13ª Jornada

13ª Jornada - Aldeanueva del Caminho a Fuenterroble de Salvatierra – 43 quilômetros: “Subindo sempre!”

    
A  jornada seria longa e difícil, assim, levantei à 5 h e parti às 6 h, ainda no escuro.
Os primeiros 10 quilômetros foram feitos pelo acostamento da “N-630”, um percurso em leve, porém, constante ascensão.      
Às 8 h, adentrei à simpática e bela cidade de Banõs de Montemayor, cujas águas termais jorram numa temperatura de 42º C, sendo seus banhos famosos antes mesmo da dominação romana, no ano de 218 a. C. 
Porém, naquele dia, tudo ali estava fechado, ninguém na rua, apenas, alguns carros circulavam apressados.    
Interessante notar que as grandes planícies por onde havia trilhado nas jornadas pretéritas, tinham desaparecido e, ao meu redor, visualizava enormes montanhas, à exceção do sul, de onde vim caminhando.

O roteiro prosseguiu por um caminho de terra, paralelo à rodovia, num traçado que coincide com a antiga calçada romana e, mais à frente, tornou a fundir com a “carretera”. 

Mais alguns quilômetros e ultrapassei a divisa das províncias de Cáceres e Salamanca, de sorte que saía da região de Extremadura para adentrar à Castilla e León. 

Imediatamente as marcações deixaram de ser feitas nos “monjóns” terrestres e voltaram a ser, unicamente, por flechas suspensas.

Sempre subindo, atingi a cidade de Puerto de Béjar. 

Ali o roteiro segue à esquerda pelo denominado “Caminho Real”, uma via utilizada desde a antiguidade pelos romanos e, posteriormente, pelos peregrinos que demandavam à Compostela.

A estrada de terra, larga e bastante arborizada é extremamente deserta, agradável e cercada por intermináveis bosques, onde sobressaem castanheiras e carvalhos. 

Mais à frente, logo após brusca descida, ultrapassei o rio Cuerpo de Hombre sobre a famosa “Puente de Magdalena”, uma visão imperdível.

Na saída da ponte, vi vários miliários, dois dos quais me chamaram a atenção, vez que há inscrições gravadas: CXXXIII e CXXXIV, indicando os anos 123 e 124 d. C, dedicados aos imperadores Caracalla e Trajano.


Albergue “Alba Soraya”

O caminho seguiu em meio a um grande vale, numa estrada rural gramada e de fácil trânsito. 

Às 11 h, 23 quilômetros percorridos, iniciei forte subida por uma trilha pedregosa, que no final desaguou na cidade de Calzada de Béjar.

Ali existe um excelente albergue particular, novo e confortável, próximo da entrada da vila, batizado de “Alba Soraya”, não por acaso, pois, trata-se dos nomes das filhas dos hospitaleiros Manuela e Maxi.
O povoado tem mais ou menos 100 habitantes, é extremamente simpático e acolhedor. 
E, ainda, mantém vivo seus encantos etnográficos, como balcões de madeira adornados por gerânios, vigas ao exterior assentadas sobre colunas pétreas e pessoas sentadas nas portas das casas em animadas conversas.
Encontrei um bar aberto e nele lanchei e tomei café. 
Aproveitei a pausa para rápida visita à igreja de “la Asunción”, que, surpreendentemente, encontrava-se aberta. 
O Sr. Antônio, o responsável pela manutenção do templo, me recebeu com simpatia e “sellou” minha credencial.
Contou-me, também, alegremente, que um dos irmãos do Padre Blás, a quem teceu rasgados elogios, reside naquele “pueblo” e que o Cura, com freqüência, vem visitá-lo, para felicidade e orgulho da população local.
Na parede direita do presbitério, pude admirar uma fotografia, onde aparecem dois religiosos. 
Ante minha curiosidade, o sacristão explicou que ambos foram fuzilados na Guerra Civil espanhola e que serão declarados santos em breve. Identificou os “beatos” como Julián, de Salamanca, e Antônio Maria Martin, de Calzada de Béjar, batizado naquela igreja, asseverou-me, indicando a pia sacra.


Descansado, contudo, pensativo, segui em frente por uma estrada plana e arborizada. 

Na seqüência, despertou minha atenção um grupo de 8 cegonhas correndo pelo campo à caça de comida. 

Imaginei filhotes no ninho, aguardando a mãe com a esperada refeição. 

E essa cena insólita se repetiu mais algumas vezes ao logo desse dia.

No meu lado direito, uma enorme cadeia de morros, cobertos de neve no cume, me acompanhou durante boa parte do trajeto, um deleite para meus olhos. 

O caminho seguiu entre fazendas de criação de gado da raça Morucha e, numa delas, dois homens consertavam uma porteira.

Perguntei-lhes sobre as montanhas ao fundo e disseram-me que se tratava da célebre “Sierra de Béjar”, famosa por abrigar numerosos hotéis de luxo em seus arredores. 

Ali, no inverno, em razão da extensão de suas alças, com declive suave e tratamento especial do manto de neve, torna-se um local ideal para desportes em família e são freqüentes os campeonatos de esqui, inclusive, a nível nacional.

Segui em frente, por uma agradável estrada rural orlada por grandes carvalhos, sempre em leve ascensão e cheguei, às 12 h 30 min, em Valverde de Valdelacasa, pequena povoação, onde não encontrei nenhum comércio aberto.
O sol brilhava com intensidade no céu límpido e azul, porém, a temperatura mantinha-se baixa, em virtude da agradável brisa fria que soprava do norte.



O caminho prosseguiu por asfalto, sempre subindo e, depois de 4 quilômetros, cheguei em Valdelacasa, às 13 h. 
Nesse trecho ultrapassei 2 peregrinas alemãs, por coincidência irmãs, que haviam pernoitado em Calçada de Béjar.
Na cidadezinha, também, não vi nenhum bar ou “tienda”, onde pudesse aplacar minha sede, contudo, num local próximo, dois senhores enchiam inúmeros tambores numa fonte, certamente, para matar a sede do gado em alguma fazenda da redondeza.

Indaguei-lhes sobre a qualidade da água, pois, meu estoque estava se findando. 

Disseram-me que o líquido que jorrava do cano maior não era confiável, contudo, o que vinha através do menor fluxo era de excelente qualidade. 

Assim, dessedentei com folga e aproveitei para encher a garrafa plástica que levava.

Seguindo as flechas, prossegui pelo asfalto e, 2 quilômetros à frente, acessei agradável e larga estrada de terra pelo lado esquerdo e, por ela segui, sempre subindo, ainda por mais 5 quilômetros, até chegar, às 15 h, em Fuenterroble de Salvatierra, cidade situada no cume de um morro, à 1.000 m de altitude.

Estava na terra do famoso Padre Blás Rodriguez, um dos maiores “paladinos” dessa Rota. 

Assim, imediatamente me dirigi ao belo albergue localizado no outro extremo do pequeno vilarejo. 

Na entrada da vivenda, uma frase esculpida em madeira me chamou a atenção: “A ti peregrino imortal que está no caminho, que o amor e a paz de Deus te acompanhem sempre e que com sua voz dócil, passe pela terra semeando o bem.”

No entanto, não consegui me hospedar nesse local, pois o hospitaleiro, um holandês, não compreendia meu idioma, e com muita dificuldade pude entender que sem possuir saco de dormir não poderia me abrigar, pois não forneciam mantas. 

Desse modo, não insisti, vez que as noites ali são enregelantes e sem cobertor eu congelaria.

Assim, procurei outra alternativa e me hospedei na Casa Rural Páqui (25 Euros), excelente habitação. 

Para almoçar utilizei os serviços do Bar Pasebre, o único existente no povoado, visto que, para complicar era sábado e as duas únicas “tiendas” existentes na cidade já haviam cerrado suas portas.

Mais tarde retornei ao albergue, um dos mais acolhedores do Caminho, para “sellar” minha credencial. 
Atendeu-me, então, o cozinheiro do Padre Blás, um senhor italiano muito simpático, que desfez o mal entendido. 
Disse-me que o albergue fornece sim lençol e mantas aos peregrinos e, o pagamento era feito através de donativos. 
Contudo, tal informação chegava tardiamente, isto porque, embora sozinho, estava muito bem acomodado.


O Cura Blás, o maior “ícone” desse roteiro, estava ausente à testa de uma peregrinação pelos distritos “cercanos”, e só retornaria na segunda-feira, de modo que, infelizmente, não pude conhecê-lo. 

Esse desencontro, sinceramente, lamentei em profusão, porque sua “benção” pessoal é um desejo de todo peregrino que percorre esse Caminho.

À tardinha fiz breve “siesta”, depois visitei a igreja de Santa Maria la Blanca, magnífica construção gótica do século XV, de sólida torre, com um espetacular retábulo atribuído ao famoso artista espanhol Churriguera. 

Junto ao templo existe um pequeno e instrutivo parque dedicado à Via de la Plata, onde há explicações a respeito de sua origem, técnica de construção, puentes, etc..


   


Albergue de peregrinos de Fuenterroble de Salvatierra

À noite retornei ao albergue para uma ceia comunitária, junto com os outros 9 peregrinos ali alojados. 
Nessa oportunidade, pude conhecer o interior daquela abençoada construção e, confesso, algumas frases ali gravadas me chamaram a atenção.     
Por exemplo, no alpendre da porta de entrada em direção aos dormitórios, uma expressão em várias línguas saúda a todos, nestes termos: “Dei ordens aos meus anjos para que protejam o teu caminho”. 
À saída, pelo lado interno, outra locução dirigida ao peregrino que parte: “Busca a paz sempre e com ela caminha”.

Sem dúvida, este povoado de apenas 250 habitantes, foi um dos lugares mais emblemáticos que conheci e pernoitei durante minha peregrinação, talvez, naquele em que me senti mais protegido pelas forças celestes.



           

Resumo: Tempo gasto: 9 h - Sinalização: Excelente - Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 4 e 15 graus.
 

Impressão pessoal: Um percurso de singular beleza até a metade da jornada. No entanto, desde o início, existe perene aclividade e 2 morros consideráveis a serem vencidos. Há de se considerar, também, que aproximadamente 16 quilômetros são feitos em asfalto. No geral, um trajeto bastante cansativo e de grande dificuldade. Em vista da rudeza dessa jornada, muitos preferem fracioná-la em duas etapas, pernoitando em Calzada de Béjar, onde existe um excelente albergue particular.



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