3- ACONTECEU HÁ 45 ANOS (*)

      
  
ACONTECEU HÁ 45 ANOS

Estávamos no início de dezembro e o calor se revelava infernal. As notas já haviam sido divulgadas e, animados, contávamos nos dedos os dias que nos separavam das férias anuais.
Numa segunda-feira à tarde, o tempo estava particularmente abafado, a temperatura insuportável. Lá fora o sol crestava e as cigarras zuniam numa sinfonia ensurdecedora.
Sonolento, eu devaneava sobre meu futuro no famoso “estudão” quando, inopinadamente, adentra a sala o saudoso Padre Tarcísio, intimando-me a acompanhá-lo, posto que conforme adiantou, o Reitor urgia falar-me.
Amedrontado e com o coração contrito, segui-o pelos compridos corredores que ladeavam o saudoso pátio de recreio até a sala do nosso “Poderoso Chefão”. Estatura avantajada, porte atlético, rosto avermelhado, em sua indefectível batina preta, Monsenhor Constantino aguardava-me sentado à mesa de trabalho.
A ratificar seu estilo rígido e autoritário, foi direto e contundente ao assunto. Em poucas palavras fez um arrazoado de minha pífia passagem por aquele sodalício, afirmando que em sua opinião eu não detinha as qualidades necessárias para o sacerdócio. 
- Você não está preparado para permanecer aqui. Existem outras maneiras de servir o Senhor e você deve exercitar a vivência cristã em paróquia de sua cidade.
Pálido, cabeça baixa, vacilante, olhos fixos no chão, humildemente concordei com suas perorações. Na verdade, eu era apenas um guri arredio, introvertido e, particularmente, estava confuso quanto à minha verdadeira vocação.


Ato contínuo, ante meu silêncio e aquiescência, ele proferiu a sentença final, comunicando que após o recesso escolar eu não deveria mais retornar àquele imponente casarão eclesiástico.
Deixei a sala com o semblante transtornado, contudo, internamente rejubilava-me. Afinal, reconhecia, nunca me sentira à vontade naquele internato. Porquanto, criado em minha infância livre e solto, tal qual um “bicho-do-mato”, sentira-me infeliz naquele ambiente por ver tolhida minha liberdade. Ainda, face à tenra idade, era amiúde torturado por uma visceral saudade de minha casa, de meus pais e de meus outros seis irmãos. 
Assim, quando adentrei a jardineira que me levaria à estação, São Roque era uma página virada em minha vida. Levava comigo a mesma “arca-mala” com que viajara em janeiro e, dentro dela, meus parcos pertences, acrescidos agora aos livros e cadernos. 
Carregava, porém, em minha alma, imensa saudade dos colegas de futebol, das peças de teatro, dos memoráveis recreios, com toda aquela alegria e amizade, além das brincadeiras juvenis.
E, conquanto alimentasse em meu coração alguma mágoa por conta da severidade dos mestres, não me esquecia dos valores e da disciplina com que fora doutrinado, fatores preponderantes na formação de meu caráter e personalidade.
Sentado no banco do trem ao lado de alguns conterrâneos ituanos, dentre eles, o Vicente de Paulo Moraes, remexia-me um tanto desconfortável, pois, o paletó azul que trajava, o mesmo com o qual aportara ao Ibaté, agora embaraçava meus movimentos, certamente porque eu crescera.
Ao tentar desabotoá-lo, visando minorizar o incômodo que sentia, pude perceber pequeno volume esmeradamente dobrado, esquecido num dos bolsos internos que, quando devassado, revelou-se, ironicamente, num texto mimeografado que recebêramos à nossa chegada, como forma de acolhida e exortação à vida monástica.
Pelo que pude “garimpar” tempos depois, tratava-se da reprodução de um trabalho apresentado no Grêmio Literário Pio XII, durante o ano de 1.961, por um de seus membros.    
Seu conteúdo transcrevo abaixo: 


SAUDAÇÃO AOS NOVATOS”  - (Autor: João Bosco (VIIª Série)

Um dia, lá no recanto talvez de seu lar ouviste ecoar tranqüila a voz de Jesus: “Filho, vem, segue-me!” Quem sabe não te preocupaste com o estranho apelo tornando-te surdo a Jesus.
Por outra tarde, tão poética como nas belas horas crepusculares de maio, tu, sozinho, de joelhos ante o tabernáculo, balbuciava, piedoso, preces por ti e pelos teus.
Naquele momento silencioso quando tu envolvido numa atmosfera celeste inflamava-te num doce colóquio com o Divino sacramentado, soou-te aos ouvidos o suave convite do grande Prisioneiro do amor: Amigo, não te complacerias em tornar-se meu discípulo? Dize-me que sim, e Eu te encaminharei para o abrigo do seminário.
Tu, meu amigo, sentiste n’alma o gérmen do sacerdócio. Mas, violento temporal no árido deserto do mundo, obstou-lhe a germinação.   Foi então que tua mãe, teu vigário ou quem sabe, religiosos dedicados limparam os destroços causados pela tormenta e ainda encontraram rebentos de tua vocação sacerdotal.
Caprichosamente, foste encaminhado para o santuário onde no primeiro encontro recebestes preciosos adubos e medicamentos para te enraizar e crescer.
Agora que já feliz no sacro refúgio do seminário em fileiras conosco e a caminho do ideal, esperamos de ti alegria, entusiasmo e... juventude!
O seminário é uma grande família onde os pais são os superiores amigos e atenciosos; os colegas, irmãos dedicados, prontos a te auxiliar.
Olha de contínuo para o alto. Não pára, que parar é retrogredir.
Tu, novato, passarás na casa do Sagrado Coração de Maria os anos mais felizes de tua existência. Ao deixares o seminário de São Roque sentirás saudades e muitas saudades.
Exortamos-te a aproveitares diligentemente os floridos anos de sua juventude na aquisição gradativa da ciência e virtudes levíticas.
A ti, novato, nosso voto de pleno êxito.
Que o altar seja a tua meta! E tua única ventura, o dia do primeiro, do feliz, do magnífico “Intróito ao altare Dei!”    
 
(*) Publicada no Echus nº 89, Ano 15, janeiro-fevereiro de 2007