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29ª Jornada

29ª Jornada - Silleda à Santiago de Compostela – 41 quilômetros – “Um grande dia”:

 
Era meu último dia no caminho e seria bastante longo.
Assim, levantei-me cedo e, às 6 h,  deixei o hotel e segui pela “carretera” até a saída da cidade.
Ali as flechas me direcionaram para o caminho de terra, à esquerda.     
No entanto, face às pesadas chuvas do dia anterior, inferi que as trilhas deveriam estar enlameadas e escorregadias.
Ademais, uma grande e densa névoa cobria todo o ambiente, de modo que, certamente, eu teria dificuldades para localizar as flechas sinalizadoras.
Diante disso, resolvi seguir pelo acostamento da rodovia e, após 1 hora, sempre descendo, cheguei à Bandeira, uma pequena povoação cortada pela autovia nacional. 
Num “méson” local, entrei e tomei meu café da manhã.


 


Depois segui adiante e logo à frente, fleti à direita e, sempre por asfalto, passei Vilariño, Pinheiro e, mais tarde, quase sem perceber, em San Martin de Dornelas. 

Logo depois, em Besteiro, um “monjón” estrategicamente colocado numa encruzilhada, me avisava que faltavam 30 quilômetros para chegar à Santiago.

A manhã era sempre uma benção. 
Eu me sentia um tanto diferente, algo novo brotava dentro de mim, uma certa ternura existia, talvez, saudade e esperança.     
Como todo ser humano que demanda Santiago, pensando, repensando, conferindo tudo e introspectivo, rememorando os indeslembráveis acontecimentos que vivera nos últimos 28 dias.




    
Afinal, o peregrino não tem horário, nem precisa marcar ponto para começar cada percurso.
Claro, também não tem hora para encerrar sua odisséia, muitas vezes  segue avançando até tarde e, algumas vezes, noite adentro.
Em contrapartida, respira ar livre o tempo todo, sem ficar preso a uma rotina desgastante.     
Também, vê lugares diferentes, conhece pessoas novas a cada trecho percorrido, faz amigos, tem oportunidade de observar tipos engraçados e, algumas vezes, passar o dia todo sozinho, contando, apenas, com seu próprio bom senso e a proteção Divina.     
Mas, principalmente, não tem rotina definida, começando cada jornada sem ter a menor idéia de como ela transcorrerá, sabendo apenas que, monotonia dificilmente haverá.
Contudo, o peregrino é, por natureza, um otimista nato, que sempre observa primeiro o lado bom dos acontecimentos.

    
Assim, sentindo a emoção dos derradeiros passos no Caminho, segui em meio a grande plantação de eucaliptos até San Miguel de Castro.
A partir dali inicia-se fortíssimo descenso em pista asfaltada, culminando quase no final, com a visão impressionante de uma ponte construída sobre portentosos blocos de pedra viva, por onde correm os trens.    
Mais à frente, ao final da rodovia, cheguei a uma ponte de pedra medieval sobre o rio Ulla e, ao ultrapassá-la, deixei a Província de Pontevedra e adentrei na de A Corunã, a última onde iria caminhar até meu destino final.    
No Restaurante Rios, o primeiro que encontrei ao adentrar à povoação, parei para lanchar e tomar café. 
Depois, prossegui; agora subindo forte e, tive que superar, nos primeiros 4 quilômetros, um desnível de 250 metros.
Após ultrapassar um grande bosque de eucaliptos o caminho se torna plano e logo depois passei em Outeiro, onde existe um novo e excelente albergue.    
Sentei-me para um breve descanso junto a uma fonte existente atrás da Capela de Santiaguiño, uma interessante construção do século XVII, onde há uma estátua de Santiago e de seus fiéis discípulos, Teodoro e Anastásio.
É um local agradabilíssimo que nos convida a uma pausa e, ante o iminente final do Caminho, também, a uma reflexão.











Depois, a subida continuou por uma estrada empedrada até o sopé do “Pico Sacro”. 
A partir, dali tudo fica plano e mais à frente passei por Rubial e Lestedo. 
Daquele local, a 10 quilômetros de distância, já conseguia divisar os contornos da cidade de Santiago.     
Quando reiniciei a marcha, custou-me acreditar que o roteiro iniciado há 29 dias, estava inevitavelmente se findando. 
Mentalmente, fiz uma rápida compilação dos acontecimentos pretéritos, etapa por etapa.
E, em cada recordação agradável, sentia uma pequena pontada em meu peito.





Por uma rodovia vicinal asfaltada em meio a um frondoso bosque de eucaliptos, cheguei à Susana.     
Próximo ao centro dessa cidadezinha, toma-se um atalho à esquerda que, mais à frente, está coberto por uma enorme e frondosa parreira que une duas chácaras situadas de ambos os lados dessa senda.

Na seqüência, sempre por asfalto, atravessei Cañoteira, Vixoi e, no alto de uma encosta pude vislumbrar, ao longe, as agulhas da Catedral Compostelana.




Interessante notar que não encontrara desde minha saída de Silleda até aquele momento, nenhum outro peregrino. 


Se estivesse na última etapa do Caminho Francês, certamente, teria feito parte de um fluxo contínuo de pessoas, pois, aquele roteiro é muitíssimo mais movimentado do que este que finalizava.

Por fim, passei por Piñeiro, Angrois e cheguei à “calzada medieval de Sar”, já na parte urbana de Santiago.
Ao fim dela, pude divisar com nitidez, próximas dali, as torres da Catedral, reluzindo ao brilho do sol vespertino.
Instantaneamente, meu coração disparou jubiloso, meu passo acelerou e as recordações do Caminho sobrevieram em tropel: as obrigações, os bons desejos, as orações pelos meus entes queridos que, de um modo ou de outro, também fizeram o roteiro comigo.

Pois, não foi na igreja, mas, neste último quilômetro que externei meus pedidos e anseios.







Assim, mentalmente fui orando pela minha família e, também, por todas aquelas pessoas que me auxiliaram na consecução de meu objetivo.
E, ainda, por aquelas que durante o Caminho, especificamente, me socorreram com seus préstimos e deferência.

Nesse passo, lembrei-me com mais efusão de Dona Manuela, de Castilblanco de los Arroyos; do Sr. Angel, de Alcuéscar; do Sr. Alfonso, de Cañaveral; de Dona Helena, de Carcaboso; da Sra. Elena, de San Pedro de Rozados; de Dona Vitória, de Cernadilla e de Dona Conchi, de Lubián.

Em continuação, prossegui por avenidas movimentadas, rompendo, depois, pelas empinadas ruas del Sar, do Castro de Ouro e, finalmente, após, ultrapassar a porta de Mazarelos, a única que resta da antiga muralha que protegia a urbe, saí diretamente na Praça de Praterias, pela qual, finalmente, eu cheguei à Praça do Obradoiro, exatamente, às 15 h.

Imediatamente, meus olhos nublaram ao rever novamente o majestoso Templo do Santo Apóstolo.

Emocionado, “sentia” o Caminho desvanecer naquele instante.
Posto que, deixara de existir num inolvidável átimo de segundo, mas, em meu coração persistirá para sempre, como algo inestimável, de perene e pungente recordação. 
E são essas conquistas que nos acompanham a vida toda.
Em seguida, bati algumas fotos para deixar registrado à posteridade o momento mágico e único que vivi. 
Depois, tomado por grande contentamento, adentrei à magnificente Catedral para cumprir os rituais de praxe.
Findos estes, passei pela “Oficina del Turismo” para retirar a “Compostelana” e, na seqüência, me hospedei no confortável Hotel Real, localizado próximo ao “casco viejo” da cidade.




No dia seguinte, uma terça-feira, assisti à emocionante Missa das 12 h, onde os peregrinos são homenageados.
 
 
 
 
 

Na quarta-feira, fui à Finisterre e na manhã do dia posterior, embarquei de volta ao Brasil.



 

Resumo: Tempo gasto: 9 h – Sinalização: Normal.  - Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 4 e 16 graus.
 

Impressão pessoal: Uma etapa longa e cansativa, pois, salvo raras exceções, toda trilhada em asfalto. Mas, por ser a derradeira, emocionante e inesquecível.


Subpáginas (1): CONCLUSÕES FINAIS