O CENTRO DO CAMINHO

O CENTRO DO CAMINHO


  

O guia “El País”, publicação espanhola, edição 2000, estima que a distância a ser percorrida no Caminho de Santiago, partindo-se de San Jean Pied Port (Fr) até a Catedral de Compostela, é equivalente a 775,4 quilômetros. Considerando-se essa medida, a metade da jornada estaria completada após a ultrapassagem do quilômetro 387,7.

O livro “Guia da Peregrinação Sagrada” escrito pelas brasileiras Anna Sharp e Vera Scarpa, e lançado no final de 2001, mensura para o mesmo trajeto, um total de 873 quilômetros. Se basearmos nosso cálculo sobre essa estimativa, teremos que a metade do Caminho situa-se no quilômetro 436,5. 

Uma das autoras desse opúsculo, quando questionada por mim sobre a expressiva discrepância numérica com o Guia espanhol, respondeu-me que nele não estão computados os percursos realizados por dentro das cidades e, assim, o peregrino ao programar suas jornadas diárias pelos dados lá estampados, acaba aportando ao seu destino, muitas vezes, extremamente exaurido, por ter caminhado muito mais do que tencionava.

Insta observar também, que o Caminho muda anualmente seu leito devido ao traçado das novas rodovias em construção, à modernização do comércio nas cidades por ele abrangidas e às interferências políticas. Aduzindo, nunca é demais ressaltar que para melhor obtenção do fim colimado, as autoras conterrâneas contaram com a inestimável ajuda de Jesus Jato, um dos “mitos” vivos do Caminho. 

Por isso tudo e, também, embasado na experiência que vivi na Rota, creio que o Guia brasileiro espelha com mais fidelidade a distância entre os dois pontos extremos a que me referi.

Porém, curiosamente, mesmo divergindo acentuadamente na quilometragem global, eles coincidem num dado importante: em ambos os Guias o “Meio do Caminho” está localizado, depois da cidade de Carrión de Los Condes, num local ermo e descampado, numa grande reta, nas proximidades da cidadezinha de Calzadilla de La Cueza.

Obcecado por matemática, fanático por números e cálculos, quando fiz o Caminho em abril de 2001, estava fundamentado nos dados do Guia “El País” e, apegava-me ferrenhamente a eles, vez que na minha concepção, vencido este marco, estaria na metade do Caminho e, por consequência, mais próximo de minha meta maior: abraçar com extremo regojizo o Santo Apóstolo. Então, na primeira etapa da jornada, caminhei ansiosamente com os olhos voltados para superar esse limite, andando diariamente com passos firmes, obstinado e perseverante à persecução de meus objetivos.

Na verdade, havia, dentre todas, duas supremas razões a alavancar-me nessa empreitada. Sabia que se superasse o desafio de chegar à metade do Caminho, o percurso restante seria, física e mentalmente, bem mais tranqüilo, pois estaria melhor preparado e afeito à dura rotina diária do peregrino.

Mas, havia, também, um motivo religioso especial: levei comigo ao Caminho uma pequena bíblia e, dentro dela, um texto produzido por uma grande estudioso desse livro sagrado que eu já conhecia destes meus tempos de Seminário sobre o Centro da Biblia, que assim diz:
“ O CENTRO DA BÍBLIA é algo estranho e curioso. Ainda que não seja religioso, convém que você leia isso. Qual é o capítulo mais curto da Bíblia? Salmo 117. Qual o capítulo mais comprido da Bíblia? Salmo 119. Qual o capítulo que está no centro da Bíblia? Salmo 118. Há 594 capítulos antes do Salmo 118. Há 594 capítulos depois do Salmo 118. Se somar estes dois números totalizam 1188. Qual é o versículo que está no centro da Bíblia? Salmo 118:8.
 
Esse versículo diz algo importante sobre a perfeita vontade de Deus para nossas vidas? A próxima vez que alguém te disser que deseja conhecer a vontade de Deus para sua vida e que deseja estar no centro da Sua Vontade, indique a ele o centro de Sua Palavra, Salmo 118:8: “Melhor é colocar sua confiança no Senhor teu Deus que confiar nos homens”. Agora, diga, seria uma casualidade isto? Ou estaria Deus no centro da Bíblia? ”

Ora, inferia eu, se Deus é o centro de tudo, e está no centro de todas as coisas deste mundo, por que também não estaria, com mais propriedade, no Centro do Caminho? Esperançoso e convicto ante tal possibilidade, por uma razão única e especial que não sabia explicar, emergia cristalino dentro de mim, que quando ultrapassada a fronteira da primeira metade de minha peregrinação, Deus revelar-me-ia através de sua ubiqüidade, de alguma forma, algo importante. 


   
Objetivando realizar este sonho, vivaz e expectante, no meu 14º dia de caminhada, parti bem cedo de Frómista, com planos de vencer o “meio do caminho”, e pernoitar em Lédigos, 42 quilômetros à frente. A fria chuva que caía aos cântaros não me abalou o ânimo, entretanto, nas imediações de Villacalzar de Sirga ela se intensificou e, a trovoada acima de minha cabeça, conjugada com os raios que riscavam o firmamento perigosamente à minha frente, acabaram atuando como um dissuador à minha talante.

Como todo o cristão, estava cônscio da impermanência do nosso corpo neste plano terreno, não obstante, diante das circunstâncias que se evidenciavam naquele momento, apressei-me para salvar o meu, e, então, face ao dilúvio que desabava sobre a imensa “meseta leonesa”, mesmo relutante, decidi interromper minha caminhada e, às 12 horas, depois de percorrer apenas 19 quilômetros, hospedei-me, logo na entrada da cidade de Carrión de Los Condes, no albergue do Convento das Clarissas, do século XIII, o mesmo, que diz a lenda, abrigou São Francisco de Assis quando de sua peregrinação, em 1221. 

Indubitavelmente, face a esse imprevisto, decorreria um pequeno atraso em meu cronograma de viagem. Paciência, pensei, novamente alicerçado no primeiro mandamento do caminhante a nortear minha decisão: “O peregrino caminha o quanto pode, não o quanto quer”.

Carrión de Los Condes é, ainda hodiernamente, um dos mais importantes povoados do reino de Castilla y Leon. Os registros históricos atestam sua existência desde o início do século X. Até o século XIV, existiam, ali, cerca de doze Igrejas e inúmeros hospitais e albergues, que cumpriam a mesmo função, à disposição dos peregrinos que seguiam à Santiago. 

À tardezinha o temporal perdeu o ímpeto, e acompanhado por um casal de espanhóis que conheci no albergue, pude visitar alguns locais interessantes da urbe. Após a missa vespertina, fomos os três a um restaurante próximo. Jaime e Lúcia estavam na faixa etária dos 60 anos, eram catalães e, extremamente, falantes e bem humorados. A genuína simpatia que demonstravam sentir pelos brasileiros criou entre nós um clima cordial que muito me comoveu.

Depois de alguns copos de vinho, a situação descontraída deu um tempero à conversa e emprestou ao nosso jantar uma atmosfera agradável. Em geral eu controlava emoções muito bem, mas devo confessar que, durante a refeição, não consegui segurar as lágrimas e tive um súbito ataque de saudades.

De volta ao refúgio, preparei-me para dormir cedo, na certeza de que meu sonho adiado se concretizaria na manhã seguinte. Lá fora, a noite, lentamente, encostava sua mão sombria e opressora na janela. Talvez por isso e, também, pelo pouco esforço dispendido naquele dia, fui para a cama sentido-me preguiçoso, indolente, vacilante e totalmente inadequado para o “encontro” tão aguardado.

Para desvendar o “Centro do Caminho”, levantei cedo naquele memorável 24/04/2001, feliz e determinado ante a expectativa de ouvir a palavra de Deus. A chuva havia cessado, porém o vento fustigava inclemente. Em compensação, o frio primaveril havia diminuído. Não que estivesse agradável, mas qualquer coisa acima de seis graus parecia-me uma dádiva gentil da mãe natureza.

Quando deixei o albergue, pequenos feixes de luz da aurora lutavam para abrir caminho na névoa espessa da manhã. Solitário, passei ao lado da Igreja de Santiago e marchei em direção à saída da cidade, o piso empedrado das ruas, após a chuva recente, rebrilhando novamente sob a luz ainda opaca da iluminação urbana.

Escoteiro e compenetrado, cruzei o rio Carrión ao lado do Monastério de San Zoilo, monumental construção do século XI, compreensivelmente fechado àquela hora. Prossegui por uma via secundária asfaltada até alcançar as ruínas da Abadia de Benevivere. A partir daí, o Caminho passa a avançar por um leito de pequenas pedras, material remanescente do que foi a antiga “calzada” romana. 

Fiz, então, uma pausa para a oração. À minha frente, até onde meus olhos podiam distinguir, descortinava-se um horizonte campestre plano e vazio, um desanimador oceano de aridez. Aguardavam-me horas sob um piso empedrado e irregular, o mesmo por onde milhares de peregrinos, já, haviam caminhado, desde o descobrimento dos restos mortais do Santo Apóstolo. Todavia, nesse local inóspito e adverso, especialmente naquele dia, eu sentia, mais perto de mim, a presença de Deus. 

Sepucral, cercado de profundos mistérios, o Caminho mostrava-se praticamente deserto àquela hora, início da manhã. Uma leve neblina envolvia todo ambiente como um providencial manto de lã. Apenas um peregrino movimentava-se ao longe, sozinho a caminhar naquela imensidão, um minúsculo ponto vermelho, quase estático, na imutável paisagem que dali eu devassava.




Após finalizar minha prece, retemperado e fortalecido, repeti as mesmas palavras ditas por Júlio Cesar quando atravessou o Rubicão em direção à “Cidade Eterna”, depois do que ele reinaria sobre Roma ou seria morto, como uma ameaça à República: “ALEA JACT EST”, ou seja, “A sorte está lançada!” Então, resoluto e pleno de esperança, reiniciei minha jornada.

Alguns quilômetros depois, fui suplantado por três peregrinos, meus amigos franceses, pessoas com quem estabelecera uma amistosa relação desde o início da jornada em San Jean (Fr). Andavam num ritmo forte, porém uniforme, e serviram de parâmetro para que eu dosasse minhas energias, alargasse minhas passadas e prosseguisse, caminhando sem interrupção, ouvindo o som da batida causado pela ponta metálica do cajado sobre o piso, ditando o compasso.

Um caminho seco e pedregoso foi meu companheiro fiel por horas a fio. Estava trilhando a Via Aquitana e, esse, é um dos poucos trechos que ainda se conservam do caminho original, o que avivou meu ânimo. Seriam, no total, 17 quilômetros de retas, sem povoações, fontes de água ou de suprimentos. Campos intermináveis de plantações de trigo, recém brotados da terra, eram minha única companhia, que, gentilmente, ofereciam-me seus corredores verdes, por onde segui silencioso, sintonizando a energia vinda da terra, concentrado na força vibrante que fluia das plantas.

A história diz que nesse “assustador vazio”, por volta do ano 5 dC., a Décima-Primeira Legião romana foi enviada para render tropas estacionadas em Iria Flávia (hoje Compostela), mas nunca chegou lá. Traiçoeiramente, fora emboscada em seu percurso, possivelmente nesse trecho, sendo totalmente destroçada e seus soldados, selvagemente trucidados pelos bárbaros. Talvez por isso, os sensitivos que por ali passam dizem ouvir vozes, gritos horripilantes, sons de combate, espíritos candentes se degladiando. Interiormente, afirmam sentir algo estranho, uma opressão silenciosa, quando cruzam aquela região.

Psicologicamente, dizem os entendidos que é o trecho mais difícil da Rota. Particularmente, considero-o de maior dificuldade, depois da “Subida do Cebreiro” e da “Transposição dos Pirineus” (San Jean a Roncesvalles). Reza a tradição que a maioria das pessoas é ali tomada pelo desespero, devido ao cansaço e à monotonia da paisagem. 

É , também, conhecido como o trecho da reavaliação da vida daquele que ousa transpô-lo. Os mais místicos o descrevem como a luta interna contra os seus demônios. Eu levava meu Lúcifer vulcânico devidamente manietado, e senti que Deus desceu ao meu coração e se fez companheiro de jornada. Depois da apreensão sentida no início da caminhada, invadia-me agora uma calma anestesiante. 

Quatro horas se passaram numa lentidão absurda, capaz de estabelecer recordes. Quase beirando as onze horas da manhã, defluí, pelos meus cálculos, que havia superado minha meta. Senti um frêmito, uma estranha emoção a denunciar que atingira meu objetivo. Inadvertidamente, uma descarga de excitação percorreu meu corpo, sentia-me vitorioso por conseguir cumprir essa etapa. 

Sob um vento enregelante, procurei um local para me aquietar, descansar, quiçá, ouvir a mensagem que Deus tinha reservado para mim. Devo admitir, que estava nervoso. Até ali viera relaxado, precondição indispensável para o encontro. Foi desconcertante verificar que meu pulso estava acelerado e minha concentração menos firme. Descobri, naquele lugar, que estava vivendo uma nova realidade, tenso, apreensivo e desnorteado.
    
Então, avistei do lado direito, algo que mais parecia uma miragem: uma solitária árvore situada no meio de um imenso campo de trigo recém plantado. Resolutamente, fleti em sua direção e pouco depois chegava, enfim, sob sua frondosa copada. No pisoteado capim que a rodeava, sinais claros de que este paradouro servira de aconchego a muitos outros peregrinos. Aportara, finalmente, para mim, no local mais sagrado do Caminho, considerando-se o trecho completado.

Uma das formas de entrar em contato com Deus, eu sabia, é através da meditação, pois ela reduz a responsabilidade adrenergica, a excitação neuromuscular e a hiperatividade cognitiva. Porém, simplesmente, sentar-me ao chão e tentar meditar, sem ter feito uma preparação anterior, parecia-me no mínimo falacioso, sem cogitar algo pior como a fraude.

Assim, optei por fazer uma pequena pausa para descanso e, concomitantemente, reavaliar tudo o que tinha me ocorrido desde o início da jornada até aquele ponto. Sob a fronde amiga, preambularmente, livrei-me da mochila e do cajado. Sentei-me, então, o mais confortável possível, com minhas costas apoiadas no tronco da árvore, o rosto voltado para o exuberante campo verde à minha frente, ouvindo, nitidamente, o barulho surdo do vento a farfalhar as folhas ao me redor.

Pensamentos dispersos, porém consistentes, varriam meu cérebro. Afinal, porque eu estava ali? Seria uma conspiração cármica, alguma força desconhecida que me chamara ou, simplesmente, a realização cósmica de um sonho? Tudo isso perpassou-me pela cabeça, enquanto eu me concentrava no objetivo maior da minha presença naquele local, qual seja, ascultar a presença divina dentro de mim.

Meu interior mostrava-se sereno e receptivo. Lentamente, fui afrouxando minha indumentária, distendendo meus músculos doloridos, sentindo uma imensa calma, uma infinita paz a invadir meu interior e, perdendo, vagarosamente, contato com a realidade ao meu redor. No mesmo diapasão, minha mente divagou livremente e, acabei cochilando.

Meu inconsciente, adentrou, então, a um profundo estado de sublimação. Fui tomado por uma irresistível sensação de bem estar, de amor e de alegria. Em sonho, como num filme, vi-me caminhando por uma estrada serpenteante, num vasta pradaria, ladeado por flores, pequenos insetos e pássaros adejantes. O cenário era inesquecível, com cores tão intensas, de encantar os olhos, que eu raramente tinho visto as tonalidades da paleta de um pintor tão harmoniosamente combinadas.

Longe, numa curva, avistei um senhor de porte esguio a me aguardar. Trajava uma túnica longa, azul-celeste esplendente, que o cobria até os pés. Junto dele, um cão longevo e decrépito. Atribui aquela visão à minha imaginação exaltada, e prossegui sem hesitar. Subitamente, porém, vi-me diante do ancião. Seu rosto alongado e fino transmitia gentileza e sabedoria. Seu olhar medidativo delineava contornos de uma feição suave, serena, num misto de solenidade, coragem e um vestígio de pesar. A cena ensejava, enfim, um caleidoscópio de emoções.




Tal qual catarse, uma energia profunda e indiscritível uniu-nos. A cena tornou-se difusa, as circunstâncias imprecisas, nossos espíritos conjugando-se, harmoniosamente, na mesma freqüência. Analisando seu perfil enigmático, pareceu-me alguém conhecido. Inferi, instintivamente, ser ele talvez, meu guia espiritual e portador da palavra que eu tanto augurava. Quase de imediato, a mão imaginária que espremia meu peito começou a relaxar.

Como que adivinhando meus pensamentos, ele retirou de seu bolso um pergaminho, o qual foi desenrolando lentamente à minha frente. Devorado pela curiosidade, aproximei-me para ler a mensagem, acalmando minha agitação que mais parecia um caminhão descendo ladeira abaixo. A antecipação do que estava por vir pulsou no meu ser. Quando fiz a conexão entre o que estava escrito e meu discernimento lógico, foi como – lembro-me bem – se as sinapses do meu cérebro clicassem todas ao mesmo tempo para dizer: “encontrei o que estava procurando”.

Com uma nitidez espantosa, uma frase iluminou minha mente: “PEDIS E OBTEREIS”. Instintivamente, e por primeiro, orei para cumprir minha peregrinação até o final, chegar ileso e com saúde à Compostela. Depois, lembrei de minha família no Brasil, e supliquei por eles também. Finalmente, um terceiro pleito, este, um sonho longamente acalentado, no entanto, sem caráter imediatista.

O velho, agora de perfil, acenou com sua cabeça como se entendendo meus rogos. Então, repentinamente, ele a virou e, no mesmo instante, seus olhos cinzentos e semicerrados, moveram-se, fitando-me com um sorriso plácido, quase triste, na face enrugada. Num relance, intuí ser Santiago, a certeza absoluta de meus pedidos serem atendidos. Em sequência, como por encanto, a figura imaginária esvaneceu-se no ar. 

O choque e a perplexidade experimentados naquele instante, ficaram de tal forma gravados em mim, que sua cicatriz moldou todos os acontecimentos subsequentes no meu Caminho. Quase em transe, permaneci estático, petrificado e, a única maneira de descrever minhas sensações naquele momento, é dizer que sentia como se alguém estivesse afagando meu coração. 

Embora inconsciente, constatava com uma nitidez impressionante, que encontrara o que buscava desde o início de minha peregrinação. Nada mais precisava ser dito e, gratificado, lembrava-me do breve encontro num êxtase de sublime felicidade. Minhas têmporas latejam agora, cheias de salmos bíblicos e imagens de ritos religiosos de agradecimento, e sentia meu espírito acabrunhado pela proximidade prolongada a um clima hostil, o vazio da tebaida ao meu redor.
    
Num relance, parcialmente desperto, após pequeno lapso temporal, depreendi que havia retornado à realidade, o vento frio a açoitar meu rosto. Um tanto atordoado pela dispersão, lentamente fui me refazendo, pus-me novamente em pé e, ainda um pouco zonzo, afivelei a mochila e empunhei o cajado.
 
Já lúcido, ao consultar meu relógio, verifiquei que estivera desacordado por apenas quinze minutos. No entanto, parecia haver transcorrido uma eternidade. Depois desse incidente transcedental, iniciei, novamente, meu caminhar, seguindo em frente com o coração exultante e jubiloso, na certeza de que vivera ali um dos meus mais emocionantes momentos existenciais. 




O céu estava agora novamente cinzento, as nuvens correndo céleres ameaçando mais chuva. Como que saindo do nada, notei ao longe uma torre perdida na imensidão daquela planura. Aproximando-me, distingui ao seu lado um cemitério. Logo em seguida, após um declive pronunciado avistei, bem à minha frente, um pequeno povoado, cuja rua principal e duas tranversais, compõem Calzadilla de la Cueza, que tem seu nome originado da Via Aquitana, muito antes da rota Jacobeia. 

Parei para um merecido café no Mesón Caminho Real. Dentro do bar, reconheci alguns peregrinos que lanchavam numa confraternização barulhenta. Pessoas idosas, certamente habitantes do lugar, discutiam futebol acaloradamente e, ao mesmo tempo, assistiam TV com o som ligado no volume máximo. Face à experiência recém vivida, as pessoas a quem eu cumprimentava me pareciam estranhas, e eu me sentia deslocado naquele ambiente ruidoso e festivo. Levei algum tempo para me habituar ao alvoroço e à parafernália da civilização ali, novamente, reencontrados.

Ao prosseguir minha jornada contei com a companhia de dois alegres peregrinos alemães. Mais à frente, precisamente em Lédigos, um outro peregrino, de nacionalidade holandesa, aderiu ao grupo. Ao chegar à Terradillo de Los Templários, cumpri minha meta final para aquele dia. Aproveitei, então, para averigüar as dependêncidas do refúgio e, não me senti atraído pelas instalações. Mesmo extenuado e ansioso por um teto, decidi seguir em frente. 

E foi uma decisão acertada, pois senti que precisava de uma interiorização solitária, para reavaliar meus sentimentos. Afinal, degladiava-me ante o acontecido, fora desvairo ou realidade? Mesmo sendo talvez algo onírico, constatava-o imorredouro e, o que me perturbava mais, era não saber se havia merecido aquilo. Mas qual cristão não vive sem ao menos um punhado de dúvidas no coração. O poderoso aprendizado de dar vida aos sonhos e não abandoná-los até se tornarem realidade? Esta lógica pareceu tocar no meu emocional, e me satisfez.

Já próximo do meu destino, o estampido barulhento de um trovão ecoou, aquietando meu entusiasmo. Com receio da chuva iminente, estuguei os passos, utilizando as derradeiras reservas de energia de que ainda dispunha e, depois de 40 quilômetros de caminhada, por volta das 17 horas, exausto, adentrei, finalmente, à cidade de Sahagun. O albergue novo e muito confortável onde hospedei-me, mostrou-se um prêmio a corroborar meu arrojo e pertinácia na etapa.

Enquanto desabafava ao hospitaleiro sobre a intensidade da jornada recém finda, para minha alegria, reencontrei ali, também alojados, meus amigos franceses Anete, Gerard e Louiz. Conquanto, fosse uma amizade recente, a compreensão entre nós já era madura e bem-fundamentada. Depois das saudações e abraços costumeiros, dividimos alegremente uma garrafa de vinho. 

Se há uma coisa que a peregrinação ensina muito bem, é que o sofrimento compartilhado revela-se um excelente fator de união entre as pessoas. E quando nosso coração está realmente comovido, encontra sempre prazer em tudo o que possa fazer provar tal sensibilidade. Encerradas as obrigações de praxe junto à recepção do refúgio, fui tomar um banho e lavar minhas roupas. Depois, saímos todos para jantar. 

Lá fora, o crepúsculo era um espetáculo de cores, e observei ainda emocionado o sol da tarde soltando seu último brado glorioso do dia, em meio a densas nuvens, o estranho céu vermelho, agora cor de madrepérola. Enquanto eu me deleitava com o magnífico repasto, repensava em tudo o que ocorrera comigo nas últimas vinte e quatro horas, e me dei conta de que estava vivendo um dos mais compensadores e preciosos momentos da minha vida. 




Treze dias depois, aportava, finalmente, em Compostela e, após meu fraternal abraço no Santo Apóstolo, sentia como se o desejo desse acontecimento, estivesse profundamente enraizado dentro de mim. Sabia que havia conquistado o que mais almejava. Em meu coração havia um sentimento de completa realização pessoal.

Depois, solitário num banco da igreja a ponderar sobre minha presença naquele ambiente sacro, raciocinava como são insondáveis e inescrutáveis os desígnios celestes. Descobria que, por trás de cada ato, a catapultar-nos, há sempre uma força poderosa que chamamos de motivação. Ao mesmo tempo, recordava-me do episódio marcante, que vivera durante o devaneio fugaz e meteórico quando atingi a metade de minha jornada. 

E, ao visualizar a estátua do Santo, ocorreu como que uma explosão em minha mente, num momento súbito de coalescência, quando os átomos colidem, quando tudo fica claro: subsumia, real ou imaginário, que fora Santiago, agora reconhecia-o com certeza, aquele que me acolhera no Centro do Caminho. A verdade ali constatada, era como um presente de imensurável alegria, juntamente com a sensação de ter fechado um círculo completo. 

Mas o meu Caminho não terminava lá. Sinto que naquele dia, na verdade, ele estava apenas começando, vez que prossigo a trilhar pela vida afora, agora com muito mais confiança, seguindo as incensadas e exponenciais pegadas do Santo Apóstolo. Afinal, se Santiago tivesse escolhido levar uma vida segura e estacionária não haveria passos a seguir. Mas ele preferiu exaltar a condição peripatética e nos mostrou o caminho que nos leva à salvação e à vida eterna. 

Como prova disto, a par de sua vida ter sido pautada por exemplos, sacrifícios e acendrado amor ao próximo, em sua cela de morte, na noite derradeira, ofereceu a todos, com palavras dirigidas a seus fiéis discípulos Atanásio e Teodoro, um imperativo simples, embora eloqüente: “CONTINUEM CAMINHANDO”, no sentido de que não devemos ficar adstritos apenas a propagar e exaltar a palavra divina, mas, principalmente, perseguir nossos intentos.

Relativamente a isto, lembro-me do meu terceiro desejo, um sonho profícuo e consentâneo, externado naquela fria manhã primaveril, vivida intensamente nos páramos de Léon: atinente a ele, persevero confiante, com pretensão de realizá-lo em 2004. Todavia, se impossível, face seu cliclo variável, restará adiá-lo, agendado-o, automaticamente, para 2010!
 
Bom Caminho a todos!
 
 
Oswaldo Buzzo - Outubro/Novembro-2.003
 
 
* Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br