FINAL


FINAL

"O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA E O MUNDO REAL"

 

Por Nadia Daher

Bem vinda ao mundo real! E minha família me esperava, meus amigos, meu trabalho. Todos muito amados. De volta, tento colocar no papel uma quantidade enorme de impressões, sensações, emoções e tudo se embaralha e se funde. Durante o percurso também tentei escrever, em vão. Tudo o que eu rascunhava me parecia irreal, pequeno, irrelevante e eu ia dormir, desistindo da tarefa proposta. O que posso dizer?

O Caminho de Santiago é tão pessoal, tão estranhamente independente de todas as rotas, que fico sem saber o que contar. Não quero simplificar algo que é tão grandioso e complexo com palavras pequenas e poucas, então me limito a descrever o que vi _ um pouco do que vi e aprendi, aliás.Paulo Coelho, escritor brasileiro que levou milhares de peregrinos a fazerem o Caminho, aparentemente sem tê-lo feito de verdade, fala no seu Diário de um Mago, que o Caminho de Santiago é o do Poder Pessoal. Vão aqueles que, como São Tiago, ousam desbravar. Seja uma estrada, uma situação ou a si mesmo. E creio nisso.Dispor-se a caminhar, sejam 100, 200 ou 800 quilômetros para chegar a uma catedral é algo insólito, se visto racionalmente. _ “Nem de graça eu desejaria uma viagem assim!” _ dizem muitas pessoas, e sei que não desejariam mesmo.

Sair da zona de conforto de uma casa, um idioma, uma cidade, um grupo de familiares e amigos, para ir à uma terra estranha, caminhando a pé seja no frio ou calor, em estradas poeirentas ou auto estradas onde zumbem automóveis velozes, sempre seguindo uma pequena seta amarela, não é um programa simpático a todos. Carregando ou não a bagagem nas costas, há que se levar o peso do que se precisa para sobreviver filtro solar, óculos, água, alguma comida.

Encontrei todo tipo de gente em poucos dias. Alemães sisudos, americanos risonhos, belgas, húngaros, italianos, franceses, portugueses e brasileiros. O interessante é que todos se comunicavam em uma língua incomum composta de mímica e boa vontade. Padres, estudantes, casais aposentados, pessoas sozinhas. Um belga disse: _ “Gosto de andar sozinho porque prefiro errar sozinho”. E essa é uma opção bem viável. Embora o risco de se perder seja pequeno, ele existe, mesmo que por um trecho. O Caminho é todo sinalizado, ora com flechas amarelas, ora com o símbolo da vieira, também em amarelo.

Andar no Caminho é andar no ritmo da gente. Tentei andar depressa no primeiro dia, acompanhando os mais preparados e isso me valeu câimbras. Tentei andar muito devagar em seguida, com medo de me perder, ainda tentando acompanhar o ritmo alheio, e isso me deixou frustrada. Então aprendi que o único ritmo possível ´era o meu. Como fosse, mas meu. Andava depressa às vezes, depois parava e me sentava numa pedra. Ou andava muito devagar, sentindo o cheiro do bosque de eucaliptos e ciprestes, principalmente quando era bem cedo e o ar estava fresco e leve.

Quando não tive mais medo de me perder pelo caminho encontrei meu compasso. Quando estive disposta a parar e conversar com as pessoas que encontrava, fossem peregrinos, fossem moradores dos povoados, me senti irmanada com todo o Universo. Quando comecei a perceber as necessidades e anseios das pessoas à minha volta, estive realmente à vontade no Caminho de Santiago.

Na verdade eu nunca soube direito porque queria tanto fazer essa peregrinação, mas sabia que queria. Talvez pelo arquétipo ousado e desbravador do próprio santo, que deixou o oriente e partiu para o Finisterre – fim do mundo – para melhor pregar o Evangelho, talvez influenciada pelos tantos livros que li, principalmente o de Shirley MacLaine, há mais de vinte anos.Quem sabe por desejar uma ocasião de testar meus limites, meus medos, minha solidão existencial tão arraigada, buscando expandir o ser que eu sou até o mais próximo possível daquele que eu desejo ser? Não sei. Durante todo o percurso me perguntei:

 - Por que estou aqui? Não sou nenhuma atleta, meu preparo é pequeno, não sou tão jovem… mas… foi quando conheci uma mulher que aos 85 anos fazia o Caminho pela segunda vez. E fazia também planos para fazer uma terceira. Planos para um futuro provável, uma vida plena de significado, fosse qual fosse.

Depois parei de me preocupar com as perguntas. As respostas viriam até o final, eu pensei. E no final, após assistir várias missas na Catedral de Santiago de Compostela; receber minha compostelana, que é o certificado de que percorri o Caminho, baseado nos carimbos da minha Credencial de Peregrino; abraçar São Tiago pelas costas, como é o costume, ver seu túmulo, rezar e rezar e me sentar em silêncio…

As respostas não vieram. Que respostas eu esperava obter? Não sei, mas nem sabia as perguntas.Depois de chegar à cidade fiquei ainda três dias flanando pelo centro histórico, turistando, fazendo pequenas compras e rezando. Nada de respostas. Na solidão dos últimos dias, não mais como peregrina, tentei me concentrar, refletir, meditar. Nada. A fascinação que exerceu sobre mim o Botafumeiro, imenso incensário de prata, erguido  por sete acólitos e movimentado como um pêndulo no alto da catedral não tem explicação. Nem a voz angelical da freirinha de negro, ensinando a todo aquele povo o refrão em latim para que participássemos da missa. As homilias fantásticas dos celebrantes, sempre fazendo alusão à peregrinação e ao Caminho, como parábola da vida, onde cada um exerce suas qualidades e defeitos.

Tudo tão fantástico, tão fora do meu cotidiano de pessoa comum… A cidade no início despertou minhas suspeitas. Esperava adentrar num sitio sagrado, misterioso, mágico e percebi com um choque que Santiago de Compostela era uma cidade cosmopolita, moderna, viva. O sagrado e o medieval se restringiam a uma pequena zona história, central, ilhada entre prédios, restaurantes de luxo, avenidas. Foi um susto. Depois fui percebendo também a beleza disso _ o sagrado e o profano convivem naturalmente. O turismo mantem viva uma cidade e precisa do sangue dos prestigitadores, cantores, sereias, levitadores, comerciantes, para viver.


Tentei analisar cada coisa de modo geral, mas só encontrei impressões isoladas. Todas as partes não formam um conjunto. O Caminho de Santiago não possui um único sentido, apesar de conduzir ao mesmo lugar. Aprendi aos poucos que não teria nenhum problema no Caminho. Isso porque já havia aprendido a lição de dar e receber a muito tempo e essa lição é indispensável nesse caso.

Vi pessoas fechadas e individualistas passarem dias sem se abrir, fazer amigos, abraçar um estranho e me perguntei o porquê de estarem ali. Vi pessoas atônitas, percorrendo pela segunda ou terceira vez a mesma rota, sem aprender quase nada. Vi os que faziam do percurso uma prova de atletismo, uma pista de corrida. Vi aqueles que caminhavam sem olhar os bosques, as plantações, as videiras e figueiras do caminho. Aqueles que não bebiam o vinho delicioso dos Cafés, nem comiam os bocadillos por medo de moscas e bactérias. Aqueles que não falavam com estranhos, que não sorriam ao passar pelos outros e mal respondiam ao _ “ Buen Camiño”, a cara azeda, o corpo tenso, indo… indo… sem nem perceber que não chegariam assim a lugar algum. Assim se foram 19 dias. Mágicos e estranhos.

Memória misturada de lugares, pessoas, odores, comidas, idiomas, dores na panturrilha e até o susto de um abraço apertado do peregrino que encontrei no Caminho e revi no pátio da catedral.Uma mistura de sabores portugueses, como o bacalhau, o pastel de Belém com as paellas, os mariscos, os pimentos da Espanha.

Vi Asterix e Obelix nos povoados de pedra enquanto passava, vi couves plantadas em jardins de rosas alaranjadas. Vi principalmente muitas flores, vermelhas, amarelas, rosadas, roxas, plantadas em vasos de barro, latas, utensílios velhos. Vi o olhar das velhas senhoras debruçadas na janela nos vendo passar e sorrindo seu sorriso desdentado e conformado. Cachorros enormes a latir para nós. Escolas, Albergues, bares, igrejas, infinitas igrejas para todos os santos do mundo.

E ao me perguntar quais eram minhas respostas só ouvia o silêncio dentro de mim. Um silêncio inusitado e profundo. Então desisti. Que importava saber por que fui, o que aprendi, o que devia saber, como precisava me transformar em um ser melhor? Importava apenas o Caminho e seus peregrinos.

Suas pequenas lições muito humanas e simples. Suas dificuldades e descobertas. Se não sei porque fui, isso já não me importa. Sei que fui e isso basta. Fui e voltei. E estou de volta ao mundo real como sempre. Se aprendi algo isso vai surgir com o tempo. O que se ganha muitas vezes se dilui no corpo, mente, alma da gente de tal maneira, que como as claras em neve da receita, se incorpora aos outros ingredientes docemente, levemente, sutilmente. E de modo definitivo.

Por Peregrina Nadia Daher

(Fonte: http://www.ultreyaviagens.tur.br/)


EPÍLOGO


Acabei de percorrer novamente em abril/maio último o Caminho Francês, desde Saint Jean Pied de Port até Santiago, depois de treze anos, inevitavelmente, despertou-me a curiosidade a seguinte indagação que me fiz: mudou o Caminho ou fui eu que mudei?

É certo que percorri meu primeiro Caminho de Santiago em 2001, e cerca de um mês depois, publiquei no “Portal Peregrino” (www.caminhodesantiago.com) e num jornal de minha cidade um pequeno resumo de minha aventura.

Nestes treze anos, muita coisa se modificou no Roteiro Francês, como tive a oportunidade de observar “in loco”, alterações quase sempre de cunho laboral, com intuito de proteger os peregrinos, pois existem hoje inúmeras obras insertas no trajeto visando dar comodidade e segurança aos caminhantes.


 

Missa dos peregrinos - vai haver Botafumeiro!

Mas, nesse interregno, inúmeras mudanças físicas e psicológicas também aconteceram no meu “caminho” particular, contribuindo para que hoje eu seja uma pessoa integralmente diferente daquela que percorreu a trilha pela primeira vez.

Lembro-me de que, naquela época, enfrentei desafios áridos, como colher informações sobre o roteiro, vez que a internet as tinha ainda incipiente, guardar dinheiro, marcar férias, comprar passagens, viajar para um local desconhecido, cuidar do meu corpo ao longo do trajeto, orientar-me pelos mapas e confiar nas setas amarelas.

Entendia, ainda, que depois de enfrentar estes desafios práticos e vencer mais de 800 quilômetros de caminhada, receberia em troca um escudo protetor que tornaria o resto do meu caminho pela vida uma corrida segura para a vitória, um talismã firme para a luz, um passaporte para o sucesso.

As coisas não são bem assim e, pelo menos em meu “caminho” diário, elas não aconteceram dessa forma.

Nesta experiência de revisão, entendi um pouco mais as partidas, as chegadas e os mistérios das marés sagradas que determinam o momento de ser peregrino em seu próprio país, em sua própria casa, na sua própria vizinhança, na sua própria família.


Com o Írio, peregrino de Santa Catarina, na sua chegada à Praça do Obradoiro.

Compreendi, sobretudo, o desafio de ser peregrino todos os dias, mesmo quando não há por perto uma única seta amarela indicando o caminho correto.

Em minha opinião, a essência da peregrinação está em se lançar ao desconhecido, em cumprir a missão de se entregar de corpo e alma aos desafios e às múltiplas tarefas que a fé nos impõe.

E o nosso mundo está cheio de caminhos e oportunidades para exercitar este tipo de coragem.

São treze anos, mais de uma década marcada no calendário, porém, a chegada à Santiago, pela primeira vez, está tão viva em minha mente, que lembro perfeitamente o dia em que meus pés tocaram as pedras de granito da Praça do Obradoiro.

Um local sacro e místico, onde as torres infinitas da Catedral Compostelana saúdam diariamente a chegada dos combalidos peregrinos, e são testemunhas silenciosas de suas lágrimas, sorrisos e promessas.


Com o Kleber, peregrino que reside em Indaiatuba/SP

O que terei mudado neste tempo? Quais sonhos daquela época consegui realizar? E as promessas feitas diante do Santo Apóstolo, qual delas pude honrar? – indago-me neste momento.

Tenho apenas a certeza de que muito do que sou hoje, devo àquelas experiências, vez que o Caminho não deixa ninguém incólume, e todo aquele que foi tocado por seus tentáculos jamais será o mesmo.


Uma das ruas do "casco viejo" de Santiago.

Com certeza, somente quem participa e compartilha dessa experiência, pode aquilatar o grande significado do Caminho, que se reflete depois em nosso cotidiano.

Ele enleva e enlaça a todos, sublima nossas mazelas mais profundas, e se instala no coração do caminhante, quando se está só, diante daquela imensidão, numa terra alheia, longe dos amigos e familiares queridos.

Por isso mesmo, a Rota Jacobeia é uma experiência única que torna a pessoa diferente e só pode ser sentida por aqueles que a realizam.


Minha 7ª Compostelana, da qual tenho imenso orgulho, pois foi ganha com muita dedicação e suor! 
Obrigado Santiago!

Nesse sentido, o Caminho persiste em mim, como um acepipe que sigo a degustar diariamente, nas imorredouras lembranças que muito me marcaram, por isso mesmo, em meu íntimo, ele jamais terá fim.

Bom Caminho a todos!

junho/2014