2ª Jornada

Guillena a Castilblanco de los Arroyos - 19 quilômetros: “Encontro com o Gado Vacum!”

Levantamos cedo e Fran reclamou de fortes dores em seu pé direito, apesar de ter ingerido alguns analgésicos antes de se deitar. 
Segundo disse, conciliar o sono durante a noite foi uma tarefa difícil, mormente, pela preocupação que tinha com seu desempenho na etapa do dia seguinte.

Após breve lanche no próprio quarto, partimos às 7 h, ainda no escuro. 

Próximo da igreja dedicada à “Virgem de la Granada”, reencontramos as flechas amarelas e seguindo-as, logo depois, ultrapassamos uma ponte sobre o rio Rivera de Huelva.

A sinalização estava um tanto quanto confusa nesse local, obrigando-nos a perder um certo tempo para descobrir por onde deveríamos prosseguir. 

Porém, reencontramos o rumo certo e, mais à frente, cruzamos a rodovia que segue para Burguillos.



À direita pude observar a “Venta de la Pradera”, já em pleno funcionamento. 

No local, há um bar, onde oferecem alimentos e pode-se tomar o desjejum.

Logo adiante, um cartaz informava que caminharíamos pela Via Pecuária Cañada Real de las Islas, em conexão com aquela que cruza Donãna-Sierra Norte. 

Avisava, também, que a 6 quilômetros encontraríamos a fazenda “El Chaparral” e a 16, Castilblanco de los Arroyos, nossa meta para aquele dia.

 

A partir dali, por uma estradinha de terra sempre ascendente e muito bem sinalizada, caminhamos em meio a uma plantação de centenárias oliveiras. 

Depois ultrapassamos um enorme laranjal com alguns pés carregados de frutos, embora outros estivessem ainda na floração. 

Em alguns locais, a irrigação das plantações é feita pelo sistema de “gotejamento”. 

Seguíamos, cada qual, enredado em seus pensamentos, no seu ritmo. 

Afinal, o caminho serve para prosear, apreciar as belezas naturais e refletir. 

E, me impressionou a quantidade de caça pequena avistadas nesse trecho, como lebres e coelhos. 

Com certeza, em número muito mais abundante do que na jornada anterior.

Após transpor uma grande porteira, adentramos numa fazenda de criação de gado.

Caminhávamos por verdes campos ornados de encinas e alcornoques, árvores de porte médio e nativas da região. 

Alguns minutos depois, nos deparamos com enormes vacas vermelhas de impressionantes chifres. 

Era nosso primeiro desafio, afrontar o gado vacum.

Os bovinos nos miravam fixamente com um misto de curiosidade e atenção, sem, no entanto, para nosso alívio, demonstrar nenhuma agressividade, retornando pachorrentamente a pastar. 

O roteiro seguiu sempre por fazendas protegidas com cercas e cancelas que fomos abrindo e fechando. 

Pois esta é uma das máximas do Caminho: “quando entrares e saíres, deixai as porteiras tal como as encontrou”. 

Numa delas, um cartaz desbotado advertia: Cuidado! Gado Bravio!

 




Fran coxeava da perna direita. 

Confessou-me que para cúmulo do azar, torcera seu joelho esquerdo, numa íngreme e brusca depressão. 

Fizemos, então, pequena pausa, a fim de recuperar as forças. 

Durante o descanso, ele ingeriu mais um analgésico e prosseguimos, pois, o sol já começava a incomodar.

Sempre subindo por um extenso bosque, no final de uma trilha extremamente pedregosa, reencontramos a rodovia que havíamos ultrapassado antes e pela qual, utilizando o acostamento, caminhamos por mais 4 quilômetros, em contínua aclividade até Castilblanco de los Arroyos, nossa meta naquele dia.

Essa cidade foi imortalizada por Miguel Cervantes em seu livro "Las dos doncellas" e, em homenagem ao autor, construíram um interessante monumento em forma de pirâmide. 

Logo na entrada do "pueblo", ao lado de um posto de gasolina, localizamos o albergue. 

No entanto, embora seus dormitórios fossem confortáveis, não dispunham de lençóis nem cobertores.







 

Esses itens nos eram de suma importância, porquanto, como forma de reduzir o peso da mochila, conscienciosamente, não levamos saco de dormir. 

Assim, como meu relógio marcava 12 h e o hospitaleiro só retornaria à tarde para carimbar as credenciais e verificar eventuais pendências, optamos por nos hospedar na Pensão de Dona Salvadora (10 Euros/pessoa).


 

À tarde, após merecido descanso, dei um giro sem pressa pela pequena povoação e pude observar sua arquitetura sacra e civil. 

Visitei a igreja do Divino Salvador, a casa da Irmandade de San Benito, “el Ayuntamiento”, etc.. 

Numa “tienda”, comprei água e frutas para a longa jornada que enfrentaria no dia seguinte. 

Depois, retornei até o albergue à tarde e pude “sellar” as credenciais. 

Fiquei surpreso, pois, encontrei 8 peregrinos lá alojados, sendo 3 deles ciclistas que disseram ter saído de Sevilha naquele dia.

Para almoçar utilizamos os serviços do Restaurante Reina (11 euros) e, à noite, fizemos apenas um lanche comunitário no quarto da pensão.


 

    Com Fran e um peregrino espanhol numa rua da cidade

 

Infelizmente, Fran se mostrava desanimado em relação a sua peregrinação, posto que além do aparecimento de mais algumas bolhas no pé, nesse dia, seu joelho esquerdo estava terrivelmente inchado e dolorido.  

 

  

Diante dos fatos, fiz-lhe vigorosa massagem com uma pomada analgésica, porém, confessou-me, que mesmo tendo ingerido antiinflamatórios naquela data, as dores e o edema o molestavam sem tréguas, não dando sinais de melhora.


 

Resumo: Tempo gasto: 5 h - Sinalização: Excelente - Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 7 e 17 graus.


Impressão pessoal: Trajeto em ascensão, de razoável dificuldade, sendo 4 quilômetros em asfalto, o restante, por agradáveis estradas rurais.      



Subpáginas (1): 3ª Jornada