9ª etapa: SAN JUAN DE ORTEGA à BURGOS – 28 quilômetros


9ª etapa: SAN JUAN DE ORTEGA à BURGOS – 28 quilômetros

Burgos é uma cidade belíssima e extensa, a segunda maior de todas dentre aquelas por onde transitam os peregrinos no Caminho Francês.

Além disso, sua Catedral é enorme e fascinante, visita obrigatória para todos que estão no Caminho.

Dessa forma, me programei para sair bem cedo na manhã seguinte, assim, às 5 horas já estava em pé, me preparando para a etapa daquele dia.


Passando diante do albergue de peregrinos de San Juan de Ortega, ainda estava muito escuro.

Parti solitário às 6 h 30 min, quando tudo ainda estava muito escuro, porém, com minha potente lanterna não tive dificuldades em encontrar o rumo a seguir.

Fazia frio, algo em torno de 6 graus, contudo eu havia ingerido um cappuccino preparado em meu quarto, além de frutas e uma barra de chocolate.

Eu estava bem agasalhado e observando o céu, notei milhões de estrelas brilhando no firmamento.

Apesar de solitário na trilha, não tinha medo, pois a Espanha é um lugar seguro.

Ademais, poderia encontrar animais noturnos, porém o mais perigoso deles, o javali, não habita essa região.

Na verdade, esse era o momento em que eu mais curtia o Caminho, pois, solitário na trilha, podia ver lentamente o dia clareando, pássaros chilreando, enquanto eu compassadamente via a estrada passar sob meus pés.


No caminho para Agés.

Era, ainda, o momento que eu externava minhas orações, bem como pensava em minha família e amigos que estavam no Brasil, e como, por força do fuso horário eu estava 5 horas à frente, muitos conterrâneos ainda nem tinham ido deitar e eu já estava iniciando meu périplo do dia.

Isto me infundia uma coragem e uma alegria fora do comum, assim, energizado, seguia confiante em mais uma vitória.

Quarenta minutos depois, com o dia já claro, passei por Agés, pequeníssimo povoado, onde encontrei tudo fechado.

Esta pequena vila está situada 4 quilômetros depois de San Juan de Ortega, e é uma opção para quem quer um pouco mais de conforto e tranquilidade para dormir, pois possui 3 albergues, 1 Casa Rural e um hotel.

Tem, ainda, uma igreja paroquial do século XVI, e segundo a tradição popular, as entranhas do Rei Gracia, da Navarra, foram ali enterradas, depois de ser derrotado e morto pelo seu irmão Fernando I, na batalha de Atapuerca.

No entanto, informações fidedignas indicam que o corpo está sepultado na basílica de Santa Maria de Nájera.

Destaque no povoado para uma bela e refrescante fonte e, na saída da aldeia, uma ponte de pedra de um só arco, cuja construção é atribuída a San Juan de Ortega.


Em Agés: desse local, só me restavam 518 quilômetros até Santiago.

Como curiosidade, pude ali fotografar uma placa que me avisava estar eu distante, “apenas” 518 quilômetros de Santiago.

Na saída da cidade, já pude perceber uma legião de peregrinos marchando à minha frente, então, a partir desse patamar, meu sossego se esvaiu.

Mais dois mil e quinhentos metros caminhados, agora, sofrivelmente, sobre asfalto, cheguei à Atapuerca, outro pequeno povoado que o Caminho atravessa.


Chegando em Atapuerca.

Seu grande atrativo fica fora do Caminho, é a visita ao sítio arqueológico onde foi encontrado fossilizado o “Homo Antecessor” - o homem mais antigo da Europa -, que foi descoberto em 1976, pelo professor Trinidad Torres e os membros do Grupo de Espeleologia Edelweiss, que ali encontraram uma mandíbula e outros restos humanos.

Tal material foi enviado para avaliação de Emiliano Aguirre, que ali montou um projeto científico desde 1991, estando atualmente o complexo sob a direção de Juan Luis Arsuaga, Eudald Carbonell e José Maria Bermudéz.

O sítio arqueológico de Atapuerca foi declarado Patrimônio da Humanidade em 30/11/2000.


Mural explicativo sobre a "Sierra de Atapuerca".

Às margens do Caminho, pode ser visto um “menir” (marco) – “Fin de Rey” – que comemora o feito histórico da batalha de 1054, entre o rei de Leon e Castilla Fernando I, e Don Garcia da Navarra.

Sua única igreja está dedicada a San Martin de Tours e foi construída entre os séculos XIII e XV. Atapuerca, embora seja uma pequena aldeia, oferece todas as comodidades ao peregrino, exceto serviços bancários, visto que possui bons albergues, casas rurais, restaurantes, tiendas e centro médico, sendo assim, outro boa opção para aqueles peregrinos que não desejam pernoitar em San Juan de Ortega.

Ali também não visualizei nenhum bar ou outro tipo de comércio aberto, para desespero de alguns peregrinos, que necessitavam urgentemente ingerir algo quente.


Neste local, finalmente o caminho se dirige para o campo.


No caminho, em direção à serra de Atapuerca.

Na sequência, o caminho fletiu radicalmente à esquerda, e principiou-se íngreme ascenso, feito num caminho de piso úmido e empedrado.


Muito frio, cerração e pedras, na serra de Atapuerca.

No alto da serra encontrei forte cerração, mas o risco de me perder era nulo, pois existiam muitos peregrinos caminhando à minha frente.


Cruz fincada no cume da serra de Atapuerca.

Ao atingir o cume do morro, pude contemplar uma grande cruz, rodeada de pedras, fincada a 1.150 metros de altura, o local de maior altimetria dessa etapa.


O caminho em direção à Villaval.

A partir daí principiei a descender bruscamente e, mais abaixo, passei por Villaval, pequeníssima povoação, onde tudo estava silencioso, sem alma viva na rua.


Transitando por Villaval.

Na sequência, transitei por Cardenuella Rio Pico, onde já notei alguma movimentação, mormente no tráfego de veículos.


Adentrando em Cardenuela Rio Pico, outro minúsculo povoado.

Prosseguindo, agora definitivamente sobre asfalto, passei por Orbaneja, e logo atingi a área urbana, já no município de Villafria.


No caminho, em direção à Villafria.

Foram, ainda, mais 10 quilômetros sobre asfalto, primeiramente, vencendo a área industrial da cidade, para depois adentrar em Burgos, e seguir por ruas apinhadas de gente, onde a temperatura oscilava entre 9 e 10 graus centígrados.


Adentrando à cidade de Burgos, logo após ultrapassar sua divisa com Villafria.

Estava, efetivamente, bastante frio, porém o percurso citadino está muito bem sinalizado, de forma que, sem maiores problemas, às 13 horas eu aportei diante da majestosa Catedral de Burgos.


Burgos, área central.

Bastante cansado, me hospedei numa pensão próxima e, depois das providências de praxe, saí para almoçar.

 

A soberba Catedral de Burgos.

A cidade de Burgos nasceu no ano 854, às margens do rio Arlanzón, como um pequeno povoado que cresceu ao lado de um antigo castelo.

A vila desenvolveu-se sob a iniciativa do conde Diego Rodríguez Porcelos, para defender a região da invasão moura, e já no ano 920, adquiriu o título de cidade.

Um século depois, em 1035, Fernando I, rei de Castela, elevou-a capital de seu reino.

Historicamente, Burgos foi a cidade mais importante do Caminho, e chegou a contar com trinta Hospitais de peregrinos.

Dentre eles se destacava o Hospital del Rey, considerado o melhor Hospital da Espanha, que estava situado ao lado do mosteiro de las Huelgas, e de um antigo cemitério para peregrinos.


O belíssimo rio Arlanzon que corta a cidade de Burgos.

A catedral, uma das mais antigas construções góticas da Espanha (sua construção iniciou-se em 1221), abriga o sepulcro do herói nacional don Rodrigo Díaz de Vivar, conhecido como “El Cid”, e sua esposa, Dona Jimena, lembrando que “El Cid” peregrinou à Compostela no ano 1064.

A Catedral de Burgos foi considerada pela UNESCO como "Patrimônio Cultural da Humanidade".

Um monge clunicense francês, chamado Lesmes (ou Adelmo), fez a peregrinação à Compostela no século XI.


Chegando à Burgos, foto diante da Catedral.

No trajeto de volta, passando por Burgos, a rainha Constanza de Bragança, esposa do rei Alfonso VI de Castela, o convenceu a permanecer na cidade para estabelecer ali a nova liturgia romana.

São Lesmes foi, a partir de então, um grande protetor dos peregrinos, construindo mosteiros e Hospitais para acolher os caminhantes.

Ele morreu em 1097, está sepultado na igreja de São Lesmes, em Burgos, e é o patrono da cidade. Em 1968, seu sepulcro foi aberto durante as obras de restauração da Igreja, e descobriram os restos do santo intactos, após quase novecentos anos.

 

Ainda a Catedral, vista sob outro ângulo.

Depois de uma necessária soneca, fui visitar a soberba Catedral de Burgos, ambiente que já conhecia em minúcias, pois ali já estivera anteriormente numa demorada “exploração”, em minha peregrinação no ano de 2004.

Ainda assim, suas torres góticas, o sepulcro do herói El Cid, o Santo Cristo de Burgos, a Roseta, La Capilla del Condestable, la Escalera adorada e outras obras, são símbolos da grandiosidade da arte espanhola, e me emocionaram novamente.


Túmulo de "El Cid" e de sua esposa Dona Gimena, localizado dentro da Catedral de Burgos.

Além de observar todos os detalhes do magnânimo templo, não pude resistir à emoção de novamente fotografar o túmulo de “El Cid”, o grande herói espanhol.

Infelizmente, por conta da grandiosidade da cidade, não consegui localizar os amigos Luiz Eduardo e Juan, com quem havia confraternizado no dia anterior.


O clássico monumento ao peregrino, localizado defronte à Catedral.

E depois de fazer um agradável passeio pelo “casco viejo” da urbe e me prover de víveres num supermercado, fui descansar, vez que enfrentaria no dia seguinte mais uma extensa e difícil maratona.