3ª etapa: PAMPLONA à PUENTE LA REINA: 25 quilômetros


3ª etapa: PAMPLONA à PUENTE LA REINA: 25 quilômetros


Primeira flecha localizada no "casco viejo" de Pamplona.

Seria novamente uma etapa de superação pois na metade da jornada teria que vencer o terrível e íngreme “Alto del Perdón”.

E como a metereologia ainda previa calor para esse dia, resolvi sair bem cedo como forma de fugir do assédio do sol que, depois das 13 horas, se tornava insuportável.


As vieiras cuidadosamente incrustadas no piso, conduzem o peregrino para fora da cidade de Pamplona.

O dia ainda estava escuro e um vento frio varia as ruas desertas da cidade, quando deixei o local de pernoite e me dirigi a uma rua localizada no “casco viejo”, por onde eu constatara que discorria o Caminho.

Localizada a primeira flecha amarela, tudo o que fiz foi prosseguir observando o piso cimentado, pois nele estão afixadas as conchas que guiam o peregrino para fora da cidade de Pamplona.


O Caminho discorre pelo bem cuidado campus da Universidade de Navarra.

O trajeto passa por movimentadas avenidas e, posteriormente, por dentro do campus muito bem cuidado da Universidade de Navarra.

Ainda caminhando em piso duro, eu passei por Cizur Menor que, na verdade, nada mais é que um pequeno “pueblo” que está próximo à cidade de Pamplona. 

Cizur Menor fica 5 quilômetros depois de Pamplona, e se trata de uma vila profundamente influenciada pelo Caminho de Santiago, que a cruza de oeste a leste.

Ela pertenceu à Ordem de San Juan de Malta, até ser confiscada por Mendizábal, no século XIX.


Depois de ultrapassar Cizur, finalmente, terra!

Possui bons restaurantes e excelentes albergues.

Em um deles, a hospitaleira Maribel Roncal, acolhe os peregrinos brasileiros de forma especial.

Foi sede, desde o final do século XII, do Hospitalário de San Juan de Jerusalém na Navarra. 

Quando Cizur deixou de ser via de passagem de peregrinos, o Hospital de Nossa Senhora Del Perdón se converteu, em 1772, num hospital de enfermos.

Possui duas igrejas do século XII, com belas portadas românicas: a de San Miguel Arcanjo, que fazia parte de um monastério Sanjuanista, e a igreja de San Emetério e San Celidônio.

Entre o casario, destaca-se a casa de Echeverría, que sofreu profundas modificações desde sua construção em 1777.

 

Caminho maravilhoso em direção ao Alto del Perdón.

A partir dali o caminho, finalmente, adentrou numa trilha de terra localizada em meio a extensos trigais, infiltrando-se por uma imensidão de searas, onde florescia a primavera, em direção à uma cadeia de montanhas que eu precisaria transpor.

O barulho dos automóveis deu lugar ao cantar melodioso dos pássaros, e a azáfama citadina, ao sossego do campo.


Uma extensa plantação de canola.

Nesses momentos, nosso espírito flutua, o corpo fica mais leve, e se pode sentir o toque divino!

Foi assim que me entreguei à meditação e oração, e prossegui confiante em meu périplo.


Bosques centenários dão passagem aos peregrinos.

Lentamente fui ascendendo e, mais acima, o roteiro passou a discorrer em meio a belo bosque de árvores centenárias.

Na sequência, passei a transitar em meio a uma imensa plantação de canola que, com seu amarelo vivo misturado ao talo verde, me lembrou imediatamente as cores de nossa bandeira nacional.


No caminho, em direção à Zariquiegui
.

Ainda em aclive, ultrapassei um casal de alemães que caminhava com seus dois filhos pequenos.


Cruz em homenagem ao peregrino belga Koks Frans.

Também transitei diante de uma campa em homenagem ao belga Koks Frans, falecido naquele local.

E logo adentrei em Zariquiegui, um pequeno povoado, onde existe um ótimo albergue e oferta variada de bares, pensões e hostais.

 

Chegando ao povoado de Zariquiegui.

Este simpático povoado se encontra distante 11 quilômetros de Pamplona, e está situado aos pés do Alto do Perdão.

Como monumento histórico, apresenta a igreja de Santo André, de estilo românico tardio, do século XIII.

A vila possui poucas casas ao redor de uma única rua e, já, na trilha, rumo a travessia ao Alto do Perdão encontra-se a fonte de Gambellacos, mais conhecida como Fonte Reniega, cuja lenda conta que o demônio neste mesmo lugar ofereceu água a um peregrino sedento, desde que renegasse a Deus, a Virgem Maria e a Santiago.

O peregrino, já moribundo, desprezou a água e rezou até que o demônio desaparecesse e em seu lugar apareceu a fonte com água cristalina, que saciou a sua sede.

Atualmente, há dois albergues nessa localidade, além de dois bares e um restaurante.

 

Caminho em direção ao Alto del Perdón

Fiz uma pausa num jardim localizado próximo da entrada da povoação, com o fito de me hidratar e ingerir uma banana.

E enquanto ali descansava, um ônibus estacionou numa esquina próxima e “despejou” umas 30 pessoas na rua.

Na verdade, se tratava de um grupo de turistas, todos portando pequenas mochilas às costas, que rapidamente adentraram ao Caminho.


No Caminho, em direção ao Alto del Perdón.

Logo depois eu segui e rapidamente ultrapassei todo o pessoal, pois a maioria era constituída por pessoas idosas e que paravam a todo instante para fotografar ou curtir o visual.

O aporte final ao cume do morro é bastante complicado e íngreme, mas nem se compara com o que enfrentei em 2004, porquanto agora o leito pedregoso foi aplainado e alargado, bem como sobre ele foram despejadas britas e pedregulhos, de forma que o piso ficou bem mais firme e compacto.


Foto clássica, no Alto del Perdón!

Já no Alto del Perdón, posei para a clássica foto no local, feita por um francês que ali se encontrava com sua esposa.

E foi com grande alegria e emoção, que me deixei maravilhar pela famosa escultura de Vicente Galbete, onde exibe uma caravana de peregrinos de distintas épocas, retratando assim a evolução do Caminho ao longo dos tempos.


Visão maravilhosa, desde o Alto del Perdón!

Depois fiquei por largos momentos apreciando a vista extasiante que se descortinava à minha frente, podendo ver ao longe inúmeros povoados, inclusive, Puente la Reina, minha meta para aquele dia.


Visão infinita, desde o Alto del Perdón!

Então, iniciou-se a parte mais difícil do dia, que foi descer a montanha, pisando sobre milhões de pequenas pedras, que tornavam o percurso extremamente instável, pois bastaria um leve descuido, e uma queda de tétricas proporções seria inevitável.


Descida terrível pelo lado oposto: muitas pedras!

Com muito cuidado fui vencendo os obstáculos e, já no plano, fiz uma pausa para hidratação e alongamentos, porque esse difícil declive foi um dos maiores desafios que encontrei no Caminho.


Caminho em direção à Uterga.

A partir desse patamar, passei a caminhar num planalto, sempre rodeado por imensos trigais e logo cheguei à Uterga.

 

Chegando em Uterga!

Uterga é o primeiro povoado que se adentra, após a descida do Alto del Perdón e, como curiosidade, observando-se o formato das pedras encontradas no duríssimo declive, nota-se que a grande maioria delas tem o formato de um coração.

Contando com uma população de 170 habitantes, é uma das poucas cidades do Caminho que se mantém num plano inclinado, porquanto em sua entrada estamos a 640 metros de altitude e na saída, a 430 metros. 

Salvo por uma única pessoa que vi caminhando na avenida principal, a cidade se encontrava deserta e silenciosa e, sem mais o que fazer ou ver, prossegui adiante, atravessei a rodovia e adentrei, à direita, em outro agradável caminho cascalhado.


Caminho em direção à Muruzabal!

Mais três quilômetros vencidos e cheguei à Muruzabal, outro minúsculo pueblo.

Quarenta minutos depois de Uterga situa-se Muruzabal, povoado atravessado pela Calle Esteban Pérez, (na maioria das vezes nos pueblos a rua chama-se Calle Mayor), onde se encontra a igreja de San Esteban.


No Caminho em direção à Muruzabal!

Ali pode também ser visto o palácio barroco do mesmo nome, que atualmente é uma bodega.

Possui uma casa rural, e uma modesta "tienda" para suprimentos básicos, sendo mais um daqueles povoados que chamamos “de passagem”.

 

Placa convidando o peregrino desviar-se para visitar a igreja de Eunate.

Ali, em trâmite por sua “calle principal”, avistei uma placa me “convidando” a fazer um desvio à esquerda, e visitar à imperdível igreja de Eunate, que em basco significa 100 portas, e tem sua planta octogonal similar à da Cúpula da Rocha, na Terra Santa.

Edificada no século XII, sua construção é atribuída aos Templários por diversos estudiosos.

Ocorre eu que já havia visitado aquele místico templo em 2001 e 2004, e naquele momento sentia muitas dores nos pés e na ponta dos dedos, por conta da difícil declividade enfrentada depois do Alto del Perdón, de forma que resolvi deixar tal visita para outra ocasião.

Assim decidido, prossegui adiante e depois de mais três quilômetros, adentrei em Óbanos.

 

Igreja matriz de San Juan Bautista, em Óbanos.

Oficialmente, na praça do Ayuntamento, junto à igreja de São João Batista, os Caminhos se unem: o que vem de Somport com o de Roncesvalles, embora no mundo peregrino tal fato seja reconhecido como em Puente la Reina.

A igreja foi construída em 1912, restaurada em 2007, mas trouxe de uma antiga construção gótica do século XIV, a portada, a torre e a pia batismal.

Óbanos ascendeu à categoria de Vila em 1665, e no século XIII, foi sede da Câmara onde reuniu grande parte da nobreza contra os abusos da monarquia.

Ela tem a honra de ser a guardiã de uma das mais antigas instituições democráticas, sendo que Sancho VII, o Forte, foi o único a reconhecer e ampliar os conhecimentos no campo da justiça, criando a atribuição do Ministério Público para julgamento de criminosos.


Placa na entrada de Óbanos, fazendo propaganda de um albergue privado.

Desde 1965, está representada nessa cidade “O mistério de Óbanos”, resultado de uma antiga lenda do Caminho, no qual o príncipe Guillermo de Aquitânia, num momento de fúria, matou a sua irmã Felícia.

Depois, arrependido, peregrinou até Santiago para pedir perdão, e regressando se estabeleceu na ermita da virgem de Arnotegui, onde levou uma vida de eremita até o fim de seus dias, chegando a ser santificado.

A lenda de São Guilherme e Santa Felícia é uma das mais célebres do Caminho.

O povoado possui albergues, casa rural e possibilidade de compra de mantimentos.

 

No caminho para Puente la Reina.

Calmamente, transitei por suas bem cuidadas ruas, fiz fotos da igreja de San Juan Batista em sua praça central, depois prossegui em direção à saída da cidade.

Um caminho plano e bem cuidado me levou com segurança e, animado, logo adentrei ao “casco viejo” de Puente La Reina.

Na sequência, me hospedei numa pensão onde havia feito reserva.

 

A maravilhosa ponte que dá nome à cidade.

Com 2.300 habitantes, o que é muito em se tratando de povoados ao longo do Caminho, Puente la Reina está situada a 672 quilômetros de Santiago.

Chamada de Gares pelos bascos, ela é cercada de um significado simbólico e profundo para o peregrino, pois é, na prática, onde "todos os caminhos a Santiago tornam-se um só", onde finalmente se fundem o Caminho Aragonês e o Caminho Francês.

A partir daqui, a rota é uma só até Santiago.

Puente la Reina, antigamente denominada Puente Regina, foi o primeiro centro urbano a crescer sobre o eixo da peregrinação.


Puente la Reina, de outro ângulo.

Sua majestosa ponte, com seis arcos de pedra cruzando o rio Arga, foi construída por ordem de Doña Mayor, esposa do rei Sancho, el Mayor, no século XI.

A ponte foi edificada especialmente para que os peregrinos a caminho de Compostela atravessassem com segurança o largo rio, mas tinha também função estratégica e militar, vez que nela havia três torres defensivas, que ruíram no século XIX.


A ponte refletida no rio Arga, foto clássica.

O afluxo de viajantes naquele local era tão grande, que foram estabelecidas normas limitando sua estadia na cidade.

Do século XII ao século XV, essa povoação foi governada pela ordem dos Templários, que receberam do rei Garcia VI, também, o dever de acolher gratuitamente os peregrinos que viajassem "guiados pelo Amor a Deus".


Igreja de Santiago, em Puente la Reina.

Ainda hoje o peregrino pode ouvir, ao cair da noite, as tradicionais quarenta badaladas, lembrança do velho costume medieval de avisar aos viajantes que as portas da cidade seriam fechadas ao escurecer.

Tem 3 albergues e hostais à disposição dos peregrinos e alguma facilidades para aquisição de suprimentos e alimentação.

A cidade teve um palácio real, com suntuosos jardins, onde o rei de Navarra, Carlos III, passou no século XV grandes temporadas.


Santiago, a vossa benção.

Logo na entrada da cidade está a igreja del Crucifijo (românica tardia), obra dos cavaleiros templários, que instalaram ao seu lado um hospital de peregrinos, onde hoje é o albergue dos padres reparadores.

Na Calle Mayor está a igreja de Santiago, do século XII, com sua magnífica portada românica, de influência mourisca, que repete a arquitetura da igreja de San Pedro de la Rua em Estella. Como detalhe, no interior da igreja há uma imagem policromada de Santiago do século XIV, que é única no Caminho – conhecida como Santiago “El Beltza” (negro em basco).


Igreja de Santiago, século XII.

Outro monumento de importância artística é a igreja de San Pedro, de origem medieval, reformada no século XVII a XIX, que conserva em seu interior uma talha da Virgen del Txori, antigamente venerada em um nicho da ponte românica que atravessa a cidade.

Contam os habitantes que, de tempos em tempos, um txori (passarinho em basco) limpava o rosto da Virgem com o bico, e quando isso acontecia era motivos de festas no povoado.

 

Defronte à porta da igreja de Santiago.

Mais tarde, após banho, lavar roupas e cuidar de minhas bolhas nos pés, saí para almoçar e, na sequência, deitei para reparadora soneca.

Depois, calmamente transitei pelas ruas milenares dessa mística cidade e fui até o Albergue dos Padres Claretianos, carimbar minha credencial.

Em seguida, fiz demorada visita à igreja de Santiago, um templo romântico, que remonta o século XII.


Ainda, Puente de la Reina!

Energizado, me dirigi à ponte medieval que dá nome à cidade para fazer algumas fotos.

Por esse local eu transitaria na manhã seguinte, ao deixar a urbe.


Com minha amiga Maria, proprietária do bar La Plaza, em Puente la Reina.

Após me suprir de mantimentos num supermercado, ainda passei um bom tempo conversando com a amiga Maria, proprietária do bar La Plaza, que eu conhecera quando ali pernoitara, no longínquo ano de 2004.

Já no quarto, passei a estudar a jornada seguinte, onde, se possível, tentaria fazê-la dupla, pois o clima finalmente esfriara e como conhecia seu relevo, sabia da possibilidade de completar o trajeto sem grandes sacrifícios.

Em seguida, fui dormir.


Plantação de trigo, paisagem localizada próximo de Urtega.