6ª etapa: LOGROÑO à NÁJERA: 33 quilômetros


6ª etapa: LOGROÑO à NÁJERA: 33 quilômetros

A saída de Logroño se encontra muito bem sinalizada, com vieiras no piso.

Conforme eu previa, meus vizinhos de quarto retornaram logo no início da madrugada, batendo o salto dos sapatos, tropeçando nas camas, falando alto, rindo por qualquer baboseira, enfim, talvez não imaginassem que ao lado tentava dormir um peregrino cansado e que naquele dia teria um longo trajeto a pé pela frente.

Assim, mesmo com os ouvidos bloqueados por auriculares, foi impossível conciliar o sono depois das 2 horas, de forma que às 3 h eu já estava sentado na cama, estudando o roteiro daquele sábado e aguardando o tempo passar.


Por conta do roteiro, passei novamente diante da igreja de Santiago.

Dessa forma, depois das abluções matutinas, aliviado, deixei o local de pernoite às 6 horas, quando as ruas integralmente desertas e silenciosas me receberam com um vento frio e cortante.

Eu segui em direção ao albergue de peregrinos e ali, após me reencontrar com as flechas amarelas, iniciei minha jornada do dia.


Caminhando em direção ao "Parque de La Grajera", por onde discorre o Caminho.

Na sequência, passei diante da igreja de Santiago e prossegui tranquilo, pois as flechas e símbolos encravados no solo me conduziram, com segurança, para a saída dessa extensa urbe.


Nesse trecho, onde antigamente era terra, hoje está asfaltado.

Depois de transpor várias avenidas, finalmente comecei a caminhar pelo Parque de la Granjera, uma enorme área verde, muito bem conservada.


Lago de pescadores, localizado no Parque de la Granjera.

Esse trecho que eu me recordava em chão de terra no ano de 2004, agora está integralmente asfaltado e, no seu final, me levou a transitar diante de um grande lago, local de diversão e lazer para os aficionados da pesca.


Imensos parreirais, a cultura forte da Rioja.

Com o dia clareando, passei a caminhar entre extensos vinhedos, a cultura forte na Rioja, pela qualidade de suas terras, propícias à fabricação de encorpados e saborosos vinhos tintos.


Para onde se olhe, só parreirais.

Mais abaixo eu atravessei a rodovia e descendendo passei diante do antigo hospital de peregrinos “San Juan de Acre”, de cujas construções só restam ruínas.


Capelinha em homenagem à Virgem Maria.

Após vencer uma grande e íngreme escadaria, adentrei à cidade de Navarrete e, no primeiro bar que encontrei aberto, parei para ingerir uma saborosa “tortilla de queso e batatas”, pois meu corpo estava clamando por algum alimento salgado.

Bem disposto, prossegui por ruas tortuosas e bem sinalizadas, até sair diante da igreja matriz da cidade.

 

A cidade de Navarrete aparece no horizonte.

Simpática cidade situada a 11 quilômetros de Logroño, Navarrete conta atualmente com 2.100 habitantes e uma estrutura razoável para atender ao peregrino.

Recentemente, ela foi declarada como sendo um conjunto histórico-artístico pelo governo espanhol.

Bem estruturada, possui albergues, hostais, restaurantes e bom comércio em geral.

Curiosamente, tem uma pensão com o nome de ”Carioca”, e um bar de nome “Los Arcos”, que já se chamou “Copacabana” (ao lado do albergue).


Antigo hospital de peregrinos de Navarrete.

Na sua entrada, junto ao caminho de terra que leva à cidade, recentes escavações resgataram os restos do antigo hospital de peregrinos de San Juan de Acre, que foi construído ao final do século XII, por María Ramírez.

Suas janelas e sua bonita portada foram transladadas, pedra-a-pedra, no final do século passado, e hoje estão no pórtico do cemitério dessa localidade.

A igreja de La Assunción de Navarrete é uma edificação em pedra, com três naves, e sua construção é considerada “moderna” – de 1553 - a cargo de Juan de Vallejo e Hernando de Mimenza, sendo que sua conclusão somente ocorreu em 1645.

Navarrete foi um local famoso por suas numerosas batalhas entre castelhanos e navarros, assim como por seus numerosos artesãos em cerâmica.

 

Portada do cemitério de Navarrete, século XII.

Ali, após confirmar a sinalização, prossegui adiante e logo deixava a simpática urbe por uma larga avenida que acabou por desaguar numa rodovia, a qual transpus com extrema precaução.

E logo passava diante do cemitério da localidade, famoso por sua portada do século XII.


No caminho para Ventosa.

A partir dali, passei por vários grupos de peregrinos que partiam naquele horário, bastante tardio em minha concepção, pois já passava das 9 h 30 min.

Depois de uns 4 quilômetros, existe uma bifurcação, porém ela não está bem sinalizada, de forma que, inadvertidamente, eu fui para a esquerda.

Assim, desnecessariamente, passei por Ventosa, o que aumentou o meu percurso do dia em pelo menos dois quilômetros.

Eu transitei rapidamente pela cidade e, logo abaixo, depois de uns 700 metros, reencontrei novamente o ramal que provinha de Navarrete.


O pedregoso alto de Santo Antón.

Logo adiante, enfrentei o alto de Santo Antón que, com suas rochas afloradas, me magoaram sensivelmente os pés.

Nesse trecho também encontrei inúmeras “esculturas” peregrinas, sempre feitas com pedras sobre pedras, algo muito usual no Caminho.


Curiosas esculturas peregrinas existentes nesse trecho.

Já no cimo do morro, tinha uma visão privilegiada à minha frente, podendo visualizar além de inúmeras cidades, alguns picos nevados pertencentes à Cordilheira Cantábrica.


Uma visão privilegiada, desde o Alto de Santo Antón.

Na sequência, passei a descender e depois acessei um largo caminho de terra que, depois de mais duas horas, me levou às cercanias de Nájera.

Ali me deparei com “El Poyo de Roldán”, situado numa pequena elevação, guardiã da mítica vitória do herói Roldán contra o gigante muçulmano de nome Ferragut.


No caminho, em direção à Nájera.

Conta a lenda que Roldán, ao avistar o gigante em Nájera, apanhou uma enorme pedra, atirando-a contra ele, matando-o.

A seguir libertou todos os prisioneiros cristãos que se encontravam em Nájera (em árabe significa “lugar entre pedras”), o que bem caracteriza o lugar.

Reconquistada por Sancho “El Mayor”, foi convertida na capital da Navarra no século XI.

Economicamente é importante marco da História, pois foi a primeira cidade onde se cunhou a moeda cristã depois da retomada do poder.


Clássico poema peregrino, escrito na entrada da cidade de Nájera.

E, logo na entrada dessa simpática povoação, pude fotografar novamente o famoso poema peregrino que está transcrito num muro lateral ao caminho.

Já em zona urbana, rapidamente me localizei dentro de seu “casco viejo”, e logo me hospedava num hostal onde havia feito reserva.

Depois de um refrescante banho e finalizar as tarefas de praxe, saí para almoçar.

Na sequência, descansei por mais de 2 horas, objetivando recarregar minhas baterias, em face da noite mal dormida.

 

O belíssimo rio Najerilla que corta a cidade em dois.

Como lembrança do domínio muçulmano, Nájera conserva seu nome que, em árabe, significa "lugar entre rochas”, que foi conquistada em 923, conjuntamente por leoneses e navarros.

Antiga capital da província de La Rioja, Nájera já foi também sede da corte de Navarra, entre os anos de 918 e 1076.

No século XI, por iniciativa de Sancho III, o Maior, rei de Navarra, Nájera foi incorporada no trajeto do Caminho de Santiago, que antes passava ao largo da cidade.


Nájera, cidade bonita e famosa, merece uma visita mais demorada.

Porém a partir de 1076, seu território foi incorporado ao reino de Castela pelo rei Alfonso VI. Com seus quase 8 mil habitantes, ela está distante 573 quilômetros de Santiago e oferece todos os serviços ao peregrino.

Com bom comércio, conta com dois bons albergues, alguns hostais e excelentes restaurantes.

Nájera está situada na Rioja Alta e o rio Najerilla corta a cidade em duas partes: à esquerda, o casco antigo, com o bairro de Adentro e seus monumentos históricos; e à direita, o bairro de Afuera, com modernas construções e sob expansão industrial.

Ambos se comunicam por duas pontes: uma peatonal, e outra ponte de pedra, que substituiu a que foi construída por San Juán Ortega.


Ponte sobre o rio Najerilla.

Em meados do século XI, Don García de Nájera, governador da região durante o reinado de Sancho III, saiu certo dia para caçar com seu falcão nos campos dos arredores.

A ave, perseguindo uma pomba, penetrou então em uma gruta.

Don García, indo atrás do falcão, ali encontrou uma imagem de Nossa Senhora com uma coroa de lírios a seus pés, iluminada por uma lâmpada, na qual pousara a pomba.

Inspirado por este fato simbólico, ele construiu ali uma igreja, que é o Mosteiro de Santa María da Real, e fundou a Ordem de la Terraza, a mais antiga ordem de cavalaria da Espanha.

Tanto a igreja como a imagem de Santa Maria e a lâmpada bizantina foram conservadas e podem até hoje ser vistas pelo peregrino.

O mosteiro foi entregue por Alfonso VI, de Castela, aos monges beneditinos.


Igreja de Santa Maria la Real, em Nájera.

Em seu Panteão Real estão sepultados os reis, rainhas e príncipes que ali viveram do século X ao século XII.

Saindo de Nájera, o caminhante atravessa a Puente de los Peregrinos, sobre o rio Najerilla, construída pelo famoso San Juan de Ortega.

Antes de cruzar o rio o peregrino passava pelo bairro de San Fernando, onde havia o hospital de La Cadena, que antes fora o leprosário de San Lázaro.

Do outro lado da ponte, ficava o famoso hospital da Abadia, também chamado de Imperador, pelo apoio que prestou o rei Alfonso VII.


Mais uma vista do estupendo rio Najerilla, desde sua ponte de pedestres.

Há ainda o Monastério de Santa Elena (franciscano) – do século XVI, fundado por Aldonza Manrique, filha dos Duques de Nájera, onde se pode visitar o templo, que possui um retábulo magnífico.

Outro grande monumento é a igreja e o monastério de Santa Maria la Real, construído por Don Garcia em 1052, grande rei de Nájera, filho de Sancho “El Mayor”.

E para os que querem sair um pouco do Caminho, devem conhecer San Milán de La Cogolla e Suso, onde são famosos os manuscritos do século VI ao X, destacando-se, por sua importância e beleza, o "Códice Emilianense", pertencente ao século X. 

Depois de reparadora soneca, atravessei o rio Najerilla e fui até o albergue municipal carimbar minha credencial.


Com o Irio, irmão peregrino de Santa Catarina, que encontrei no albergue de Nájera.

Ali tive o prazer de conhecer o Irio, um peregrino brasileiro residente em Santa Catarina, com quem passei um bom tempo conversando e trocando informações.

Em seguida fui, ainda que rapidamente, visitar a Igreja de Santa Maria da Real.

Posteriormente, me dirigi a um supermercado e, no retorno, observei que o céu estava nublado, grandes nuvens se aproximando da cidade, sinal de que o tempo iria mudar.

Já no quarto, revi minhas anotações, estudei a jornada sequente, sequei as roupas que lavara, fiz curativo nos pés e logo fui dormir, pois o dia fora bastante cansativo.