14ª Jornada

14ª Jornada - Fuenterroble de Salvatierra a San Pedro de Rozados – 30 quilômetros: “Pico de la Dueña!”


Era um domingo que amanheceu ventoso e com intensa cerração. 
Fazia muito frio quando deixei o local em que me hospedei. 
Parti, exatamente às 7 h da manhã.

Bem agasalhado, desci pela rua principal da cidade em direção ao alberque e, ao chegar na frente do prédio, verifiquei que ali reinava o mais absoluto silêncio, nenhuma luz acesa, ninguém acordado. 

Tinha esperança de tomar café naquele local santo, contudo, em vista da imobilidade reinante, decidi seguir adiante.

Observando a sinalização, deixei a cidade por uma estrada vicinal asfaltada de escasso tráfego, onde caminhei uns mil metros, se tanto, com minha lanterna na mão para conferir a sinalização. Depois, fleti à direita, seguindo por larga, plana e bem conservada estrada de terra, situada entre extensas fazendas de criação de gado, sempre em perene ascensão.

Lentamente, um toque avermelhado no horizonte anunciou a aproximação do “astro-rei”. 

Não demorou muito e surgiu uma borda estreita, marcada por intensa luminosidade. 

Era o sol levantando atrás de uma colina, ao longe. 

De alguma forma, sem parecer que se movimentava, se tornou cada vez mais visível, até que, minutos mais tarde, se fez dia.


A vegetação cambiara novamente, agora predominavam os pastos com algumas árvores isoladas e pequenos morros. 

No percurso atravessei alguns bosques, mas, afora os animais, não vi carro ou alma viva em todo o trajeto. 

Depois, de uma grande reta, ultrapassei uma enorme cruz dedicada a “Antônio”, um ermitão que ali vive numa rústica cabana feita com troncos e ramos de árvores.

Às 9 h, 11 quilômetros percorridos, defronte a uma grande porteira, encontrei uma bifurcação bem sinalizada: à direita deveriam seguir os ciclistas através de uma pista asfaltada. 

E, à esquerda, os que iriam a pé, como eu. 

Deixei a “finca Morucha”, à minha esquerda, fazenda destinada à criação de touros bravios, e prossegui beirando uma cerca de arame.

O trajeto em brusca ascensão tornou-se áspero e selvagem. 

Havia muitas pedras, mato rasteiro e ramosas árvores a complicar o roteiro deste caminhante. 

E o céu que se apresentava claro e límpido, bruscamente começou a escurecer, com nuvens negras e pesadas.



O “tramo” final da subida ao cume se fez cada vez mais ríspido e íngreme, por uma trilha estreita, ao lado de grandes rochedos de puro granito. 

Próximo ao topo da montanha, passei ao lado de grandes torres que servem para captação de energia eólica, qual seja, transformam o vento em energia, já que ali ele sopra com constância e violência.

Lentamente galguei os derradeiros “acidentes geográficos” e, às 10 h, exatamente, ultrapassei o “Pico de la Dueña” que, com 1.200 m de altitude, é o ponto mais alto de toda a Via de la Plata. Fazia muito frio lá em cima, além de ventar com força.

No ponto de maior altitude, destaca-se uma grande cruz de ferro dedicada à Santiago, que ali foi fincada por um artista e peregrino chamado Salvador Castellano, natural da cidade de Zafra.




A vegetação naquele ponto é formada predominantemente de pequenos “robles”, para nós, carvalhos, cujas folhas parecem deterioradas, como se estivessem acometidas por alguma enfermidade ou sofrido ataque de pragas, ou mesmo, resultado da intensa umidade ali reinante.

Naquela hora, uma grande cerração cobria o ambiente e, em seguida, começou a nevar, por sorte, eu já estava próximo de um grande bosque de pinheiros e, a partir dali, comecei a descer pelo outro lado do morro. 

O declínio foi brusco e áspero, forçando, sobremaneira, minhas panturrilhas e joelhos.

Já no sopé, segui à beira do asfalto por uma trilha enlameada e com muita vegetação, quando iniciou uma perene garoa, obrigando-me a vestir a capa de chuva.

Às 11 h 30 min, 22 quilômetros percorridos, passei pela “finca Calzadilla de los Mendigos”, um local que abriga grande construção e se dedica à criação de porcos “rojos”, para abate, e de touros bravios, para “corridas”. 

A zona ao redor é tipicamente cerealista, ainda que um tanto árida.



O caminho continuou plano e agradável, porém, a chuva tornou-se intensa e, logo depois, desabou um pesado temporal. 

Continuei em frente pela imensa “planura salmantina” e, uma hora depois, observando a sinalização, virei à esquerda e segui por mais 2 monótonos quilômetros, em meio a plantações de trigo, até atingir, às 13 h, San Pedro dos Rozados.

Nessa cidade fiquei hospedado no excelente albergue privado “El Miliário” (9 Euros). 

A proprietária, Sra. Elena, que trata a todos com carinho e inigualável desvelo, foi uma das pessoas mais cativantes e atenciosas que conheci na Rota.     

Para o almoço, utilizei os serviços do bar Moreno (9 Euros) e à noite jantei no bar Los Claveles (10 Euros).




À tardinha, o tempo estiou e pude passear pela vila, um “pueblo” de casas brancas e de pouca altura, construídas em torno de um pequeno e artístico campanário, delicadamente restaurado.

Visitei, então, a igreja de San Pedro, edificada no início do século XVII, que curiosamente se encontrava aberta, certamente por ser domingo.

Estávamos em 5 pessoas no albergue, sendo que 2 franceses encerrariam sua peregrinação no dia seguinte.

Ainda, meus 2 amigos alemães, Karl e Walfrid, que confirmaram sua ida até Compostela.





Igreja de San Pedro


Em relação aos demais peregrinos que haviam pernoitado em Funterroble no dia anterior, tomei conhecimento, no dia seguinte, que as duas irmãs alemãs embarcaram num ônibus até Salamanca, de onde retornariam para sua terra natal.     

Os outros prosseguiram por mais 4 quilômetros, até Morille, onde existe um novo e confortável albergue.


 

 

 

 


Resumo: Tempo gasto: 6 h - Sinalização: Excelente - Clima: Nublado, depois chuvoso, com temperatura variando entre 0 e 12 graus.

 

 

Impressão pessoal: Um percurso fácil e bonito até o início da ascensão ao Pico de la Dueña. Depois de transpô-lo, o roteiro continua plano, agradável e monótono até San Pedro de Rozados. No geral, uma etapa bastante interessante, com razoável dificuldade, no caso de seguir pela parte mais alta da montanha.

 
 
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