05º dia – A GUARDA a BAIONA – 32 quilômetros


05º dia – A GUARDA a BAIONA – 32 quilômetros

A força de dentro é maior que todos os ventos contrários.” 




Seria outra jornada de grande extensão, com um obstáculo a mais, pois havia previsão de muita chuva para esse dia, premissa que acabou se positivando.

Chovera a noite toda e quando deixei o local de pernoite, às 6 h 45 min, ainda garoava, mas as ruas, apesar de ser uma segunda-feira, estavam desertas, ventosas e integralmente molhadas.

Eu atravessei o “casco viejo” da pequena vila e logo estava caminhando junto à orla marítima, por um calçadão profusamente iluminado, onde passei diante das praias de Fedorento e Areia Grande.

Contudo, mil metros percorridos, a sinalização me encaminhou para uma senda matosa e pedregosa, situada junto ao mar que, por sinal, estava bastante agitado, no entanto, a garoa intermitente e que não dera trégua, finalmente, cessou.

Eu estava transitando por uma parte da “Ruta de las Cetárias”, um trajeto extremamente agreste, que se findou 1.100 metros depois, junto à Cetária Redonda, um grande viveiro natural de crustáceos, com diferentes espécies.

Então, enfrentei ríspido ascenso que, ao seu final, me deixou junto à rodovia PO-552, por onde segui utilizando uma ciclovia.

Percorridos 7 quilômetros sem maiores problemas, eu acessei uma estrada de terra, à esquerda, e logo transitava pela povoação de Portocelo.

Contudo, mais adiante, voltei a caminhar por uma ciclovia, alternando trilhas, à esquerda, com piso duro, fato que se repetiu inúmeras vezes.

Depois de percorrer 13 quilômetros, já na vila de Oia, eu passei diante do Monastério de Santa Maria, o único dessa ordem construído em frente ao mar, sobre um outeiro espetacular e muito fotogênico.

Fundado em meados do século XII, ele foi incorporado à Ordem de Císter, em 1185, e apresenta elementos românicos, renascentistas e barrocos.

A igreja pode ser visitada nos horários de missas, porém, segundo eu soube, o restante do edifício se encontra fechado e imerso numa batalha judicial entre seus proprietários (uma sociedade privada, que quer convertê-lo em hotel), versus a Prefeitura de Oia e a Junta da Galícia.

Seguindo adiante, eu percorri mais 4 quilômetros, por estradas de terra, situadas entre o mar e a rodovia, num trajeto extremamente silencioso e deslumbrante, mas, infelizmente, a chuva retornara em grande escala.

Percorridos 16 quilômetros, eu voltei a transitar pelo acostamento da rodovia, ainda que por uns mil metros, e nesse trecho, próximo de Serralla, eu ultrapassei um grupo de 10 “turisgrinos”, que seguia carregando minúsculas mochilas, num passo bastante comedido.

Depois de ziguezaguear, à direita e esquerda, caminhando por bairros periféricos, para evitar o trânsito pela rodovia, percorridos 19.500 m, ultrapassei o rio Mougás por uma ponte, e logo adentrava o pequeno povoado de Porto Mougás.

Ali existe o Albergue Privado Aguincheiro, uma referência nesse roteiro, onde parei para carimbar a minha credencial.

Aproveitando a estrutura local, ingeri frutas, me hidratei, fiz alongamentos, depois, retemperado, segui adiante, enquanto a chuva prosseguia, em forma de garoa, e depois, em fortes pancadas.

O trajeto sequente mesclou trilhas à beira mar com ciclovias, até que ultrapassado o Camping Mougás, percorridos 25 quilômetros, as flechas me indicaram a cruzar a rodovia, e iniciar um forte ascenso, primeiramente, por uma via asfaltada, que, mais acima, se converteu numa estrada de terra, plena de mato e pedras, nominado de Caminho da Portela.

Eu ultrapassei uma cancela e logo enfrentei um longo e duro ascenso, por um trajeto belíssimo, tendo o oceano à minha esquerda, abaixo e ao fundo.

Infelizmente, chovia muito e eu, preocupado em verificar onde colocar os pés, acabei por não fotografar esse local de impar plasticidade, com medo de danificar meu aparelho celular.

Mas, este é, sem dúvida, um dos trecho mais belos, mágicos e solitários de todo o Caminho Português da Costa, eu apenas não dei sorte nesse dia.

Nesse pequeno intermeio, eu ultrapassei, em locais diferentes, 3 casais de peregrinos, que seguiam bem mais lentos que eu, apesar de não carregarem mochilas.

No topo, a 202 m de altura, eu estava na cota do farol que eu avistava ao longe, à minha esquerda, e com o oceano ao fundo.

Depois, já no plano, eu prossegui por uma senda antiquíssima, talvez, da época romana, com piso empedrado, utilizada durante séculos, tanto para pastoreio de gado, como por mercadores em carroças, pois ainda é possível verificar a existência de distâncias específicas entre as pedras alocadas no piso, para guiar a passagem das rodas.

Depois, iniciou-se forte baixada, ainda dentro de um bosque que, ao seu final, me fez transitar pelo bairro de Cabreiro, já no povoado de Baredo.

A partir dali, por ruas tortuosas e rodovias bem sinalizadas, logo enfrentei terrível descenso e, mais adiante, adentrei em Baiona, uma cidade belíssima, minha meta para esse dia.

Nela, em março de 1493, aportou a caravela Pinta, após o descobrimento do Novo Mundo, comandada por Martín Alonso Pinzón e, em sua homenagem, foi instalada no porto uma réplica dessa nave, que pode ser visitada diariamente, ademais, todo ano se celebra esse acontecimento com uma festa medieval.

Outro fato interessante, é que antes de chegar à praia, eu passei diante da Capela de Santa Liberata, uma jovem mártir, nascida no século II, em Baiona, considerada a primeira mulher cristã a morrer crucificada; a incrível história dessa menina, suas oito irmãs gêmeas e sua babá, é digna de um filme colorido, quando se descobre, ao final, que o governador romano que ditou sua pena de morte era, sem saber, ser verdadeiro pai.

Algumas fotos do trajeto desse dia:



Trânsito agradável à beira mar.


Mar agitado, ameaça de chuva em breve...


Caminhando sobre grama.


Retorno às ciclovias..


Ciclovia localizada à beira da rodovia.


Monastério de Santa Maria, em Oia.


Restam só 165 quilômetros... Ânimo!!


Início do "Caminho da Portela."


Trecho belíssimo do "Caminho da Portela", sob muita chuva.


A baía de Baiona.


Calçadão junto à orla de Baiona.

Segundo a história, Baiona, deve-se a Diomedes de Etólia, filho do fundador de Tuí.

Quando os romanos invadiram a Península Ibérica no séc XII A.C., tentaram igualmente conquistar Baiona, mas foi impossível, devido à oposição de Viriato.

Um século depois organizou-se um exército aqui para expulsar os hermínios das Ilhas Cíes.

Foi em 1201, quando Alfonso IX de León concedeu à antiga «Erizana» o atual nome de Baiona e lhe deu privilégios para o comércio marítimo.

Baiona abandonou o vínculo com o Mosteiro de Oia e tornou-se uma das vilas costeira mais importantes da Galícia.


Igreja matriz de Baiona.

Pelo seu valor estratégico, foi atacada no séc. XIV por portugueses e ingleses, levando-a à quebra até 1425, ano que Juan II deu um novo impulso a Baiona, declarando que juntamente com a Corunha seriam os 2 únicos portos marítimos com capacidade de importar e exportar mercadorias.

Foi em 1493, que chegou ao seu porto, a Caravela Pinta, dando em primeira mão a notícia do descobrimento da América.

Em 1497 os Reis Católicos concederem vários benefícios a Baiona, ordenando à população a viver dentro das muralhas da fortaleza de Monte Boi.


O calçadão de Baiona, de outro ângulo.

No séc XVI, ela voltou a ser atacada por frotas estrangeiras, entre elas, a do pirata inglês Drake, que foi expulso pelo conde de Gondomar.

Na atualidade, é uma cidade que tem um grande apelo turístico no verão, devido a sua orla, mas ao visitar a cidade, logo se percebe que ela não se resume a apenas praias, mas também possui um belo centro histórico, uma fortaleza em ótimo estado de conservação, um passeio marítimo belíssimo, miradores incríveis, etc.

Isso tudo ainda é acrescentado a uma bela infraestrutura para receber o turismo e também ao fato de Baiona ser um dos pontos de partida/chegada para as famosas Ilhas Cíes.

População atual: 12.300 pessoas.


A Capela de Santa Liberata, em Baiona, século II.

RESUMO DO DIA - Tempo gasto, computado desde o Hotel Bruselas, em A Guarda, até o Hotel Pinzón, em Baiona: 6 h 30 min.

Clima: chuvoso, nublado, depois, chuvoso até o final, variando a temperatura entre 11 e 18 graus.

Pernoite no Hotel Pinzón: Excelente!

Almoço no Restaurante El Mosquito: Excelente! - Preço: 10 Euros.


IMPRESSÃO PESSOAL: Foi, novamente, uma etapa de grande extensão, agravada pela chuva que, a partir do 12º quilômetro não deu trégua, até o final da jornada. Mas, com trânsito por locais de rara plasticidade. Como, por exemplo, o “Caminho da Portela”, talvez o local de maior beleza que encontrei em todo o Caminho Português da Costa. No global, um trajeto de superação física porque, como de praxe, o trânsito em piso duro superou, com folga, os trechos em terra.