4ª etapa: PUENTE LA REINA à LOS ARCOS: 47 quilômetros


4ª etapa: PUENTE LA REINA à LOS ARCOS: 47 quilômetros

O clima estava favorável, mas o dia clareava ao redor das 7 h 15 min, pois a Espanha adotara o horário de verão recentemente, na verdade, no último domingo de março como manda a lei.

Assim, como não queria utilizar minha lanterna, deixei o local de pernoite às 6 h 45 min, seguindo por ruas empedradas e silenciosas.

Apesar da quietude da hora, caminhei escorreito, sem temer violência de espécie alguma, muito embora estivesse sempre sozinho no início de minhas jornadas, pois, jamais tive medo de ser abordado por marginais ou mesmo ser atacado por algum animal de hábitos noturnos.

Dessa forma, calmamente ultrapassei o rio Arga, sobre a milenar ponte que remonta o século XI.


Caminho em direção à Maneru.

Então, obedecendo à sinalização, eu transpus a rodovia N-120 e adentrei em larga, fresca e plana estrada de terra, e segui tranquilamente meu rumo, enquanto o dia raiava com lentidão.

Após vencer difícil aclive, já no plano, uma hora depois da partida, eu passei pela cidade de Maneru, onde tudo ainda estava quieto e silencioso, nem mesmo um gato em avistei em sua rua principal, por onde transitei sem pressa.

 

Adentrando à cidade de Maneru.

Maneru está situada a 5 quilômetros de Puente la Reina, e na entrada dessa pequena vila existe um lindo cruzeiro dando boas vindas ao peregrino.

O povoado somente dispõe de um modesto restaurante e uma casa rural, sendo que seu conjunto urbano tem uma planta irregular, típica das aldeias medievais.

A área central está organizada em torno de grandes espaços abertos, a exemplo da Praça de São Pedro, onde fica a paróquia, em um nível inferior.

Na Praça dos Tribunais, começam suas ruas estreitas que encontram com a rua Mayor.

Nas ruas e praças podem ser vistas casas de três ou mais pavimentos, construídos em pedras de cantaria, com grandes blocos até mesmo nas molduras das janelas.


Transitando por Maneru, pequeno, mas simpático povoado.

No lugar onde ainda se conservam os restos de uma igreja gótica, antes era uma antiga estalagem dos monges hospitalários, e atualmente é a  igreja de São Pedro Apóstolo, do século XVIII.

Na antiguidade, ela foi uma vila da realeza, e tais terras foram herdadas pelo monastério de Iranzu e pela Ordem Militar do Hospital de São João de Jerusalém, cuja Ordem prometeu, em 1290, não se desfazer dos seus agricultores.

Mas a igreja se beneficiava da transferência de parte do dízimo, pelo Bispo de Pamplona, em 1351.

Maneru escapou do domínio da Ordem Militar em 1555, ao pagar 800 ducados para o convento do Crucifixo de Puente la Reina.

 

No Caminho, em direção à Cirauqui (ao fundo, no cimo de um morro).

Prosseguindo, adentrei em outra agradável estrada de terra cascalhada, situada entre imensos trigais e, mais adiante, ultrapassei um casal de peregrinos coreanos que, sem pressa,  fotografavam cuidadosamente os arredores.

Após cumprimentá-los, prossegui e logo pude avistar a cidade de Cirauqui no cimo de um morro, onde cheguei sem maiores complicações.

Cirauqui (ninho de cobras) é uma cidade fortificada em pleno Caminho de Santiago, está estrategicamente situada no alto de uma colina, e convida o peregrino a caminhar por suas formosas ruas relembrando seu passado medieval.

São muralhas, portas, igrejas e ruas sinuosas, onde podem ser vistas casas blasonadas.

Sem dúvida, um conjunto que constitui um atrativo a ser explorado pelo peregrino.


Ascendendo em direção à Cirauqui (ninho de cobras).

Possui dois albergues: um público e outro privado, bem como dois restaurantes, mas nenhuma “tienda” para suprimentos.

Devido a sua privilegiada localização, Cirauqui foi eleita, desde cedo, como um lugar para assentamento de um povoado, e sua história está vinculada à romanização, ao Caminho de Santiago, ao condado de Lerin e às guerras carlistas.

A ponte medieval de somente um arco (puente caído) é um dos monumentos do Caminho.

Trata-se de um trecho recuperado e conservado de uma antiga calçada romana, onde foram encontrados abundantes restos de cerâmica, nos arredores da cidade.

Dois quilômetros adiante há também um fato histórico, qual seja a passagem pelas margens do rio Salado, onde o Codex Calixtino do século XII registrava: "…., por la zona oriental, discurre el río llamado Salado: cuidado con beber en él, ni tú ni tu caballo, pues es un río mortífero!"


Belas paisagens fotografadas a partir da cidade de Cirauqui.

Merece uma visita à igreja de Santa Catalina de Alejandria, do século XIII, e à igreja de San Roman, situada na parte mais alta do Pueblo, que conserva a primitiva construção do século XIII – românica, mas com influência árabe – com um bela portada românica.

Ultrapassei a cidade seguindo a profusa sinalização e pude notar ao menos dois bares abertos, onde peregrinos faziam calmamente seu desjejum.


Escultura curiosa do mapa-mundi, feita por plantações, em Cirauqui.

Porém, como eu estava bem alimentado, optei por seguir adiante e, logo principiei a descer, até transpor um pátio, de onde pude fotografar os preciosos arredores, plenos de muito amarelo e verde.

Já descendendo, transitei sobre uma milenar “puente” medieval, ou melhor, aquilo que ainda resta dela, vez que sua estrutura já está bastante danificada, e depois de ascender pelo lado oposto, atravessei a rodovia N-120, e prossegui baixando por um agradável caminho de terra.


Puente Medieval (restos), século XII

Dois quilômetros depois, transpus a rodovia por um túnel, e após acender por um caminho empedrado, onde ultrapassei 4 casais de peregrinos, adentrei em Lorca.

 

No caminho para Lorca.

Mais um povoado típico do Caminho, onde as casas foram edificadas ao longo de sua “Calle Mayor.”

Possui infraestrutura básica para oferecer ao peregrino, como padaria, “tendas”, restaurantes e dois albergues. Para os biriteiros de plantão, vale informar que há um simpático albergue-restaurante-adega, facilmente identificado, porque tem na porta três barris de vinho, um de cada lado da porta e outro acima dela.

Neste povoado morreu o rei García Ramírez no ano 115, e na divisa de suas terras com Villatuerta, Gascón de Murillo fundou um hospital em 1175.


Igreja matriz de Lorca.

O local foi, desde o século XIII, sede da Ordem de San Salvador, dependente de Santa Maria de Roncesvalles, e sua paróquia, em estilo românico rural tardio (sec. XII), está dedicada a San Salvador.

 

Caminho em direção à Vilatuertta.

Logo após deixar a cidade, no banco de uma praça, fiz uma pequena pausa para ingestão de uma banana e me hidratar, depois eu prossegui adiante.

O caminho se tornou então bastante movimentado, pois os peregrinos que haviam pernoitado nos povoados por onde eu havia transitado, depois de Puente la Reina, já estavam no caminho.


Cidade de Vilatuertta, no horizonte.

Assim, por bucólicas e silenciosas trilhas situadas entre verdes arvoredos, uma hora depois, cheguei à Vilatuertta, este sim, um agradável e belo povoado, que me impressionou desde 2001, por sua beleza e cuidado com jardins, praças e ruas.


Puente medieval sobre o rio Iranzu, em Vilatuertta.

Tranquilamente, transitei pela cidade, fotografei sua igreja matriz, e por uma belíssima puente medieval eu transpus o rio Iranzu, e logo voltei a caminhar em terra.


Igreja matriz de Vilatuertta.

Após ascender levemente, no topo da elevação, pude fotografar a solitária igrejinha de São Miguel, uma construção do ano XII, mas que além de se situar distante do caminho, também estava fechada naquele horário.


Igreja de São Miguel, século XII.

Na sequência, caminhei ainda uns 2 quilômetros e logo adentrava em zona urbana.


Adentrando à cidade de Estella, bairro San Miguel.

E numa fonte situada logo na entrada da cidade de Estella, já no bairro de San Miguel, fiz uma pausa para me hidratar e ingerir uma barra de chocolate.

 

Fuente Pan, localizada na entrada de Estella.

Estella está situada às margens do rio Ega, e foi fundada em 1090, por Sancho Ramírez, para favorecer o assentamento dos franceses que faziam a peregrinação à Compostela.

No século XIX, foi reduto do movimento carlista na Espanha, e hoje é a sede da sociedade "Los Amigos del Camino de Santiago", a mais importante e ativa das instituições ligadas ao Caminho.

Em 1270, um humilde peregrino grego faleceu em Estela, em consequência dos males advindos da extenuante caminhada.

Foi sepultado, como era costume, no claustro da igreja de San Pedro de la Rúa (construída no século XII), onde havia, à época, um cemitério de peregrinos.


Cartal existente próximo ao albergue de peregrinos.

No entanto, misteriosos clarões atraíram a atenção sobre seu túmulo, e ao se reabrir o sepulcro, descobriu-se que o anônimo andarilho era o bispo de Patras, que levava uma sagrada relíquia do apóstolo André, como doação a Santiago.

Desde então, Santo André é o patrono de Estela, e a oferenda do bispo está até hoje guardada em um grande relicário de prata, nesta mesma igreja.

No primeiro domingo de agosto, são animadamente celebradas as festividades em honra desse Santo, consideradas de importante interesse turístico.

 

Albergue municipal de peregrinos de Estella.

Enquanto me hidratava, fiz uma rápida avaliação de minha condição física e constatei que não estava cansado, ao revés, ansiava por prosseguir adiante, vez que o clima frio e fresco, colaborava a favor de minha decisão.


Igreja de San Pedro de La Rúa, em Estella.

Assim, mochila novamente às costas, passei diante do albergue municipal de peregrinos, depois, transitei diante da igreja de San Pedro de la Rúa e, após vencer um longo trecho urbano, finalmente acessei uma estrada de terra.

E logo, após pequena ascensão, atravessei a aldeia de Ayegui, e cheguei ao Monastério de Irache, de Nuestra Señora la Real, nas encostas do Montejurra, um dos mais antigos mosteiros da Navarra.

Sua origem remonta, provavelmente, à época visigótica, sendo um pouco mais recentes seu Hospital de peregrinos, do século XI, e sua igreja, do século XII.


Finalmente, Bodegas Irache!

Então, próximo ao mosteiro, adentrei às famosas "bodegas", que reservam ao peregrino uma das mais fantásticas surpresas da viagem (cheia de magia): a fonte de vinho.

Sim, uma autêntica e real fonte, com duas bicas, uma das quais jorra água, enquanto a outra jorra um bom vinho navarrês, vindo direto da vinícola de Irache.

Bem na entrada do completo, numa tabuleta, está afixada uma grande saudação ao peregrino, que abaixo reproduzo:



Peregrino!

se quieres llegar a Santiago

com fuerza y vitalidad

de este gran vino echa un trago

y brinda por la Felicidad.

Ao lado da fonte a suave advertência:

Normas de uso

A beber sin abusar

te invitamos com agrado.

Para poderlo llevar

el vino a de ser comprado.

 

Bebendo à saúde de todos!

Como não podia deixar de ser, fiz ali uma obrigatória pausa e, sem peso na consciência, ingeri quase uma garrafa de vinho, o que me deixou leve e alegre.

Voltei a caminhar e, mais acima, abriram-se duas opções no Caminho: poderia ir pela direita, transitando por Ázqueta e Villamaior de Monjardim, que é preferida pelos peregrinos, pois em ambas as localidades existem albergues para pernoite.


Bifurcação de caminhos, à direita segue em direção à Ázqueta.

Porém, como já conhecia ambas as alternativas, optei por seguir à esquerda, e logo adentrei em um exuberante bosque, que me proporcionou sombra e frescor, pois o sol já começava a incomodar.


Bosque sombreado após Irache.

Foi um percurso extremamente agradável e, depois de mais uns 2 quilômetros, acessei larga e vazia estrada de terra, por onde segui embevecido pelas paisagens que se abriam à minha frente.


Caminho em direção à Luquin.

Mais cinco quilômetros vencidos, adentrei em Luquin, uma pequena vila, onde encontrei um bar aberto, e pude ingerir uma “tortilla” acompanhada de uma garrafa de água.


Cidade de Luquin, à frente.

Rejuvenescido, prossegui em frente e, depois de mais uns dois quilômetros, meu ramal se juntou com o que provinha de Villamayor de Monjardin.


A reunião dos 2 ramais, logo à frente.

O caminho se tornou uma grande, plana e infindável reta, e nele pude avistar vários peregrinos que caminhavam, ao longe, muitos quilômetros à minha frente.

Foi um percurso de superação, e para amenizar minha solidão, liguei meu pequeno rádio à pilha, sintonizei uma estação que tocava música espanhola, e segui curtindo o agradável som musical.


No caminho para Los Arcos.

A cidade de Los Arcos, finalmente, apareceu após uma pequena curva, e nela adentrei extremamente exausto e com muitas dores nos pés, porém, após me hospedar no Hostal Ezequiel, e relaxar sob um revigorante banho, já me sentia novo e bem disposto.


Caminho para Los Arcos: Sol forte e sem sombras!

Para ser bem sincero, apesar das ulcerações que vivenciava nos membros inferiores, em minha mente ecoava a frase propícia à ocasião, que dizia: “O Caminho é 25% esforço físico e 75% força de vontade”.

E isto eu tinha de sobra, graças ao bom Deus! 

Los Arcos ainda conserva traços de uma vila medieval, mas foi erguida sobre outra de origem romana, denominada de Curnonium.


Retas infinitas, já próximo de Los Arcos.

Surgiu numa encruzilhada de Caminhos, e por sua condição de localidade fronteiriça entre Castilla e Navarra, pode gozar dos privilégios de ambos os reinos.

Possui hoje cerca de 1.300 habitantes, tendo crescido obviamente por conta do Caminho de Santiago.

Chegou a contar com três hospitais para peregrinos: Santa María de Roitegui, Santa Brígida e San Lázaro, sendo que este último acolheu numerosos peregrinos enfermos, sendo sua maioria leprosos, na época em coincidiu com a construção da Basílica de Santa Maria.

No testamento do rei Teobaldo II, ao final do século XII, é mencionado um hospital de peregrinos que ele mesmo sustentava, porém, atualmente, somente existe o de Santa Brígida, do século XV.


Finalmente, adentrando em Los Arcos.

O edifício que mais se sobressai no povoado é a magnífica igreja Santa Maria, com sua torre renascentista do século XVI, inaugurada pelo rei Felipe II.

De sua muralha medieval, unicamente se conserva o chamado Portal del Estanco e o Portal de Castilla, sendo, por este último, que saiam os peregrinos ao retomar o Caminho.

Passeando pela vila, pude apreciar o portal de Santa Maria, que no passado era uma das portas de acesso a Los Arcos.


Igreja de Santa Maria, em Los Arcos.

É um arco de meio ponto, e seu conjunto possui três partes, como se fosse um retábulo.

O painel central está decorado com motivos heráldicos, com um frontal em forma de triângulo.

É uma cidade que oferece bons serviços ao peregrino, como bons hostais, vários albergues, restaurantes e numerosas “tiendas”.

 

Magnífica igreja de Santa Maria, outro ângulo

Depois de lavar minhas roupas, cuidar das bolhas nos pés, e medicar meus tendões com uma vigorosa massagem, desci para almoçar.

Apesar do horário avançado, 17 horas, pude degustar um saboroso e genuíno “menu del peregrino”, por 11 Euros.

Na sequência, resolvi abortar minha soneca diária, optando por visitar o albergue municipal para carimbar minha credencial peregrina.

Depois me provi de frutas e víveres para o dia seguinte, retornei ao hotel para torcer minhas roupas e, em seguida, decidi visitar a belíssima catedral de Santa Maria onde, inclusive, pude assistir à missa das 18 horas.


Altar-mór da igreja de Santa Maria - Los Arcos.

Finda a cerimônia, dei uma volta pela praça principal da simpática urbe e ali notei dezenas de peregrinos sentados em bares, bebendo e se confraternizando, sinal de que no dia seguinte o número de caminhantes aumentaria progressivamente.

Porquanto, na verdade, estávamos na quinta-feira da Semana Santa, período que praticamente ninguém trabalha na Espanha, não há aulas, assim muitos jovens se lançam no Caminho, aproveitando sua estrutura barata, para fazer turismo.

Em seguida, retornei rapidamente ao meu quarto e logo me recolhi, vez que me sentia extremamente estafado, em face do longo trajeto vencido, posto que, apesar de ter sido um dia fisicamente exigente, acabou por ser também espiritualmente retemperador, em razão da missa assistida.