7ª etapa: NÁJERA à CASTILDELGADO – 38 quilômetros


7ª etapa: NÁJERA à CASTILDELGADO – 38 quilômetros

Seria outra extensa jornada e, como de praxe, resolvi sair bem cedo, afinal era Domingo de Páscoa e gostaria de almoçar com tranquilidade para depois, inclusive, manter contato telefônico com minha família no Brasil.

Chovera muito durante a noite, porém quando deixei o local de pernoite a garoa havia cessado, de forma que, por distração, acabei saindo ser colocar a capa na mochila.

Já do outro lado da ponte, encontrei dois peregrinos austríacos que também demandavam a saída da cidade e prosseguimos juntos.

Uns 500 metros depois, a chuva voltou com força e, por pura sorte, encontrei um grande galpão coberto onde pude vestir a capa na mochila e me proteger com o poncho que levava para essas ocasiões.

Pude observar nesse trecho, que o número de peregrinos aumentava a cada dia e, face meu ritmo uniforme, estava sempre ultrapassando os retardatários.

Quando isto acontecia, e havia boa vontade da outra parte, o costume era caminhar lado a lado com os novos companheiros, trocando informações breves e essenciais, como local de origem, nacionalidade, estado geral de saúde, etc..


Nesse trecho, a cada quilômetro percorrido, aparece uma estaca como esta, dizendo a quilometragem restante até Santiago.

Então, cada qual retomava seu ritmo e se antecipava ou ficava na retaguarda.

O caminho, quase sempre plano, seguiu sobre asfalto, depois por terra, num piso firme e uniforme, de forma que mantive um ritmo tranquilo e constante, e uma hora depois, 6 quilômetros vencidos sob intermitente e fria garoa, adentrei em Azofra.

Esta pequena povoação se parece com outras tantas cidades típicas do caminho, com as casas dispostas lado a lado, frente a frente, curiosas pela façanha de homens que por ali passavam, vestidos de forma excêntrica. 

Azofra está situada sobre uma pequena colina, no centro do vale de Cañas, e é uma típica vila riojana de origem árabe, tendo como atividade econômica o cultivo de uvas, cereais, beterraba e batatas.

O Caminho de Santiago marca de forma indelével suas características, visto que sua Calle Mayor coincide com o próprio Caminho, e leva o peregrino diretamente a sua igreja paroquial, onde até em passado recente, em suas paredes e pilares, ficava o modesto e espartano albergue de peregrinos, administrado por uma senhora muito simpática – Maria Tobia.


Dia escuro e chuvoso, ao fundo Azofra me aguarda.

Sua tradicional hospitalidade vem de longe, posto que já no século XII, em 1168, Dona Izabel fundou ali um hospital de peregrinos, cuja igreja estava dedicada a San Pedro, além de dispor de um cemitério, onde eram sepultados aqueles que morriam no Caminho.

A igreja desse povoado, de pouco mais de 300 habitantes, é dedicada a Nuestra Señora de los Ángeles e foi edificada entre os séculos XVII-XVIII.

Seu altar maior é composto de um retábulo, dividido em três partes: no primeiro está San José, San Roque e María Magdalena ao centro, como padroeira da vila.

Na parte central: San Pedro, San Pablo, e Nuestra Señora de los Ángeles.


Sinalização em uma casa de Azofra.

E no terceiro está Santiago Peregrino, San Buenaventura e San Antônio de Pádua.

Cidade hospitaleira, oferece poucos serviços ao peregrino, porém possui um bom e moderno albergue, além de um hostal, bares e um modesto restaurante. 

Inúmeros peregrinos iniciavam o seu caminho naquele momento, e segui atrás deles.

Depois de algumas curvas, sempre em meio a extensos vinhedos e trigais, ao tentar utilizar minha câmera fotográfica, notei que a bateria inexplicavelmente estava quase descarregada, o que inviabilizou muitas fotos nessa jornada.


Trecho horrivelmente embarrado, onde minhas botas acabaram por descolar o solado.

Num trecho particularmente difícil e lamacento, onde encontrei muito barro e poças de água, notei que a bota do meu pé direito, embora nova, não suportara o esforço dispendido e rompera seu solado.

Desesperado, tive a sorte de encontrar um pequeno pedaço de corda jogado à beira da estrada e com ele fiz um torniquete em meu calçado, para que tudo não abrisse de vez e eu ficasse descalço na jornada.

Por sorte, logo o piso melhorou e se manteve firme até o final.

Já prevendo situações emergenciais como essa, eu levara uma potente cola de secagem rápida, com a qual pude consertar o solado de ambas as botas à noite e, nesse quesito, graças ao bom Deus, nada mais aconteceu com elas até o final de meu Caminho.

Mas, prosseguindo, novamente sob chuva intensa, passei pelo Campo de Golfe que está agregado à cidade de Ciruela e depois de mais 6 sofridos quilômetros, adentrei em Santo Domingo de la Calzada.


 

Catedral de Santo Domingo de la Calzada.

O Santo Domingo nasceu no ano 1019, na pequena cidade de Viloria, província de Burgos, a duas horas de caminhada da cidade que hoje tem seu nome.

Ele levou uma vida de eremita, totalmente dedicada à manutenção e construção de pontes, e à abertura de veredas e novos trechos do Caminho, por toda essa região.

Domingo, que posteriormente tornou-se Santo Domingo de la Calzada, teve como um de seus grandes colaboradores, Juan, que posteriormente tornou-se San Juan de Ortega.

Também o rei Alfonso VI, de León e Castela, deu-lhe toda a ajuda e colaboração nesta sagrada missão.

Santo Domingo viveu noventa anos, e no local em que morreu, foi erigida uma igreja, mais tarde transformada em catedral da cidade que floresceu a seu redor.

Duzentos anos mais tarde, no fim do século XIII, uma família de peregrinos, vindo da Alemanha, chegou a Santo Domingo de la Calzada.

A filha do estalajadeiro encantou-se com o filho do casal, Hugonell, então com dezoito anos.

Ele, porém, recusou o amor por ela oferecido.

Resolvida a vingar-se da desfeita, a donzela escondeu um cálice de prata na mochila do jovem peregrino, e o acusou pelo roubo.

O infeliz viajante foi então preso, condenado e enforcado.


Transitando por Santo Domingo de la Calzada.

Algum tempo após o enforcamento, os pais do jovem receberam uma mensagem divina dando-lhes a convicção de que o filho estava vivo.

Procuraram então o juiz, pedindo que perdoasse o rapaz, e os autorizasse a retirar o corpo ainda vivo que continuava pendurado na corda.

O juiz, com sarcasmo, interrompeu seu almoço, e respondeu que era tão certo estar vivo o enforcado, como aquela galinha que ele estava prestes a comer.

Diz a tradição, que a galinha levantou-se imediatamente do prato, cantou, e fugiu ante o olhar estarrecido do incrédulo magistrado.

Desde então, há mais de setecentos anos, há uma enorme gaiola sobre o altar da catedral de Santo Domingo, onde são mantidos uma galinha e um galo brancos, como símbolos vivos do milagre ocorrido.


Galinheiro, localizado dentro da Catedral de Santo Domingo de la Calzada.

É indescritível a experiência de estar sentado solitário, no início da manhã, em um banco da igreja ainda deserta, meditando sobre o caminho percorrido e o longo trajeto ainda a vencer, e ouvir, subitamente, o silêncio ser rompido pelo sonoro cantar do galo, ecoando pelas impassíveis paredes de pedra da velha catedral.

Talvez o assombro do peregrino seja tão grande, quanto o do juiz que viu seu almoço escapar e dar origem ao tradicional refrão:

"Santo Domingo de la Calzada, donde cantó la gallina después de asada".


Transitando pelo centro de Santo Domingo de la Calzada.

Santo Domingo de la Calzada está distante 549 quilômetros de Santiago e se levanta sobre uma planície as margens do rio Oja, bem aos pés dos picos da Sierra de La Demanda.

O nome da cidade, ao contrário do que muitos pensam, se deve ao seu fundador Domingo Garcia, que construiu uma ponte, um hospital e um albergue de peregrinos, visando facilitar a peregrinação pelo Caminho de Santiago, quando de passagem pela localidade.

Conta, atualmente, com 6.200 habitantes e um grande fluxo de turismo, face ao “milagre da galinha”, possuindo dois bons albergues, hostais, hotéis de categoria (paradores turísticos) e alguns bons restaurantes.

Há muito para ser visto em Santo Domingo: O Monastério de N. Sra. de La Anunciación, habitado por monjas cistercenses, o Convento de São Francisco, os restos da muralha de fortificação, das quais restam ainda alguns torreões, a catedral de Santo Domingo, que começou a ser erguida em 1158, a Casa Gótica, onde morreu Enrique II, em 1379, o museu da cidade, e o monumento à Santiago, todo feito em pedra, que mostra o santo como peregrino.

 

Porta principal da Catedral de Santo Domingo.

Eu transitei rapidamente pelo centro de Santo Domingo, passei diante de sua catedral onde já assistira missa em 2004, porém naquele momento estava se realizado a solene missa das 12 horas, o que inviabilizou minha visita ao seu interior.

A chuva dera uma trégua, porém notei uma grande tempestade se aproximando no horizonte, o que contribuiu para que eu estugasse meus passos em direção à saída da cidade.

O caminho no trecho posto está muito bem sinalizado e consta de grandes “andadeiros” muito bem conservados, sempre ao lado da rodovia N-120, que comporta um intenso tráfego de veículos.

Situada quase na metade do caminho entre Santo Domingo e Grañon, há uma cruz colocada à esquerda da “carretera”, fora do asfalto.


A famosa "Cruz de los Valientes".

Chamada de Cruz dos Valentes, foi ali erigida para celebrar um duelo ocorrido com a finalidade de dirimir dúvidas sobre a posse da terra.

Em um combate realizado entre o representante de Santo Domingo e aquele de Grañon, a vitória favoreceu a esta última cidade, premiando o combatente, Martin Garcia.

Como recompensa a seu gesto, este guerreiro pediu simplesmente para que, todos os domingos, uma ave-maria e um pai-nosso fossem rezados em sua memória.

Tratou-se, na verdade, de um “juízo de Deus”, singular combate muito comum na Idade Média, onde o vencedor era apenas a consequência da vontade de Deus e, portanto, estava com a razão.

Ao invés de os povos se enfrentarem, cada comunidade elegia o seu representante e ambos lutavam, deixando nas mãos de Deus o resultado, o qual sempre era acatado.

Muito mais justo do que as guerras de hoje.

Em sequência, mais seis quilômetros vencidos, eu transitei pela cidade de Granón,

 

Igreja matriz de Grañon (foto: internet)

Os que querem fugir da badalação de Santo Domingo, podem caminhar em torno de uma hora e repousar em Grañón, pequeno e simpático povoado, fundado por Alfonso III, que surgiu em uma colina (cerro Maribel), onde, desde o século X, existia um castelo, dois monastérios e dois hospitais para acolher peregrinos.

Um dos albergues, o da Ordem de San Juan Baptista, ocupa atualmente aquele que foi um destes hospitais, e acolhe os peregrinos de forma bastante singular, vez que oferece janta comunitária e café da manhã preparado pelos hospitaleiros.

À noite, após a missa, há uma benção aos peregrinos no coro da igreja.

Um pouco antes de chegar ao povoado, o peregrino encontra ao lado do próprio Caminho uma grande cruz de madeira - La cruz de los Valientes – em memória de uma batalha por terras entre Grañón e Santo Domingo, vencida por Grañón, onde não faltam testemunhos peregrinos em forma de bilhetes e pedras empilhadas.

A igreja de San Juan (onde está o albergue) foi construída no século XIV, e possui um belo retábulo construído entre 1545 e 1556, por Natuera Borgoñón y Bernal Forment.

Há ainda no povoado um outro albergue, uma casa rural e mercadinho para pequenas compras. 

Posteriormente, depois de enfrentar um pouco mais de barro e chuvas, transitei por Redecilla del Camiño, outro pequeno, mas simpático povoado.

 

Paisagem fotografada desde a cidade de Grañon.

Redecilla del Camiño é a primeira cidade da comunidade autônoma de Castilla e León, como também, da província de Burgos.


Igreja matriz de Redecilla del Camiño (foto internet).

Povoado típico do Caminho, com uma só rua, a Calle Mayor, onde pode ser visto um pequeno palacete, com dois brasões, e a igreja de Santa Maria (paróquia de N. S. de La Calle), é parada obrigatória dos peregrinos.

Possui um albergue e um bar, que também vende suprimentos primários para atender aos caminhantes.

Segundo documentos, sua existência data do ano 968, e seu desenvolvimento e história está muito vinculado ao Caminho de Santiago.

Seu traçado urbanístico é uma característica do próprio Caminho, pois sua única rua está no exato sentido leste – oeste.

O atual albergue é herdeiro do antigo hospital de San Lázaro.


Famosa pia batismal românica, século XII (foto internet).

A igreja guarda uma relíquia e uma joia da arquitetura do Caminho: uma pia batismal românica, do século XII.

Trata-se de uma grande “copa”, sustentada por oito colunas, com detalhes em alto relevo. Documentos do arquivo paroquial revelam uma curiosa noticia de um peregrino Francês do século XVI, chamado Jean, que ali faleceu.

Para custear o enterro, suas roupas foram leiloadas, porém não apareceu nenhum pretendente, tendo sido seu corpo enterrado as expensas do próprio município, ao custo de 400 “maravedies”.

 

Finalmente, Hostal "El Chocolatero", em Castildelgado, onde fiquei hospedado.

E, finalmente, às 14 horas, com muitas dores nos pés, aportei em Castildelgado, e me hospedei no Hostal “El Chocolatero”, onde fui muito bem tratado.

Depois de um merecido banho, lavagem de roupas e curativos nos pés, desci para almoçar e pude degustar um saboroso “menu del peregrino”, por apenas 10 Euros.


Igreja matriz de Castildelgado.

Mais tarde, após um bom descanso, fui até o centro da cidadezinha, apenas para constatar que a minúscula povoação mais parecia uma vila fantasma, posto que não vi uma única pessoa transitando por suas ruas.


Igreja de São Pedro, em Castildelgado, que se encontrava fechada.

Apenas fotografei sua igreja matriz, dedicada a São Pedro e onde se encontra enterrado seu patrono, Dom Francisco Delgado, bispo de Lugo.


Lanchando, acompanhado de um tinto da Rioja.

Porém, ela também se encontrava fechada, assim, retornei ao hostal, onde fiz um singelo lanche.

Em seguida, me recolhi.


Pés de peregrino: algumas bolhas e várias unhas caindo.

Como sempre, o cansaço se fora, porém, o fato de estar com 4 unhas inflamadas, com possibilidade de perdê-las, me preocupava bastante.

Assim, depois de uma boa massagem nas pernas e curativos nos pés, fui dormir, pois o dia seguinte também me reservava outro extenso e acidentado percurso.