5ª etapa: LOS ARCOS à LOGROÑO: 30 quilômetros


5ª etapa: LOS ARCOS à LOGROÑO: 30 quilômetros

Igreja de Santa Maria, às 6 h 30 min da manhã.

Mais uma vez, seria um dia difícil, não tanto pelo percurso, meu velho conhecido, e nem tão longo quanto o dia anterior, porém estávamos na Sexta-feira Santa, um feriado em que todo o comércio fecha suas portas na Espanha, além do extremo afluxo de turistas aos centros maiores.

Já prevendo dificuldades, resolvi sair bem cedo, como forma de minorar os entraves em Logroño que, sendo capital da Província da Rioja, uma cidade razoavelmente grande para os padrões do Caminho, deveria me apresentar dificuldades no sentido de hospedagem.

De fato, no dia anterior, ao tentar fazer reservas em pensões, encontrei tudo lotado, o que me deixou profundamente preocupado quanto ao pernoite desse dia.

Assim, bem alimentado e com um agasalho extra, pois fazia muito frio nesse dia, deixei o local de pernoite às 6 h 30 min, portando minha fiel lanterna, e iniciei meu caminho.

Passei diante da Catedral de Santa Maria, depois pelo albergue de peregrinos e, atento à sinalização, segui em frente.


Caminho em direção à Sansol.

Lembrei-me de que Machado de Assis escrevera em Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Dormir é um modo interino de morrer”.

Pode ter razão o mestre da literatura brasileira, mas eu podia sentir o milagre produzido em meu organismo por oito horas de sono, mesmo considerando a conturbada e desgastante jornada do dia anterior, eu me encontrava disposto como nunca e caminhava com muita vontade.

Então, vencida a parte urbana, iniciou-se um caminho largo e plano em terra batida, onde o risco de me perder era praticamente nulo, mormente porque logo avistei inúmeros peregrinos madrugadores caminhando a minha frente.


Sansol, em destaque, no cimo de uma elevação.

O dia lentamente foi clareando e pude perceber com melhor acuidade, que transitávamos novamente em meio a imensos trigais.

É interessante porque caminhava sempre com o sol às minhas costas, porquanto eu seguia de leste para o oeste, assim, não era ofuscado pela luz solar e, ainda, ela iluminava meu itinerário.


À minha retaguarda, o dia lentamente amanhece.

À minha direita, podia ver me escoltando, em todo trajeto, a belíssima Cordilheira Cantábrica e, durante muito tempo, essa maravilhosa cadeia de montanhas me acompanharia, como um anjo da guarda, coberta de neve.

Em termos geográficos, ela se ergue paralela ao Mar Cantábrico, e possui 480 quilômetros de extensão.

Eu seguia em bom ritmo, já plenamente recuperado do trajeto vencido no dia anterior, e nesse primeiro trecho ultrapassei mais de 10 peregrinos, inclusive, uma simpática dupla de nacionalidade irlandesa, com quem conversei e caminhei por algum tempo.


Avenida principal da cidade de Sansol.

E sem maiores atropelos, depois de 7 quilômetros vencidos, adentrei em Sansol, um povoado pequeno, mas onde observei 2 bares abertos e inúmeros peregrinos ali sentados, tranquilamente  fazendo seu desjejum.

No entanto, eu estava bem alimentado, sem dores e animado, assim, tranquilamente ultrapassei a pequeníssima povoação e prossegui adiante.

Então, depois de um pequeno descenso lateral, e mais um quilômetro percorrido, adentrei em Torres del Rio, uma cidade tradicional e famosa no Caminho.

Tudo porque, nela se encontra uma das joias arquitetônicas do Caminho de Santiago – a igreja octogonal del Santo Sepulcro - edifício românico, com características funerárias evidentes, onde cabe destacar a rica iconografía de seus capitéis.


Descendendo em direção à Torres del Rio.

O tímpano da entrada está representado por una cruz patriarcal, símbolo da Ordem Militar del Santo Sepulcro, sendo que alguns historiadores atestam que a igreja é de origem templária.

Sua cúpula, com uma complexa rede e enervaduras em forma de uma estrela de oito pontas, denota uma forte influência árabe.

Não menos notável, embora bem mais moderna, é a igreja paroquial gótica-renascentista, consagrada a San Andrés.

De pequenas dimensões, foi construída no século XVI, tendo uma planta de cruz latina, constituída de três naves, e cabeceira octogonal.


Igreja matriz de Torres del Rio.

Nas imediações do povoado, existem vestígios de uma provável exploração agrícola romana.

Em tempos de outrora, ali também existiu um monastério, que Jimeno Galíndez doou a Irache.

Pela extemporaneidade do horário em que transitei pela graciosa urbe, encontrei tudo fechado, notei apenas alguns bares abertos e, ainda, passei diante de dois albergues, um deles privado.


Um grande declive a ser vencido, porém agora se encontra cimentado, representando pouco risco ao peregrino.

Prosseguindo, iniciou-se suave ascenso que, em seu final, culminou em grande declividade.


Caminho em direção à Viana.

Contudo, nesse “tramo”, e relativamente ao que encontrei em 2004, o roteiro foi melhorado e o piso, nos locais críticos, hoje está calçado com bloquetes, impedindo escorregões e evitando riscos aos peregrinos, mormente àqueles que não usam cajados.


No caminho, em direção à cidade de Viana: com sol, temperatura 10 graus.

Na sequência, iniciou-se empinado ascenso, que culminou à beira da rodovia.


Quase chegando em Viana, ainda na Província da Navarra.

Mais alguns pequenos aclives e declives vencidos em bom ritmo, e logo pude avistar a cidade de Viana, que se encontra encravada no cimo de uma elevação.

Nesse trecho final, segui caminhando com um jovem português, professor de música na Arábia Saudita, uma pessoa extremamente inteligente e alegre, que foi uma ótima companhia no Caminho.

Na entrada de Viana ele parou num bar e eu segui até a praça central da cidade, onde fiz uma pausa para retirar minha jaqueta, vez que o calor já se fazia inclemente.

Aproveitei, ainda, para me prover de água numa fonte próxima, além de ingerir uma banana.

 

Igreja matriz de Viana.

É bom saber que pouco tempo após sair de Los Arcos, o peregrino já pode avistar Viana.

Não por estar próxima, como pode parecer, porém, por situar-se sobre uma alta colina que domina toda a região. Na verdade o peregrino deve enfrentar uma longa caminhada de algumas horas, por locais totalmente desertos e sem recursos.

E, ao chegar a Viana, ficará na dúvida se compensa a penosa subida até a cidade, ou se é melhor continuar caminhando diretamente até sair da Navarra e chegar à cidade de Logroño, já na província de La Rioja, vez que, na verdade, ela tem pouco a oferecer.

Há restaurantes com boa comida, e seu maior ponto de interesse é a majestosa catedral gótica de Santa Maria, do século XIII.

Viana foi fundada em 1219 por Sancho, o Forte, rei de Navarra, como baluarte na fronteira com o reino de Castela, e tornou-se tão importante que, no século XV, os herdeiros do trono de Navarra recebiam o título de Príncipe de Viana.


Prédio do "Ayntamento" de Viana.

A quem aprecia marco histórico, é interessante saber que nesta igreja está sepultado César Bórgia, uma das figuras políticas mais importantes e influentes da Renascença italiana.

César nasceu em 1475, sendo irmão de Lucrécia Bórgia (a envenenadora), e filho do cardeal Rodrigo Bórgia, que mais tarde, em 1492, tornou-se o papa Alexandre VI.

Sendo um militar competente, César ajudou seu pai a recuperar o enfraquecido poder dos Estados Papais na Itália, e enfrentou as invasões francesas em território italiano, em fins do século XV.

Sua ligação com a Espanha provém do fato de ter se casado com Charlotte d’Albret, irmã do rei de Navarra.

Quando seu pai, o papa, morreu, em 1502, César foi preso e levado à Espanha, onde passou a servir no exército real, falecendo em batalha ocorrida nos arredores de Viana, em 1507, combatendo os rebeldes que lutavam contra seu cunhado, o rei de Navarra.


Igreja de Santa Maria - Viana

César Bórgia foi o modelo que inspirou Maquiavel a escrever "O Príncipe", e assim foi a origem da palavra "maquiavélico".

Talvez por isso, seu túmulo hoje vazio (pois o corpo desapareceu), pareça tão perdido e deslocado no meio de um Caminho onde reina a paz e não as intrigas políticas.

Viana pode ser considerada uma cidade do Caminho, já que possui cerca de 3.600 habitantes, estando muito próxima de Logroño.

Recebeu o título de cidade em 1630, e possui o título de “muy noble e leal ciudad de Viana”.

Foi um importante baluarte do antigo principado do reino da Navarra, e conserva até hoje parte do conjunto amuralhado do século XIII, além de numerosas casas com brasões, símbolo da burguesia, e importantes monumentos históricos.

Foi fundada por Sancho VII, para proteger o sul da Navarra contra invasões.

Tem somente um albergue, que fica ao lado das ruínas de um antigo cemitério, mas dispõe de alguns hostais e vários restaurantes e “tiendas” para pequenas compras de mantimentos.

Como curiosidade, a cidade tem quase uma semana de festas que começam no dia 22 a 24 de julho, em homenagem a Santa Maria Magdalena, emendando com o dia 25 de julho, dia de Santiago.


Uma macieira em flor, fotografada no Caminho.

Como monumentos históricos que merecem uma visita, há o Balcón de Toros, cujos construtores foram os mesmos da Casa Consistorial, de forte influência na arquitetura francesa.

O balcão em si não existe mais, restando apenas o casario de formas austeras.

O Hospital civil de Nossa Senhora de Gracia é datado de 1487, mas falta-lhe unidade de estilo, prevalecendo o barroco.

A igreja de San Pedro é o templo mais antigo da cidade, e seu aspecto denota sua primitiva função de fortaleza, contudo suas constantes ampliações a descaracterizaram, embora ainda conserve trações da influência ciscertense, especialmente na cabeceira da igreja.

Já a igreja de Santa Maria, é um edifício gótico, cuja construção se iniciou depois da fundação de Viana por Sancho VII “O Forte”, no século XIII, e foi concluída no século XIV, sendo depois restaurada.

A Casa Consistorial é um grande edifício de forma prismática, onde se destaca as conservadas pedras que sustentam a construção; transmite uma forte sensação de horizontalidade, além de possuir capitéis toscanos e belos balcões.

 

No caminho, em direção à Logroño.

A cidade se encontrava bastante movimentada, com muitos peregrinos e ciclistas tomando café nos bares ali existentes.

No entanto, a igreja matriz que eu tanto queria visitar, infelizmente se encontrava fechada e só abriria à tarde, para as cerimônias e procissões da Sexta-Feira Santa que vivenciávamos naquele dia.

Assim, retemperado, prossegui meu destino.


No caminho em direção à Logroño.

Um caminho bem sinalizado me levou primeiramente por asfalto, depois por terra, a caminhar por locais arborizados e planos, tendo como pano de fundo a majestosa Cordilheira Cantábrica, de onde provinha uma brisa fria e persistente.


Deixando a Navarra, para adentrar na Rioja.

Já no final da jornada, eu deixei a província da Navarra por onde eu viera caminhando e adentrei na de Rioja, famosa por seus saborosos e bem elaborados vinhos.

Já descendendo em direção à urbe, passei diante da casa de Dona Felisa, falecida em 2002, e ali encontrei sua filha Maria cumprindo a mesma função: carimbando as credenciais peregrinas.


Maria, filha de Dona Felisa, que prossegue carimbando as credenciais peregrinas na entrada de Logroño.

Ela ficou bastante feliz quando lhe disse que além de brasileiro, também havia conhecido sua mãe, em 2001, quando por ali transitara.

Após fotos do local, segui adiante, agora já em zona urbana, e logo passei pela Puente de Piedra, do século XII, sobre o rio Ebro, linda e imponente com seus arcos perfeitos, construídos em pedra.


Ponte sobre o rio Ebro, na entrada de Logroño.

A cidade se encontrava em polvorosa, com muitos turistas e pessoas idosas visitando as igrejas, ruas interditadas para os desfiles da tarde, porém com o comércio praticamente todo fechado.

Depois de muito esforço e busca, e após ouvir em vários estabelecimento hoteleiros que a lotação estava completa, acabei por encontrar uma pensão onde me alojei, por sinal, o pior lugar em que dormi durante o período em que estive no Caminho.

Mas, que fazer, estávamos num dia santificado, onde a tradição espanhola fala mais alto.

Depois do banho e lavagem das roupas, saí para almoçar e com muita dificuldade localizei um restaurante, onde ingeri um “menu del dia festivo”, por salgados 20 Euros.

 

Um altar, que participaria do desfile noturno em Logroño.

Logroño, com quase 146.000 habitantes (metade de toda a população da província de La Rioja), é um grande centro urbano, o que a torna uma das mais populosas cidades do Caminho,

Situada às margens do rio Ebro, e a 600 quilômetros de Santiago, nela eram impressas as Indulgências fornecidas aos caminhantes que chegavam à Compostela.

Entra-se em Logroño pela antiga ponte de pedra, construída no século XI, por ordem de Alfonso VI, rei de León e Castela, e posteriormente mantida e reformada por Santo Domingo de la Calzada e San Juan de Ortega, e era tão importante estrategicamente, que chegou a ter 12 arcos e 3 torres defensivas.

As origens da cidade se perdem no tempo, mas é certo que foi recuperada das hostes muçulmanas no século X.


Pedras de dominó, numa das ruas de Logroño.

Pouco antes da ponte, o peregrino é invariavelmente surpreendido por duas senhoras que ali residem e permanecem de prontidão durante todo o dia, esperando os andarilhos com doces e frutas.

Oferecem ainda um enorme livro de atas para que o peregrino ali registre suas impressões, comentários e emoções.

Dentro de casa já há uma verdadeira "enciclopédia", com numerosos livros onde estão carinhosamente arquivados os registros de muitos anos de peregrinações.

Nos arredores de Logroño, a apenas dezessete quilômetros da cidade, no sopé de uma colina sobre a qual ainda se avistam as ruínas de um antigo castelo, situa-se a pequena aldeia de Clavijo.


Igreja de Santiago, em Logroño.

Embora, situada fora da rota de peregrinação, foi ali que ocorreu um dos fatos mais importantes da história do Caminho, quando no ano 844, o rei Ramiro I, de León, derrotou o califa mouro Abdar-Rahman II, na famosa batalha de Clavijo.

Diz a lenda, que essa vitória só foi possível porque São Tiago, em pessoa, ajudou as tropas cristãs, montado em um cavalo branco, e desde então nasceu o mito de Santiago Matamoros ("mata mouros"), que rapidamente espalhou-se pela Europa.

Todo dia 23 de Maio, aniversário da batalha, realiza-se em Clavijo uma pitoresca e folclórica romaria presidida pelas imagens de São Tiago e da virgem de Ten Tu Día.

No domingo seguinte a essa festa, celebra-se a missa ao lado do castelo, acompanhada por uma representação alegórica da lenda das cem donzelas, com dançarinas vindas da vizinha aldeia de Albelda.

Destaque (para os que dispõem de tempo e fígado), para a já lendária “trilha dos elefantes” (la senda de los elefantes) nas ruas Laurel e San Juan – um conjunto de bares onde cada um oferece um tipo de “tapa” (pinchos), para ser acompanhado de umas “cañas” ou umas “copas” de um bom vinho La Rioja.

Entre as virtudes da cidade está a da cultura do vinho e a gastronomia, com boa oferta de albergues, hostais, hotéis e restaurantes.

 

Igreja de Santiago, em Logroño, sob outro ângulo.

Ao retornar à pensão, pude perceber que meus vizinhos alojados nos quartos contíguos, eram barulhentos e aparentemente estavam um tanto “borrachos”, porque falavam alto, tropeçavam a todo instante em móveis, arrastavam cadeiras e mantinham a TV num volume inaceitável.

Além disso, os banheiros ficavam no corredor e eram compartilhados por todos os hóspedes, de forma que também tive dificuldades para utilizá-los.

Assim, embora me esforçasse bastante para relaxar, foi difícil conciliar o sono e descansar à tarde, de maneira que durante as 2 horas em que passei deitado, oscilei entre um cochilo e outro susto, pelos brados sonoros que ouvia amiúde.

Então, no final da tarde, fui verificar por onde deixaria a cidade no dia seguinte e, ao notar que o trajeto passava diante da igreja de Santiago, aproveitei para fazer demorada visita ao local.

À noite, daquele templo santo sairiam também inúmeros andores, para a solene procissão que se realizaria pelas ruas da cidade, e os “costaleros”, as pessoas que carregam essas enormes e pesadas plataformas, devidamente paramentados, já se preparavam para o desfile.

Ainda, também havia inúmeras confrarias que participariam das festividades e seus integrantes, devidamente vestidos a caráter, chegavam a todo instante conversando e deixando o ambiente sacro bastante turbulento.


Catedral de Santa Maria la Blanca, em Logroño.

Assim, após fazer rápida oração e acender algumas velas no templo, deixei o local e fui visitar a Catedral de Santa Maria la Blanca, onde também encontrei intensa movimentação.

Na sequência, me dirigi ao albergue municipal com a intenção de carimbar minha credencial.

Ali, o hospitaleiro muito simpático, depois de colocar o “sello” em meu passaporte peregrino, respondeu à minha indagação, confirmando para minha alegria que existia uma “tienda” aberta, duas ruas acima de onde nos encontrávamos.

Feliz, para lá rapidamente me dirigi, pois precisava comprar víveres para o lanche noturno e café da manhã, visto que pretendia deixar a cidade muito cedo na manhã seguinte.

Como não poderia deixar de ser, a loja onde adquiri vinho, água, frutas e chocolates, era gerenciada por uma família chinesa que, possivelmente residia no local, pois somente iriam fechar seu comércio à meia noite.


Mais um altar que participaria do desfile noturno em Logroño.

Em seguida retornei ao meu quarto, arrumei meus pertences e tudo o que pensava era fugir da cidade o mais rápido possível, pois a movimentação e o barulho estavam me deixando estressado.

Vez que o peregrino, acostumado ao silêncio e bucolismo das paisagens campestres, se sente triste, irritado e oprimido quando precisa regressar, ainda que de passagem, ao bulício e movimentação das grandes urbes.