17ª etapa: HOSPITAL DE ÓRBIGO à RABANAL DEL CAMIÑO – 40 quilômetros


17ª etapa: HOSPITAL DE ÓRBIGO à RABANAL DEL CAMIÑO – 40 quilômetros



Existem 2 ramais para o peregrino seguir em direção à Astorga, e tal bifurcação acontece logo no final da zona urbana.

O primeiro, e que segue à direita, é o roteiro tradicional, pelo qual eu havia caminhado em 2001 e 2004.

Porém, atualmente, se oferece outra opção ao caminhante: seguir à esquerda e ultrapassar a rodovia N-120, depois prosseguir por um “andadero” lateral até o Cruzeiro de Santo Turíbio, onde as duas variantes voltam a se unir.


Lentamente, o dia clareia à minha retaguarda.

Em conversa com experiente peregrino espanhol no dia anterior, ele me afirmou que nos dias atuais, a grande maioria dos peregrinos prefere seguir à beira da "carretera", porque esse ramal tem o leito melhor conservado e um quilômetro a menos de extensão, em relação ao outro.

E isto pautou minha escolha, pois meus pés ainda não estavam sãos, e pisar em pedras por muito tempo estava fora de cogitação.


Pés preparados para mais um grande desafio.

Assim, deixei o local de pernoite às 6 h 30 min, passei diante do albergue paroquial de Órbigo e já no final da rua, encontrei as 2 alternativas que o roteiro oferece.

Sem pestanejar, escolhi seguir à esquerda, decisão que mais tarde me fez arrepender amargamente.



Depois de uns dois quilômetros vencidos por “tramos” silenciosos e bucólicos, eu atravessei a rodovia N-120 e, já do outro lado, passei a caminhar por uma larga estrada de terra, que seguiu sempre à beira da “carretera.”


Trajeto plano, mas barulhento, em face da proximidade da rodovia.

Ocorre que a rodovia é bastante movimentada e, mesmo naquela hora da manhã, já apresentava intenso tráfego e, consequentemente, muito barulho, problema que eu não encontraria no outro ramal, que segue sempre pelo campo.


Trajeto ascendente, dia claro, bastante frio.

Mas, para complicar, mais acima, passei a caminhar por asfalto, num trajeto duro e insípido, que perdurou por uns 10 quilômetros.


À frente, e ao longe, as montanhas nevadas da Cordilheira Cantábrica.

Foi um percurso desprovido de beleza, que não recomendo a ninguém.


Nesse trecho ocorre a reunião dos dois ramais que partem de Órbigo.

Porém, como não há mal que perdure eternamente, no final de grande ascenso, obedecendo à sinalização, eu ultrapassei a rodovia e prossegui caminhando, agora pelo seu lado direito.


Cruzeiro de Santo Turíbio. Ao fundo, a cidade de Astorga.

E, três horas depois, vencidos 16 quilômetros, aportei diante do famoso Cruzeiro de Santo Turíbio, onde me reencontrei com o ramal que provém pela direita.

Dali eu tinha uma visão privilegiada da região abaixo, podendo avistar um grande vale e, numa elevação a cidade de Astorga.

Fiz naquele local uma providencial pausa para hidratação, fotos e ingestão de uma barra de cereais.


Igreja matriz de San Justo de La Vega.

Então, depois de grande descenso, transitei pelo povoado de San Justo de La Vega, onde observei vários bares abertos e peregrinos fazendo seu desjejum matinal.

Mais adiante, o caminho verteu à direita, seguindo, então, por uma plana e larga estrada de terra que, em seu final, me levou a ultrapassar as linhas férreas através de uma grande passarela metálica.

Principiei, então, a ascender, e logo acessava o “casco viejo” da cidade de Astorga, passando diante do gracioso monumento ao peregrino, fixado numa bem cuidada praça.

 

Monumento ao peregrino, em Astorga.

O antigo povoado pré-romano foi denominado de Asturica pelos latinos, e cognominada Augusta pelo primeiro imperador romano, Augusto, no século I.

Centro de comunicações da região norte da península Ibérica, de Asturica Augusta partiam nove estradas romanas, sendo que nesta época a cidade era cercada por uma grande muralha, parte da qual ainda é hoje visível.

Desde os primórdios do Cristianismo, aproximadamente o século III, Astorga tornou-se sede episcopal.


Igreja de Santiago, em Astorga.

Atualmente o fantástico palácio episcopal, construído há cem anos pelo arquiteto catalão Gaudí, foi transformado em Museu dos Caminhos, e é um monumento que vale a pena ser visitado.

A catedral, em estilo gótico, foi construída no século XV ao lado da catedral mais antiga, do século XI, que estava quase desabando.

Em seu interior, vale a pena observar a imagem de São Tiago vestido como peregrino.


Plaza Mayor de Astorga.

Já em seu exterior, chamam atenção as cegonhas que, desafiando os fortes ventos, edificam enormes ninhos sobre as pontiagudas torres góticas da catedral.

Em Astorga, unia-se ao tradicional Caminho Francês a antiga rota de peregrinação conhecida como Via de la Plata, e na época áurea das peregrinações, a cidade chegou a contar com vinte e dois Hospitais para acolher os peregrinos.

A proximidade de três monumentos gigantescos: a muralha, a catedral e o palácio, lado a lado, em estilos arquitetônicos diferenciados, representando três épocas tão diferentes na história do Caminho, apresenta aos olhos do peregrino, de uma só vez, dois mil anos de História.


Estilizada igreja dedicada à São Francisco de Assis, em Astorga.

Tudo isso torna, sem dúvida a capital da Magateria um dos locais mais importantes da rota jacobeia, chagando a ser definida ironicamente, por Miguel de Unamuno, como “cidade perfeita”, porque com o vasto poder da igreja naquela localidade, não precisava do poder civil.

Conta atualmente com três excelentes albergues, uma dezena de bons hostais, hotéis e restaurantes, confeitarias e supermercados, que fazem a alegria do peregrino.

Imperdível deixar de conhecer o convento de Santa Clara, as ruínas romanas, a igreja de San Esteban, San Andrés, Fátima, San Francisco, Santa Marta, San Bartolomé, Hospital de San Juan Bautista, Monastério de Corpus Christi, Museu romano, as Muralhas romanas, o Museu do Chocolate, sem deixar de provar o seus famosíssimos “biscoitos amantegados”.

 

Castelinho de Gaudí, em Astorga.

Era um dia de semana normal e a maior parte do comércio se encontrava fechado, de forma que passei por Plaza Maior, depois prossegui por ruas tortuosas e bem sinalizadas, até sair próximo das velhas muralhas que guarneciam a cidade, e diante do Castelinho de Gaudí, onde parei para fazer fotos.


Igreja matriz de Astorga.

Na sequência, fiz rápida visita à Catedral de Santa Maria, local onde em 2004 eu havia assistido à missa e, inclusive, comungado.

Mas, eu tinha ainda um longo caminho pela frente, assim, observei as flechas amarelas e rapidamente marchei para a saída da cidade.


Soldados em marcha, pelo Caminho de Santiago.

Ali, acessei um grande calçadão, alocado ao lado de uma rodovia vicinal, no momento em que uma unidade militar passava pelo local em forte marcha, munida de armas e mochilas.


Pensei que teria companhia no Caminho, mas eles adentraram à esquerda.

Inocentemente, eu até pensei que eles fossem seguir em direção à Santiago, porém, numa rua abaixo, eles dobraram à esquerda, e se perderam entre as densas árvores de um bairro periférico.


Monumento ao peregrino, na saída de Astorga.

Na sequência, vencidos mais dois quilômetros, eu ultrapassei uma grande autovia e logo acessei um caminho em terra que me levou, depois de mais um quilômetro, a transitar por Murias de Rechivaldo.


Início do trecho em terra.


Chegando em Murias de Rechivaldo.

Cruzei sua única rua, onde vi dois bares abertos, um peregrino descansando num banco, e ninguém mais.


Caminho em direção à Santa Catalina de Somoza.

E assim que terminou o calçamento, iniciou-se outra via retilínea, onde pude observar, ao longe, inúmeros peregrinos caminhando compenetrados, possivelmente aqueles que haviam partido de Astorga naquele dia.


Muitas flores no Caminho.

Como a paisagem era uniforme e eu estava integralmente solitário, liguei meu radinho de pilha e segui ouvindo música e desfrutando do entorno fresco e verdejante, podendo avistar, ao fundo, uma imensa montanha, com seu pico nevado.


Santa Catalina surgindo no horizonte.

E depois de vencer mais 5 quilômetros e sobrepujar um difícil ascenso, adentrei em Santa Catalina de Somoza.



Este agradável pueblo, ainda mantém sua arquitetura da Maragateria, com inúmeras casas em pedra lavrada e igrejas com “espadana”, que é uma estrutura mural prolongada verticalmente, sobressaindo do resto da edificação, para acabar em um pináculo.


Chegando à rua principal de Santa Catalina de Somoza.

Na sua rua principal, vi vários bares lotados de peregrinos sentados, que faziam um lanche, conversavam animadamente e bebiam cerveja ou vinho.


Montanhas Cantábricas à esquerda, por onde eu transitaria no dia seguinte.

Eu estava bem e pretendia fazer uma pausa para descanso apenas em El Ganso, de forma que cumprimentei a todos e prossegui meu caminho, que voltou a ser plano e retilíneo.

Nesse trecho específico, logo alcancei um casal que caminhava pausadamente e, notando que na mochila do rapaz havia várias fitinhas de Nossa Senhora Aparecida amarradas, logo inferi que eram brasileiros.

E, por uma coincidência incrível, o Toninho que estava com sua esposa Bia, residia em Sorocaba/SP, mas, como eu, ele também havia nascido em Itu e era de uma família conhecida e tradicional da cidade.


Caminho plano em direção à El Ganso.

Seguimos trocando informações por um bom tempo, depois, como eles seguiam num ritmo bastante comedido, resolvemos nos encontrar no final da etapa, num bar em Rabanal, para brindar e festejar a nossa novel amizade.

Assim, me despedi deles, prossegui novamente escoteiro e, depois de vencer mais 5 quilômetros, adentrei em El Ganso, um povoado minúsculo, mas pelo qual tenho grande empatia.

 

Nesse trecho observei muitos peregrinos marchando à minha frente.

Para os peregrinos que querem fugir do burburinho de Astorga, uma cidade muito concorrida no Caminho, uma boa alternativa é seguir adiante e ficar em Murias de Rechivaldo que oferece boas acomodações e boa alimentação (afinal estamos na Magateria).

Pouco se sabe desta cidade a não ser que o riacho tranquilo que cortava o povoado transbordou no século XVII, e desapareceu com todo o povoado, cuja reconstrução se fez na parte mais alta do município.


El Ganso no horizonte.

Mais adiante está Santa Catalina de Somoza, que possui as mesmas características de Murias, com muitas casas dotadas de grandes portões, e construídas em pedra.

A seguir vem El Ganso, um povoado que mais parece estar abandonado, com suas casas de telhado de palha. 


Chegando em El Ganso.

A grande atração da cidade é o controvertido bar do Cowboy, uma verdadeira miniatura de um mercado persa, que tem umas boas empanadas e tortilhas, assim como uma cerveja sempre “no ponto”.

Além disso, diz a lenda local que o próprio Santiago andou rezando algumas missas na igreja que lá existe. 

Há ainda dois albergues, que podem quebrar o galho em eventual necessidade.

 

Bar Cawboy, em El Ganso.

Não tenho o hábito de ingerir bebida alcoólica enquanto estou caminhando, mas nesse dia fiz uma exceção e bebi duas “copas” de vinho tinto, acrescido de um pedaço de “tortilla”, no famoso bar Cawboy, o ponto alto da cidade.

Sentados à uma mesa, se encontravam 3 espanhóis e 2 francesas, que conhecera uns dias antes, com quem fizera amizade no caminho, e que iriam dormir no albergue local.


Brindando, com vinho tinto.

Convidado, sentei um momento com eles, a tempo de lhes pagar uma rodada de cerveja, mas depois de 15 minutos de agradável conversação, lembrei-lhes de minha intenção em chegar até Rabanal.

Compreenderam e me deixaram partir, depois de mais um copo de vinho.


Esse cão pastor também seguia para Santiago, com seu dono.

Bons e inesquecíveis companheiros, onde andam vocês? E seus sonhos, com tanta simplicidade expostos como cartas de um baralho, jogadas com naturalidade sobre a mesa de um bar?

Com alguns ainda cruzaria no Caminho, outro veria apenas em Santiago e outros perderia de vista, como acontece muitas vezes em nossas vidas com os amigos.


No caminho, em direção à Rabanal del Camiño.

Doce e triste lembrança que, por vezes, faz meu coração melancólico.


Percurso plano, com opção de caminhar pelo asfalto ou "andadero".

Bem, face ao “combustível” ingerido, superei os restantes 7 quilômetros em estado de êxtase, tamanha minha alegria em rever e frequentar local tão místico, depois de 10 anos.


Próximo de Rabanal, o percurso começa a ascender.

Nesse derradeiro trecho, a caminho prosseguiu por longo tempo à beira de uma “carretera” vicinal, até a transposição de uma ponte, e a partir daí o roteiro avançou em meio a um raquítico bosque, quando então, saí, mais acima, na única e principal rua de Rabanal del Camiño.


A primavera chegando lentamente a esse bosque, pois as árvores ainda estão despidas de folhas.

Por ela eu avancei e logo encontrei o hostal onde havia feito reserva, e também almocei.

 

Finalmente, adentrando em Rabanal del Camiño!

Ao sair de Astorga, o peregrino perceberá que o relevo muda um pouco.

Saem de cena os “páramos”, com suas enormes planícies, e entra o perfil montanhoso agora representado pelos montes de León.


Montanhas Cantábricas e seus cumes nevados.

Um pouco antes de chegar a Rabanal, um carvalho centenário, à direita do Caminho, convidará o peregrino a um justo descanso debaixo de sua sombra.

A localidade fica no sopé do monte Irago, e é a nona etapa do Codex Calixtinus. 

No início da sua rua principal está a ermita de San José, construída no século XVIII, e prosseguindo pela mesma rua, bem no centro do povoado, está a igreja de Santa Maria, uma das poucas igrejas que restaram na região com características românicas.


A rua principal de Rabanal.

Conta-se ainda, que em uma casa também situada na rua principal, conhecida como a casa das quatro esquinas, pernoitou o rei Felipe II em sua peregrinação à Santiago.

Rabanal teve um assentamento Templário na época medieval e até hoje conserva sua tradição hospitaleira, possuindo vários albergues, hostais e restaurantes, além de tiendas, para bem atender ao peregrino.


Igreja de Santa Maria, século XII.

Imperdível é participar da oração das vésperas e da benção aos peregrinos na igreja de Santa Maria, que começa às sete horas da noite, cantado em latim, segundo as tradições gregorianas.

Recomenda-se uma boa refeição à noite e um bom descanso para a travessia do Monte Irago.


Picos nevados me aguardam na jornada seguinte.

Com relação ao pernoite, há duas excelentes alternativas – o albergue Gaucelmo, mantido pelos ingleses, e que é muito concorrido.

Ou o de Nossa Senhora Pilar, albergue privado, que tem como hospitaleira a Isabel e sua mãe Dona Esperanza, onde o peregrino é recebido com muita fidalguia.

Lembrando ainda que o albergue municipal também possui excelentes acomodações.

 

Entrada do Albergue Gaucelmo, em Rabanal.

Depois de um bom descanso fui até o albergue Gaucelmo carimbar minha credencial, e não encontrei nenhum brasileiro ali hospedado, assim como no albergue municipal, para onde me dirigi depois.

Fui à missa das 7 horas na igreja de Santa Maria, e ali também não reencontrei meu conterrâneo, de forma que espero revê-lo um dia em minha terra natal, no Brasil.


As pedrinhas que levei do Brasil, para depositar na Cruz de Ferro.

E logo depois da celebração, me recolhi, porque no dia seguinte eu enfrentaria forte desafio, quando iria afrontar o famoso monte Irago.