2- UM SONHO, ENFIM REALIZADO! (*)

UM SONHO, ENFIM REALIZADO!



Desembarquei do trem na estação de São Roque, e, naquele momento, me senti perdido, assustado, sozinho, apesar de estar acompanhado pela “troupe” de veteranos de Itu. 

Entre eles se encontravam, Francisco Fanchini “in memorian”, José Carlos Bochini, Moisés Sanches, Amauri Sanches, Martini, e outros. 

Era janeiro de 1.962, e eu contava, apenas 10 anos.

Logo depois, chegou a jardineira que o Reitor Constantino enviara para nos buscar, e nela seguimos todos, pela poeirenta estrada que ligava à Araçariguama, até o Seminário Menor Metropolitano, local onde iria estudar e residir naquele ano.

Foi um período de difícil adaptação, mormente, pela minha tenra idade. 

Além de que, jamais estivera por tanto tempo longe de meus pais. 


Seminário Menor Metropolitano de São Roque, onde estudei em 1962.

Todavia, face à eclética turma de menores que iniciou o noviciado naquele interregno, logo me enturmei, e era um dos que mais usufruía os memoráveis intervalos recreativos com que, diariamente, éramos brindados.

Naquela imensa extensão de terra nua, que ficava encravada entre as três alas do pomposo edifício, jogávamos futebol, vôlei, basquete, espiribol, “betis”, “ferrinho”, e outros esportes menos populares.

Todavia, eu, metódico e compenetrado, desenvolvi um perene hábito: não iniciava nenhuma atividade lúdica, sem antes fazer uma visita à mística gruta encravada na encosta fronteiriça, onde, diante da imagem de Nossa Senhora de Lourdes, exteriorizava ardorosas preces.

Tal devoção, levada a extremos, foi logo notada pelo nosso diretor espiritual, o saudoso Padre Ruy que, depois de rasgados elogios, incentivou-me a consagrar mente e corpo, integralmente à Maria.

Esse ferrenho devotamento perdurou até dezembro, quando, ao notarem que “eu não tinha nenhuma vocação para padre”, disse adeus definitivo àquele sodalício.

Contudo, um pouco antes de partir, numa derradeira e conturbada visita à gruta da Mãe Maior, prometi, solenemente, que um dia iria conhecer o local exato de sua aparição, em Lourdes, na França.

No entanto, as pugnas diárias pela sobrevivência e as preocupações do cotidiano, deixaram-me distante dos estudos praticados naquele local sacro, e fizeram com que eu me olvidasse completamente daquele pacto.

Assim, com o decorrer dos anos, passei a ser devoto de Nossa Senhora da Candelária, padroeira de Itu, minha terra natal.

Aliás, numa coincidência feliz, que só vim saber muito mais tarde, casei-me, 28 anos atrás, exatamente, no dia em que se comemora Nossa Senhora de Lourdes, qual seja, 11 de fevereiro.

É verdade que o tempo corre célere, e não pude, durante todos esse anos, retornar ao saudoso Ibaté.

Até que em 1998, através de um telefonema, fui “localizado” pelo colega Simões.

E, finalmente, em agosto de 1.999, pude transpor novamente o memorável portal do Seminário, para participar do IV Encontro dos ex-alunos.

Ao rever o pátio do recreio, quase de imediato, uma mão silenciosa, principiou a comprimir meu coração.

Inevitavelmente, minha preocupação instantânea foi dirigir-me à gruta e, suplicar perdão à Virgem Maria, pela omissão à promessa ali externada, tempos de outrora.

Não participei do Encontro do ano de 2.001.



Mas, em 2.002, já afeito à Internet, consegui acessar um “site” francês, e pude conhecer “ao vivo”, ainda que virtualmente, a gruta milagrosa de Lourdes (www.lourdes-france.org).

Essa fantástica visão incentivou-me a repensar o sonho, de forma que, após meticulosos estudos, dimensionei quitar minha obrigação, para dali a dois anos.

Seguiu-se um longo período de muito trabalho, expectativa e preparação.

Porquanto, para a consecução de meus planos, eu precisaria ser audacioso, porém, também, sensato e precavido.

Finalmente, em abril de 2004, embarquei rumo à Europa. 



Depois, de breve translado por Madri e Toulouse, tomei um trem e, finalmente, às 15 horas do dia 05/04, aportei à cidade de Lourdes.

Emocionado, coração batendo forte, adentrei pela primeira vez ao Santuário, aquele imenso jardim, onde medram, tão próximos, todo tipo de sentimento humano: esperança, gratidão, alegria, desespero e negócios profanos.

Após emotiva visita à Gruta de Massabielle, local onde Nossa Senhora apareceu pela primeira vez, em 11 de fevereiro de 1.858, à Bernadette Soubirous, uma das providências que encetei foi acender uma vela às almas dos bondosos padres já falecidos, que tão bem me orientaram naquele longínquo ano de 1.962.

Vez que, naquele internato, graças a eles, recebi uma educação esmerada, uma instrução de primeira grandeza, com um relacionamento sadio e doutrinação sólida, comportamento rígido, que me foram de suma valia pelo resto de minha vida. 



No dia seguinte, após assistir duas missas, fui solenemente abençoado pelo Padre Capelão da Basílica de Nossa Senhora do Rosário. 



Em seguida, determinado, movimentei meu corpo rumo à leste. Nessa direção, venci 1.000 quilômetros, a pé, num “voo” solitário, e, depois de 32 dias aportei ao Santuário de Compostela, Espanha.



Na chegada, defronte à magnificente Catedral de Santiago, alguma coisa pareceu explodir dentro de mim, um misto de prazer, emoção, cansaço e felicidade.

Porque, meu Caminho, uma fina linha que um dia traçara sobre um punhado de mapas, depois de estudar com afinco todo seu trajeto, havia atingido o ponto geográfico pré-determinado, sem nenhum imprevisto.

Por conseguinte, fui invadido por uma sensação de paz, beatitude, tranqüilidade.

No Brasil, após retornar da “viagem”, sentia-me realizado e agradecido pelas benesses colhidas ao longo de minha odisseia.

Entrementes, meu coração permanecia aflito e contrito, pois me faltava realizar, ainda, algo. 



O que? Inquiria-me.

Então, movido por um caleidoscópio de sentimentos vigorosos e antagônicos, compareci ao VII Encontro dos ex-Seminaristas, realizado em agosto de 2.005.

Realmente, um momento inesquecível, em que, após os cumprimentos de praxe aos inúmeros colegas ali presentes, postei-me, comovido, frente à imagem de Nossa Senhora de Lourdes, e pude orar com fervor.

Lá, solitário, defronte à gruta, lágrimas de júbilo foram vertidas.

Porque, finalmente, após 43 anos, eu retornava para reverenciar e agradecer pela minha bem sucedida aventura, que culminou com o resgate de minha dívida.

Como por encanto, a mão imaginária que oprimia meu peito principiou a relaxar.

E, são essas recordações de regozijo espiritual, que nos acompanham pela vida afora. 

Obrigado, Mãe Maria!


(*) Publicada no Echus nº 85, Ano 14, maio/junho de 2.006