14ª etapa: SAHAGÚN à MANSILLA DE LAS MULAS – 37 quilômetros


14ª etapa: SAHAGÚN à MANSILLA DE LAS MULAS – 37 quilômetros


Monumento fincado na saída de Sahagún.

Seria mais uma etapa dura e longa, de forma que levantei cedo, e deixei o local de pernoite às 6 h 30 min, seguindo por ruas frias e ventosas em direção à saída da cidade.


Caminho plano e pedregoso, logo após a saída de Sahagún.

Mais abaixo, eu transpus o rio Cea por uma belíssima ponte romana, e logo teve iniciou uma estrada pedregulhada, que seguiu retilínea e sempre à beira da rodovia.


Local da bifurcação dos roteiros.

Uns três quilômetros depois, encontrei uma bifurcação, podendo eu prosseguir pela direita, em direção à Calzada del Coto, que segue fielmente o traçado da antiga Via Trajano, uma calçada romana da qual não restam nenhum vestígios.


Eu optei por seguir à esquerda, via El Burgo Ranero.

É muito provável que seja esse o caminho original, já que em mapas do século XVII estava registrado um “caminho de peregrinos à Santiago” que vai de Sahagún a Calzadilla de los Hermanillos e daí até Mansilla de las Mulas.


O roteiro segue imutável, sempre plano e ao lado da rodovia.

Calzadilla, ainda que hoje seja um pequeno e silencioso povoado, com uns 300 habitantes, tem sua fundação muito antiga, visto que as primeiras referências escritas a seu respeito são um documento de 981, onde ela é grafada com Kalzatella.


Caminho agradável, porém, monótono e igual.

Sabia que o tramo pelo Coto seria mais longo e difícil, além de integralmente deserto, por isso resolvi seguir à esquerda e, depois de dez quilômetros percorridos em bom ritmo, passei por Bercianos.


Igreja de Nossa Senhora de Perales.

Um pouco antes de adentrar à cidade, pude visualizar e fotografar à minha esquerda, a famosa Igreja de Nossa Senhora de Perales.


O Caminho findou para este peregrino alemão, neste local.

Próximo dali, uma cruz lembra o local onde faleceu, em 1998, o peregrino alemão Mandref Kress Friedrich.

 

Bercianos, à vista.

Calzada Del Coto tem um albergue e infraestrutura básica ao peregrino que segue por este povoado para tomar a variante (calçada romana – trilha dos lobos), que desemboca em Mansillla de las Mulas.

Pouca gente fica por lá, pois ela está a somente 5 quilômetros de Sahagún.

Para aqueles que querem seguir o Caminho por uma variante alternativa, mais contemplativa e solitária, o desvio em Calzada del Coto, que vai até Mansilla de las Mulas, passa a ser doravante uma boa alternativa e com bons recursos.

O nome Bercianos provém dos primeiros povoadores que vieram da região do El Bierzo leonês.

Documentos antigos testemunham a existência da aldeia no ano 950, e nela quase todas as construções são de “adobe” (tijolos de barro), inclusive sua simples igreja.

No passado era infestada de lobos.

Conta Domingo Laffi, o seguinte episódio: “Partimos hacia Brunello (El Burgo Ranero), situado a cuatro leguas; Mas recorridas três aproximadamente, dimos con un peregrino muerto y llegaron dos lobos que comenzaron a devorar aquel cuerpo; Les hicimos huir y continuamos hacia Brunello, y llegados a la tarde, fuimos a buscar un capellán para que fuese a levantar el cadáver..."


Adentrando em Bercianos del Real Camiño.

Aqui é realizada na Quinta-Feira Santa uma cerimônia religiosa que impressiona porque nas primeiras horas da tarde, uma imagem de Cristo articulada é retirada da cruz, e lhe é extirpada a coroa de espinhos.

A imagem é introduzida em uma urna de cristal, para ser conduzida em uma procissão, seguida por seus confrades e penitentes, em um passo processional que representa Cristo morto.

Quem viu diz que é muito bonito, e toda a cerimônia transcorre sob um canto religioso em tom de lamentação.

O local tem um albergue muito bem equipado e administrado pela Associação do Caminho de Santiago de Leon.

Há um hostal e um bom restaurante, além do que, um pequeno armazém supre bem as necessidades do peregrino.

O povoado é dividido em dois “bairros : "El Barrio Arriba" (de cima) e "El Barrio Abajo" (de baixo),e ambos estão separados pela já velha conhecida "Calle Mayor", que atravessa o povoado fazendo parte do próprio Caminho.

Atualmente, em Bercianos del Real Camino foi aberto um novíssimo albergue, que a partir da temporada dos peregrinos (abril/2013), disponibilizaram 30 leitos para pernoite.

 

Depois de Bercianos, retorno ao "andadero" lateral.

Eu atravessei rapidamente a minúscula povoação e logo acessei novamente o “andadero”, que prosseguiu retilíneo e imutável, sempre à beira da rodovia.


Domingo de sol, frio e céu azul.

Alguns peregrinos se movimentavam no horizonte, naquele dia frio, de céu azul e sem nuvens.


Oba! Dois peregrinos se movimentando à minha frente.

Eu segui em ritmo constante, observando a paisagem, respirando o ar puro e, nos oito quilômetros caminhados sem pausa, ultrapassei uns 5 caminhantes, que seguiam num ritmo mais comedido.


Uma peregrina portuguesa caminha à minha frente. Porém, logo a ultrapassei.


Retão, sem fim...

Rapidamente conversei com alguns, soube de suas procedências, e depois de lhes desejar um “Bom Caminho”, prossegui em frente e às 10 horas, eu adentrei em El Burgo Ranero.


Finalmente, surge El Burgo Ranero no horizonte. 

Traduzido literalmente, o nome da cidade “Burgo Ranero” quer dizer “cidade dos sapos”, e não é muito difícil de entender porque, ao lado de boa parte do Caminho é possível ver muitos terrenos alagados.

Típica cidade do Caminho, embora pequena, oferece todos os serviços ao peregrino.


Secular cruzeiro existente na entrada da cidade.

Tem uma rua que corta a cidade inteira, e suas casas, em grande maioria, são de adobe (tijolo de barro aparente), material que foi usado para a construção do albergue municipal.

Possui outros dois albergues, hostais, dois bons restaurantes e armazéns.

Tem somente uma igreja, também de barro, muito simples, dedicada a São Pedro.


Rua principal de El Burgo Ranero. Ao fundo, sua igreja matriz.

Possui uma peculiaridade, pois, segundo os guias, por ela passam duas rotas: a do Caminho Real Francês, que procede de Sahagún, Calzada del Coto e Bercianos, atravessa a localidade de El Burgo Ranero por sua rua principal, a qual significativamente se denomina Calle Real, em direção a Mansilla de las Mulas; e o da Calzada Romana ou Via Trajana, que desde Calzada del Coto se desvia do anterior, e passa pela localidade de Calzadilla de los Hermanillos, também em direção à Mansilla de las Mulas, onde voltam a se unir.

Atualmente, pouco resta do povoado miserável, formado de cabanas de barro e cobertas com palha, como relata em suas crônicas Domenico Laffi que, aliás, empresta seu nome ao albergue. Porquanto, atualmente, o bairro da estação forma um moderno núcleo urbano.

 

Prédio da prefeitura local.

Ignorando as flechas amarelas, que fazem o peregrino dar uma grande volta, para passar defronte o albergue municipal, eu avancei diretamente por sua rua principal, passando diante da igreja matriz do povoado.


Finda a parte urbana de El Burgo Ranero, retornei ao "andadero".

Já na saída da vila, fiz uma pausa para descanso e hidratação, num banco localizado junto ao cemitério da localidade.


Um grupo de peregrinos se movimenta no horizonte.

Enquanto ali estive, passaram por mim, aproximadamente uns 30 jovens, que saíram de um bar próximo, rindo e falando alto e que, provavelmente, estariam começando a jornada do dia naquele instante, um pouco tarde é bom que se diga.


O roteiro permaneceu imutável por longo tempo..

Posteriormente, uns 4 quilômetros à frente, uma parte deles fez uma pausa numa área destinada ao descanso dos peregrinos e conversando com um deles, fiquei sabendo que eles só caminhariam aquele dia, pois eram “peregrinos” de finais de semana, e em Reliegos uma condução os aguardava, para leva-los de volta ao lar.

Esse trecho é plano, reto e de uma monotonia incrível, onde efetivamente nossos ânimos e disciplina são testados ao extremo, pois mesmo depois de muito caminhar, parece que continuamos no mesmo lugar.


Muitas flores nesse trecho, denunciando a chegada da primavera.

Eu, já preparado para esse tormento, liguei meu radinho de pilhas, e segui ouvindo músicas espanholas, enquanto lentamente superava as distâncias.


Muita concentração e paciência nesse "tramo" intermediário.

Assim, passei por vários peregrinos descansando e outros tantos, que seguiam num ritmo mais lento.


Mais flores para alegrar meu dia.

Como de praxe e norma no Caminho, a todos cumprimentei e, quando percebia que eram espanhóis, sempre trocava algumas palavras.


Esse casal caminhava rápido, mas portavam apenas uma pequena mochila, que ela carregava.

À minha direita, a Cordilheira Cantábrica com seus picos nevados prosseguia me escoltando, como fazia diariamente.


Ultrapassando a entrada para a cidade de Villarmarcos.

Vencidos, aproximadamente, uns 8 quilômetros, eu passei diante da entrada da cidade de Villarmarcos, cruzei uma estrada asfaltada e a paisagem prosseguiu imutável.


E mais "andadero" à minha frente...

Mais 4 quilômetros sofridos, agora em breve descendência, finalmente, adentrei em Reliegos, outro pequeno povoado, cuja economia sobrevive do plantio de trigo, aveia e cevada.


Finalmente, Reliegos no horizonte.

À sua entrada, existem alguns túneis cavados na rocha, local onde eram armazenados os tonéis de vinho pertencentes às antigas bodegas que ali existiam, porém, atualmente não se cultiva mais vinhedos nessa região.

Reliegos tinha na época romana a designação de Pallantia, com grande importância logística, já que ali confluíam três vias militares.

O Caminho de Santiago propriamente dito segue, indefectivelmente, pela sua Calle Real.


Adentrando à cidade de Reliegos.

É um povoado de passagem, embora tenha estrutura razoável para receber o peregrino, pois conta com um bom albergue, um armazém e dois bares que servem refeições.

Além disso, há uma modesta igreja dedicada a San Cornélio e San Cipriano.

Próximo dali, há uma jazida do paleolítico, onde foram encontradas mais de 120 exemplares históricos, sendo que do período neolítico, também foram encontradas algumas peças de sílex.


Transitando por ruas vazias e silenciosas, apesar do horário (quase 13 horas).

Mas o que pouca gente sabe é que o último meteorito caído na Espanha foi nessa cidade.

Com 8,9 quilos, ele caiu no meio da Calle Real, às 08 h 30 min, do dia 28/12/1947 – dia em que se comemora “Os Santos Inocentes”.

Em determinada rua, o caminho se abre em dois, o ramo da direita, dá uma grande volta, apenas para o peregrino transitar diante de um famoso bar.


No caminho, em direção à Mansilla. 

Como já o conhecia e não tinha intenção de perder mais tempo, imediatamente tomei o rumo da esquerda e, logo abaixo, acessei a saída da cidade que, nesse dia, estava integralmente deserta.

Infiro que face sua pequena distância de León, cidade grande e aprazível, muitas pessoas estariam lá em busca de outras atrações.

Assim que deixei a zona urbana, teve início outro belo e bem cuidado “andadero”, cercado de belas flores.


Pausa para descanso e hidratação.

Em determinado ponto, fiz uma pausa para descanso e hidratação, então me lembrei que em 2004 esse tramo era integralmente trilhado sobre o asfalto, mais uma prova do cuidado e atenção do governo espanhol para com os peregrinos.


E lá vamos nós, Mansilla já aparece no horizonte.

O calor estava forte, o sol já queimava minha epiderme, eu estava cansado, pés doendo, assim esse derradeiro trecho de 6 quilômetros foi vencido com extrema superação, tanto que aportei em Mansilla de las Mulas, manquitolando e implorando por um banho.


Monumento existente na entrada de Mansilla de las Mulas.

Rapidamente me dirigi à Pensão onde havia feito reserva e, depois das providências mais urgentes, desci para almoçar e pude, por 10 Euros, degustar um maravilhoso “menú del peregrino”, que me satisfez integralmente.


Adentrando à Mansillas, pela Porta del Castillo.

A cidade, conta atualmente com 1.600 habitantes, oferece todos os serviços que os peregrinos necessitam, como hostais, tiendas, restaurantes, e comércio em geral.

Além disso, conta com bons albergues, com destaque para o municipal, onde a hospitaleira Laura sempre recebe muito bem os peregrinos brasileiros.

Situada entre os montes leoneses e as terras de Campos, essa urbe sempre foi um grande centro comercial, que cresceu nas margens do rio Esla, e sua origem é romana.

Não tinha nenhuma importância logística, até que Fernando II ordenou sua repovoação no século XII, e a elevou a categoria de “pueblo”.

Mais tarde, ela passou a pertenceu a família dos “Enriquez”.

Ainda estão bem conservados os restos de suas muralhas medievais, com suas quatro portas, que coincidiam com os quatro pontos cardeais.

Das 4 entradas, ainda se conservam a Porta del Castillo que é a entrada do Caminho Francês na cidade, e onde está localizado o monumento ao peregrino, bem como a porta de la Concepción, que é entrada da calçada romana no povoado, sendo essa a que está em melhor estado de conservação.


Albergue de Mansilla de las Mulas.

Mansilla, em seus momentos áureos, chegou a ter 3 hospitais de peregrinos, dois conventos, e sete igrejas.

Há vestígios do monastério de San Adrián e das igrejas de San Lorenzo e de San Nicolás.

Atualmente, parte do templo de San Martín, foi transformada na Casa de Cultura e Biblioteca.

Já o convento de San Agustín, está sendo reabilitado para ser o Museu Etnográfico de León.

As igrejas que ainda se mantém abertas são as de Santa María e Nuestra Señora de Gracia.

A rota jacobeia em Mansilla se manteve como na antiguidade: se adentra pela parte sul e deixa a cidade por uma antiga ponte de pedra, localizada ao norte do município.

A antiga vila amuralhada, com traçado medieval, serve de união entre o Real Caminho Francês e a Via Trajana.

 

A hospitaleira Laura, cuidando de meus estropiados pés.

Mais tarde, após uma reconfortante soneca, fui até o albergue municipal carimbar minha credencial, e tive o prazer de rever a hospitaleira Laura, que eu havia conhecido em 2004.

Muito simpática e solícita, ao saber de minhas dores, imediatamente, mandou-me sentar numa cadeira de podologia e fez um belo trabalho de manutenção em minhas “ampolas”.

Primeiramente, drenou as bolhas infectadas, cobriu as demais ulcerações com uma pomada bactericida e cicatrizante, depois envolveu meus pés com gaze e ataduras, um trabalho de profissional competente, ao qual muito agradeci.


Laura, uma pessoa fantástica, a quem só tenho a agradecer por seu desvelo e paciência.

Quando pedi a conta ou um valor a ser doado para o refúgio, ela solicitou apenas que eu orasse à Santiago por ela.

Já na rua, tive o prazer de reencontrar Juan, o peregrino colombiano, que coxeava da perna esquerda e sentia muitas dores nos tendões.

Contou-me, então, bem desanimado, que não caminharia no dia seguinte, pois iria de ônibus à León, onde consultaria um médico, em face da gravidade de suas lesões.


Pés devidamente medicados, afinal, serão eles que me levarão à Santiago.

Ofereci-lhe anti-inflamatórios e relaxante muscular de que dispunha em minha farmácia particular, mas ele recusou dizendo que nesse mister, também estava bem suprido.

Despedimo-nos, e eu bastante animado, ainda dei um giro pelas ruas principais da simpática vila.

Mais tarde, em face do frio reinante, fui até um bar fazer singelo lanche, depois me recolhi, visto o cansaço acumulado na etapa daquele dia.