5ª Jornada

5ª Jornada - Monestério a Fuente de Cantos – 22 quilômetros: “Sexta-Feira Santa!”

 
Levantei, como de praxe, bastante cedo e parti ainda no escuro, às 7 h. 
Precisei atravessar toda a cidade, utilizando-me da “carretera N-630” e, após um campo de futebol, obedeci as flechas e entrei à esquerda, seguindo por agradável estradinha de terra arborizada. 
Numa chácara, 3 enormes cães ladravam à minha passagem. 
Inopinadamente, um deles saltou a cerca de pedra e veio em meu encalço. 
Assustado, estaquei com o cajado em punho e aguardei, porém, percebi que era um “labrador” aventureiro, a procura de um agrado. 
Talvez, em face de minha postura agressiva, o cão se afastou confuso e decepcionado, retornando de onde saíra. 
Com o dia já claro, constatei a presença de alguns peregrinos caminhando, ao longe, no mesmo rumo que eu, dois deles me chamou a atenção, pois, vestiam “berrantes” blusas vermelhas. 



 
Após atravessar uma porteira, a sinalização impecável pintada nas árvores e mourões cessou bruscamente. 
A partir dali, a marcação passou a ser feita somente por “monjóns” fincados no chão. 
Em razão da pequena altura, bem como por estarem fixados longe um do outro e, algumas vezes, ocultos pela vegetação rasteira, ficou bastante difícil o trajeto a seguir.
Atravessei, na seqüência, um grande pasto, baseando-me na intuição e acabei me perdendo duas vezes. 
Avistei quatro casais que seguiam vagarosamente na dianteira, 3 alemães e 1 francês, alcancei-os e, logo depois, ficaram para trás. 
Talvez, inseguros quanto ao rumo, preferiram apostar em minha impavidez.
No entanto, logo adiante, após transpor pequena estrada asfaltada, a marcação sofreu gradual melhora, pois as setas amarelas retornaram, ainda tímidas, e pude prosseguir mais confiante. 
Lembro-me que, durante o trajeto, passei por várias cancelas e, sem maiores dificuldades, abri e fechei-as, deixando tal qual as encontrei. 
Depois de atravessar uma extensa fazenda de gado, a rota fez um giro radical à direita e o caminho seguiu por uma estrada de terra, larga e plana. 
Mais à frente, cruzei o rio Bodión Chico, o ponto mais baixo dessa etapa.   




Prossegui por mais uns 6 quilômetros, em meio a grandes campos de cereais, até acessar uma rodovia asfaltada de pouco tráfego. Por ela segui, ainda, mais uns 2 quilômetros, até Fuente de Cantos. 
Obedeci a marcação  das flechas e na entrada da urbe fleti à esquerda. 
Logo em seguida, adentrei no albergue turístico que se encontra instalado num antigo convento franciscano, onde me hospedei (9 Euros).     
Além das excelentes acomodações, a casa oferece lençóis limpos, fronhas asseadas, grossos cobertores, modernos banheiros, duchas à vontade, calefação eficiente, enfim, instalações confortáveis, dignas de um hotel.
Na verdade, eu pretendia seguir adiante, no entanto, os hospitaleiros Bito e Margarida dissuadiram-me dessa idéia, argumentando que, como era Sexta-Feira Santa, possivelmente não encontraria alojamento em Calzadilla de los Barros, 7 quilômetros à frente, minha meta naquele dia. 
Além do que, o albergue daquela localidade encontrava-se fechado para reforma. 
Assim, considerei, também, a possibilidade do Hostal ali existente estar lotado por conta dos festejos inerentes à data.

Aproveitei para fazer minhas refeições no Bar Conde, cujos serviços são excelentes. 
Ele está localizado próximo ao centro da cidade, onde paguei 10 Euros o almoço.
Nessa etapa pude notar contrastes na natureza, pois, há uma rápida mudança de uma região para outra, já que, bruscamente, deixei para trás as amplas extensões arborizadas por encinas e alcornoques, e adentrei em grandes planícies cobertas por plantações de cereais.     
Trata-se de uma região privilegiada para o cultivo, vez que a temperatura desta zona é mais propícia do que no resto da Península Ibérica. 
Assim, o grão ali semeado tem um tempo menor de maturação, oferecendo, desse modo, expressivo ganho ao produtor. 



   



Importante destacar, ainda, que a cidade é berço do famoso pintor espanhol Francisco de Zurbarán, nascido em 1.598. 

Ali, próximo de seu “casco viejo” encontra-se preservada a casa onde ele viveu até os 15 anos, quando mudou-se para Sevilha, a fim de dar continuidade ao seu aprendizado sob a orientação do mestre Pedro Diaz de Villanueva.   









 



À noite fui com os demais peregrinos assistir às cerimônias sacras realizadas na Igreja Matriz, cuja construção data do século XV, sendo patrona a Virgem de la Granada.
Durante a celebração, enormes e pesadíssimos andores desfilavam imagens de Cristo e seus apóstolos. 
E, a medida que iam chegando, sobre os ombros fortes de homens ali denominados de "costaleros”, os ritos da músicas se tornaram solenes, porém, breves.     
Após o jantar, retornei ao local de pernoite, que por sinal, estava lotado. 
Ficamos alojados em 6 quartos, cada qual contendo 2 beliches, num total de 24 pessoas. 
Muitos, no entanto, estavam fazendo turismo e caminhariam apenas até o Domingo de Páscoa. 




    





Assim, após a festa da “Pascoela”, que seria comemorada na segunda-feira, permaneceriam no Caminho somente os verdadeiros peregrinos. 
 










Resumo: Tempo gasto: 5 h  - Sinalização: Excelente até 10º quilômetro percorrido, depois, sofrível, melhorando após o 15º quilômetro. - Clima: Ameno, com sol, temperatura variando entre 4 e 15 graus. 


Impressão pessoal: Trajeto fácil e agradável, em leve descenso, quase todo em estrada de terra, sendo apenas os últimos 2 quilômetros em asfalto.

 

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