09º dia –CALDAS DE REI a PADRÓN – 19 quilômetros


09º dia –CALDAS DE REI a PADRÓN – 19 quilômetros 

Saber o que fazer é diferente de fazer o que você sabe.” 




Seria uma jornada tranquila e com baixa quilometragem, assim, optei por sair mais tarde do que costumeiramente fazia.

Dessa forma, tranquilamente deixei o Hotel Lotus às 8 h, seguindo à esquerda, à beira da rodovia N-550.

Contudo, 500 m à frente, as flechas me direcionaram para uma estrada de terra, à direita, situada em meio a agradável e centenário bosque, composto por carvalhos e castanheiros, bastante úmido ainda naquele horário, que seguiu pelo bucólico vale do rio Bermaña.

Prossegui num ritmo confortável e, logo, ultrapassei um casal de peregrinos, que caminhava com lentidão, possivelmente, ainda se aquecendo para a jornada do dia.

Com o clima fresco, a caminhada se manteve em bom ritmo, envolvido que estava em meio de um bosque digno da lenda do Rei Artur, pelo qual ascendi, suavemente, até um cruzeiro.

O roteiro seguiu em leve aclive e , percorridos 5 quilômetros em bom ritmo, com o clima ainda frio, eu transpus a rodovia e, adentrei em Carracedo, onde o ponto alto é a igreja de Santa Maria.

Naquele horário, 9 h da manhã, observando à minha direita, pude assistir, embevecido, o nascer do sol.

Prosseguindo, trezentos metros depois, voltei a transpor a N-550, para passar em Casalderrique, um povoado interessante, onde cruzei com algumas mulheres fazendo sua caminhada matinal.

O trajeto prosseguiu silencioso e deserto, pois não avistei mais nenhum peregrino no trajeto.

Percorridos 10 quilômetros, próximo de San Miguel de Valga, eu adentrei à direita e prossegui em declive, até sair junto às margens do rio Valga, um curso d’água poderoso e encachoeirado, que antigamente emprestava sua força para mover vários moinhos.

Então, iniciou-se uma senda situada em meio a frondoso bosque, um trajeto agradabilíssimo, sem dúvida, o trecho mais belo dessa curta etapa.

Infelizmente, foram apenas 2 quilômetros, pois, no final da baixada, por uma ponte de madeira, eu transpus o riozinho, onde um marco de pedra anunciava que restavam 30.546 metros para o final de minha saga.

Já do outro lado, passei diante de uma carpintaria e, na sequência, pela igreja neoclássica de San Miguel de Valga.

Prosseguindo, o trecho sequente me levou a caminhar entre cultivos e pequenos bosques de coníferas, com vários desvios por terra e asfalto, porém muito bem sinalizados.

Nesse tramo, passei por Pedreira e Cimadevila, depois adentrei em Pontecesures, quando me restava apenas 3 quilômetros para chegar ao meu destino desse dia.

Esta cidade é uma antiquíssima e estratégica vila, pois dominava a passagem sobre o rio Ulla, facilitando a transposição da “ria de Arousa”.

Eu atravessei a cidade por ruas tortuosas, depois, na sequência, transpus o rio Ulla, por uma ponte metálica que também dá passagem a rodovia N-550.

Então, dobrei à direita, e segui beirando o rio Sar, que mais abaixo deságua no rio Ulla, e logo adentrei em Padrón, uma das vilas mais emblemáticas de toda mitologia jacobeia, onde pernoitei nesse dia.

Algumas fotos do trajeto desse dia:


Trecho inicial, espetacular!


Tudo verde e silencioso.


Um bosque "encantado"...


Finalmente, o sol raiando...


O trajeto prossegue ermo e silencioso.


Trecho junto ao rio Valga, um dos mais belos desse roteiro.


Ainda em descenso, por locais de excelsa beleza,


Cartaz em San Miguel de Valga: só restam 36.400 m até Santiago.


Tramo final, ainda bastante agradável e solitário.


Monumento localizado na entrada da cidade de Padrón.

Padrón é a origem de toda a mitologia jacobeia, porquanto, segundo a lenda, depois de uma extensa e perigosa viagem através do mar Mediterrâneo e da costa Atlântica Peninsular, a barca em os discípulos do Apóstolo transladaram seu cadáver, desde a Palestina, onde ele fora decapitado no ano 44, por ordem de Herodes Agripa, entrou pela ria de Arousa, adentrou pelo rio Sar e se deteve neste lugar.

A nau foi amarrada a uma “pedrona” (grande pedra cilíndrica) cravada na margem, na altura onde hoje está a igreja de Santiago.


O rio Sar, que corta a cidade de Padrón.

Uma vez desembarcado o sarcófago com o corpo incorrupto do Apóstolo, a comitiva se dirigiu ao Monte Libradón, atual Compostela, para lhe dar sepultura, na terra onde ele havia pregado em sua vida.

O suposto “pedrón” original se encontra debaixo do altar-mor da igreja de Santiago.

Nela há uma inscrição romana de tradução incerta, e um anagrama de Cristo gravado posteriormente.


Igreja e Convento de Carmén, em Padrón.

Desse topônimo originou o nome Padrón, localidade agradável, de ruas empedradas, e que tardiamente foi protagonizada como capital da comarca, já que a povoação primitiva se assentava em Iria Flávia, onde estava a sede episcopal visigoda, e local de confluência das calçadas romanas.

A vila parecia querer concentrar todo o granito dos caminhos, posto que eles recobrem o chão de muitas de suas ruas e, ainda, utiliza-o para edificar muros, bem como construções austeras e monumentais, como o convento de Carmen.


A famosa "Padrón" (pedrona), onde foi amarrada a nau que trouxe o corpo de Santiago.

RESUMO DO DIA - Tempo gasto, computado desde o Hotel Lotus, em Caldas do Rei, até a Pensão Cuco, em Padrón: 4 h.

Clima: nublado e frio, depois, ensolarado, variando a temperatura entre 12 e 22 graus.

Pernoite na Pensão Cuco: Excelente!

Almoço no Restaurante Mundos: Excelente! - Preço: 10 Euros.


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma etapa de pequena extensão e extremamente agradável, que discorre sempre em meio a muito verde. Nesse percurso, e antes de aportar em São Miguel de Valga, o trânsito de dois quilômetros por um precioso bosque de carvalhos e acácias, localizado às margens do rio Valga, foi um dos trechos mais bonito que encontrei em todo o Caminho Português. No global, uma etapa fácil, coroada pela chegada a Padrón, cidade mística e imperdível.