16ª etapa: LEÓN à HOSPITAL DE ÓRBIGOS – 32 quilômetros


16ª etapa: LEÓN à HOSPITAL DE ÓRBIGOS – 32 quilômetros


Conchas incrustadas no piso, para guiar o peregrino na cidade de León.

Para deixar a cidade de León, eu precisaria vencer sua longa zona urbana, assim, deixei o local de pernoite ainda no escuro, quando meu relógio marcava 6 h 15 min.


Monumento ao peregrino, situado próximo ao Parador São Marcos.

Logo passei diante do Parador São Marcos e, mais abaixo, transpus o belo rio Bernesga pela medieval “Puente de San Marcos”.


Transitando pela área industrial de León.

Na sequência, observando a sinalização, acessei a retilínea Avenida de Quevedo e por ela segui confiante e tranquilo, transpondo ruas vazias e silenciosas, até atravessar a localidade de Trobajo Del Camino que, na verdade, é um bairro de León.


Chegando à La Virgen Del Camiño.

E após transitar por um polígono industrial, vencidos 7 quilômetros em bom ritmo, passei por La Virgen Del Camiño, um povoado que nasceu em torno de um santuário mariano, erigido em louvor à Patrona de León.

Tal edificação ocorreu no local que em maio de 1505, o pastor Alvar Simón teve um encontro com a Virgem Maria.


Santuário de La Virgen Del Camiño.

Domenico Laffi, viu como se processou a construção desse templo e deixou tal evento registrado em seu guia/diário.


Parte frontal do Santuário.

Posteriormente, naquele lugar, se levantou, em princípios dos anos sessenta, um novo Santuário de controvertido gosto estético, onde se destacam as treze estilizadas figuras dos apóstolos e da Virgem, que o escultor Josep Maria Subirachs fundiu em bronze.

Nessa movimentada povoação há inúmeros albergues, hostais, bares e intenso comércio.


Aqui ocorre a bifurcação dos caminhos: à esquerda, segue para Villar de Mazarife.

Observando cuidadosamente as flechas amarelas e o fluxo de veículos, eu atravessei a rodovia e, já do outro lado, finalmente, acessei um caminho de terra que logo se bifurcou: se eu seguisse à esquerda, faria um roteiro mais longo, porém teria maior silencio e bucolismo, e passaria, no final do trajeto por Chozas de Abajo e Villar de Mazarife.

Porém, como não detinha maiores informações desse ramal, optei por seguir adiante e logo precisei envidar largo contorno para me livrar de um enorme cruzamento de rodovias que ocorre nesse trecho.


Eu optei por seguir em direção à Villadangos del Páramo.

Contudo, embora complicado, esse trajeto está bem sinalizado e, depois de uns 3 acidentados quilômetros, retornei a caminhar por um “andadero” localizado à beira da rodovia N-120.


À frente, o povoado de San Miguel del Camiño.

E logo passei por Valverde de la Virgen, minúsculo povoado que não oferece nenhum tipo de serviço ao caminhante.

Prosseguindo, mais dois quilômetros vencidos, transitei por San Miguel del Camiño, este sim um povoado maior, onde existem vários bares, restaurantes, além de uma grande e sortida padaria.

Finalmente, o caminho se afastou da rodovia e se tornou bucólico e silencioso.

Mas, eu estava bem alimentado e, após ultrapassar a zona urbana, adentrei numa larga e plana estrada de terra.

Fiz ali, então, uma pausa para me hidratar e ingerir uma banana.

Na sequência, enfrentei mais cinco quilômetros agradáveis, transitando por locais planos e frescos até, finalmente, chegar à Villadangos del Páramo, e que possui um albergue de peregrinos bastante apresentável, localizado na entrada da cidade.

 

Mais adiante, retornei a caminhar próximo da N-120.

A saída de León se dá seguindo vieiras de bronze cravadas no chão (difícil de ver pela manhã, quando ainda está escuro).

As cidades seguintes são como se fossem bairros ligados a León, e oferecem serviços básicos ao peregrino, mas nem todos oferecem acomodações para pernoite, como é o caso de Trobajo del Camino, Valverde de La Virgen, e San Miguel Del Camino.

Somente em Virgen del Camino há albergue e hostal, além de armazéns e outras facilidades.


Caminho em terra, nenhum peregrino a vista.

Virgen del Camino talvez possua a igreja mais moderna de todo o Caminho Francês, pois sua construção data de 1961, e foi projeto do arquiteto catalão Subirachs.

Sua moderna fachada apresenta 13 esculturas de bronze, que representam a Virgem Maria e os doze apóstolos.

O nome do povoado Villadangos procede de “villa de ambos”, referindo-se ao rei e rainha de sua época.


Um ciclista me ultrapassou nesse trecho, o primeiro peregrino que avistava nesse dia.

Muito próximo dessa pequena vila se encontra um sítio arqueológico do período paleolítico inferior.

A minúscula povoação fica à margem da estrada que liga León a Astorga, possui um albergue, hostal, hotéis, e demais serviços ao peregrino.


Chegando em Villadangos del Páramo.

Segunda a história, ela foi uma vila romana e lugar de enfrentamento de reis como, por exemplo, em 1111, onde as tropas de Doña Urraca combateram as de Alfonso I (El batallador).

Na saída do povoado há uma fonte (fuente Ancos) de águas abundantes muito apreciada pelos peregrinos que transitam por ali.

A igreja do século XVII revela as raízes santiaguistas do local, e apresenta na sua porta lindos relevos policromados relativos às batalhas de Clavijo, Santiago Matamoros, e Santiago Peregrino.

 


Fiz outra pausa num local especialmente construído para descanso dos peregrinos, onde encontrei mesas e bancos, depois prossegui adiante.


A peregrina Hildegard, austríaca, caminha à minha frente.

E logo alcancei uma peregrina austríaca, chamada Hildegard, que havia conhecido em Frómista, e seguimos um bom tempo conversando em inglês.


No caminho, em direção à San Martin del Camiño.

Ela caminhava bastante rápido, de forma que prossegui em meu ritmo e ela se adiantou uns 100 metros à frente.


Chegando em San Martin.

Ultrapassada a zona urbana, adentrei em outro “andadero” lateral muito bem conservado, situado à esquerda da rodovia, que me levou, depois de 5 quilômetros, vencidos em bom ritmo, a transitar por San Martin del Camiño.


Logo depois de San Martin, o caminho se torna agreste e silencioso.

Eu atravessei a povoação por sua rua principal e, assim que terminou a zona urbana, adentrei à direita e passei em meio a frondoso bosque de altas árvores que me proporcionaram um pouco de frescor, já que naquele horário o sol brilhava forte.


"Andadero" lateral à rodovia.

O roteiro, então, prosseguiu pelo lado direito da rodovia, sempre plano, mas arborizado em alguns trechos.


Caminho plano e bastante arborizado.

Nesse tramo final eu fui ultrapassado por vários ciclistas, e alcancei uns 4 casais de peregrinos, todos caminhando num ritmo sofrível, possivelmente, fruto de dores ou bolhas nos pés.


No Caminho, em direção à Hospital de Órbigo.

Finalmente, próximo de um grande polígono industrial, eu adentrei à direita e, no encontro das duas variantes, cruzei com vários peregrinos que provinham por uma estrada à esquerda, mais especificamente, do ramal proveniente de Villar de Mazarife.


Sol forte, piso plano e muito tráfego na rodovia N-120.


Finalmente, adentrei à direita e deixei a rodovia.

Eu me encontrava bastante cansado e sedento, por causa do forte calor reinante, vez que o sol brilhou forte nesse “tramo” final, num céu azul e sem nuvens.


Caminho em direção à Órbigo.

Mas, logo cheguei às margens do rio Órbigo, que transpus pela célebre ponte de origem romana, denominada de “El Paso Honroso”.

Já do outro lado, me hospedei num hostal onde havia feito reserva e, face o adiantado da hora, logo saí para almoçar.

 

Famoso "El Paso Honroso", a ponte de Órbigo, sobre o rio homônimo.

Depois de passar por San Martin del Camino, que tem uma estrutura básica para atender ao peregrino, e que é composta de dois albergues, um restaurante e um armazém, mais à frente há Puente/Hospital de Órbigo, que oferece mais atrativos para pernoite, já que tem diversos hostais, restaurantes e albergues.

E, ainda, conta com uma história muito rica e das mais românticas do Caminho Francês.   

A ponte de Órbigo é de origem romana e uma das mais antigas da rota jacobeia.



Ela sofreu diversas modificações ao longo do tempo, possuindo hoje 19 vãos.

É também conhecida como “Puente del Paso Honroso", face a um feito histórico ocorrido no ano jubilar de 1434, sendo mais famosa por esse fato, do que pelas razões arquitetônicas.

Don Suero de Quiñonez, para ganhar o amor de uma dama (Doña Leonor de Tovar), entrou em um torneio (de justas), desafiando a todos os cavaleiros que quisessem atravessar a ponte e cruzar lanças com ele e seus ajudantes.



Isso foi durante o mês de julho e finalizados os combates, sem que ele perdesse nenhum confronto, todo o grupo, vencidos e vencedores, peregrinou até Santiago, onde Don Suero, em sinal de agradecimento, doou ao apóstolo um bracelete de ouro que ele recebeu de presente da sua dama.

Na cidade, havia o hospital da Ordem dos Cavaleiros de San Juan, restando dela ainda sua igreja antes vinculada a Ordem dos Hospitalários.



Este templo de grande solidez foi recondicionado no século XVIII.

Ainda hoje, durante todo o mês de julho, em meio a uma grande festa, as justas são realizadas bem ao lado da ponte. 

 

Albergue municipal de Hospital de Órbigo.

Mais tarde fui até o albergue municipal carimbar minha credencial e ali, o hospitaleiro Rui, muito simpático e atencioso, fez questão de me mostrar as instalações e o grande quintal que existem no estabelecimento.


Pintura retratada no interior do albergue de peregrinos de Hospital de Órbigo.

Que, por sinal, está mais moderno e muito diferente do ambiente que vivenciei em 2001 e 2004, quando ali pernoitei.


Igreja matriz de Hospital de Órbigo.

Depois, fui até a igreja matriz fazer visita e preces.

E, no retorno, quando me dirigia a um supermercado, para minha surpresa, reencontrei o Juán, o peregrino colombiano, que chegava naquele instante à cidade.

Conversamos um pouco, mas ele estava bastante fatigado e logo se dirigiu a um hostal onde havia feito reserva, localizado à beira da rodovia N-120.


A famosa Puente Honroso, em Hospital de Órbigo.

E como no dia seguinte ele pernoitaria em Astorga e eu seguiria até Rabanal del Camiño, esta foi a derradeira vez que nos vimos na Espanha.


"El Paso Honroso", uma maravilhosa construção.

Contudo, posteriormente, com muita alegria, soube pela internet, que ele aportou com saúde à Santiago, no mesmo dia em que deixei aquela cidade, para retornar ao Brasil. 

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