13ª etapa: CALZADILLA DE LA CUEZA à SAHAGÚN – 23 quilômetros


13ª etapa: CALZADILLA DE LA CUEZA à SAHAGÚN – 23 quilômetros

Quando me levantei às 5 horas, a intempérie se abatia bastante forte, assim me preparei sem pressa, aguardando a chuva amainar.

Desci para o hall do hostal às 6 h 30 min, porém a chuva persistia compacta.

Então, me sentei numa cadeira e fiquei aguardando o dia clarear, pois estava por demais escuro e eu poderia ter problemas com a sinalização.


Debaixo de fria garoa, dois peregrinos seguem à minha frente.

Finalmente, às 7 h a borrasca deu lugar a uma fina garoa, e enquanto eu colocava o poncho e me preparava para sair, passou um peregrino apressado, debaixo de uma grande capa de chuva preta.

Rapidamente, me posicionei uns 50 metros à sua retaguarda, segui tranquilo, e deixei com ele a tarefa de localizar as flechas amarelas.

Na verdade, nesse trecho também o Caminho está estupendamente bem sinalizado e depois de cruzar a rodovia N-120, iniciou-se um “andadero” que seguiu sempre ao lado da “carretera”, e não tivemos dificuldade em encontrar nosso rumo.

Logo reconheci o peregrino que caminhava à minha frente, pois se tratava de um francês da minha idade, e o avistava quase diariamente, desde a saída de Pamplona.

Ele caminhava em média 30/35 quilômetros por dia, assim, nossas jornadas quase sempre se sobrepunham, eu até tentava travar um diálogo quando nos encontrávamos, mas ele não entendia uma única palavra em espanhol ou inglês.

Assim, quando ele fez pequena pausa para fotografar, eu o ultrapassei, desejei-lhe um sonoro “Buen Camiño” e segui em frente.

Logo adiante, ultrapassei outro peregrino, desta vez um coreano, que seguia lentamente, vergado sob uma enorme mochila.


Chegando à Lédigos.

Seis quilômetros percorridos ainda debaixo de fria garoa, passei pela cidade de Lédigos, na realidade, um pequeno povoado, que também oferece parcos serviços ao peregrino.

Vez que, dispõe de apenas dois albergues, e dois pequenos mercadinhos.

Historicamente, sabe-se que Doña Urraca, no século XI, doou a este povoado a construção da igreja de Santiago, feita a base de tijolos de adobe (barro), que foi integralmente restaurada no século XVII.


A igreja matriz de Lédigos, sob muita chuva nesse dia.

De fato, ela é uma das poucas igrejas existentes no Caminho que possui as três representações iconográficas de Santiago, ou seja, Santiago Matamoros, Santiago Peregrino, e Santiago Apóstolo, o que deixa os habitantes e seus vizinhos orgulhosos.

Não avistei vivalma nas ruas desertas por onde caminhei, e logo o roteiro me levou à beira da rodovia novamente.

E depois de vencer leve ascensão, adentrei em Terradillos de Templários, passando na entrada da povoação por um novo albergue, que impressiona pelo se tamanho, pois mais parece uma área de serviços de um posto de combustível.

Trata-se do albergue privado Los Templários que, por 8 Euros, oferece uma variada gama de serviços ao peregrinos, inclusive uma grande piscina.

 

Caminho em direção à Terradillos de los Templários.

Terradillos dependia na antiguidade de Villalcazar de Sirga, mas o povoado era dos Templários. 

No Arroio dos Templários estava situado o seu convento, hoje inexistente.

Uma das velhas lendas do lugar conta que em Terradilllos os templários remanescentes tinham um galinheiro onde guardavam a famosa galinha dos ovos de ouro, e quando a ave morreu foi ali enterrada.


Igreja de San Pedro, em Terradillos.

No lugarejo foram construídas duas igrejas: a de San Esteban e de San Pedro, porém hoje só resta esta última.


Faustoso albergue particular, situado na entrada da cidade de Terradillos.

A cidade tem dois albergues bem confortáveis e uma “tienda” para compra de gêneros básicos.

 

Após passar por Terradillos de los Templários, o clima melhorou.

Passei rapidamente pela minúscula vila, onde só avistei 4 peregrinos preparando-se para iniciar a jornada do dia.


Extensos trigais, em todas as direções.

Já descendendo, adentrei em larga estrada de terra e por ela segui animado, pois o visual voltou a ser inspirador.


Chegando em Moratinos, minúsculo povoado.

Mais alguns quilômetros vencidos, passei pela vila de Moratinos, onde nada avistei de interessante.


Muita cerração, frio e garoa nesse trecho.

Prosseguindo, caminhei mais dois quilômetros, em alguns trechos, sob forte cerração, até passar por San Nicolás del Real Camiño.


San Nicolás, uma simpática povoação.

Este um povoado maior, onde avistei um hostal, albergue, restaurante e dois bares.

Em um deles, fiz uma pausa para ingerir um café, mas logo me arrependi, pois o preparo é feito em máquinas automáticas e o que me foi servido estava com um gosto horrível.


"Andadero" pedregoso, no caminho para Sahagún.

A partir dessa cidade, o caminho seguiu em curva à direita e logo voltei a caminhar ao lado da rodovia, por um “andadero” extremamente pedregoso, magoando sensivelmente meus doloridos pés.

A chuva voltou a cair e, sem alternativas, eu e os outros peregrinos em trânsito à minha frente, tivemos que prosseguir com nossa jornada.


Puente romana e igreja milenar, próximo de Sahagún.

Já quase no final dessa etapa, eu transpus o rio Valderabuey por uma graciosa ponte romana, e já do outro lado, passei diante da Ermida da Nossa Senhora da Ponte, uma construção do século XII, e que foi recentemente restaurada.


Puente medieval e igreja de Nossa Senhora da Ponte, século XII.

Depois de vencer pequena elevação, adentrei em zona urbana, atravessei as linhas férreas por uma passarela, e logo chegava diante da igreja de la Trinidad, onde também está localizado o albergue municipal de peregrinos de Sahagún


Ultrapassando as vias férreas, já em Sahagún.

Ali existe uma pequena praça e eu utilizei um dos bancos para pousar minha mochila e fazer um balanço de minha situação física.

Minha meta daquele dia era a cidade de El Burgo Ranero e, para atingi-la, eu ainda precisaria caminhar mais 18 quilômetros.

Mas, para dizer a verdade, me sentia cansado, indisposto e tinha os pés doloridos em razão de duas bolhas recentemente adquiridas.

Ainda por cima, a garoa persistia, e estávamos num sábado, de maneira que decidi dar um descanso às minhas pernas e aproveitar para me recompor, pois teria outra longa jornada no dia seguinte.

Isto decidido, eu rapidamente me hospedei num hostal, lavei toda a minha roupa, cuidei de minhas bolhas, depois saí para almoçar.

 

Monumento ao peregrino, localizado junto ao albergue de Sahagún.

Recapitulando, para contar mais um pouco de história, depois de passar por Moratinos e San Nicolas de Real Camiño, que quase nada oferecem ao peregrino, a próxima cidade é Sahagún, considerada uma das “grandes cidades” do Caminho (3.300 habitantes).

É conhecida como sendo a capital do “Românico pobre”, já que em suas construções se usava o barro e não pedras para a edificação de suas igrejas, a exemplo de San Tirso.

O curioso nome desta cidade, nominada Camata pelos latinos, deriva de San Facundo ou Sant Facund ou San Fagún, mártir cristão dos antigos tempos do Império Romano.

Conta-se que aqui o imperador Carlos Magno combateu os muçulmanos comandados pelo rei Aigolando.



Diz a lenda que os guerreiros francos, vitoriosos, fincaram as lanças dos soldados cristãos mortos ao lado de seus corpos caídos, "para glória do Senhor".

No dia seguinte, nesse local, às margens do rio Cea, as hastes de suas lanças haviam se tornado verdes e florescido.

O Monastério dos santos Facundo e Primitivo foi fundado no ano 872, pelos monges de Cluny, por incentivo do rei Alfonso III Magno, de Castela.

Este mosteiro sempre foi um dos mais importantes do Caminho e chegou a ser a principal abadia beneditina na Espanha, sendo que nele está sepultado o rei Alfonso VI, de Castela, um dos grandes protetores dos peregrinos.



Com jurisdição religiosa sobre toda a região, seu poder gerou também animosidades.

O mosteiro acabou em ruínas e a cidade lentamente perdeu sua antiga grandeza.

Sua entrada principal, entretanto, não foi demolida, nem mesmo quando foi construída a moderna estrada asfaltada.

As ruínas da antiga abadia, ainda imponentes sobre a entrada da cidade, formando um enorme arco de pedra sobre a estrada, são consideradas "Monumento Nacional da Espanha".



Possui 3 albergues, o mais emblemático é o de Cluny, que funciona onde era a antiga abadia da Ordem de Cluny.

Além disso, dispõe de vários hostais, restaurantes e um amplo e bem sortido comércio.

Durante a idade média fixaram residência, em Sahagún, sábios, ricos, artesãos, burgueses e artistas procedentes da Espanha muçulmana, que aqui desenvolveram a arte mudejar.



Com isso se mesclaram culturas e línguas com a convivência de mouros, judeus, franceses e castelhanos.

Existe um grande conjunto de joias arquitetônicas na cidade: as igrejas de San Tirso (sec XII) e San Lorenzo (sec XIII), ambas de estilo românico-mudéjar; as de estilo neoclássico - La Trinidad (sec XVI) e de San Juan de Sahagún (sec XVII), junto com o santuário de la Virgen Peregrina (antigo convento franciscano) e o museu das Madres Beneditinas formam um mosaico de rara beleza.



Na saída da cidade, após cruzar a ponte de Canto sobre o río Cea, construída em 1085 por ordem de Alfonso VI, há uma árvore bastante alta à direita.

Nesse local, a história situa a batalha entre Carlos Magno e o rei mouro Aigolando, com milhares de mortos, cuja lenda conta que as lanças jogadas pelos cristãos floresceram ao serem cravadas no campo.

 

Monumento ao peregrino, localizado junto ao albergue de Cluny em Sahagún.

A chuva finalmente cessou e pude dar uma volta pela cidade, a fim de fotografar alguns de seus principais monumentos e igrejas.


Com os peregrinos John e Vitória: muita alegria e descontração!

Na volta, estive no albergue de peregrinos para carimbar minha credencial, e ali reencontrei o John, um americano alegre e divertido, com quem havia conversado bastante no dia anterior, num bar em Calzadilla, visto que ele se expressava muito bem em espanhol.

Ele estava acompanhado da Vitória, uma italiana falante, e acabamos nos dirigindo a um bar, onde festejamos mais um dia no Caminho.

O clima estava bastante úmido, frio e ventoso quando retornei ao local de pernoite.

Calmamente, arrumei meus pertencentes e logo me recolhi, pois teria outro grande desafio no dia seguinte, um domingo.