Estrada dos Romeiros

2010 - CAMINHO DOS ROMEIROS – PEREGRINAÇÃO ITU à BOM JESUS DE PIRAPORA/SP, A PÉ

  

    Objetivando resgatar um compromisso firmado com o Bom Jesus, num passado distante, cumpri novamente, na Semana Santa deste ano de 2.010, a jornada religiosa que se faz de Itu à Bom Jesus de Pirapora/SP, numa extensão de 47 quilômetros, em asfalto, vencidos em 08 h 30 min ininterruptas, a pé.

    Vale dizer que foi minha 30ª caminhada nesse roteiro.

    O percurso é quase todo feito pela rodovia SP-312, cognominada de “Estrada dos Romeiros”, que segue beirando o rio Tietê e os que nela transitam, deixam marcas de fé e religiosidade durante sua passagem.

    Cumpre ressaltar, ainda, que a caminhada é feita sempre durante a noite, o que favorece o condicionamento físico, pois evita-se os raios solares.

    Por outro lado, como o trajeto é todo em piso asfáltico, desgasta sobremaneira os pés do romeiro, mormente porque as maiores dificuldades se encontram alocadas na parte final da “viagem”, quando é necessário sobrepujar a serra do Japi em sua parte mais íngreme, exatamente no momento em que o peregrino já se encontra sonolento, dolorido e estafado.

     Contudo, com muita crença, perseverança e disciplina, é possível superar tal desafio.


A HISTÓRIA DO BOM JESUS DE PIRAPORA

    O topônimo Pirapora é proveniente da língua Tupi-Guarani, que significa Peixe (Pira) que pula (Pora), pois os peixes na desova tentavam pular para cima da cachoeira que ali existia. Em 1.725, uma imagem do Senhor Bom Jesus, Santo Padroeiro da cidade, foi encontrada numa corredeira, apoiada numa pedra do rio Tietê, por José Almeida Naves.

    Logo após esse fato, a escultura foi colocada em um paiol, local onde ocorreu o primeiro milagre. O lugar pegou fogo e foi destruído, sendo que apenas o milho estocado e a imagem - entalhada em madeira - não foram atingidos pelas chamas. Após esse incidente, o objeto sacro ganhou um altar doméstico, onde permaneceu por pouco tempo, pois Pirapora era apenas uma sesmaria pertencente ao distrito parnaibano e só alcançou sua emancipação definitiva, em 1.959.

    No caminho, aconteceu o segundo milagre. No quilômetro 47 da Estrada dos Romeiros, o carro de boi em que se encontrava a escultura parou, e não queria continuar o percurso. Foi quando um surdo-mudo disse que ela deveria voltar para Pirapora, lugar onde o Senhor Bom Jesus queria ficar. Para tanto, em 1.727 foi construída a primeira capela em homenagem ao seu padroeiro.

    Na cidade, o visitante encontra o primeiro Santuário Cristocêntrico do Brasil. A ermida inicialmente construída no local da descoberta, deu lugar a outra feita de madeira. Em 1.845, iniciou-se a construção da atual Igreja (concluída em 1.887), que abriga a famosa estátua de Cristo, com cabelos naturais. A escultura está localizada no Altar Mór, protegida por uma redoma de vidro à prova de balas, e é acessada pela lateral da Igreja.


ROMEIROS OU PEREGRINOS ?

por JOSÉ PALMA, idealizador do CAMINHO DO SOL


Acácio da Paz (Espanha), José Palma e José Roberto (Portal Peregrino)

    Esta é uma questão que sempre vem à tona, e constantemente me perguntam. Diversas vezes tive a oportunidade de abordar o tema nas palestras que tenho proferido. Desde que o Caminho do Sol foi inaugurado, em julho de 2.002, passei a ter muito contato com romeiros que seguem rumo a Pirapora, pois alguns trechos do Caminho são comuns a ambos. O curioso fica por conta dos “destinos invertidos”, pois o Caminho do Sol segue sentido interior (Águas de São Pedro) e os romeiros seguem no sentido capital (Pirapora do Bom Jesus).

    Como simples observador da vida, pude perceber detalhes e hábitos culturais, típicos de nossa brasilidade. Um grande número de romeiros faz a romaria com o objetivo de pagar uma promessa, em função de graça ou benefício alcançado. Um grande número de peregrinos faz a peregrinação movidos pela fé. Os romeiros caminham rápido, quase de forma ininterrupta.

    Os peregrinos caminham de forma contemplativa, não têm pressa para concluir sua jornada. Os romeiros querem, portanto, “chegar” ao destino. Os peregrinos querem “estar” no caminho. Os romeiros têm preferência para caminhar em grupos. Os peregrinos preferem a solitude. Os romeiros têm um período específico do ano para caminhar. Os peregrinos caminham qualquer época do ano. Os romeiros levam consigo o dever de cumprir uma penitência. Os peregrinos levam sua mochila e seu cajado. Mas o verdadeiro aprendizado vem de ambos.

    Tanto os romeiros quanto os peregrinos carregam em seus corações a bandeira branca do amor, da paz, da compreensão e da fraternidade. Portanto, seja você romeiro ou peregrino, venha! Somos todos seres humanos. Vamos juntos semear um mundo melhor, mais simples, mais humano, com mais qualidade de vida. Com respeito e amor ao meio ambiente, preservando a natureza. Afinal, nossos bisnetos vão precisar!

(OBS: Matéria publicada no jornal “Tribuna de São Pedro” em 21 de março de 2009.)


MINHA DEVOÇÃO AO BOM JESUS

    Minha primeira peregrinação ao Santuário do Bom Jesus de Pirapora, a pé, ocorreu na Semana-Santa do ano de 1.965, quando contava, apenas, 13 anos de idade. Era uma façanha notável para um menino dessa idade, posto que além das dificuldades naturais, por exemplo, ainda não existiam os modernos e confortáveis tênis de hoje em dia. Dessa forma, calcei um velho e desgastado sapato, que magoou terrivelmente meus pés, sobretudo no final da jornada.

Pirapora - Ano 1.962 - Meu pai Francisco é o 2º e meu tio André o 4º, em pé, da esquerda para a direita

    O grupo era composto de 9 pessoas e André, meu tio e padrinho, era o coordenador. O pessoal era egresso da lavoura e estava acostumado ao serviço duro. Naquele dia todos tinham trabalhado normalmente, depois se reuniram num determinado ponto da rodovia que liga Porto Feliz à Itu, e caminharam 10 quilômetros até a cidade, onde os encontrei, num bar, jantando.

    Às 20 h saímos num passo cadenciado pela estrada repleta de romeiros, mas, em compensação, com pouco tráfego de veículos automotores, porquanto carro naquela época era raridade.

   

Ano 1.965 - Tico, meu tio Luíz, Moacir, Cornélio e meu tio André

     Durante o percurso, comecei a me sentir um tanto tolhido, pois tinha energia de sobra e o pessoal estava seguindo, em minha opinião, um tanto desordenado e de forma vagarosa. 

    Assim, depois de percorrermos 16 quilômetros, paramos na Gruta da Glória para lanchar.

    Lá fui autorizado a prosseguir em frente, sozinho, com a promessa de aguardar os demais, caso me cansasse.

    Caminhei, então, num ritmo constante e não parei mais até adentrar ao Santuário, exatamente, às 4 h da madrugada.

    O restante do pessoal, inclusive meu tio, aportaram às 6 h 30 min, sendo que alguns chegaram, literalmente, carregados, tamanha a estafa que sentiam.

     Depois dessa memorável experiência, passei a ir toda Semana Santa à Pirapora, como forma de exteriorizar minha fé e, de forma ininterrupta, nos 10 anos seguintes. Porém, em decorrência dos compromissos que a vida adulta nos impõe, passei a peregrinar nesse roteiro, somente quando não tinha outro compromisso já agendado ou, então, quando necessitava pagar eventual promessa.

    Ainda assim, somando todas as minhas caminhadas pretéritas, com muito orgulho e júbilo, neste ano de 2.010, completei minha trigésima peregrinação a pé, em direção àquele Santuário.


A PEREGRINAÇÃO DE 2.010

    Milhares de romeiros dirigem-se à Bom Jesus de Pirapora durante a Semana Santa, a pé. As distâncias percorridas variam entre 20 a 200 quilômetros. Alguns arrastam pesadas cruzes, que depois ficam depositadas em frente à igreja do Santuário. Invariavelmente, todos se programam e seguem cronogramas de viagem, de forma a aportar ao seu destino na madrugada ou, mais tardar, na manhã da Sexta-Feira Santa.

    Infelizmente, nos dias atuais, para quem parte de Itu, a caminhada na quinta-feira Santa em direção à Bom Jesus de Pirapora tem se mostrado bastante perigosa para os que seguem a pé. E, não só pelo número crescente de romeiros que perfazem esse roteiro, mas, principalmente, pelo expressivo trânsito de carros, caminhões, ônibus, motos e bicicletas nessa data específica, que concorrem em espaço com o humilde peregrino, pois a “Estrada dos Romeiros” não possui acostamento, tornando a jornada excessivamente arriscada.

     A falta de conforto e segurança para o pedestre chega a me causar uma espécie de humilhação. Mal cabem dois veículos de tamanho médio, nessa estrada. Desculpando-se os construtores, de longe data, os atuais mantenedores dessa rodovia não se importam nem um pouco com o caminhante, o ciclista e o cavaleiro, pois os veículos passam a tão pouca distância, que chegam a sacudir os transeuntes.

    Dessa forma, escolado pelas experiências anteriores, neste ano optei por ir na Sexta-Feira Santa, à noite, quando praticamente inexiste tráfego na estrada.

    Para me acompanhar na jornada, convidei o meu amigo Demétrius que, embora agnóstico confesso, prontamente aceitou o desafio.


RUMO À PIRAPORA !

    Hoje é Sexta-Feira Santa, dia 02/04/2010, 19 h – Na casa de meus pais, onde me hospedo, em Itu, local em que partirei, já paramentado para a aventura, visto camiseta “dry-feet”, bermudas e um tênis confortável. Inicio a checagem final da mochila que carregarei, e seu conteúdo contempla água, isotônicos, barra de cereais, além de frutas energéticas, como banana e maçã.

    Levo comigo um pequeno pronto-socorro, além de um relaxante muscular, que são componentes essenciais, para o caso de surgir algum imprevisto. Como bem diz uma frase da sabedoria chinesa: “O que nos deve acontecer, está escrito no livro da vida, que o vento da eternidade folheia ao acaso.”

    Ainda, é imprescindível portar uma lanterna, pois a lua, nessa noite, somente surgirá no firmamento, após às 22 h. E, para completar carrego um agasalhado de lã, vez que as madrugadas na serra do Japi costumam ser, nessa época outonal, extremamente frias.



    São 20 h, estou partindo. Antes, me despeço de meus irmãos e peço a benção ao meu velho pai. Sigo sozinho neste primeiro trecho, pois marquei encontro na saída da cidade, com o amigo que me acompanhará até Pirapora. Infelizmente, choveu bastante à tarde e agora cai um garoa persistente, que me obriga a sair de guarda-chuva, algo que não estava nos meus planos.

    Calmamente, vou caminhando por calçadas urbanas, em leve ascenso, e depois de 15 min estou passando pela Praça Independência, defronte o Convento e Igreja de Nossa Senhora do Carmo, uma grandiosa construção datada de 1.719.

    A partir desse marco, inicia-se leve e contínuo descenso e logo me encontro diante do imponente casarão que abriga o famoso Regimento Deodoro, onde antigamente funcionava o Colégio São Luiz, uma magnífica construção do seculo XIX, que foi edificada pelos jesuítas e está localizada na Praça Duque de Caxias.

    Enquanto perfaço o derradeiro trecho, lembro de pedir proteção ao meu Anjo da Guarda e, incontinenti, professo minha fé através da seguinte oração: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, guarda, governa e ilumina. Amém.”

    

São 20 h 25 min - Dois quilômetros percorridos em trecho citadino, e estou sobre a ponte que transpõe o córrego Guaraú. Conforme combinado, nesse local encontro meu amigo e “companheiro de viagem”, Demétrius, que me aguardava.

    Depois de abraços, cumprimentos e manifestações de alegria, explico-lhe que, deste ponto onde nos encontramos, 45 quilômetros nos separam do final da jornada: o Santuário do Bom Jesus. Ante seu espanto, devido a longa distância a ser percorrida, conforto-lhe, tentando parafrasear o escritor Richard Bach: “Longe, é um lugar que não existe!”

    Assim, prosseguimos, agora, juntos, por uma via vicinal, paralela à SP-300, nominada Dom Gabriel Paulino Bueno Couto, rodovia que liga Itu a Jundiaí. A chuva aperta, obrigando-nos a lançar mãos de capas protetoras.

    Após percorrermos aproximadamente 1.500 m, passamos em frente ao Plaza Shopping de Itu, no Jardim Paraíso, onde o tráfego de veículos se mostra caótico. Logo após esse marco, ao ultrapassarmos o Portal da cidade e já sem o conforto da iluminação urbana, iniciamos pronunciada descida, que culmina nas imediações do “Condomínio Campos de Santo Antônio”.




    São 21 h e já caminhei 6 quilômetros. Neste momento, estamos transpondo o rio Tietê utilizando a famosa Ponte Nova de Itu, cuja inauguração solene ocorreu em 1.922, um símbolo de modernidade para a época.

    Cinquenta metros à frente, fletimos à direita e, finalmente, acessamos a SP-312, denominada Rodovia dos Romeiros, a partir de seu ponto inicial, em Santana de Parnaíba. O apelido dos "romeiros" se deve a forte tradição religiosa das comunidades do interior, que rumam com bicicletas, charretes, cavalos e a pé, com destino ao santuário do Bom Jesus de Pirapora. 




      O trecho Cabreúva - Itu da Rodovia São Paulo - Mato Grosso foi construído entre 1920 e 1922. O jornal República, de Itu, dizia, na edição de 30 de abril de 1922: "Uma estrada de rodagem, talvez a mais bela e bem acabada que existe no Estado de São Paulo, vai ser inaugurada justamente no dia em que se verifica o segundo aniversário do atual governo". 


      O traçado da nova via acompanhava, na margem oposta do Tietê, quase que o mesmo roteiro da antiga "Estrada do Imperador". Nos séculos 18 e 19 através desse caminho era transportado para São Paulo e Santos, em lombo de burros, a produção ituana de açúcar e café . Isto perdurou até a construção da Estrada de Ferro Ituana, inaugurada em 1873.
  


    A abertura do trecho foi um trabalho difícil. A picada na mata surgiu a golpes de facões e machados. O braço humano escavava à picareta a encosta íngreme e carregava as carrocinhas basculantes transportadoras de terra. A beleza do leito acidentado do Tietê acabou sendo revelada durante a construção da nova rodovia, que pouco a pouco ganhava forma. 


   

   A estrada ainda não havia sido concluída, quando começou a ser usufruída para passeios, festividades e folguedos ao ar livre. O próprio Washington Luís e sua comitiva, utilizaram a Gruta da Glória, em 18 de fevereiro de 1922, para um piquenique.

    O tamanho do séquito que o acompanhou naquele dia dá conta da importância da obra para o governo. Com o presidente do Estado estavam o seu ajudante de ordens, major Afro Marcondes; o secretário da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Heitor Penteado; o deputado federal Carneiro da Cunha; o diretor das Obras Públicas, Alfredo Braga; o presidente da Associação Permanente de Estradas de Rodagem, Antônio Prado Júnior e o engenheiro da Diretoria de Obras Públicas, Cássio Vidigal.

    No ponto em que marcava o estágio mais avançado das obras a comitiva presidencial encontrou-se com o engenheiro fiscal da construção da ponte sobre o Tietê, Paulo Dutra da Silva, e com autoridades do município de Itu. Finalmente, a 01 de maio de 1922, Washington Luís inaugurou a estrada, comemorando com pompa o aniversário do segundo ano de seu mandato. O próximo trecho, de Itu a Porto Feliz e Tietê, seria inaugurado no ano seguinte, em 1923. 




    


    São 21 h 10 min - A arquitetura das sedes das fazendas de café, as edificações simples, a paisagem e a mata de característica Atlântica latifoliada, ainda existentes ao longo do rio Tietê, serviu de cenário para mais de 60 filmes. Surgiram diversas áreas de “campings”, restaurantes, casa de doces, comidas típicas em seu percurso.

    Este conjunto impar que forma o ecossistema local, evidenciou a necessidade de transformá-la em uma “Estrada Parque”, mais especificamente no trecho que liga Itu a Cabreúva, unindo o trinômio: lazer, preservação e cultura. Por sinal, esta via está inserida na “APA – Rio-Tietê”, criada pela lei em 1991.

    São 21 h 15 min – Este primeiro trecho é considerado um dos mais belos, pois a floresta ladeia, por ambos os lados, embelezando-a com ipês e jequitibás centenários, sendo que um desses foi cenário de filme da extinta companhia Vera Cruz de cinema.








    Porém, neste horário, tudo é escuridão e o silêncio é quebrado, de tempos em tempos, pelo coaxar de sapos e esturros de animais ribeirinhos. Assim, nossas lanternas vão nos mostrando o caminho seguro a seguir, pois a lua tão aguardada ainda não deu seu ar da graça e, sinceramente, duvidamos que o faça.

    São 21 h 30 min e chegamos à beira da represa que encapsula o rio Tietê, formando a hidroelétrica São Pedro, de propriedade particular, que antigamente alimentava a já extinta Fábrica de Tecelagem homônima, em Itu. Ali existe farta iluminação e como a chuva, finalmente, deu uma trégua, aproveitamos para retirar nossas capas protetoras e acondicioná-las nas mochilas, propiciando-nos, de pronto, melhor mobilidade física.

    A partir desse patamar, inicia-se forte e extensa ladeira, que vamos vencendo, lentamente, passo a passo. Às vezes, caminhamos pela esquerda, outras vezes, pela direita da rodovia, alternando, para aliviar as curvas e as subidas, embora esse procedimento nos traga um certo risco de atropelamento.

    Além de nossa respiração acelerada, ouvimos apenas o clangor da imensa massa líquida que desce pelo vertedouro do reservatório de águas no momento em que se entrechoca com as rochas que guarnecem o patamar inferior da calha ribeirinha, pois o rio se encontra bastante cheio, sinal de chuva intensa em suas cabeceiras e afluentes.

    São 22 h e, após muito esforço, alcançamos o tope do morro, onde fazemos um parada rápida para descanso e hidratação, bem em frente a entrada para a “Fazenda do Chocolate”. Aqui o turismo rural é o forte do lugar, que além de oferecer deliciosos chocolates e doces feitos na propriedade, conta com loja de artesanatos, adega com vinhos e licores, lanchonete e atividades como cavalgadas por trilhas para conhecer a fauna e flora local. As construções conservam a arquitetura tri-centenária e faz o visitante viajar no tempo e imaginar que, repentinamente, desembarcou em uma antiga fazenda de café.





    São 22 h 15 min – O descanso dura pouco, já estamos andando novamente. Prosseguimos agora em forte descenso e logo adiante passamos junto à entrada do renomado “Village Camping do Alemão”, que foi considerado, por muitos anos, o primeiro no “ranking” de sua especialidade, no Brasil. Embora sua portaria se encontre intensamente iluminada, tudo mais se apresenta deserto e silencioso, sinal que a maioria de seus hóspedes estão passeando nas cidades circunvizinhas ou descansando.

    São 22 h 30 mim, e após percorrer 16 quilômetros, estamos defronte à Gruta Escalada da Glória. O local de aspecto paisagístico integralmente natural, situa-se num dos pontos mais emblemáticos da Estrada dos Romeiros, a primeira via pavimentada, à época, e única que interligava Itu à Capital do Estado.

    Nunca é demais lembrar que em muitos trechos desse recanto existem pequenas ilhas transformadas em retiros pitorescos. A Mata Atlântica persiste abraçada ao velho Rio, mostrando a vegetação típica, como samambaias, avencas, árvores seculares e nascentes de água cristalina.

    O mais famoso desses mananciais brota de uma formação rochosa situada acima do lugar onde me encontro, tendo em seu interior uma escadaria que leva até o mirante onde pode se admirar um cenário mágico e tranquilizador. Este espaço é bastante frequentado, pois sua área de lazer, oratório e escadaria interna são de rara beleza.

    Na entrada dessa caverna natural, a água límpida e transparente chega através de um cano e pode ser usufruída pelos turistas. Está sempre fresca e convidativa. Assim, aproveitamos para ingeri-la e refrescar nossas cabeças.

    Até aqui não encontramos nenhuma pessoa a pé, apenas, de tempos em tempos, fomos ultrapassados por automóveis e algumas motos. Por sorte, enquanto descansamos a lua finalmente deu o ar da graça e, ainda que de maneira tênue, derrama seus raios prateados até onde nossa vista alcança. Utilizamos a estrutura existente para lanche, banheiro e fotos.

    São 22 h 45 min, estamos saindo, vagarosamente, retemperados, ainda que um tanto receosos, pois a lua que tanto nos animara a pouco, desapareceu sob grossas e ameaçadoras nuvens. Será que a chuva persistirá durante toda a jornada, pergunto a meus botões?

    São 23 h 15 min – Já percorremos 18 quilômetros e a partir desse marco o rio Tietê que seguia majestoso pelo nosso flanco direito, se afasta da rodovia e somente iremos reencontrá-lo daqui a exatos 14 quilômetros, logo depois de ultrapassarmos o bairro Bananal, ainda no município de Cabreúva.

    São 23 h 40 min, e nesse ponto, entre os quilômetros 19 e 21, existiam antigamente vários engenhos de pinga. Infelizmente, por motivos econômicos e, também, pelas evoluções tecnológicas introduzidas no comércio, fecharam um a um com o tempo. Restou apenas o Alambique “Rainha da Praia”, fabricante de famosa cachaça do mesmo nome, cuja produção é artesanal. Estamos atravessando diante de seu imponente portal e alguns cães de guarda ladram furiosamente.

    São 23 h 45 min – Caminhamos por uma extensa baixada e quando iniciamos leve ascenso, já podemos distinguir as primeiras luzes urbanas no topo da elevação, exatamente no local onde se situa o cemitério municipal.

    Logo estamos passando junto as primeiras casas da urbe e, após transitarmos por algumas ruas calçadas em paralelepípedo, exatamente, às 23 h 50 min, chegamos defronte à igreja matriz da cidade, depois de percorrer 23 quilômetros.





    A cidade de Cabreúva foi fundada em princípios do século XVIII por um membro da família Martins e Ramos, do Município de Itu, que procurava um lugar para se instalar. Então, subiu explorando a margem direita do rio Tietê até encontrar um vale encravado entre três grandes serras – mais tarde seriam denominadas "Japi", "Guaxatuba" e "Taguá", onde se estabeleceu, privilegiado pelo clima ameno, a fertilidade do solo e a abundância de água existentes.

    Senhor de muitos escravos e dono de grande fortuna, Martins, acompanhado da família, ocupou a terra e dedicou-se ao cultivo de cana-de-açúcar para a fabricação de aguardente, dando início à instalação de engenhos, tornando-se a maior força econômica da localidade durante décadas. A produção de cachaça ganhou notoriedade e fama, ultrapassando suas fronteiras, o que legou à cidade o popular dístico de "Terra da Pinga".

    Aproximadamente um século após a fundação, uma família de lavradores doou o terreno para a edificação de uma capela, erguida sob a invocação de São Benedito. Poucos anos depois, em virtude da precariedade da construção, desmoronou ante a força de um grande temporal.

    No mesmo local, decorridos mais alguns meses, foi erigida por um fazendeiro uma nova capela, até que em 1856, com recursos levantados pela comunidade, ergueu-se a Matriz atual em homenagem à Nossa Senhora da Piedade, Padroeira do Município, que é homenageada, anualmente, em 15 de setembro.




    As escadarias da igreja matriz, onde nos encontrávamos, durante a Semana Santa costuma estar atulhada de romeiros e habitantes da urbe, pois é o ponto de encontro logístico da população local e serve, também, de espaço para merecido descanso dos caminhantes. Porém, hoje, tudo está deserto e poucos carros circulam pelas silenciosas ruas desse simpático povoado.

    Infelizmente, não avistamos nenhum bar aberto e nossa água é pouca, o que nos deixa um tanto apreensivos. Sem contar que um cafezinho, seria muito bem vindo naquela hora da noite. A chuva, felizmente, deu um tempo, mas o céu persiste plúmbeo, ameaçador, pleno de nuvens escuras e carregadas.

    O Demétrius reclama de bolhas nos pés, enquanto ingere seu lanche, constituído de pão integral e queijo “light”. Ele retira o calçado e aplico-lhe um curativo, utilizando algodão e esparadrapo, que levo em meu estojinho de “pronto-socorro”. Na sequência, ele calça o tênis e me faz um sinal positivo, de que tudo voltou ao normal.

    O relógio da igreja, compassadamente, bate meia-noite. Aproveitamos para fazer alguns alongamentos, flexões, conferimos nosso material, afivelamos as mochilas e pé na estrada, novamente.

    A saída da cidade se faz por uma avenida asfaltada e plana, que passa ao lado de um campo de futebol. Converso com um jovem que está chegando em sua casa, de bicicleta. Ele me confirma que a romaria de Indaiatuba passou pela cidade, apenas não se lembra com exatidão há quanto tempo. Por fim, ele calcula em, aproximadamente, 90 minutos.

    Logo deixamos a iluminação urbana e seguimos confiantes, agora, sob os raios da lua que brilha de forma opaca, num céu nublado e torvo de maus presságios. Passam-se os minutos alongados.

    Faço, então, uma proposta ao meu parceiro, que aceita de imediato: intentaremos uma caminhada “kamicase” pelos próximos 10 quilômetros, isto é, contra o relógio, como forma de buscar alcançar, ao menos, os retardatários do grupo indaiatubano. É bom dizer que meu amigo Demétrius tem 13 anos menos que eu. Isto posto, partimos em frente, açodadamente.

    Nesse trecho, a estrada é plana e pelas nossas laterais desfilam inúmeras fazendas de criação de gado, além de várias olarias. O tráfego de veículos nesse horário é incipiente, de forma que o silêncio é quase total e pudemos, sem perigo, conversar e ir caminhando pelo meio da estrada, isentos de preocupações.

    Um galo canta ao longe, repetidas vezes. Mais à frente, um boi muge num curral e ouço ainda o coaxar de rãs na beira de um córrego que margeia a estrada. Estamos caminhando num ritmo bom e constante, assim, vamos ultrapassando lentamente os marcos existentes na rodovia, de forma acelerada, pois as nuvens correm céleres pelo firmamento. Prenúncio de tempestade, porquanto o clima persiste abafado, apesar da hora avançada.

    Numa declividade somos ladeados por um grande bosque de eucaliptos e, ao mesmo tempo, a lua que brilhava de forma débil no céu, esconde-se por trás de nuvens negras, deixando-nos momentaneamente no escuro. Imediatamente, fazemos uso de nossas lanternas e, logo abaixo, após ultrapassarmos um riacho encachoeirado e murmurejante, sobre estreita ponte, acessamos uma grande reta e adentramos ao bairro Bananal.

    Logo no início, pelo lado direito, deparamos com uma grande construção abandonada. Há muitos anos atrás, ali funcionava um sortido bar, cujo solícito proprietário era de origem nipônica e atendia os peregrinos com extrema cortesia. Por ser o derradeiro local de abastecimento para os romeiros que iam à Pirapora, à época, era um famoso ponto de referência, conhecido como o “Bar do Japonês.”

    Lembro bem deste lugar pois, em 1.965, quando debutei no roteiro, parei nesse estabelecimento comercial para ingerir um lanche e tomar uma “tubaína”. Infelizmente, o personagem principal dessa história, faleceu tempos atrás, aos 87 anos, e não gerou descendentes.


    Vamos seguindo e mais à frente, quando ultrapassamos a marca dos 31 quilômetros percorridos, na parte central desse distrito, visualizamos, sob a iluminação urbana, inúmeras edificações e vários bares que normalmente ficam abertos a noite toda durante a Semana Santa. Porém, hoje tudo está fechado, quieto, sorumbático, apenas alguns cães vadios vagueiam pelo local, arrastando sacos de lixo e ladram, insistentemente, quando cruzamos esse limiar.

    Um simpático morador local passa à cata de latinhas vazias de refrigerantes e cerveja. Conversamos um pouco e ele nos informa que a romaria “perseguida” passou por ali, com um grande número de componentes, há cerca de uma hora.

    Desanimados, entendemos que não conseguiremos alcançá-los, apesar de todo o esforço despendido. Assim, após uma breve pausa para hidratação, seguimos em frente, lamentando nosso insucesso, pois junto com o grupo de peregrinos seguem caminhões de apoio, o que muito nos auxiliaria em termos de água, além de propiciar-nos companhia no caminho. Na verdade, são componentes de uma Associação de Romeiros que há 20 anos perfaz, anualmente, esse roteiro, sempre às Sextas-Feiras Santas.

    Eles partem de Indaiatuba/SP, por volta das 12 h e percorrem uma distância de 72 quilômetros até Pirapora. O primeiro trecho é todo feito em terra, cortando a Fazenda Pimenta e outras, situadas na divisa com o município de Itupeva. Depois de 30 quilômetros, eles transpõem a rodovia SP-300, que liga Itu a Jundiaí. A partir dali, sempre em piso asfáltico, adentram pelo Bairro Jacaré, já no município de Cabreúva, e acessam a Rodovia dos Romeiros, no centro da cidade, defronte a igreja matriz.

    O pessoal, quase todo da terceira-idade, é simpático e educado, pois tive a oportunidade de conhecê-los numa peregrinação pretérita. Existe um enorme caminhão-baú que lhes dá respaldo, levando provisões e outros utensílios. Ele fica estacionado em local estratégico, esperando o pessoal com lanches, café e água. Aqueles que eventualmente sentem algum problema físico, são prontamente atendidos e medicados por uma equipe de paramédicos que acompanha o grupo. Se porventura alguém estiver indisposto ou fatigado, pode descansar dentro do veículo, que dispõe de aparelhos para primeiros socorros, camas e macas.

    Assim que passa o último romeiro, geralmente o “culatreiro”, aquele que vai à retaguarda, controlando para que ninguém se desgarre, o motorista liga o caminhão e se posiciona um quilômetro adiante do “ponteiro”, o experiente romeiro que vai à frente, puxando a marcha e ditando o ritmo da caminhada. E essa permuta, máquina/homens, vai se repetindo até o final da jornada, proporcionando conforto e tranquilidade aos romeiros.


    São 01 h 40 min – Ao ultrapassarmos os 32 quilômetros percorridos, uma surpresa agradável: o reencontro com o querido rio Tietê, que volta a banhar nosso itinerário, pelo lado direito. Nunca é demais lembrar que ele nasce em Salesópolis, a 1.120 metros de altitude. Apesar de estar a apenas 22 quilômetros do litoral, as escarpas da Serra do Mar obrigam-no a caminhar em sentido inverso, rumo ao interior, atravessando o estado de São Paulo de sudeste a noroeste, até desaguar no lago formado pela barragem de Jupiá, no rio Paraná, no município de Três Lagoas.

    Por sinal, a palavra Tietê é de origem indígena (tupi) e significa "caudal volumoso". Que traduzido para os dias atuais, poderíamos mensurar seu volume pela grande variedade de micro-organismos nocivos à saúde, que proliferam em seu leito. Pois, infelizmente, graças ao progresso e, consequentemente, à degradação ambiental, ele se transformou num rio poluído e malcheiroso, cujas águas são turvas de tantos detritos, sempre cobertas de uma película oleosa ou então, por espessos blocos de espuma branca e tóxica.

    Até este local onde nos encontramos agora, ele já percorreu, desde sua nascente, aproximadamente, 280 quilômetros. E seu valor histórico jamais será esquecido, pois está diretamente ligado às conquistas territoriais realizadas pelos Bandeirantes, que desbravaram os sertões, fundando povoados e inúmeras cidades ao longo de suas margens. Nesse contexto, segundo Afonso de E. Taunay, ele foi "O instrumento máximo de penetração do Brasil sul ocidental".

    São 01 h 55 min – O caminho nesse trecho é protegido, em ambos os lados, por árvores altas e inúmeras moitas de bambu que formam um verdadeiro túnel verde. Em dias normais, proporcionam sombra e frescor, porém, à noite, tudo se transforma num autêntico negrume, o que nos faz sacar prontamente as imprescindíveis lanternas.

    São 02 h 30 min – Já caminhamos até aqui 36 quilômetros e a estrada, com altos e baixos, vai passando rápida sob nossos pés. Agora transpomos um barulhento riacho, sobre uma moderna ponte, local que marca a divisa entre os municípios de Cabreúva e Pirapora.

    Fruto de rememorações passadas, localizo naquele lugar uma fonte cristalina, cujo cano de escape localiza-se no interior de uma estrutura de concreto, acessível apenas por escadarias, caprichosamente edificadas. A água límpida e fresca desce diretamente da escarpa fronteiriça. Alegremente, fazemos uma pausa para saciar a sede e encher nossas garrafas plásticas com o precioso líquido. 


    Daqui em diante, o terreno começa a acidentar-se, pois já atingimos os contrafortes da serra do Japi. À propósito, ela preserva um dos poucos pontos remanescentes de Mata Atlântica ainda existentes no interior paulista, abrangendo uma extensão total de 350 km quadrados. As belezas naturais, constituídas de matas secundárias em solo de quartzo, são dignas de preservação, fatores de equilíbrio ecológico e climático. Posto que além de conter uma enorme diversidade de vida animal e vegetal, é diretamente responsável pela purificação do ar na região.

    São 03 h, já percorremos 39 quilômetros e o cansaço já se faz sentir, bem como uma grande sonolência me invade. Estamos ultrapassando sobre pequena ponte um rumoroso riacho. A partir desse marco, inicia-se o famoso morro do “tira-saia”. Serão aproximadamente 2 quilômetros, sempre em contínua ascensão e, praticamente, sem patamares para descanso.

    Fazemos, então, uma pausa para hidratação e ingestão de uma barra de chocolate. Por sorte, o clima apresenta-se frio, úmido, ideal para caminhadas. Sobre nossas cabeças brilha uma lua fosca e deslustrada, num céu coberto por nuvens, que se movimentam incessantemente, na direção norte.

    Pé na estrada, novamente. A rodovia sobe cheia de curvas e sem acostamento. Vamos seguindo e, após percorremos, sob grande esforço 1.000 m, à nossa direita, bem abaixo, visualizamos uma grande construção, feericamente iluminada. Os “marinheiros de primeira viagem”, alegres e afoitos, logo imaginam que se trata do ponto de chegada. Mas, nós, veteranos do trecho, sabemos que para lá aportar, ainda nos restam 7 doloridos quilômetros.



    Na verdade, o que nós avistávamos eram os contornos da represa e usina de força do Rasgão, cuja placa de identificação aparece agora, à direita da estrada. Suas duas unidades geradoras de força que originalmente somavam 14,4 MW, foram recentemente repotencializadas, através da substituição dos rotores das turbinas e enrolamentos dos geradores, passando a produzir 22 MW. Instalada numa íngreme curva do rio Tietê, a usina foi construída em 1925, no prazo recorde de 11 meses e permanece funcionando, hodiernamente.

    São 4 h, estamos chegando ao final do “tira-saia” e a fadiga bate forte. Mas o ar frio que nos recebe no cume da montanha serve como incentivo e, reanimados, prosseguimos em frente, no instante em que a chuva retorna, com violência, obrigando-nos a lançar mão de apetrechos, que irão nos proteger de tal mister. Inicia-se pronunciada descida e quando ascendemos em outra elevação, uma agradável surpresa nos extasia: avistamos, pelo flanco direito, lá embaixo, a cidade de Pirapora, profusamente iluminada.

    Isto nos infunde um novo alento, embora saibamos que ainda nos restam 4 quilômetros até a chegada. Na sequência, fazemos grande volta ao redor de um profundo vale, e principiamos a descer. Eu vou protegido pelo guarda-chuva e o Demétrius com sua indefectível capa, enquanto a água nos castiga, sem cessar.

    Agora seguimos os dois em silêncio, distantes alguns metros um do outro, concentrados na marcha. O cansaço é grande, pois a jornada já ultrapassou os 43 quilômetros. Nosso ritmo cai vertiginosamente, mas estamos chegando. Café, descanso, banho, cama, passam a ser mais que um desejo, e não necessariamente nessa ordem.

    Fruto dessa estafa, em alguns momentos sentimos apenas uma leve pressão no lugar onde deveríamos reconhecer nossos pés. Na verdade, as pernas ficam meio esquecidas, anestesiadas que estão, pela endorfina circulante.

    Aproveito esse momento para renovar minha fé em Cristo, orando com fervor: “Senhor, que chamamos Bom Jesus, contemplando o mistério de dor, lembrando na vossa imagem, renovamos a nossa fé, vós nos amastes até o fim, sois o Senhor, vivo no meio de nós. Daí-nos o Espírito Santo, que forme o nosso coração na obediência ao Pai, na fidelidade à vossa Palavra, no amor aos irmãos. Senhor, atendei nossos pedidos na luta de cada dia, no sofrimento, em todas as dificuldades. Ficai sempre conosco, mostrai que sois o Bom Jesus. Amém.”

    Meu relógio marca 4 h 15 min e até aqui já caminhamos 46 quilômetros. Ao passarmos diante de uma grande cerâmica, cuja enorme chaminé projeta-se para o céu, adentramos em trecho urbano e prosseguimos descendo, agora, em franca inclinação e nossos membros inferiores protestam.

    Nunca é demais enfatizar que as declividades fazem inverter toda a musculatura das pernas, pois há uma maior pressão sobre os joelhos e tornozelos. E isso pode causar grande desconforto, mormente no final de uma jornada de grande envergadura, como esta que estamos concluindo.



    Agora são 4 h 30 min e, finalmente, Deus seja Louvado! Porquanto, depois de 47 quilômetros percorridos, estamos defronte a igreja matriz de Pirapora, cujo padroeiro é o Bom Jesus. Faz muito frio e chove torrencialmente, porém estamos aquecidos pela alegria de mais uma chegada vitoriosa.

    O abraço festivo e jubiloso é de mútua satisfação, pois estamos felicíssimos por mais essa conquista. Nesse momento me acorre uma límpida frase, do genial astrônomo americano, Carl Sagan: “O homem pode chegar onde quiser, a pé ou motorizado, basta lutar, planejar, ser razoável, crer em seu potencial, respeitar as leis da natureza e ter bom senso!”



    O pessoal procedente de Indaiatuba já aportou à cidade faz algum tempo. 

    São mais de 100 romeiros que dormem agrupados, sob as marquises protetoras, porque tudo na cidade permanece fechado, inclusive a igreja.

    Nós nos sentamos debaixo de um toldo e enquanto descansávamos, fizemos breve inventário de nossa aventura, ao tempo que aguardávamos o comércio abrir.

    Ali mesmo travamos contato com o Edson, um alegre peregrino que chegou com o grupo de Indaiatuba e que, face ao frio reinante e as dores que sentia, não conseguia descansar.

    Contou-nos que o tempo fresco e nublado favoreceu-os no início da caminhada, tanto que aportaram em Cabreúva bem antes do horário previsto.

    No entanto, haviam sido castigados por um intenso temporal quando ainda caminhavam por estradas rurais, situadas na divisa com o município de Itupeva.

    Recorda, ainda, outras peculiaridades da romaria, uma delas bastante interessante: dos 120 romeiros que partiram do marco inicial, 10 eram mulheres.

    E dessas, duas senhoras, surpreendentemente, conseguiram chegar caminhando a Pirapora, enquanto muitos “barbados” sucumbiram antes do morro “tira-saia”, sendo resgatados pelo caminhão de apoio, prosseguindo nele até o Santuário.


  



    Finalmente, às 6 h, uma padaria descerra suas portas e vamos lá tomar nosso café da manhã. Ao me sentar, sinto os músculos inferiores “pulando”, ao relaxarem, meus pés inchados, doloridos, latejantes.

    Em seguida, adentro ao templo sagrado para orar, após mais essa dura e profícua jornada. Diante da milagrosa imagem do Bom Jesus, jubiloso, agradeço pelo sucesso de minha peregrinação, mais uma vez, sem lesões ou intercorrências.

    São 8 h e findas as libações derradeiras, embarcamos num veículo que foi nos buscar e, satisfeitos, missão cumprida, volvemos aos nossos lares.

    Neste momento, é para lá que estamos levando nossos corpos molhados, fatigados, suados, mas, interiormente, realizados.

    Para finalizar, um obrigado especial ao meu amigo Demétrius, grande “Companheiro de Viagem”, pois nesses últimos 23 anos construímos uma amizade mais sólida que fraternidade, posto que o irmão é aquele com que a natureza nos premia, mas o amigo é aquele que escolhemos!







                                       
Pirapora 2.010 - Oscar (cunhado e motorista), Édson (peregrinação de Indaiatuba) e Demétrius ("Companheiro de Viagem")

                                                                                                                  ROMEIROS DE PIRACICABA

     Em razão da crença e da tradição de seus habitantes, Piracicaba seguramente é a cidade do estado de São Paulo de onde partem mais romeiros em direção à Pirapora, durante a Semana Santa, seja através de veículos automotores, bicicletas ou a pé.

    Alguns deles, corajosos ao extremo, chegam a extrapolar todos os limites físicos imagináveis, com a intenção de professar sua fé ao Bom Jesus. Dentre esses, o grupo do amigo João José Ramiro se destaca, pois anteriormente percorria a distância de 127 quilômetros até o Santuário, em praticamente 2 dias. Uma jornada árdua, somente para super-homens.


                                                                                          
O grupo piracicabano em 2.001, defronte o Santuário

    Hoje, mais maduros e sedentários, dividem o percurso em 3 etapas, respectivamente, de 43, 38 e 47 quilômetros. Ainda assim, uma peregrinação destinada a poucos, devido à intensa superação necessária. Neste ano de 2.010, ele me contou por email, reprisaram pelo 26º ano consecutivo sua caminhada nesse roteiro, mesmo debaixo de muita chuva.

    E foi ela a causadora de nosso desencontro, pois havíamos combinado nos confraternizar na gruta “Escalada da Glória”, quando de meu retorno de Pirapora, na manhã de sábado. Contudo, em vista do temporal que se abatia sobre a “Estrada Parque”, no momento em que lá passei, o grupo piracicabano, prudentemente se abrigava sob um teto próximo, impedindo-me de visualizá-lo.

    Fica, no entanto, externada aqui minha profunda admiração e respeito pela ousadia, disciplina e bravura desses nobres caminhantes, por suas jornadas pretéritas. Professando, antecipadamente, minha intenção de revê-los no ano vindouro.

    Quem desejar ler o relato da caminhada desse pessoal, relativo ao ano de 2.001, poderá acessar o site:

   www.caminhodesantiago.com.br/rotas_brasileiras/piracicaba_pirapora/piracicaba_pirapora.htm


FINAL

    Considerei uma benção, dispor de tempo, forças, saúde e disposição para peregrinar novamente à Bom Jesus de Pirapora, em especial, neste ano de 2.010, com o escopo precípuo de homenagear e, ao mesmo tempo, desagravar a memória de minha mãe Roza, falecida nos estertores de 2.009.

    È sua grata lembrança que me fez relembrar a passagem dela por este palco de Deus, e uma profunda tristeza se apossa de meu coração, vindo à mente, então, um “relicário” de nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, cujo texto transcrevo para deleite e reflexão:


Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?

                                                                                                                                                           Fosse eu Rei do Mundo,
                                                                                                                                                                baixava uma lei:

                                                                           Mãe não morre nunca                                                                            

                                                                                     mãe ficará sempre
                                                                                      junto de seu filho
                                                                                        e ele, velho embora,
                                                                                         será pequenino
                                                                                        feito grão de milho”.

  

Bom caminho a todos!                                

abril/2010