10º dia – PADRÓN a SANTIAGO DE COMPOSTELA – 25 quilômetros


10º dia – PADRÓN a SANTIAGO DE COMPOSTELA – 25 quilômetros

Enquanto você se move em direção a um sonho, o sonho se move em sua direção.




Seria a derradeira jornada e eu pretendia aportar cedo a Santiago, com tempo para abraçar o Apóstolo, receber a “Compostela”, me hospedar numa pensão e, se tempo houvesse, assistir à missa dos peregrinos, às 12 horas.

Dessa forma, resolvi sair bem cedo, como forma de agilizar minha chegada ao destino, lembrando, novamente, que como vivíamos os estertores do “Horário de Verão na Europa” o dia clarearia somente após às 8 h 30 min, isto se não estivesse nublado, o que ocorreu nessa data.

Assim, levantei às 5 h e, exatamente, às 6 h, deixei o local de pernoite, seguindo por uma calçada à beira da N-550.

A rodovia nesse trecho é bastante movimentada e, a janela do meu quarto ficava defronte para ela, então, meu sono foi algo fragmentado e improdutivo.

Mesmo assim, eu estava bastante animado, afinal, iria rever, abraçar e agradecer Santiago novamente, e mesmo sendo a 13ª vez que lá aportaria a pé, a emoção e a gratidão eram as mesmas no caminho inicial, em 2001.

Depois de um quilômetro percorrido, passei diante da Colegiata de Iria Flávia onde, conforme esperava, estava tudo silencioso e às escuras.

Logo as flechas me remeteram à esquerda, para passar pelos povoados de Rueiro, Cambelas, Anteportas, Tarrío e Vilar, porém como o dia ainda demoraria a raiar, optei, como, praticamente, todos os peregrinos que partem nesse horário matutino, em seguir diretamente pela N-550.

E, após 6 quilômetros vencidos em um bom ritmo, passei pelo Santuário de Esclavitude, um grande edifício em estilo barroco tardio, cuja construção demorou quase 3 séculos, e só se encerrou em 1886.

O Santuário está assentado sobre um pequeno outeiro e, ao seu alicerce junto à “carretera”, um par de torneiras oferece água aos peregrinos, vindas diretamente de sua fonte, considerada milagrosa pelos moradores da localidade.

Segundo uma lenda, um senhor enfermo se curou após beber a água, então, comentou com todos da vizinhança a graças recebida da Virgem, por lhe livrar da escravidão da enfermidade, de cujo nome deriva a ermida.

Após o milagre, ele fez a doação de um carro e uma parelha de bois, para que se iniciassem as obras do novo templo.

Confiante no milagre ali ocorrido, bebi do líquido abençoado, e eu ainda aproveitei para completar uma de minhas garrafas plásticas com a água que ali jorra fresquíssima, depois, prossegui em frente.

Nove quilômetros superados, observando as flechas amarelas, finalmente, eu deixei a Rodovia Nacional, para adentrar à esquerda, numa “carretera” vicinal.

Ali tomei a direção do povoado de Teo, localizado na divisa de Pazo de “O Faramello”, onde os italianos Piombino y Gambino montaram uma fábrica de papel em 1710.

A partir desse marco, eu alternei percursos em terra com outros em asfalto, sempre utilizando minha potente lanterna de mão, e como tudo estava muito bem sinalizado, não tive dúvidas em encontrar o meu rumo.

Ao suplantar pequeno outeiro, passei diante da pequena ermida de São Martinho e do famoso Cruzeiro de Francos, do século XIV, um dos mais antigos da Galícia, onde se acha entalhado um cristo gótico.

Numa colina, situada a dois quilômetros desse local, conta uma lenda da existência do castelo Castro Lupário, hoje entregue ao abandono e às ervas daninhas, onde vivia a rainha Lupa, uma personagem chave da mitologia jacobeia.

Era rainha céltica pagã nessas terras, quando os discípulos de Santiago desembarcaram com seus restos mortais em Padrón.

Tiveram que pedir permissão para proceder ao enterro, contudo como ela não estava disposta a deixar que o cristianismo criasse raiz em suas propriedades, se vingou dando-lhes um carro com dois touros selvagens, para transportar o corpo.

Para seu espanto, os bois se deixaram amarrar e se puseram em marcha, como se fossem domesticados.

Então, assombrada, ela se converteu ao catolicismo e deixou os discípulos do Apóstolo seguirem o seu caminho em busca do monte Libradón.

Na sequência, voltei a caminhar por sendas e rodovias vicinais asfaltadas para, depois, adentrar em Miladoiro, um bairro afastado de Compostela, onde passei diante da Capela de Maria Magdalena, situada em pleno centro urbano.

Num bar ali situado, entrei para tomar um café e carimbar minha credencial.

Prosseguindo, quinze quilômetros vencidos, quando o dia finalmente clareou, eu deixei a civilização, adentrei num bosque, depois, mais abaixo, fiz vários giros intermediários para fugir da Autovia Nacional e das linhas férreas para, em seguida, em leve ascenso, adentrar aos bairros periféricos de Santiago.

Nessa sequência, passei por Santomil e Amañecida, e sempre em aclive, ultrapassei uma grande rotatória, transitei diante do Hospital Clínico, depois girei à direita e, sempre em leve ascendência, segui pela Avenida Rosália de Castro.

Mais acima, transitei pela rua Alameda e a antiga Porta Fazeira, que me deixou na Rua de Franco.

E, por ela, finalmente, aportei à Praça do Obradoiro.

Cheguei!

Momento jubiloso e alegre, sem palavras para descrever, assim, depois das fotos, fui cumprir minhas obrigações enquanto católico, como abraçar o Santo, rezar em seu túmulo para, em seguida, receber mais uma Compostela.

Na sequência, me hospedei numa Pensão, tomei banho, e retornei para a missa do peregrino, realizada diariamente às 12 horas.

Depois, fui almoçar no restaurante Manolo, a autêntica “Casa do Peregrino” nessa milenar cidade.

No dia seguinte, um domingo, embarquei num trem com destino a A Coruña onde, no dia imediato, iniciaria o Caminho Inglês de Santiago.

Algumas fotos do percurso desse dia:


Transitando pelo bairro do Miladoiro.


Quase lá! Falta 6 quilômetros...


Antes de adentrar em área urbana, eu atravessei um fresco bosque nativo.


Momentos derradeiros, plenos de muito verde.


Duas peregrinas seguem à minha frente. Posteriormente, eu as ultrapassaria.


Uma bifurcação, quase na chegada. Os dois ramais voltam a se unir mais adiante.


Final de mais um Caminho! Emoção a flor da pele! Obrigado Senhor!

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada tranquila, plena de emoções e com muito verde no caminho. No geral, uma etapa com pequena alteração altimétrica, mas o prazer de estar encerrando mais uma vez o Caminho, nos deixa leves e opressos, posto que, inexoravelmente, vamos nos aproximando da Praça do Obradoiro, ponto final desta longa e recompensadora viagem. De se ressaltar que os derradeiros 10 quilômetros discorrem sobre asfalto, porém a alegria do aporte final nos faz esquecer qualquer dor, ao revés, o prazer da chegada e o abraço no Santo compensam todo o esforço despendido.