23ª etapa: PORTOMARÍN à PALAS DE REI – 27 quilômetros


23ª etapa: PORTOMARÍN à PALAS DE REI – 27 quilômetros


A previsão climática indicava chuvas para aquele dia, de forma que antes de partir, amarrei a capa e meu poncho impermeável do lado externo da mochila, para facilitar sua eventual utilização.

Parti às 6 h 45 min, quando o dia ainda não havia clareado, mas no trecho inicial, localizado dentro de frondoso bosque, já encontrei 3 peregrinos caminhando à frente, aos quais segui sem pressa, pois não queria utilizar minha lanterna.


Início do "andadero" à beira da rodovia.

Uma hora depois, desaguei na rodovia, seguindo, então, por um excelente “andadero” lateral, sempre rodeado por muito verde.


Um peregrino solitário segue à minha frente.

Mais dois quilômetros percorridos em bom ritmo, e seguindo à sinalização, atravessei a “carretera” e adentrei à esquerda, seguindo em meio a espesso bosque de robles e eucaliptos até chegar, às 8 horas, em Gonzar.


Bar em Gonzar.

Ali existe um bem recomendado albergue e um bar, que ainda se encontrava fechado.


Albergue de peregrinos de Gonzar.

Prosseguindo, o trajeto seguiu mesclando caminhos por bosques e, em outros “tramos”, ao lado da rodovia, por estradas de terra, muito bem conservadas.


Caminho pleno de muito verde.

Então, pude avistar inúmeros peregrinos caminhando à minha frente, possivelmente pessoas que haviam pernoitado no albergue de Gonzar.


Mais peregrinos no Caminho.

Sem maiores novidades, ultrapassei Castromaior, Hospital de La Cruz, e, seguindo as flechas, transpus a movimentada rodovia N-540, utilizando extensa ponte metálica.


Local propício para um bom descanso.

Já do outro lado, próximo de Ventas de Narón, vi um grupo de 7 peregrinos, todos com capa de chuva, saindo de um bar.


Grupo de 7 brasileiros saindo de um bar.

Logo os alcancei e, pelo linguajar inconfundível, pude perceber que se tratava de um grupo de brasileiros.

Então, me apresentei, fiz uma foto do grupo, depois seguimos juntos por um longo tempo, conversando amenidades e trocando experiências.


Caminho plano e pleno de muito verde.

Eles faziam parte do grupo do Fernando, o guia com quem eu conversara no dia anterior, sendo que o restante do grupo já havia partido e estava bem à frente.

A conversa fluiu interessante e, por distração, infelizmente, acabei por não rever e fotografar um dos mais belos monumentos do Caminho: o secular cruzeiro de Lameiros, fincado nesse local, desde o ano de 1670.


Cruzeiro em Ligonde.

Nesse compasso, ultrapassamos Ligonde e, pouco adiante, quando o Cléber, que capitaneava o grupo, fez uma pausa para aguardar os retardatários, eu me despedi e prossegui novamente solitário.



Logo passei por Airexe, outro minúsculo pueblo e, na sequência, o trecho que era feito integralmente sobre asfalto, hoje possui um bem cuidado “andadero” lateral, por onde segui tranquilo e confortável.


"Andadero" lateral, entre muito verde.

Num local de descanso de peregrinos, utilizei a estrutura para fazer uma pausa, objetivando ingerir uma banana, bem como vestir a capa na mochila, pois a garoa, que vinha me acompanhando a tempos, tinha recrudescido.

Em determinado local, eu ultrapassei um peregrino alemão que transportava sua bagagem sobre um estranho carrinho, enquanto ele o empurrava com as mãos junto ao peito.


Este peregrino empurrava um estranho carrinho.

Após uma curta pausa para hidratação, na pequena vila de Avenostre, recomecei o caminho que se internou em agradável e fresco bosque, por onde prossegui sem pressa até desaguar num caminho empedrado.


Albergue municipal de Palas de Rei.

E, por ele, logo passei diante de dois albergues de peregrinos, sendo um municipal e o outro privado, localizados numa extensa área verde, e a uns 500 metros de Palas de Rei, cidade onde aportei em seguida.


Albergue privado, situado um pouco antes de Palas de Rei.

Logo localizei o hostal onde havia feito reserva, lavei roupas, depois saí para dar um giro pelas ruas centrais da urbe.


 Caminho empedrado e limpo, por onde aportei em Palas de Rei.

Ao adentrar à Galícia, perpassamos por pequenos povoados/vilas, que sempre oferecem alguma opção ao peregrino como os que se seguem:

Gonzar - é uma pequena localidade onde o peregrino poderá observar ao longo do Caminho os castros celtas, que oferecem uma visão de como era a região antes de ser conquistada pelos romanos. Essa localidade era, ainda, uma comendadoria da Ordem dos cavaleiros de San Juan de Portomarín e, embora se caminhe por uma estrada secundária, pode-se algumas vezes encontrar vestígios do Caminho original.


Uma escultura diferente num bar em Portos.

Castromayor – possui um belo templo românico dedicado à Santa Maria. Podem, ainda, ser visualizadas as ruínas de um grande “castro”, que fica a noroeste do atual povoado, e que dá o nome à vila.

Hospital de la Cruz – Seu nome vem de um antigo hospital de peregrinos que funcionou até os finais do século XVIII, e sua capela está dedicada a San Esteban.


Igreja de Ventas de Narón.

Ventas de Narón – Este local teve relevante importância na época medieval, pois era um centro comercial e assistencial, onde os peregrinos repunham forças antes de iniciar a subida até o alto de Ligonde. 

No ano 820, foi cenário de uma encarniçada batalha entre as tropas cristãs e muçulmanas. 

Já fora do povoado, há uma ermida dedicada à Santa Maria.


O derradeiro "tramo" se faz por bosques verdejantes e arejados.

Ligonde – A localidade acolheu Carlos V e Felipe II, quando eles percorreram o Caminho. Teve um importante hospital de peregrinos, do qual se conserva ainda um antigo livro de contas. O templo primitivo de Ligonde era românico, porém dele hoje existe somente a portada original, cuja igreja é neoclássica. Conserva ainda um cemitério de peregrinos, com uma grande cruz de pedra, a qual constitui o cruzeiro mais famoso do Caminho, segundo os historiadores.

Airexe – O nome do povoado significa “igreja” em galego e, sem dúvida, faz referência a igreja de estilo românico (original) que ainda possui, depois de passar por inúmeras reformas.


Trajeto belíssimo e imperdível, entre muito verde.

Avenostre – Nada mais é que um conjunto de casas, situadas à margem esquerda do Caminho. Seu nome provém do hino jacobeu: ....”ave nostre jacobus.....”


Homenagem à Santiago Peregrino, em Palas de Rei.

Após passar por todos estes pequenos povoados, o peregrino chega a Palas de Rei que, na época medieval, foi um dos principais enclaves do Caminho.

Do seu antigo passado conserva ainda a igreja paroquial, com uma portada românica.


Prédio do "Ayntamiento" de Palas de Rei.

Ayméric Picaud chamava Palas de Rei de “Palacium Regis”, e a situa como final da etapa no Caminho, onde se agrupavam os ansiosos peregrinos no “campo dos romeiros”, para desafiar os últimos trechos de tão largo roteiro.

Conta-se que Dona Urraca aqui residiu temporariamente, e que o lugar foi fonte de inspiração para distintos personagens da literatura, como Emilia Pardo Bazán e López Ferreiro, dentre outros.

Para ser visitada, há ainda a igreja de San Tirso, que também foi reformada, mas anteriormente era românica; a igreja monasterial de Vilar das Donas, que é patrimônio histórico desde 1931.


Espetacular igreja de San Tirso, século XIII.

Sendo que sua arquitetura românica, com influência cistercense e gótica, provém do século XIII.

Em seu interior destacam-se os túmulos do século XII, que já nesta época, era o lugar onde se enterravam os cavaleiros da Ordem de Santiago.


Cruzeiro centenário, fincado no centro de Palas de Rei.

Além disso, há o castelo de Pambre, construído entre os séculos XIV e XV, sobre um maciço rochoso, sendo um dos melhores expoentes da arquitetura militar na Galícia, encontrando-se ainda em bom estado de conservação.

A cidade possui uma excelente infraestrutura para o peregrino, com vários albergues, supermercados, hostais, restaurantes, bancos, etc.


O mesmo cruzeiro, sob novo ângulo.

Eu parei numa esquina para fotografar um milenar cruzeiro existente no centro de Palas de Rei e, num bar próximo avistei o grupo de brasileiros lanchando, pois seguiriam adiante, vez que pretendiam pernoitar em Melide, 15 quilômetros à frente.

Enquanto os cumprimentava, encontrei ali também, degustando uma cerveja, o Ivo, que naquele dia não reunira condições de caminhar, assim, conseguira uma carona, e havia chegado uma hora antes à cidade.


Reencontro com o Írio, muita festa e alegria!

Ele conheceu um peregrino que fez questão de apresentar, pois o Angel, espanhol de boa cepa, já fizera o Caminho de Santiago por 27 vezes, um recorde difícil de ser igualado.

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Com Angel, peregrino espanhol: este homem é uma lenda!

Fiquei um bom tempo conversando com o pessoal, depois, assim que eles foram saindo para prosseguir a jornada do dia, também deixei o local e fui almoçar, com a promessa de revê-los em Santiago, o que de fato ocorreu.

À tarde, fui visitar a igreja de San Tirso, depois fui ao albergue carimbar minha credencial, e ali gastei um largo interregno proseando com o Irio, traçando metas e planos de como chegar à Santiago.

O Angel ocupava uma cama ao lado, de maneira que foi um encontro descontraído e bastante oportuno.


Local por onde eu deixaria Palas de Rei na manhã seguinte.

E logo depois eu me recolhi, pois estava sentindo uma leve, mas persistente dor no lado esquerdo do peito, possivelmente, causada pela saudade antecipada do Caminho, em vista da proximidade da chegada.

24ª etapa: PALAS DE REI à ARZUA – 32 quilômetros