15ª etapa: MANSILLA DE LAS MULAS à LEÓN – 20 quilômetros


15ª etapa: MANSILLA DE LAS MULAS à LEÓN – 20 quilômetros


Pés preparados para a jornada do dia. Na verdade, eles se comportavam bem durante as primeiras 4/5 horas de caminhada, depois reclamavam e doíam bastante.

A jornada seria de pequena monta, se comparada com a anterior, assim, sem pressa de partir, aguardei tranquilamente o dia clarear para iniciar meu périplo.


Caminho plano e agradável, com o dia amanhecendo lentamente.

Então, após transpor o rio Esla por belíssima ponte romana, logo acessei uma larga e bem cuidada estrada de terra, localizada ao lado da rodovia N-120, e por ela segui confortável e alegre, enquanto, à minha retaguarda, lentamente, o dia clareava.


O sol dando o ar da graça, à minha retaguarda.

E meia hora depois, cruzava o minúsculo povoado de Villamoros de Mansilla, onde, naturalmente, encontrei tudo fechado.


Adentrando em Villamoros de Mansilla.

Prosseguindo, após caminhar mais dois quilômetros, num trajeto agradável e silencioso, passei por Puente de Villarente, uma pequena vila, que oferece todo tipo de serviço que o peregrino necessita.


O caminho prosseguiu bucólico e agradável, apesar do barulho dos automóveis.

Ali, visando o conforto e a segurança do peregrino, fizeram um desvio à esquerda e construíram uma moderna ponte de madeira, pela qual eu transpus o rio Porma.


Área de descanso em Puente de Villarente.

E, enquanto nela transitava, podia admirar, à minha direita, uma enorme ponte medieval ainda perfeitamente conservada, sobre a qual discorre a movimentada rodovia N-120.


Ponte exclusiva para pedestres, sobre o rio Porma.

Esta ponte dá nome à localidade pela qual eu passara anteriormente, e suas origens data do período romano, ainda que nada mais se conserve daquela época, já que teve de ser reconstruída em numerosas ocasiões ao longo de sua história, em face de enchentes, sendo ainda submetida a sucessivas ampliações.


Belíssima ponte medieval.

Edificada em pedra lavrada, ela possui atualmente 16 “ojos”, com um núcleo central composto de 4 magníficos arcos, os únicos que datam da época medieval.


Caminho agradável e seguro para os peregrinos, situado ao lado da magnífica Puente medieval.

É um dos grandes ícones do Caminho Francês e passagem obrigatória dos peregrinos.


Percurso feito ao lado da movimentada rodovia N-120.

Então, subi umas escadarias, atravessei a rodovia, e passei a caminhar por um calçadão, enquanto cruzava extensa zona urbana, num trajeto barulhento e insípido, vez que buzina de carro não combina com peregrinação.


Agradável caminho em terra, arejado e silencioso. Meus pés agradeceram!

Mais adiante, por obra divina, uma flecha me intimou a adentrar à direita, numa larga estrada de terra, por onde já transitavam vários peregrinos.


O roteiro prosseguiu bucólico e fresco.

Sem muito esforço, passei pela pequena vila de Arcahueja e, após fazer um desvio à direita, ultrapassei novamente a rodovia N-120, desta vez por uma imensa e moderna passarela de aço, pintada de azul.


Uma peregrina alemã me ultrapassou e seguiu à minha frente.

Na sequência, por ruas vicinais e de pouco trânsito, passei a descender já em zona urbana e, próximo do leito do rio Tório, numa grande praça, fui recepcionados por agentes de proteção civil que, além de oferecer um “sello” em minha credencial, ainda me proveram de um mapa e informações de como acessar o centro da urbe.


Passarela sobre a rodovia N-120, para segurança dos peregrinos.

De qualquer maneira, as ruas da cidade estão impecavelmente sinalizadas por flechas amarelas e pequenas conchas que estão incrustadas no solo citatino, de maneira que não tive qualquer dificuldade para chegar defronte à soberba Catedral de León.


Belíssima Catedral de León!

Fiz ali apenas algumas fotos e posterguei a visita para ser feita à tarde, com mais tempo e tranquilidade.

Assim, logo me hospedei num hotel localizado junto ao centro da urbe e, mais tarde, após banho e promover uma cuidadosa assepsia em meus pés, saí para almoçar.

 

Vencidos 503 quilômetros, finalmente em León.

Saindo de Mansilla de las Mulas existem alguns povoados como Villamoros de Mansilla, Puente de Villarente, Arcahueja, e Valdelafuente, que muito pouco se oferece ao peregrino.

Exceto em Puente de Villarente, onde há albergue e hostal, o objetivo do peregrino é chegar a León.


A Catedral tem suas portas orientadas em direção à Jerusalém.

Há mais de dois mil anos, em 79 a.C, na confluência dos rios Bernesga e Torio, situava-se o acampamento militar dos legionários romanos pertencentes à Legio VIIa Gemina Pia Felix.

Ao redor do acampamento, o centro urbano foi crescendo ao longo dos séculos e, derivado de “legionis”, nasceu seu nome: León.

A região tornou-se subitamente despovoada com as invasões muçulmanas, porém, com a Reconquista, o rei Ordoño I, repovoou a região, e no ano 914, o rei Ordoño II elevou a cidade a capital do reino de León.


Basílica de San Isidoro.

Apesar da rivalidade com o reino vizinho de Castela, pois "León teve vinte e quatro reis, antes que Castela tivesse leis", os dois reinos se uniram definitivamente, em 1230.

Sobre os restos de um templo romano dedicado ao deus Mercúrio, ergueu-se a antiga igreja de Santo Antônio, que depois se converteu no “Panteón” Real.

Esta construção está unida à milenar abadia, conhecida como Real Basílica de San Isidoro.


Início do Caminho de San Salvador, em León, roteiro que percorri em 2012.

Neste local estão sepultados trinta e cinco reis, rainhas e infantes, e para lá foram levados também, há mil anos, os restos de São Isidoro, trazidos de Sevilha, em 1063, por iniciativa do rei Fernando I.

Em 1161 foi fundada em León a Ordem dos Cavaleiros de Santiago de la Espada, e o mosteiro de São Marcos, cuja construção iniciou-se em 1513, foi sede da Ordem, e seus cavaleiros tinham a missão de cuidar do Caminho de Santiago e defender os viajantes.

Em sua fachada, sobre a porta principal, há uma imponente escultura de Santiago Matamoros.


Parador San Marcos.

Posteriormente, o mosteiro transformou-se em um Hospital de peregrinos, e hoje transformou-se num luxuoso hotel cinco estrelas.

A cidade possuía na época medieval pelo menos dezesseis hospitais, o que demonstra a importância que era dada aos peregrinos.


Jardins floridos e praças bem cuidadas, uma característica das cidades espanholas.

Esta é uma daquelas cidades que merece uma atenção toda especial porque há muito a ser visto, e passear pelo seu “casco viejo”, é voltar no tempo.

Assim, visitar as antigas muralhas, com suas portas monumentais, o Palácio de Guzmanes, a casa de Botinez (do arquiteto Gaudi), o casarão de los Quiñonez, a igreja de Santa Maria, a Plaza Mayor, o museu de León, a igreja de San Isidoro e, é claro a Catedral de León, tornou-se quase obrigatório.


Defronte o Parador San Marcos, em León, no monumento ao peregrino.

É dispensável falar da estrutura que León oferece ao peregrino, porquanto nela se encontra de tudo.

Mas é quase uma unanimidade participar das “vísperas”, que ocorrem diariamente no monastério das monjas beneditinas (carbajallas), junto ao albergue, onde são entoados cânticos gregorianos e realizada uma benção especial aos peregrinos.

 

Escultura localizada num grande parque de León.

À tarde, depois de realizar uma grande faxina em minha mochila, eliminando itens que não mais iria utilizar, saí para passear pela urbe e, primeiramente, fui até a Basílica de Santo Isidro, onde passei um bom tempo em orações.

Depois, segui até o Parador São Marcos, para visitar o monumento peregrino, fazer fotos do entorno, bem como conferir por onde deixaria a cidade na manhã seguinte, pois queria partir bem cedo.

E, sorumbático, passeando pelas velhas ruas embebidas do passado, cheguei à conclusão de que o tempo não passara, mas os homens que fizeram aquelas maravilhas, transformadas hoje em lembranças e algumas ruínas, é que passaram.


Castelo de Gaudi, uma das atrações da cidade de León.

Eu também estava passando; de tudo ficaria apenas a lembrança do roçar de meus pés pelas pedras milenárias, assim como os pés de milhões de pessoas que haviam ajudado a desgastá-las.

Emocionado, fotografei o que foi possível com minha câmera, mas, o mais importante, com meu coração.

Posteriormente, retornei para uma visita demorada na Catedral da cidade, local onde já estivera em 2001 e 2004, mas que merece ser revisto sempre, bela beleza de suas naves e vitrais.

Na sequência, me provi de víveres para o jantar e a jornada seguinte, depois me recolhi, pois ventava forte e fazia um frio de doer.