A VIAGEM


A VIAGEM




Eu desembarquei na Estação Ferroviária de A Corunha e segui caminhando até o seu “casco viejo”, um trajeto agradável, pois todo plano e situado próximo da orla marítima.

Estávamos num domingo e muitas pessoas ocupavam o calçadão existente junto ao mar, alguns pedalavam, outros faziam seu “footing” matinal, e havia outros que passeavam com seus cães, enfim, tudo era alegria e descontração, pois o sol outonal brilhava forte num céu azul e sem nuvens.

Próximo da Praça de Maria Pita, a principal da cidade, eu me hospedei no Hostal Linar, de excelente qualidade. 


A famosa Praça de Maria Pita, ponto central de A Coruña.

Depois, sem pressa, segui até a igreja de Santiago, um templo edificado entre os séculos XII-XIII, provavelmente, a igreja mais antiga de A Corunha. 


Informações sobre a igreja de Santiago, em A Coruña.

Tamanha era a sua importância à época, que, em seu átrio, se reuniam as autoridades da cidade durante os séculos XIV e XV. 


A igreja de Santiago, em A Coruña.

Eu adentrei ao templo para visita, orações e fotos, depois, em sua sacristia, consegui o primeiro carimbo em minha Credencial Peregrina, feito em solo espanhol. 


O interior da igreja de Santiago, em A Coruña.

Após almoçar e descansar um pouco, eu passei o restante da tarde circulando pela cidade, com tempo para visitar toda a parte velha da cidade, suas ruas tortuosas e praças espetaculares.

Mas me recolhi cedo, pois no dia seguinte teria uma longa jornada pela frente.


A belíssima cidade de A Coruña e seus calçadões à beira mar.

A Coruña, capital da província homônima, está localizada no noroeste da Espanha, na esquina do Oceano Atlântico com o Mar Cantábrico, e possui, aproximadamente, 250 mil habitantes, que a torna a segunda maior cidade da Galícia, depois de Vigo.

No centro de A Coruña fica a Praça de María Pita, erguida em 1860 e principal ponto de encontro entre cidadãos e visitantes, onde se situa o edifício do Concelho, que alberga a maior coleção de relógios da Europa.

O centro histórico da urbe é a Cidade Velha onde se encontram construções religiosas como a Igreja de Santiago, a mais antiga da cidade, a Colegiata de Santa María do Campo, com um museu de Arte Sacra, e o Convento de San Domingos, além de muitos outros pontos de interesse.

As fachadas sobre as galerias da Avenida da Mariña, com varandas de madeira e vidro, originaram a designação Cidade de Cristal.

As ruas do centro e da Cidade Velha estão repletas de cafés e tabernas.

As ruas Olmos, Galera, A Franxa ou A estrela são famosas pelas suas tabernas, e as esplanadas da praça de María Pita também são populares.


A belíssima cidade de A Coruña, de outro ângulo.

A oferta de diversão noturna é ampla e variada, com espetáculos, cassino, representação no Teatro Rosália, concertos e festivais.

A enseada é palco de regatas nacionais e internacionais de vela e de remo.

No passeio marítimo fica a Torre de Hércules, o monumento mais emblemático da cidade.

Data do século II dC, e é o farol em funcionamento mais antigo do mundo.

A Corunha tem, ainda um variado conjunto de museus dedicados à ciência e artes: o Aquarium Finisterrae, a Casa das Ciências (onde há um planetário), a Casa do Homem (ou Domus) e o Museu de Belas Artes. 


O primeiro "monjón" do Caminho Inglês, situado ao lado da igreja de Santiago, em A Coruña.


HISTÓRIA 

O denominado Caminho Inglês é uma das rotas marítimas jacobeias que se utilizava na Europa medieval para alcançar Compostela.

Peregrinos procedentes da escandinávia, países baixos, do norte de França e, principalmente, da Inglaterra, Irlanda e Escócia chegavam de barco ao norte da Espanha, entrando na Galícia pelos portos de Ribadeo, Viveiro, Ferrol ou A Coruña.

Estes dois últimos situados num amplo golfo, que os romanos denominaram “Portus Magnum Artabrorum” consolidaram-se tradicionalmente como os pontos de partida das duas rotas alternativas do Caminho Inglês.

Os navegantes chegavam ao porto guiados pelo feixe de luz da Torre de Hércules, farol romano declarado Patrimônio da Humanidade em 2009.

Uma vez em terra, ambas as alternativas confluem na paróquia de Bruma, pertencente ao município de Mesía, e chegam a Compostela, depois de atravessarem terras de Cambre, Carral, Mesón do Vento, Ordes e Oroso, entre outras.

Existem testemunhos documentais de peregrinações desde os países nórdicos ou das ilhas britânicas, a partir do séc. XII. 


Imagem do Santo Apóstolo, existente no interior da igreja de Santiago, em A Coruña.

Assim, em 1147, desembarcou no porto de A Coruña uma esquadra de Cruzados que, no seu caminho para a Terra Santa e antes de tomar parte na conquista de Lisboa, em apoio ao primeiro rei de Portugal, na sua luta contra os árabes, fizeram escala em Santiago, para visitar o sepulcro do Apóstolo.

Entre os anos 1154 e 1159, um monge islandês chamado Nicolás Bergsson, deixa um relato escrito do primeiro itinerário marítimo desde a Islândia até o canal de Kiel, na fronteira entre a Dinamarca e Alemanha, e desde aqui a pé até Roma, a caminho de Jerusalém.

A partir de então, esta será a rota seguida pela maior parte dos peregrinos procedentes dos países nórdicos no seu Caminho até Santiago.

Posteriormente, durante a Guerra dos Cem Anos (séc. XIV - XV), foram os britânicos os que utilizaram os seus navios para chegar a Santiago; da sua presença dão testemunho as moedas e peças de cerâmica encontradas durante as escavações realizadas na catedral.

Outro fato que evidencia a importância da peregrinação britânica é a doação de oferendas tão importantes como um retábulo portátil de alabastro, que reproduz cinco cenas da vida do Apóstolo Santiago, e que foi cedido à catedral pelo clérigo John Goodyear, em 1456.

A origem dos peregrinos que percorriam esta rota é também documentada pelos registos de funções que se recolheram nos arquivos das capelas e cemitérios dos mosteiros e hospitais do caminho, entre os quais se destacam os pertencentes à Ordem Hospitalária do Sancti Spiritus, a que se incorporou, a partir do séc. XIV, a Ordem Franciscana.