08º dia – PONTEVEDRA a CALDAS DE REI – 22 quilômetros


08º dia – PONTEVEDRA a CALDAS DE REI – 22 quilômetros

Transformação é praticar as coisas que o caminho nos impõe.




A jornada não seria longa e já era minha conhecida, pois eu a percorrera em 2013, de forma que parti às 7 h 30 min, ainda no escuro, seguindo em direção ao Santuário situado na Praça de La Peregrina, onde eu estivera no dia anterior.

Prosseguindo, passei pela Praça da Ferreria, depois acessei a rua Real, para chegar à Ponte do Burgo, por onde transpus o limpíssimo rio Lérez, já na parte norte da cidade.

Para minha alegria, logo o asfalto se transformou em vegetação, e o caminho voltou a ser em terra, o que mitigou o cansaço dos pés.

Sem pressa, passei por Xunqueira de Alba, depois, segui paralelo à linha férrea até Pontecabras, em seguida, cruzei as vias férreas por um túnel inferior, depois, segui em ascenso até alcançar a Igreja de Santa Maria de Alba, uma típica construção galega do século XII, em pedra de granito, carcomida pelos musgos, e situada junto a um antiquíssimo cemitério.

Nesse local, um peregrino loiro e alto, carregando enorme mochila me alcançou, cumprimentou-me e seguiu apressado, deixando-me a impressão de que faria jornada dupla, chegando a Santiago nesse mesmo dia.

Percorridos 4 quilômetros, encontrei uma placa indicando a Variante Espiritual, à esquerda, em direção ao Monastério de Armenteira, mas, conforme planejara, segui adiante, em direção a Caldas do Rei.

Prosseguindo, por um caminho rural, situado em meio a espesso bosque, passei por um lugar chamado Goxilde.

A história conta que nesse lugar o Arcebispo Xelmírez descansou com suas hostes a caminho de Compostela, depois de ter perpetrado o famoso “Pio Latrocínio” de relíquias da Catedral de Braga, em 1124.

Quatro peregrinos espanhóis lanchavam num local aberto, próximo do caminho, em ruidosa conversa, quando por ali transitei.

Logo acessei uma estrada de terra à direita, situada em meio a frondoso e fresco bosque de acácias, carvalhos e pinheiros, tendo em alguns momentos, pelo lado esquerdo, extensos vinhedos.

Nesse trecho passei pelas aldeias de Liborei e Castro, depois voltei a me embrenhar num bosque, e na sequência transpus a “Pontella”, uma bellísima “ponte medieval,” num local chamado “Pozo Negro” (sobre o Rego del Pozo Negro).

Prossegui por uma estrada solitária, bastante campestre, depois passei em Sam Mamed de Portela, onde um antigo cruzeiro me indicou o caminho a seguir.

Na sequência, transitei por Ponte Valbón e Amonisa, um local místico, onde a imagem de Santiago, afixada num cruzeiro, indica o norte, olhando em direção à cidade de Compostela.

E logo ultrapassei duas peregrinas alemãs, sendo que uma delas manquitolava dolorosamente da perna esquerda, talvez, devido a bolhas.

Depois, prossegui em ziguezague, ainda cortando extensos vinhedos, até sair mais adiante na rodovia N-550, já no povoado de A Seca, onde existe uma grande área recreativa oferecendo sua excelente estrutura para descanso aos peregrinos.

Segui mais um trecho pela rodovia N-550, depois adentrei a uma matosa senda, localizada à esquerda, que seguiu paralela à “carretera”, em meio a hortas e vinhedos, onde se cultiva a famosa uva “albarinho”, típica da região das Rias Baixas.

Dezoito quilômetros vencidos, cheguei à Briallos, uma minúscula aldeia, onde existe um bem aparelhado albergue de peregrinos, que oferece 50 camas e excelentes instalações aos caminhantes.

Já deixando o povoado, adentrei numa estrada vicinal em terra, que prosseguiu extremamente bucólica e agradável, em meio a milharais, pastos e vinhedos, e me levou, depois de 3 quilômetros, a retornar definitivamente à rodovia N-550.

E por ela, adentrei em zona urbana, transpus o rio Umia pela Ponte do Bermaña, e logo aportei em Caldas de Reis, minha meta para aquele dia.

Algumas fotos do percurso desse dia:


Ponte sobre o rio Lérez, na saída de Pontevedra.


As marcas vão caindo, passo a passo...


Bifurcação, que dá acesso à Variante Espiritual. Nessa oportunidade, eu optei por seguir em frente.


Caminho maravilhoso nesse dia...


Sinalização excelente, como nas demais etapas..


Caminho ao lado da ferrovia.


Tudo muito verde e deserto. Como eu gosto!


O caminho passa sob parreirais... pena que não havia frutas.


Trecho aberto e com sol, quase no final da jornada.


O rio Umia, que corta a cidade de Caldas de Rei.

Caldas deve seu nome a um manancial de águas termais, que nascem com temperatura oscilando entre 40 e 48 graus, e que deu origem, na época romana, ao “mansio Agua Celenae”.

Nela se cruzavam as calçadas número XIX, que vem de Braga, com a XX, conhecida por Loca Marítima, vinda pela costa, e desde então, a cidade foi um centro administrativo e religioso importante, sede episcopal na Espanha visigoda, até que o bispado transferiu-se para Iria Flávia.

Na época medieval, nobres e arcebispos viviam aqui e passavam largas temporadas para desfrutar de suas águas termais, sendo que uma das mais assíduas foi a rainha de Castilla, dona Urraca, que teve aqui seu filho, o futuro Alfonso VII, rei de Castilla e León.


Puente Romana, século XIII.

Ele nasceu numa casa-fortaleza derrubada em 1891, devido ao seu estado de deterioração, no entanto, suas pedras foram utilizadas na construção da igreja dedicada a Santo Tomás Canterbury, localizada numa das principais avenidas da cidade.

Esse Santo canonizado era um arcebispo e mártir inglês, que antes de ser assassinado, em 1170, peregrinou a Compostela e, segundo os arquivos da época, pernoitou em Caldas.

Atualmente, com 10 mil habitantes, famosa por suas águas termais, Caldas de Reis se transformou em uma vila balneária e turística.

Sua antiga Rua Real, exclusiva para pedestres, ainda conserva algumas de suas casas nobres, com seus brasões no frontispício, sendo que a Fonte de las Burgas, localizada na mesma “calle”, oferece suas instalações para banhos termais gratuitamente aos peregrinos.



A igreja matriz de Caldas de Rei.

RESUMO DO DIA - Tempo gasto, computado desde o Hotel do Comércio, em Pontevedra, até o Hotel Lotus, em Caldas de Rei: 5 h.

Clima: nublado e frio, variando a temperatura entre 13 e 20 graus.

Pernoite no Hotel Lotus: Excelente!

Almoço no Restaurante do próprio hotel: Excelente! - Preço: 9 Euros.


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada relativamente curta, tranquila e agradável, que transcorre sempre em meio a muito verde. Apesar de pequenos trechos em asfalto, a etapa é extremamente bucólica, discorrendo bastante tempo entre vinhedos e plantações de milho. No geral, um percurso fácil, aprazível e com, praticamente, nenhuma variação altimétrica.