Caminho Francês


2018 – CAMINHO DE SANTIAGO FRANCÊS - SARRIA a SANTIAGO DE COMPOSTELA - 120 quilômetros

É preciso que o discípulo da sabedoria tenha o coração grande e corajoso. O fardo é pesado e a viagem longa.” (Confúcio) 




O trem que eu tomei em Sahagún, aportou a Sarria às 19 horas, e debaixo de forte garoa eu cruzei boa parte da cidade, para me hospedar.

O estabelecimento em que havia feito reserva se situa, exatamente, diante do Albergue da cidade, e no bar existente no piso térreo da Pensão Escalinata, onde pernoitei, encontrei uma legião de peregrinos jantando ou, simplesmente, bebendo vinho ou cerveja.

Já no quarto, depois das pertinentes arrumações na mochila, logo me recolhi, pois principiou a chover forte.


1ª etapa – SARRIA a PORTOMARIN – 23 quilômetros

Minha energia é o desafio, minha motivação é o impossível, e é por isso que eu preciso ser, à força e a esmo, inabalável.” (Augusto Branco) 


A jornada seria curta e eu a conhecia de cor, pois seria a 7ª vez que a percorreria.

Não queria entraves na etapa, assim, deixei o local de pernoite às 7 h, quando tudo ainda estava um tanto escuro mas, como sabia, os “turisgrinos” somente partiriam depois das 8 h.

E logo me internava no percurso, ainda vazio e silente. 


Restam 100 quilômetros...

Havia chovido bastante na noite anterior, de forma que encontrei o piso molhado ou enlameado em alguns trechos.

Felizmente, para minha alegria, não avistei pessoas em demasia no roteiro, o que concorreu para que eu mantivesse um ritmo tranquilo e uniforme em meu périplo.

Ainda assim, eu que adviera de um roteiro solitário e silencioso, tive grandes dificuldades para me adaptar ao Caminho Francês.

O clima seguiu neblinoso e sem sol, o que me ajudou muito nessa curta etapa. 


Dia neblinoso e frio...

E, sem maiores intercorrências, às 12 horas, eu cheguei ao meu destino.

Em Portomarín, me hospedei na Pensão Arenas, cêntrica e de excelente qualidade.

Para almoçar, utilizei os serviços do Mesón Rodrigues, onde despendi 10 Euros pelo “menu del dia”.


2ª etapa – PORTOMARIN a PALAS DE REI - 26 quilômetros 

Nossa maior fraqueza está em desistir. O caminho mais certo de vencer é tentar mais uma vez.” (Thomas Edison) 


Eu saí bem cedo, assim que o dia raiou e, nessa etapa, por sorte, não tive contato com os “turisgrinos” na primeira metade da jornada.

Aliás, uma legião deles estava hospedada na mesma pensão em que pernoitei, mas sairiam mais tarde, após o desjejum, conforme me informara a atendente na noite anterior. 


Dia frio e com sol tímido.

Foi um trajeto tranquilo, onde tive contato e ultrapassei uns 50 peregrinos, a maior parte deles composta por pessoas jovens, que aproveitavam o feriado daquele dia, 1º de maio, para “passear”.

Eram caminhantes que, como eu, também havia partido cedo e a maioria deles pernoitaria em Melide, bem mais longe do que eu pretendia percorrer, já que não havia tanta pressa em minha jornada. 


Belíssima paisagem nesse trecho...

No albergue de Gonzar, avistei várias pessoas tomando o café da manhã, outras se preparando para seguir em frente.

Mas, estes ficaram à minha retaguarda, porque caminhei num rimo tranquilo, já que o clima preponderante nesse dia foi o frio, embora o sol tenha aparecido, timidamente, após as 9 horas. 


 
Em Palas de Rei, o local por onde eu deixaria a cidade na manhã seguinte.

Em Palas de Rei, fiquei hospedado na Pensión Curro, num excelente apartamento individual.

O almoço foi no Mesón A Forxa, onde o magnífico “menu del dia” me custou 10 Euros.


3ª etapa – PALAS DE REI a ARZÚA - 30 quilômetros

A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas.” (Horácio) 


Outra etapa sem grandes dificuldades altimétricas, já minha velha conhecida, que venci sem maiores problemas.

Saí bem cedo e não avistei nenhum caminhante até o 10º quilômetro, quando ultrapassei um casal de peregrinos que havia pernoitado no albergue de Casanova, e foi só. 


Fabulosos bosques galegos...

O clima persistiu ventoso, nublado e nesse dia o sol não deu as caras. 

Na cidade de Melide, metade da jornada, fiz uma pausa num bar para carimbar minha credencial e ingerir um café, que me ajudou a espantar o frio. 


Pulperia Ezequiel, em Melide, de gratíssima lembrança!

Prosseguindo, segui sempre em ritmo constante e ultrapassei vários caminhantes.

Aliás, logo depois de Castañeda, alcancei um casal empurrando um carrinho, onde havia um bebê de 18 meses dormindo, algo inusitado para mim.

Eles seguiam acompanhados dos avôs paternos e pretendiam pernoitar em Pedrouzo, 23 quilômetros à frente, façanha que considerei de grande porte, porque 10 minutos depois principiou a garoar.

Porém, foi uma ótima oportunidade para trocar experiências, bem como confessar-lhes minha admiração pela ousadia de percorrer o Caminho em família. 


Entrada do Albergue de Peregrinos em Arzúa.

Em Arzúa, me hospedei no Hostal Teodora, num excelente quarto individual.

Para almoçar, utilizei o restaurante Teodora, e despendi 10 Euros pelo “menu del dia”.


4ª etapa – ARZÚA a SANTIAGO DE COMPOSTELA – 41 quilômetros

Gostaria que você soubesse que existe dentro de si uma força capaz de mudar sua vida. Basta que lute e aguarde um novo amanhecer.” (Margaret Thatcher) 


Era meu derradeiro dia no Caminho e resolvi, como de praxe, sair bem cedo, para aproveitar ao máximo os momentos de solidão e silêncio no roteiro.

Deixei Arzúa às 5 h, com lanterna na mão, e não tive problemas para encontrar meu rumo.

Doze quilômetros percorridos, com o dia já claro, eu transitei pelo povoado de Salceda, e ali fiz uma pausa para tomar um café e carimbar minha credencial.

O dia estrava frio e nublado, não encontrei ninguém no Caminho, eu estava no paraíso. 


Homenagem a um peregrino que faleceu a, apenas, 20 quilômetros de Santiago.

Por incrível que possa parecer, até Pedrouzo/Arca não ultrapassei e nem vi nenhum peregrino, mas depois dessa localidade, encontrei a trilha plena de pessoas.

A maior parte composta por uns 300 jovens, em idade escolar, assim, infiro que eles estavam de folga naquela semana.

Mas segui em meu ritmo constante e cheguei sem maiores obstáculos a zona urbana de Santiago.

E pela décima segunda vez, aportei à Praça do Obradoiro, mais uma benção em minha vida peregrina.

Hora de abraçar e agradecer o Santo Apóstolo por mais essa graça conquistada. 


Quase lá....!!

Depois, fui buscar minha “Compostelana”, um galardão que recebi com muito carinho e orgulho.

Na cidade, fiquei hospedado no Hostal Mapoula, localizado no “casco viejo”, em um excelente quarto individual. Recomendo esse estabelecimento!

Para almoçar, como de praxe, utilizei os serviços do Restaurante Manolo, um ambiente mágico porque, além do tratamento diferenciado, é um local, praticamente, frequentado só por peregrinos.

No dia seguinte, assisti à solene e imperdível “Missa das 12 horas”, onde, inclusive, houve a cerimônia do “botafumeiro”.

Em seguida, eu almocei, depois tomei um ônibus em direção ao Aeroporto de Santiago.

Afinal, depois de 30 dias longe de casa, nada melhor que reencontrar o nosso “doce lar”.


EPÍLOGO

Chegar a Santiago, era outro sonho para o ano em curso, agora realizado. Ali, na imensa Praça do Obradoiro, senti novamente as mesmas emoções que milhares de outros peregrinos, antes de mim, já haviam experienciado, mas nenhum deles mencionou a solidão vivenciada nas trilhas desertas por onde passei. Contudo, a solitude, como lembrou bem um ator americano, é um remédio que têm muitos efeitos colaterais. Quais? Bem, é preciso ir até lá para saber.” 


Minha Compostela de número 12, que guardarei com muito orgulho e carinho.


ORAÇÃO DE AGRADECIMENTO! 

(Fonte: https://oficinadelperegrino.com) 

Senhor! 

Hoje retorno a minha casa. 

Regresso feliz e jubiloso; meu coração está cheio de experiências maravilhosas. 

Nunca havia imaginado que o Caminho de Santiago poderia dar tanto sentido a minha vida. 

Posso afirmar agora que volto convertido numa pessoa diferente. 

Sinto-me agradecido pela ajuda que me destes, pelas pessoas que conheci no Caminho e, principalmente, aquelas que me estenderam suas mãos. 

Só peço poder devolver aquilo que recebi da melhor das maneiras: sendo uma testemunha dos ensinamentos do Evangelho e um devoto seguidor de Santiago. 

Humildemente me posto ante ti e rogo que me acompanhes sempre pelos caminhos da vida. 

Pela Paixão, Morte e Ressurreição de seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, e pela intercessão da Virgem Maria e do Apóstolo Santiago. 

Amém! 


FINAL 

Um peregrino não nasce peregrino. Ele se faz. Ele vai deixando para trás suas cargas, o medo de andar sozinho, da solidão, do desconhecido e tantos outros temores. Um peregrino conhece a humildade e multiplica as alegrias. Ao desejar ânimo aos outros, ele também está desejando a si mesmo. Ao tentar fazer os outros felizes, quem se sente realizado é ele. Basta pisar nessa rota, para algo de bom começar a acontecer dentro de você.” 

Quando me acomodei no avião rumo à minha 12ª viagem ao Caminho de Santigo, olhei para o futuro, imaginando um ritual mentalmente, que se tornou padrão para mim, antes de percorrer qualquer roteiro, seja ele doméstico ou internacional.

Pensei, daqui a um mês, ao retornar para o meu lar, o que terá acontecido?

Será que terei sucesso nesta jornada e retornarei ileso?

Que eventos imprevisíveis ocorrerão?

De fato, esse exercício coloca minha vida toda em perspectiva. 


03/05/2018 - Chegada pela 12ª vez a pé, diante da Catedral de Santiago de Compostela!

Concernente ao fato, o início de uma determinada aventura sempre se reveste de um desses momentos tão valiosos que, quase sempre, pela própria inércia e euforia dos acontecimentos, são tratados como normais, quando, no fundo, essa é uma das sensações mais especiais que podemos experimentar.

Então, o trabalho realizado durante muito tempo para tornar realidade alguns desejos específicos dá frutos.

É um instante mágico, que deveria ser colocado no mesmo nível ou categoria do possível objetivo final que planejamos para aquela empreitada.

Pessoalmente, quando eu dou o primeiro passo em direção a uma certa aventura, aproveito a viagem ou o tempo que eu levo entre a saída de casa e o início efetivo da atividade, para refletir profundamente sobre o sentido do objetivo ao qual estou me dirigindo.

O périplo que eu estava iniciando, não era mais um na minha vida, mas se tratava, provavelmente, do desafio mais importante e de amplo alcance, naquele momento, já que, novamente, seria de forma solitária.

E durante minha estadia na Europa, tive a oportunidade de percorrer 3 Caminhos diferentes, pois, primeiramente, usufrui da dicotomia do Caminho Vasco Interior, vez que seu trajeto é uma mescla de grande adensamento industrial com estupendas paisagens rurais.

Depois, conheci a solidão, a ermosidade, o silêncio e a planura, salvo uma única exceção (a 4ª jornada), do Caminho de Madri.

Por fim, encerrei meu préstito pelos derradeiros 120 quilômetros do ebulante e fervilhante Caminho Francês, graças a Deus, sem maiores intercorrências físicas.

E após as abluções peregrinas, de praxe, como abraçar o Santo Apóstolo, queimar roupas em Finisterre e assistir à Missa dos Peregrinos, chegou a hora de retornar ao Brasil.

Para finalizar, diria que uma longa caminhada pelos campos é por si só viciante.

Assim, quando encerro uma peregrinação e vou para casa, não demora muito para querer mais.

Porquanto, sinto que necessito, urgentemente, de uma nova dose daquele remédio outra vez!


Bom Caminho a todos! 

Maio/2018