4ª Jornada

4ª Jornada - Almadén de la Plata a Monestério - 38 quilômetros: “Primavera à Vista!”

 
    
A jornada seria longa, porém, quando acordei às 6 h, ainda caía muita água lá fora.

Após, breve desjejum, parti às 7 h, assim que a chuva amainou. 

Inicialmente, caminhei por larga estrada de terra, tendo o riacho “de la Víbora”, à minha esquerda. 

O percurso, muito bem sinalizado, estava bastante encharcado e, mais à frente, me remeteu para dentro da belíssima “finca” Arroyo Mateos, que também faz parte de uma reserva cinegética.

Duas senhoras alemãs haviam saído apressadas do albergue antes de mim, contudo, quando as avistei, ao longe, elas optavam em seguir caminhando pelo asfalto, que passava próximo dali.

Embora a trilha estivesse enlameada e extremamente lisa, em face das chuvas recentes, convicto, preferi apostar no roteiro sinalizado pelas setas amarelas, a Via Rural "Los Bonales", e não me arrependi.






 
   
Assim, durante 5 quilômetros caminhei por dentro de uma fazenda toda cercada por grossa malha de arame, onde encontrei gado bovino, “cerdos ibéricos”, veados, cabras e dóceis “perros”.
Também pude admirar bosques verdejantes, rios, lagos, imensos carvalhos, tudo sob intenso silêncio, apenas quebrado pelo incessante ladrar dos cães à minha passagem. 
Para meu êxtase, o cheiro da terra molhada infundia outra dimensão à paisagem, pois, a chuva da noite anterior lavara o mofo invernal, realçando a chegada da estação primaveril que se iniciaria, exatamente, no dia seguinte, 21 de março.
Foi, sem dúvida, um dos trechos mais belos e tranqüilos, entre todos os que trilhei durante essa peregrinação.





Quase no final da etapa, passei diante de um monumento erigido em homenagem à José Luis Salvador, entusiasta fundador da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago de Sevilha, que ajudou a sinalizar todo o trajeto da Via de la Plata. 
Inclusive, em atenção a derradeiro pedido, suas cinzas foram espalhadas ao longo desse roteiro. 
Que descanse em paz!
   Após pequena curva, 17 quilômetros percorridos, adentrei em El Real de Jara, uma vila toda pintada de branco que conta com um excelente albergue localizado logo na entrada da povoação. Aliás, a maioria dos que haviam pernoitado comigo, ali se hospedariam naquele dia.

 
Eram 11 h, ainda muito cedo, de maneira que parei no bar “Los Claveles” para “sellar” minha credencial, beber um café e comprar água. 
Depois, confiante e revigorado, prossegui, posto que, ainda, teria 21 quilômetros para vencer e sem nenhuma vila nesse próximo trecho.

Ao deixar a simpática cidadezinha, segui por larga estrada de terra levemente ascendente. Pouco depois, já no topo da elevação, fui surpreendido pela visão de um antigo castelo medieval, hoje em ruínas, mas que impressiona por sua beleza e localização privilegiada.

Trata-se, na verdade, do antigo “Castillo de las Torres”. Conta a história que os soldados defendiam não somente a edificação, como também os peregrinos que iam à Santiago. E, embora esteja construído a apenas 1 quilômetro de El Real de Jara, pertence ao município de Monestério (Província de Badajoz), cujo “ayuntamento” dista uns 20 quilômetros dali.
Assim, tomei consciência, naquele instante, que acabara de deixar a Província de Sevilha para entrar na Comunidade de Extremadura.
Na porteira de uma “finca” próxima, apareceu um mastim ameaçador. Sem parar de caminhar, externei-lhe palavras baixas e suaves. O cão me acompanhou, sempre ladrando, junto à cerca, por uns 100 metros, quando, então, saí de seus domínios. Prosseguiu ladrando, porém, não deu um passo sequer, até me perder de vista no horizonte. Bom amigo, pensei!
Enquanto admirava a bucólica paisagem, a chuva retornou com intensidade, obrigando-me a vestir a capa novamente. 
Logo em seguida, encontrei um pequeno “monjón” preso ao chão, o primeiro dos muitos que veria ao longo dessa jornada. 
Trata-se de cubos de granito de 45 cm de aresta, posicionados estrategicamente nos locais em que possam surgir dúvidas sobre qual direção seguir.
As Associações do Caminho de Santiago, na Via de la Plata, têm sinalizado a Rota com flechas amarelas, cujo símbolo tornou-se conhecido pelos peregrinos. 
O Conselho de Cultura e Turismo da Junta de Extremadura usa cubos coloridos fixados ao chão, onde o azulejo amarelo indica a Rota de peregrinação e o verde marca a antiga “calçada romana”. 
Desse modo, em alguns trechos, as rotas coincidem, surgindo as duas marcações.

Por mais 10 quilômetros, segui por uma estrada plana, sempre rodeada por extensas fazendas de gado, até ultrapassar um pequeno e moderno templo dedicado a São Isidro, cuja festa é comemorada no dia 15 de março. 

Na verdade, a construção é recente, porquanto, a antiga igreja encontra-se a um quilômetro de distância, junto a uma velha ponte.

Nesse local, fui ultrapassado por um ciclista alemão que também havia pernoitado no albergue de Almadén de la Plata. Trocamos algumas palavras, registramos uma foto e ele seguiu seu caminho, visto que pretendia encerrar sua jornada daquele dia na cidade de Fuente de Cantos. 

Foi ele o único peregrino com quem conversei nesse dia.

Mais um quilômetro percorrido e reencontrei a famosa “carretera” N-630, que nesse trecho corre paralela à moderna autovia nacional.

O roteiro prosseguiu por dentro de bucólico bosque de eucaliptos, localizado entre as duas rodovias, por uns 5 quilômetros, sempre em lenta ascensão até escarpada ladeira de “la Cruz del Puerto”. 

Depois, de vencê-la, acessei uma via vicinal asfaltada, de pouco tráfego, onde caminhei até Monastério, meu destino naquele dia.

O trecho final é bastante íngreme, pois a cidade foi construída no cimo de um morro, numa altitude de 700 m. 
Encontrava-me extremamente exausto, porém, encontrei o Hostal Moyá logo na entrada da urbe e nele fiquei muito bem instalado (18 Euros), posto que o albergue local além de contar com apenas 4 camas, se encontrava fechado para reforma.
 
  


Para almoçar utilizei os serviços do próprio estabelecimento onde pernoitei, que oferece um excelente “menú del peregrino”, por 8 Euros. Já, à noite, jantei no decantado “Restaurante Discóbolo”, por 9 Euros.

A bela e simpática povoação, capital do “Cerdo Ibérico”, deve seu nome ao Monastério de Nossa Senhora de Tentúdia, construído no topo de uma grande elevação, localizada a 8 quilômetros da civilização, em memória ao triunfo dos cristãos na batalha contra os muçulmanos, no ano de 1.504.

À tardezinha, apesar do frio reinante, dei um grande giro pela “city”, no entanto, como era quinta-feira santa, encontrei tudo fechado, inclusive a igreja matriz e os locutórios de internet.
Pude verificar, contudo, que existem inúmeros hotéis, excelentes restaurantes, bem como variado comércio ao longo da rua principal e adjacências, prova patente da opulência e do investimento auferidos com a criação e industrialização de sua ascendente suinocultura local.






    

Tanto que, anualmente, em setembro, comemora-se com grande festa nessa progressista cidade, “El dia de Jamón”, (“o dia do salame”), posto que existem inúmeras fábricas funcionando na elaboração, curtição e comercialização de embutidos e derivados, produzidos com a carne suína.
 

Resumo: Tempo gasto: 8 h - Sinalização: Excelente - Clima: Nublado, depois chuvoso, com temperatura variando entre 5 e 13 graus.

Impressão pessoal: Trajeto de considerável dificuldade em face da distância a ser percorrida, apesar de ser o terreno praticamente todo plano. Destacam-se, contudo, os últimos 5 quilômetros do roteiro feitos todo em asfalto, além da brusca ascensão para se atingir Monastério, no final da longa jornada. Alguns peregrinos preferem fracionar esse percurso em 2 duas etapas, pernoitando, primeiramente, em El Real de Jara, onde existe um excelente albergue municipal.


Subpáginas (1): 5ª Jornada