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24ª Jornada

24ª Jornada - La Gudiña a Laza – 35 quilômetros – “Caminhando pelas Nuvens!”:


Choveu durante a noite toda e a tempestade sucedia, ininterruptamente, sempre acompanhada de fortes trovoadas e intensa ventania. 
A água batia na janela próxima de minha cama e me deixava preocupado, porquanto sabia que a jornada daquele dia seria, deveras, complicada.
Acordei às 6 h, surpreendentemente, com o barulho feito pelo despertador do celular de Miquelle.
Levantei-me e perguntei-lhe porque iria sair tão cedo, visto que nunca iniciava sua trajetória antes do dia clarear.
Para minha surpresa, respondeu que novamente não iria caminhar naquele dia, pois, não era nenhum “maluco”, haja vista o clima reinante. 
Prevendo que o tempo não melhoraria, pesquisara no dia anterior os horários disponíveis e iria tomar o trem que fazia o percurso La Gudiña/Laza, diariamente, às 7 h. 
Instou-me a seguir com ele. 



Seu convite feito à “queima-roupa”, me deixou confuso e indeciso, visto que também prezava por minha saúde.
Olaf se levantara também e fazia alongamentos num dos cantos do imenso salão onde pernoitáramos. 
Quando o inquiri, respondeu que ao contrário de Miquelle, naquele dia, iria “à luta”, pouco lhe importava a intensidade do frio ou da chuva que caía lá fora.
Complementando, explicitou-me que em sua pátria existe um ditado contundente que ele ferrenhamente exercitava, qual seja: clima e pessoas são agentes dissociativos e excludentes, isto queria dizer, algo físico e atemporal não pode nem deve interferir, necessariamente, na decisão da outra.




Imediatamente, minha hesitação desapareceu e, confiante, afirmei-lhe que iríamos juntos afrontar o destempero celeste, com o qual, prontamente concordou. 
Assim, após o desjejum matinal preparado na cozinha do albergue, partimos por volta das 7 h 15 min, sob forte aguaceiro.
Seguimos por uma rua paralela à “carretera” até um marco que assinala os dois caminhos possíveis a seguir para chegar à Orense: 
À esquerda, passando pelas cidades de Verin e Xinzo de Limia, segundo as informações disponíveis, era o percurso mais bonito e fácil.
Todavia, mais longo, acrescendo à jornada, um total de 9 quilômetros. 
Assim, optamos em fazer o recomendado pelo guia que portávamos e prosseguimos à direita, em direção às cidades de  Laza e Vilar de Barrio.
O trajeto inicial foi feito por uma estradinha asfaltada, sempre em perene ascensão. 
Lentamente o dia foi clareando, sem, no entanto, a chuva dar sinal de parar. 
Mesmo assim, em bom passo, fomos vencendo as distâncias, passando, primeiramente por Venda do Espiño, depois, Venda Tereza, Venda Capela e Venda Bolaño, todas pequeníssimas vilas que não oferecem nenhum tipo de serviço ao peregrino.
Praticamente, toda primeira metade dessa etapa foi trilhada na crista de altos morros, acima de 1.100 m de altitude e, deslumbrados, podíamos observar abaixo de nossos pés as nuvens que rodeavam as montanhas.
Infelizmente, a magnífica vista que dali se descortinava, era prejudicada pelo mau tempo reinante. 
Creio que num dia ensolarado a paisagem ao derredor deve ser algo incomensurável.

Porém, às vezes, havia mais claridade propiciada pela intensa movimentação dos vapores aquosos, tínhamos então uma exuberante visão dos profundos vales que nos cercavam, de ambos os lados da rota. 

Em algumas situações, parecia-nos estar caminhando praticamente sobre um tapete branco, com a terra abaixo de nossos pés.

Em determinado ponto, contemplamos, ao longe, um pântano no sopé de uma grande serra, na verdade, o “Embalse de las Portas”. 

E, de trecho em trecho, via-se a linha do trem que serpenteava, aqui e acolá, num vai e vem até Orense. Trata-se, na verdade, da imensa “Sierra Seca”, cujo traçado é conhecido por “Verea Vella”.

Muito embora tenhamos nos perdido quase no final e, por conta da ausência de sinalização, feito grande e desnecessário volteio por uma rodovia asfaltada, depois de 20 quilômetros percorridos, exaustos e ensopados, aportamos à Campobecerros, às 11 h 45 min.



Na cidade encontramos o bar da Isabel aberto e ali fizemos providencial e necessária pausa para lanche e café com conhaque. 
Existia um aquecedor à lenha instalado no meio do recinto e aproveitamos para secar nossas roupas e aquecer mãos e pés que estavam a ponto de congelar.
Refeitos, passamos ao lado de “la Iglesia de la Asunción, e prosseguimos por uma estrada asfaltada situada entre grandes montanhas, sempre subindo, até alcançar Porto Camba, pequena vila que também não oferece nenhum tipo de serviço.
A se destacar neste pequeníssimo “pueblo” que todas as casas foram construídas com pedras de ardósia. 
Inclusive a igreja de San Salvador, de estilo barroco, também foi edificada com esse tipo de material.
Continuamos em frente, ainda em ascensão, até atingir, ás 13 h, uma cruz fincada no topo da encosta pelos frades do “Monastério de los Milagros”, em memória aos peregrinos falecidos enquanto trilhavam o Caminho.
Ali, finalmente, abandonamos o piso asfáltico e seguimos por uma larga estrada de terra à esquerda, agora em grande descenso. 



O céu continuava cinzento e pesado, porém, a chuva tinha cessado.

   
       
As visões que se sucediam lá de cima eram realmente maravilhosas e alcançavam a linha do infinito horizonte. 
Depois de mais uma hora de caminhada, ultrapassamos dentro de “As Eiras”, pequeno e deserto “pueblo” galego.
A partir desse povoado, tudo se faz por asfalto. 
Assim, prosseguimos descendo entre grandes bosques de pinheiros, num constante ziguezague, até atingir, às 15 h 15 min, a cidade de Laza, nosso destino, naquele dia.
Um simpático morador nos conduziu até a escritório da Proteção Civil, onde preenchemos uma ficha cadastral e foi-nos entregue uma chave do albergue que, por sinal, encontra-se a uns 400 metros do centro do cidade. 
O edifício está situado num centro polidesportivo e possui quatro dormitórios, com oito camas em cada um deles. 
Além disso, disponibiliza cozinha, frigorífico, secadores, ampla sala de estar, abundante e moderno mobiliário, é amplo, sólido, confortável e muito bem gerido.


Albergue de Laza

Ali, além do amigo Miquelle, encontrei o Francisco, um peregrino português que chegara pelo “tramo” de Verín. 

Nos instalamos os quatro confortavelmente num único quarto e tivemos uma noite bastante agradável.

Fiz, à tarde, após breve “siesta”, um giro pelo povoado e pude ver que o lugar é cheio de alusões aos seus animados e peculiares carnavais.
Famoso ali é um bonito e original cruzeiro, do século XV, construído sobre quatro grandes pilares, ainda que se encontre atualmente num espaço restrito e tenha sua visão obstruída pela fiação aérea que conduz eletricidade às casas contíguas.
Para jantar, utilizamos o serviços do bar Blanco (10 Euros).
Imperioso enaltecer a refeição preparada pela esposa do proprietário, pois, estava deveras supimpa, seguramente, uma das mais saborosas que ingeri em todo o Caminho.


No bar, com Olaf e Miquelle

           



Resumo: Tempo gasto: 8 h – Sinalização: Boa no início, porém, um tanto confusa na chegada à Campobecerros. Após essa cidade, o restante do percurso está muito bem sinalizado - Clima: Chuvoso até às 12 h, depois, encoberto, com temperatura variando entre 0 e 8 graus.

 

Impressão pessoal: Uma etapa quase toda feita por asfalto, sendo os primeiros 20 quilômetros sob intensa chuva. No global, um trajeto de grande dificuldade, mormente em sua primeira metade, com inúmeras ladeiras a serem vencidas. Em compensação, um percurso de incomum beleza, de inesquecíveis paisagens em quase toda a jornada.

 
Subpáginas (1): 25ª Jornada