4- PEREGRINAR, POR QUÊ?

Uma das mais nobres práticas humanas consegue atravessar os tempos, as diferentes religiões, as modificações tecnológicas e até os processos de massificação cultural. Essa tradição plena de significados e das mais profundas intenções é a peregrinação.

            O impulso de se fazer uma peregrinação é tão antigo quanto universal. Os egípcios viajavam para o santuário de Sekket em Bubastis; os gregos procuravam os conselhos de Apolo, em Delfos, e as curas de Asclépio, em Epidauro. Na América pré-Colombiana, Quetzal, Cuzco e Titicaca eram locais sagrados.        

            No mundo muçulmano, a “hajj”, a viagem obrigatória do peregrino à Meca é um dos Cinco Pilares da Fé. Os budistas aventuram-se até o Bodh Gaya, onde o Buda atingiu a iluminação; os judeus curvam-se em oração diante da Muralha Ocidental do Templo; e os hindus buscam o solo santificado de Varanasi ou banham-se nas águas cheias de cinzas do sagrado Rio Ganjes.

            A tradição católica sempre atraiu os fíéis em direção à Terra Santa e Roma. Porém, a peregrinação como conhecemos hoje, em termos cristãos, ganhou ênfase após a descoberta do túmulo de Santiago, no ano 813 d.C.

            Embora os sisudos moralistas como Santo Agostinho e São Jerônimo costumassem exortar seu rebanho a permanecer em casa, advertindo que os danos de uma peregrinação, tanto físicos quanto espirituais, podiam também desfazer seus benefícios, o fato é que peregrinar, na Idade Média, passou a ser considerado um sinal de bom caráter.

Afinal, a vida naquela época era monótona, triste, insípida, e não oferecia qualquer atrativo a não ser marchar para a guerra ou partir em direção a um local sagrado. Num manual de psicologia medieval, John de Burg escreveu: “Contra a acídia, o trabalho físico e as peregrinações a locais santos são benéficos.” O termo “Acídia” designa uma forma especial de ansiedade, abatimento, tédio, torpor e apatia que a Renascença rebatizaria, mais tarde, de “melancolia”.

            Cada religião tem seus rituais prescritos, mas a peregrinação, em particular, parece relacionar-se a movimentos instintivos do coração humano. A frase latina “ambulare pro Deo”, isto é, “caminhar por Deus”, é tão válida e conhecida para o peregrino muçulmano atraído ao santuário de Ka’ba em Meca, quanto para um budista andando em volta de uma “stupa” ou para o cristão que parte rumo à Santiago de Compostela.

            Os peregrinos na Idade Média que demandavam à Compostela, ficavam expostos a doenças e assaltos nas estradas. Eram envolvidos, não raro, nas batalhas entre mouros e cristãos, enganados por falsos profetas e vigaristas, perseguidos por bandidos e habitantes da trilha, e tinham, ainda, seus passos obstruídos por rios de travessia perigosa e animais selvagens, dentre tantos outros problemas que enfrentavam.

            No entanto, curiosamente, eram sempre bem recebidos pelos povos nômades que encontravam no Caminho. Afinal, peregrinos e nômades têm a mesma inquietação: ambos estão sempre chegando e partindo. Parar significa ficar preguiçoso, estagnar, morrer, sucumbir ao tédio.

Cynthia Ozick escreveu: “O visitante passa através de um lugar, e o lugar passa através do peregrino”. Ao descrever a experiência mística, Meister Eckhart usou a peregrinação como uma metáfora: “O Caminho sem Caminho, onde os Filhos de Deus se perdem e, ao mesmo tempo, se encontram.” Esta é, numa frase, a meta de todo peregrino.

Indubitavelmente, todas as nossas jornadas são rapsódias sob o mesmo tema da descoberta. Viajamos como quem busca respostas que não podem ser encontradas em casa; e logo descobrimos que uma mudança de clima é mais acessível que uma mudança de coração.

A verdade agridoce sobre o verbo viajar está contida na derivação da mais antiga palavra viandar, peregrinar. Em inglês, travel vem de travail, originada do latim tripalium, uma roda medieval de tortura. Como os viajantes de longos percursos e estranhos lugares sabem, as vezes as viagens são "muito penosas".

Para os beduínos errantes, viajar é penar. Os gregos antigos ensinavam que os obstáculos eram formas dos deuses nos testarem. Na idade Média, no Japão, acreditava-se que as dificuldades de uma viagem eram desafios que se transformavam em poesia e canção.

Se estivermos em férias, viajando a negócios ou numa excursão prolongada, poderemos associar os momentos de provação que surgem, como sofrimento ou como oportunidades para nos pôr à prova.

Mas o que faremos se sentirmos a necessidade de algo mais em nossas viagens, além dos desafios encontrados e dos prazeres conhecidos ? O que acontece quando a busca do novo já não basta ? O que ocorre quando nosso coração quer algo de uma viagem que desafia uma explicação ?

Séculos de sabedoria a respeito de viagens sugerem que quando já não sabemos mais para onde nos voltar, nossa jornada verdadeira mal está começando. Nesse momento, nessa encruzilhada, uma voz apela para a nossa alma de peregrino.

E chega o tempo de nos prepararmos para pisar o chão sagrado - a montanha, o templo, o lar ancestral - que vai agitar nosso coração e restaurar nossa capacidade de nos maravilhar. É na trilha que o profundamente real acontece, o tempo pára e somos surpreendidos pelos mistérios. Essa é a viagem que não podemos deixar de fazer.

Nesse contexto, a verdadeira “peregrinação” nasce de um convite divino plantado em nossa alma, e brota dela através de um desejo. Quanto mais ardente ele for, maior a chance desse anseio se tornar realidade e vir a ser bem sucedido.

Assim, a cada dia que passa compreendo melhor que percorrer o Caminho de Santiago pela primeira vez em 2001, foi, realmente, um acontecimento gratificante na minha vida.

Enquanto avançava em direção à Compostela, vim a considerar o mundo convencional do qual eu estava afastado, pelo menos temporariamente, caótico e sem objetivos; e o mundo da peregrinação, ao contrário, era marcado pela pureza de propósitos apesar das condições freqüentemente precárias (*).

O Caminho de Santiago não foi apenas uma viagem fisicamente desgastante, mas, um providencial exercício de comunhão comigo mesmo. Embora eu seja cristão de nascimento e católico praticante, minha fé era repleta de profundas dúvidas, e minha peregrinação ajudou-me, realmente, a saciar um sensação sempre crescente, embora mal definida, de anseio espiritual.

            Em consonância, achei o Caminho de Santiago pontilhado de epifanias sutis, que eu percebia, milagrosas. É significativo, por exemplo, que “Javé” signifique “Deus do Caminho”. Não é por acaso que Cristo e seus apóstolos caminharam, com intensidade, pelos montes e vales da Palestina pregando o Evangelho e exercitando a fraternidade.

            Para finalizar, uma mensagem lúcida e objetiva: se algum “Caminho” está a lhe chamar, não vacile, vá em frente! As aventuras e o conhecimento interior que o esperam certamente valerão o esforço, e a viagem, por si só, mudará sua vida!

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