18ª etapa: RABANAL DEL CAMIÑO à MOLINASECA – 27 quilômetros


18ª etapa: RABANAL DEL CAMIÑO à MOLINASECA – 27 quilômetros

Aquele 1º de maio, uma quinta-feira, prometia grandes emoções, assim, resolvi sair bastante cedo, como forma de aproveitar bem o dia.

Para minha surpresa, às 6 horas, quando fui acessar a internet no andar térreo, encontrei um peregrino francês munido de mochila e cajados, deixando o estabelecimento naquele instante.

Fiquei contente, pois era bom saber que haveria pessoas à minha frente.

Contudo, quando deixei o local de pernoite, às 6 h 30 min, encontrei-o parado à porta do hostal e, em resposta a minha indagação, declarou que não estava enxergando as flechas amarelas.



Após orientá-lo a respeito, segui meu caminho, porquanto, na verdade, a sinalização prossegue após o término da rua principal e adentra numa estrada de terra.

Porém, como não queria utilizar minha lanterna e já conhecedor do roteiro, ignorei a sinalização, desci até a rodovia, e por ela segui confiante, sempre em constante ascenso.



Lentamente o dia foi clareando à minha retaguarda, e depois de já ter caminhado uns 3 quilômetros, sempre em perene aclividade, olhei para trás e não vi ninguém se movimentando pelo caminho, o que me infundiu um certo temor.


Até esse trecho, não percebi nenhum peregrino caminhando à minha retaguarda.

Porém, mais acima, ouvi vozes de pessoas e, ao observar o caminho de terra, que nesse trecho segue paralelo e muito próximo da “carretera”, pude notar um casal de alemães que fazia filmagens na trilha e conversava alegremente.

Cumprimentei-os e segui bem mais tranquilo, pois sabia que teria companhia na jornada, ainda que à distância.

Um vento frio soprava de frente e foi aumentando de intensidade quanto mais eu ascendia.


A ex-temível cidade de Foncebadón.

Finalmente, vencidos 6 quilômetros em forte ascensão, adentrei em Foncebadón, que já foi um local místico e temido, mormente para quem leu o romance “Diário de um Mago”, escrito por Paulo Coelho.

Fiz uma foto na entrada da vila, depois segui por sua única rua, a Calle Real, que ainda persiste em terra. 

Este povoado, que no passado foi abandonado, ano após ano ressurge das cinzas, graças ao empresário Enrique Gaia, que se estabeleceu na localidade, montando um restaurante onde oferece sabores gastronômicos medievais.


Velho cruzeiro fincado na entrada de Foncebadón.

Salvo melhor juízo, e segundo informações de outros amigos peregrinos que passaram e ficaram por lá, hoje já há dois albergues: um paroquial, administrado por uma entidade austríaca, e um albergue privado, que diariamente oferece o “menú del peregrino”.

Conta-se que um eremita berciano, chamado Gaucelmo, com a proposta de ajudar os peregrinos nesta difícil travessia, solicitou ajuda ao rei Rey Alfonso VI.

E a ele se deve a construção da igreja, destruída posteriormente, assim como ao hospital que mais tarde transformou-se em monastério, hoje também abandonado.

 

Adentrando em Foncebadón, por ruas frias e desertas.

Eu segui ascendendo, e logo avistei vários peregrinos à minha frente.

Soprava uma brisa intensa e fria, e tentei me agasalhar o melhor possível, pois uma cerrada neblina principiou a descer do alto do morro.

O nevoeiro envolveu toda a aldeia, deu-lhe ares ainda mais místico, vez que aquele parecia ser o cenário ideal, o “locus horrendus” perfeito, para qualquer escritor romântico.


Avantajado peregrino alemão, que me serviu de escudo contra o vento.

Logo acima, alcancei um alemão de estatura avantajada, com quase dois metros de altura, e que carregava portentosa mochila de 75 litros, mas ao invés de ultrapassá-lo, estrategicamente arrefeci meus passos, seguindo à sua retaguarda, utilizando-o como escudo contra o vento.


Finalmente, na Cruz de Ferro!

E assim chegamos à Cruz de Ferro, localizada a 1.490 metros de altitude, o ponto de maior altimetria do Caminho.

 


Dois quilômetros depois de Foncebadón, está a Cruz de Ferro, um dos pontos culminantes do Caminho, onde o peregrino cumpre, via de regra, um ritual,  depositando uma pedra na sua base, para invocar proteção na sua peregrinação, depois de efetuar pedidos, e “deixar seus pecados/defeitos”.


Cruz de Ferro, um dos pontos altos do Caminho!

É um dos locais emblemáticos e místicos do Caminho.


Igreja localizada ao lado da Cruz de Ferro, sob intensa cerração.

É voz corrente que outra cruz mais primitiva foi instalada sobre um altar romano, dedicado ao deus Mercúrio (deus de todos os Caminhos) pelo mesmo ermitão Gaucelmo.

 

Milhares de pedras, do mundo inteiro, fazem a decoração deste místico local.

Ali, além de depositar as 4 pedrinhas que havia levado do Brasil, observei o entorno demoradamente, depois principiei a descender, pois a temperatura reinante, naquele momento, situava-se em torno de zero oC.


Descendendo em direção ao Manjarín.

Em 2004 eu desci o trecho seguinte diretamente sobre o asfalto, mas atualmente existe uma bem cuidada pista lateral em terra, por onde eu pude caminhar com segurança, sempre em meio a densa vegetação.


Albergue de Manjarín, outro local imperdível!

Mais dois quilômetros vencidos em forte ritmo, e cheguei ao Manjarín, outro local místico e de grande tradição no Caminho.

Eu soubera no início de minha peregrinação, que Tomás, o hospitaleiro deste mágico local passara por uma cirurgia delicada e se encontrava em recuperação em Ponferrada, dessa forma, ficara ele proibido de frequentar seu albergue por algum tempo, devido a altitude ali reinante.

Então, fiz rápida visita ao interior do refúgio, depois parei para fazer fotos do entorno.

Manjarín: matando a saudade!

Enquanto ali permanecia, pude ouvir o sino localizado na entrada do estabelecimento ser badalado várias vezes e, ao conferir quem praticava tal ato, tive a surpresa de reencontrar o Tomás.

Ao saber de minha procedência, ficou muito feliz, mandou um abraço para o Palma, do Caminho do Sol e, ante minha surpresa, disse que era a primeira vez a visitar o local desde que fora operado.


Manjarín, local místico e cativante!

Foi um feliz encontro, que fiz questão de deixar gravado para a posteridade através de uma foto.


Com Tomás, o último templário, hospitaleiro de Manjarín! Um reencontro emocionante!

Após calorosas despedidas, prossegui descendendo violentamente e, após 90 minutos cheguei em Al Acebo, outro local marcante do Caminho. 

Depois de atingir o ponto mais elevado do Caminho (junto à estação militar – 1520 m), o peregrino pode ouvir as badaladas do sino tocado pelo hospitaleiro Tomás, que se autodenomina como último Templário, na única casa existente no abandonado povoado de Manjarín.


Descendendo em direção à El Acebo.

Independente da precariedade do local, ali o caminhante poderá experimentar a verdadeira hospitalidade do Caminho, uma vez que ele está sempre pronto a prestar apoio aos peregrinos em qualquer época do ano, sempre com um café, chá ou chocolate quentinho, com biscoitos.


El Acebo, com suas casas de telhado de ardósia, abaixo.

A partir dali serão uns 400 metros de descida íngreme, rumo ao povoado de El Acebo que pode ser visto logo após Manjarín, por uma trilha bem acidentada.


Chegando em El Acebo.

El Acebo possui, como em outros pueblos, uma Calle Real, sendo toda ela em plano inclinado e uma das mais bonitas e pitorescas do Caminho.


A rua principal de El Acebo.

A história conta que os reis católicos dispensaram os habitantes do local do pagamento de tributos, desde que eles demarcassem com estacas o Caminho, a partir de Foncebadón, na temporada do inverno, para proteger os peregrinos de possíveis acidentes.

O povoado oferece hostais, restaurantes e albergues, em razoáveis condições para receber os peregrinos.

Na saída do pueblo, perto de uma rústica ermida, há uma escultura em ferro, de uma bicicleta, que rende homenagem a um peregrino alemão que morreu exatamente naquele local.

 

Poucos peregrinos em El Acebo nesse dia.

Na rua principal da cidade, fiz uma pausa num banco ali alocado, para me hidratar e ingerir uma barra de chocolate.


Caminho em direção à Riego de Ambrós.

Depois prossegui adiante, ainda em forte descenso.


Descenso rude e acidentado: todo o cuidado é pouco, para não cair.

Após ultrapassar uma rodovia vicinal, adentrei numa trilha bastante acidentada que, em seu final, me levou a transitar por Riego de Ambrós, outra minúscula povoação, onde não avistei vivalma em suas ruas e casas empedradas.


Igreja matriz de Riego de Ambrós, dedicada à Santa Madalena.

Nela, passei diante da igreja dedicada à Santa Madalena, uma construção do XVI.

 

Montanhas nevadas me escoltam pelo lado esquerdo!

Ao sair de Manjarín, caso o peregrino queira esticar mais a sua jornada e se perder um pouco no Caminho, há a opção de caminhar atravessando o vale do silêncio, transitando pelos povoados de Peñalba e Compludo (ferraria do século VII), entre centenários carvalhos, nogueiras, e castanheiras, tendo como cenário um dos mais importantes monumentos exemplos da arquitetura mozárabe na Espanha.

Quase imperceptível, se eleva a igreja de Peñalba de Santiago, único resto do monastério fundado por San Genadio, entre os anos de 931 e 937, durante o reinado de Ramiro II.

Os restos da construção serviram posteriormente para a construção das casas atuais dos habitantes do vale.


A rua principal de Riego de Ambrós.

Riego de Ambrós é mais um povoado típico do Caminho, com uma única rua, e um casario repleto de balcões de madeira, localizado logo após a descida de El Acebo.

Há indícios que Riego de Ambrós contou com um hospital para peregrinos, por volta do século XII.

A localidade, além de um bom albergue, possui um hostal, "tiendas" e restaurante.


Casas típicas, em pedra, localizadas em Riego de Ambrós.

Tem, ainda, uma igreja paroquial “La Magdalena”, e junto à uma velha fonte, há a ermita dedicada a San Sebastián e San Fabián.

 

Caminho descendente em direção à Molinaseca.

Eu prossegui ainda em desabalado descenso e finda a parte urbana, passei a caminhar por um vale florido e arborizado, situado entre duas grandes elevações.


Trecho belíssimo, dentro de um fresco vale.

Nesse trecho agradável e perfumado, ultrapassei 3 casais de peregrinos, bem como me encontrei com vários caminhantes que vinham em sentido contrário, pois estavam fazendo trilhas na região.


Caminho arejado e perfumado, sempre em descenso.

Afinal, vivenciávamos o feriado de 1º de maio e, mesmo na Espanha, muitos iriam emendar a data com o final de semana.


Picos nevados me espreitam pelo lado esquerdo.

Eu seguia atento, observando encantado uma grande montanha com seu cume gelado, que me escoltava pelo lado esquerdo.


Descendendo forte, já próximo de Molinaseca.

Vencidos mais 5 quilômetros em forte declividade, acabei por sair em asfalto, e por ele segui uns 500 metros, até adentrar em Molinaseca, utilizando uma famosa ponte medieval, por onde eu transpus o belíssimo rio Meruelo.


Enfim, Molinaseca, minha meta para esse dia.

E, na sequência, me hospedei num hostal, onde havia feito reserva.

 

Ponte medieval sobre o rio Meruelo.

Os peregrinos ao adentrar em Molinaseca, devem cruzar o rio Meruelo, utilizando uma linda ponte românica, onde o remanso de uma praia fluvial é convidativo para um refrescante banho.

Na verdade, essa cidade oferece ao peregrino muita beleza e tranquilidade.

Encanta transitar diante das casas nobres com seus escudos, e suas ruas mostram uma vila que teve um grande passado.


A rua principal de Molinaseca.

Destaca-se a Calle Real ou também Calle dos Peregrinos, já que o Caminho de Santiago transcorre por ela.

Um dos enclaves mais importantes da rota jacobeia, que soube manter-se viva e que conservou sua história, é quase parada obrigatória dos peregrinos, vez que os dois dos albergues existentes no local são administrados por dois dos mais respeitados hospitaleiros do Caminho – Alfredo e sua mulher Cristina.

Além dos refúgios, há bons hostais e ótima variedade de restaurantes.


A mesma rua, sob outro ângulo.

Há que se citar que as águas do rio Meruelo, serviram aos romanos para a exploração de ouro na mina de “las Medulas”, que passa junto ao santuário de “las angústias”, onde se venera a Virgem (La preciosa).


Cruzeiro centenário, na saída da cidade.

Na calle Mayor, em uma das casas blasonadas, habitou Doña Urraca, e no final da rua ainda hoje pode se apreciar o que no passado foi o hospital de peregrinos.

Além disso, merece destaque as ermidas dedicadas à Santa Marina e a San Lázaro.

 


À tarde, após merecido descanso, dei uma volta pela urbe e aproveitei para conhecer o Santuário de las Angustias.


Monumento ao peregrino e Santiago.

Depois, apesar de ser um feriado, tive a sorte de encontrar duas "tiendas" abertas, onde pude me prover de alimentos para o lanche noturno e para a jornada seguinte.


Secando as bolhas, ao sol vespertino.

Mais tarde, já no quarto, e como ainda houvesse bastante luminosidade, pois nessa época o dia se mantém claro até às 22 horas, deixei meus pés sob a luz solar por bastante tempo, visando engrossar a pele e secar as bolhas.

E enquanto descansava, fiz rápida retrospectiva e constatei que aquele feriado fora preenchido por inúmeros momentos emocionantes, e no meu local de pernoite, tive paz e espaço para reflexão, obtendo a tão desejada tranquilidade.


Com os pés depauperados, mas pleno em confiança e desejo de aportar à Santiago!

Além disso, Santiago estava cada dia mais perto, e me alegrei por reaprender que a vida é feita de pequenos passos, dia a dia, rumo a um grande objetivo.