparece sua função de estaleiros e a pesca ainda que não desaparecesse, sofreu uma profunda crise.


Placa explicativa.

Esposende se vê obrigada a buscar novos recursos que sustentasse a sua economia. Sua situação, em uma das zonas mais belas do país, a Costa Verde, foi seu principal curinga. Com mais de 14 quilômetros de areais de sua costa, integrada em uma área de paisagem protegida, suas praias fluviais e paisagens em perfeita harmonia com a natureza, asseguram seu futuro como estância turística e de veraneio.

Hoje em dia sua principal fonte de riqueza é o turismo, que se viu impulsionado internacionalmente, graças a aposta pela melhora das comunicações e pela criação de modernas infraestruturas hoteleiras. Outros setores econômicos são o comércio, a pesca e a indústria. Na cidade também podemos desfrutar da boa mesa e do artesanato de um povo que segue conservando o melhor de seu caráter tradicional. 


A cidade de Esposende me encantou por sua beleza hospitalidade e limpeza.

RESUMO DO DIA - Tempo gasto, computado desde o Residencial A Princesa do Ave, em Vila do Conde, até o Hotel Zende, localizado em Esposende: 5 h.

Clima: nublado e frio, variando a temperatura entre 12 e 19 graus.

Pernoite no Hotel Zende: Excelente!

Almoço no Restaurante do próprio hotel: Espetacular! - Preço: 8 Euros.


IMPRESSÃO PESSOAL: Trata-se de uma etapa de pequena extensão, toda plana, sendo metade do trajeto situado à beira mar, de imorredoura beleza plástica, e o restante por estradas vicinais, bosques de pinheiros e trânsito por pequenas vilas. No global, um percurso belo e tranquilo, onde não encontrei grandes empecilhos, talvez, piso duro em demasia.