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22ª Jornada

22ª Jornada - Puebla de Sanabria a Lubián – 32 quilômetros – “Uma data Inesquecível”:


 
A meteorologia previa, já há algum tempo, chuva forte em toda Península Ibérica a partir daquela data. 
O mais interessante disso tudo é que lá, dificilmente, erram as predições.     
E como iria enfrentar um trecho de montanha, fiquei assaz preocupado, pois a serra abriga a cidade de Podornello, situada a 1.329 metros de altura,  povoação de maior altitude de toda a Via de la Plata, .    
Assim, levantei-me às 6 h e desci as escadas rumo ao refeitório, meia hora depois. 
Para minha surpresa, o proprietário já estava com o bar aberto. 
Assim, foi gratificante e encorajador ingerir um café quente acompanhado de bolachas e frutas, antes de iniciar minha jornada.   
  

Aliás, eu deveria seguir pela cidade até sua Plaza Mayor e ali reencontrar o roteiro do Caminho. 
No entanto, o Sr. Carlos me disse que tal providência seria desnecessária, e me orientou pegar um atalho alternativo.
A partir do Hostal, deveria acessar uma rua perpendicular que passaria próximo ao prédio da Guarda Civil e, logo à frente, transporia o majestoso rio Castro, cujas águas banham a cidade.     
Foi o que fiz e, assim, depois de atravessar a “ponte velha”, dobrei à esquerda, seguindo por asfalto pelo acostamento da antiga “carretera” N-525, cujo tráfego era escasso.   
Quatro quilômetros depois, com o dia amanhecendo, as flechas me direcionaram à esquerda, através de um pasto.
As trilhas que encontrei se encontravam extremamente barrentas, mal conservadas e invadidas por mato alto.





Fui labutando por meio de pântanos escorregadios, sem sinalização confiável, e na primeira oportunidade que tive, retornei ao asfalto.
Segui por mais quatro quilômetros pelo acostamento até um local em que o “roteiro” indicava seguir o lado direito.
Naquele local, obedecendo as flechas amarelas, adentrei em uma agradável estrada de terra entre pinheiros, castanheiras e bétulas que me levou, mais acima, até Terroso, pequena vila, onde tudo se encontrava fechado.
Prossegui através de agradáveis trilhas rurais, orladas por carvalhos centenários até atingir, às 9 h 30 min, Requejo, pós vencer 12 quilômetros.



A cidade tem forte influência “gallega”, e a maioria de suas casas foi construídas com balcões e escadarias de pedra.
Ali existe um moderno e bem equipado albergue particular, além de alguns Hostais. 
Num bar próximo à “carretera” fiz providencial pausa para ingerir proveitoso café com pão.
Em seqüência, acessei uma estrada asfaltada, ladeada, em toda sua extensão, de castanheiras e madressilvas, árvores típicas da região. 
Um quilômetro depois, adentrei numa trilha agreste em meio a uma fechada mata.
Nesse “tramo” o caminho é sombrio, às vezes, com túneis formados pela exuberante vegetação que o ladeia. 
A trilha é efetivamente pouco transitada, no entanto, extremamente bela. 
Em alguns locais, há trechos inundados, por isso, não é um roteiro adequado para trilhar na estação das chuvas.


O trajeto é efetivamente espetacular e plano, em meio a imenso bosque nativo, repleto de samambaias, sempre à beira de encachoeirado e serpenteante regato, na verdade, o rio Castro mais próximo de sua nascente. 
Em alguns trechos, a paisagem revelou-se tão perfeita, como um cristal finamente lavrado.
Depois de uma hora nessa toada, saí num caminho de terra, fiz um giro de 90º e iniciei a subida da temível “Sierra de Podornello”. 
Vagarosamente, trilhei por caminhos ascendentes, passei ao lado de uma fábrica de fertilizantes abandonada, depois, sob a Autovia Nacional e, finalmente, no cume da montanha, saindo novamente na “N-525” que me levou até a pequena vila de Podornello, onde cheguei às 12 h, após percorrer 24 quilômetros.




Parei na “fuente del Mergullo”, ponto turístico do “pueblo”, para lavar o rosto e saciar a sede, pois, a frígida água que ali escorre, provém de uma nascente localizada na base de um morro próximo e é exaltada pelos moradores em razão de suas propriedades medicinais.
O tempo estava mudando drasticamente, nuvens carregadas vindas do sul cobriam todo o céu, e deixavam o ambiente frio e carregado. 
Apressado, desci rapidamente e, logo abaixo, na saída da cidade, encontrei um Hostal/Bar onde aproveitei para ingerir providencial café com um “bocadillo” de queijo.
Depois, prossegui já em franco descenso e, logo adiante, acessei uma rodovia secundária asfaltada.
Próximo de Aciberos, quatro quilômetros à frente, as flechas me direcionaram à esquerda, por trilhas selvagens, situadas em meio a muito verde e inúmeros riachos murmurantes. 
Foi extremamente agradável seguir pelos bosques nativos, sempre em declive, até atingir, às 14 h, a cidade de Lubián, minha meta naquele dia.








O nome Lubián provém de lobo, já que nessa zona boscosa, abundavam estes animais até pouco tempo, porém, foram lentamente dizimados e hoje não mais existem nessa região. 
Um detalhe me chamou a atenção, neste povoado não existe uma única rua reta.
O fato decorre da urbe estar situada nas faldas de uma montanha. 
Assim, suas vias de tráfego vão se enlaçando em diferentes alturas. 
Ainda, observei que todas as casas são feitas em pedra, por sinal, material muito abundante nesta área. 
E os telhados são todos em ardósia, não se vendo uma única telha convencional nas construções locais.
O prédio do alberque é uma edificação nova e moderna, composto de dois andares, todo revestido de pedra talhada, tornando-o muito acolhedor e mais parece uma Casa Rural. 
Pode abrigar até 20 peregrinos e possui calefação, grande cozinha, banheiros funcionais, um verdadeiro luxo, tudo isso cedido ao peregrino, por 3 Euros o pernoite. 
A hospitaleira, Dona Conchi, me forneceu um cobertor para dormir, pois, no local não havia mantas.



Às 15 h, depois de tomar meu banho e lavar minhas roupas, teve início uma forte ventania, seguida de uma tímida garoa que se avolumou, paulatinamente e, às 16 h, desabou um pesado temporal. 
Nesse mesmo horário, ouvi pancadas na porta principal e, ao abri-la, deparei-me com Miquelle que, mesmo trajando portentosa capa de chuva, encontrava-se literalmente, “molhado até os ossos”.
Mais tarde, a chuva amainou e pudemos ir até o centro do povoado fazer compras em uma “tienda”. 
Ao saber que eu completava 57 anos naquela data, meu amigo propôs cozinhar uma “pasta italiana” na cozinha do albergue, no intuito de me homenagear.
Compramos, então, os ingredientes, depois entramos no bar do Javi para um brinde merecido, regado à encorpado vinho regional, para festejar meu “cumpleaños”.
Quando a noite caiu, nossa alegria transbordava ao sabor do delicioso vinho. 
Enquanto conversávamos, Miquelle preparou e serviu saborosa macarronada, acompanhada de salada mista, ovos fritos e pão. 
Tudo isto, mais o consistente vinho “Crianza de la Rioja”.
Lá fora a chuva caía sem cessar, enquanto, no aconchego da sala de jantar, nos deliciamos com o saboroso repasto e brindamos, por diversas vezes, aquele inolvidável dia, para mim, sem dúvida, de gratíssima recordação.  

 
   

 

Resumo: Tempo gasto: 7 h - Sinalização: Deficiente até o oitavo quilômetro percorrido (sugiro seguir pela “carretera”), depois, excelente até o final - Clima: Nublado, com temperatura variando entre 2 e 12 graus.
 

Impressão pessoal: Um percurso bastante interessante, mormente após Requejo. A escalada da serra de Podornelo foi bastante dura e íngreme, todavia, gratificante pelo encanto da paisagem ao derredor. Importante destacar que o trajeto entre Requejo e o sopé da serra de Podornelo, talvez, tenha sido o trecho mais belo e precioso que trilhei em toda a Via de la Plata.


Subpáginas (1): 23ª Jornada