MEUS AMIGOS FRANCESES


MEUS AMIGOS FRANCESES


 
A primeira vez que os vi foi no albergue de San Jean (FR), dia 09.04.2001, quando, solitário, tenso e inseguro, preparava-me para iniciar o Caminho de Santiago.
 
Quatro franceses, altos, fortes, sendo três homens e uma mulher. Todos na faixa etária entre 65 e 70 anos, mostravam-se alegres, cordatos e amistosos.     
 
Diz a tradição ser os franceses dotados de gênios irascíveis, a tratar os outros com arrogância e sarcasmo. Orgulhosos, só falam a língua pátria, assim, aquele que desejar entendê-los deve conhecer seu idioma.
 
A história conta que César, Imperador Romano, ao conquistar a Gália, atual França, em 58 a.C., usava, com contumácia, uma maneira imponente e mordaz de tripudiar sobre os vencidos, à época, os Celtas.
 
Por isso, os gauleses, atuais franceses, salvo exceções, sempre se consideraram pessoas superiores aos demais seres humanos.
 
Àqueles peregrinos, a quem me referi, também só conversavam em francês, porém, mostravam-se solícitos e receptivos ao mesmo tempo que interagiam com os demais, sempre em voz baixa, e em tom afetivo. Interessado, após interrogá-los, por gestos, informaram-me que moravam numa cidadezinha perto da fronteira com a Suíça, distante dez quilômetros de Genebra.
 
Haviam partido de Le Puy 16 dias antes, já tendo percorrido até ali, 400 quilômetros. Houve o rompimento da barreira invisível que separa as pessoas de nacionalidades diferentes, eles como a desmentir suas heranças atávicas. Aquela empatia inicial a conjungir-nos prenunciou para mim, o início de sólida amizade, e bons augúrios para a jornada que eu estava prestes a encetar. 

No dia seguinte saí cedo e não os vi durante o trajeto, porém em Roncesvalles, à noite, assistimos à missa dos peregrinos juntos, mas face à imensidão daquele paradouro, ficamos em lugares distintos. Após esse dia, só fui revê-los novamente ao sair de Estella em direção a Irache, quando cumpri minha sexta etapa no Caminho.
 
Ao olhar para trás, pude vê-los de longe, com suas blusas de um vermelho intenso a denunciá-los, ainda na fímbria do horizonte. Ultrapassaram-me rápido, passos vigorosos e cadenciados, numa saudação cordial me desejaram "Bom Caminho", desaparecendo numa curva adiante. Inferi que haviam pernoitado em algum hostal, pois não haviam dormido, como eu, no albergue da cidade.



Revi-os novamente no refúgio de Nájera, mas nossos laços se estreitaram realmente no Monastério de San Juan Ortega, pousada obrigatória, onde ocupamos camas vizinhas.
 
Após a missa lá celebrada, durante a sopa de alho servida pelo Padre José Alonso, iniciamos animado diálogo em truncado "francêsguês" (mistura de francês com português), entremeado de gestos, num esforço conjunto de se fazer entender, a salopar rapidamente nossas diferenças étnicas e culturais.
 
Fiquei sabendo então, seus nomes: Gerard, Louiz, Alfred e Anete; e compreenderam o meu, pois o repetiram por diversas vezes, a fim de harmonizar o sotaque carregado: "Oswaldôôô!!!, Oswaldôôô!!!
 
Depois, sempre que me viam, gritavam, além do meu nome: "Ronaldôôôô!!!" e mostravam os dedos voltados para cima, 3 numa mão e 0, na outra, a lembrar-me o placar na derrota do Brasil para a França, dia 12 de julho de 1998, em Paris, na final da Copa do Mundo daquele ano.

Em Castrojeriz, na 12ª jornada da minha peregrinação, após albergar-me, num sábado, encontrei-os numa rua, ainda de mochila nas costas. Haviam saído, como eu, cedo de Burgos, porém haviam se perdido no trajeto, assim só estavam chegando àquela hora. Infelizmente o albergue encontrava-se completamente lotado e eles haviam tentado pouso em dois hostais que lá existem, porém sem sucesso, pois os mesmos também se encontravam sem vagas face à festa que lá aconteceria naquele final de semana.
 
Sem alternativas, disseram-me que continuariam a caminhar, uma loucura sob meu ponto de vista em razão do adiantado da hora, e também porque já tinham, como eu, vencido até ali, 37 quilômetros naquele dia. Pernoitaram no albergue de Puente Fitero (Ítero de La Veja), soube ao reencontrá-los em Carrion de Los Condes dois dias depois. Infelizmente, na subida do Alto de Mostelares, Alfred, exaurido pela jornada cansativa, havia sofrido uma queda e torcido o tornozelo. Mesmo medicado caminhava claudicando.
 
Às lágrimas, e por gestos, me confessou que seguiria os companheiros de ônibus durante o percurso até Leon, e se não melhorasse, desistiria.
 
E foi isso que se sucedeu, contaram-me lamuriosos o fato, na cidade de Órbigos, seguiram, então, após essa baixa forçada, apenas os três. Fiquei surpreso, pois estava caminhando a tarde numa rua daquela localidade à procura de Supermercado quando ouvi alguém gritar às minhas costas: "Oswaldôôô!!! Brasillll!!!
 
Atônito, inocentemente pus-me a perguntar, quem poderia me reconhecer naquele local? Ao voltar-me, lá estavam eles, rostos sorridentes a me aguardar para um abraço fraterno. E assim foi, a cada dois ou três dias revíamo-nos, eles sempre a me saudar de forma calorosa pelo nome e a gritar: "Brasillllll".

Em Portomarin, dia 03.05.2001, indaguei-lhes em quantas etapas pretendiam vencer os 92 quilômetros restantes do percurso. Respondeu-me Gerard que o faria em 4 dias, chegando ao final do Caminho dia 07.05. Declinou-me os locais de pouso, porém, eram cidades desconhecidas para mim, e não coincidiam com os albergues onde eu pretendia pernoitar. Assim, conformei-me em reencontrá-los no dia 8, quando de minha chegada a Santiago de Compostela.
 
Porém, mister meu arrojo na etapa derradeira, acabei encerrando minha jornada no mesmo dia que eles. Após aportar à Catedral, e vencidas as tradições de praxe, como conhecer a igreja e abraçar Santiago, retornei à Praça do Obradoiro. Uma multidão de turistas por ali perambulava a fotografar a vistosa Basílica. Eu, ainda absorto pela beleza do local, em êxtase pela chegada, mochila às costas, sentia-me algo deslocado naquele burburinho humano de pessoas desconhecidas, quando de repente ouço um coro de vozes à retaguarda, a saudar-me: "Oswaldôôô!!! Brasillll!!!!
 
Eram eles, radiantes, banho já tomado, em suas indefectíveis blusas vermelhas a me cumprimentar. A emoção foi tão grande, que ninguém soube o que dizer um ao outro, apenas nos abraçamos emocionados, onde as limitações da comunicação verbal foram compensadas pelo calor do reencontro. Contaram-me que depois de partirem aquele dia de Pedrouzo (Arca), à vinte quilômetros dali, houve problemas com Anete que passou mal no Caminho, e chegaram apenas às 14 horas, após o término da missa diária.


 
Encontravam-se hospedados numa pensão ali perto. Combinamos jantar juntos naquele dia. E assim, à noite, nos encontramos num restaurante. Foi uma refeição alegre, um brilho diferente nos olhos de cada um pela vitória alcançada, brindes e mais brindes de bom vinho, a comemorar nosso reencontro.

No dia seguinte assistimos à missa do peregrino, a nossa missa, porque seríamos homenageados nela. Ao pé do altar, num local reservado pela equipe litúrgica, juntei-me a meus amigos franceses que gentilmente acolheram-me no meio deles.
 
Os demais peregrinos estavam ali reunidos, uns acomodados em bancos de madeira, outros em pé, lado a lado, alguns sentados ao chão em completo estado de sublimação. Eram semblantes que em outros tempos já vira contritos e angustiados.
 
Hoje, brilhavam seus olhos, jubilavam suas almas. Nessa hora mágica o companheirismo aflora, como é bom rever amigos de tantos momentos difíceis.
 
A beleza da Catedral é resplandecente, o altar de um dourado que ofusca. Precedeu o início da missa, um cântico sacro gregoriano. Ao término deste, o padre celebrante, com eloqüência, pede aos peregrinos para ficar em pé, identifica-os numa relação escrita e dá início a apresentação aos demais fiéis presentes.
 
Todos os que buscaram suas "Compostelanas", certificado que é emitido para aqueles que, comprovadamente, fizeram mais de 100 quilômetros a pé, ou 200 quilômetros de bicicleta, desde às 12:00 horas do dia anterior até às 11:00 horas daquele dia, estão nela relacionados.
 
Ele principia então a leitura: "José González, peregrino espanhol, iniciou sua caminhada dia 9 de abril em Roncesvalles, Willian..., alemão, in...(atentos, aguardamos nosso nome ser proferido).., Oswaldo..(sou eu!)., peregrino (minha garganta se aperta, um nó impede-me a fala) brasileiro, iniciou..(lágrimas copiosas enchem meus olhos,)..seu caminho..(meu coração bate descompassado)..dia 10 de abril em San Jean..(sou amparado e cumprimentado pelos meus amigos, não consigo falar nem emitir som algum, minha garganta se aperta, a emoção é muito forte),...     
 
O padre continua sua leitura, Robert White, peregrino americano, iniciou.., de repente..!, Gerard..., Louiz...., Anete....(são eles!), iniciaram seu Caminho (observo-os, de soslaio, estão pálidos, emocionados)..dia 24 de março..(seus olhos úmidos, fixos em Santiago) em Lê Puy (cumprimento-os, um abraço apertado, eles também não conseguem falar), França,....Carlos Al.., .." e a apresentação prossegue até o último nome, num ritual solene, que embarga corações.
 
Acomodo-me para assistir à missa, o coração ainda bate forte, o padre no sermão exorta-nos como testemunhas de fé, de tenacidade, a vencer os obstáculos diários que nos eram impostos, sempre com os olhos voltados em Santiago, centenas de quilômetros à frente, na certeza da chegada. Por uns instantes fico a imaginar mergulhado num sonho. Mas estou ali, diante do altar, ao meu lado rostos radiantes não se cansavam de contemplar Santiago. Eu fazia coro a eles.
 
Finalmente, chegou o momento tão esperado, à hora da Eucaristia sinto-me sereno, alma lavada, olhos marejados, vamos todos ao encontro de Cristo, na certeza que após esse ato, compulsoriamente, chegamos ao final da nossa peregrinação.
 
Após a missa, assistimos emocionados, a tradicional e lendária, cerimônia do Botafumeiro. Encerrada a celebração, há sempre uma grande confraternização entre os peregrinos, porque muitos já se viram e se dispersaram no Caminho. Mais abraços e cumprimentos foram trocados, e para completar a festa que havia se instalado em nossos corações, fomos almoçar os quatro, no Restaurante Manolo.
 
Nesse dia, a Anete, abstêmia de longa data, emborcou um cálice de vinho, quebrando seu jejum voluntário, apenas, segundo ela, para brindar nossa augusta amizade. A uma indagação minha responderam-me que sabiam falar em inglês. Aquiescendo, ante meu pedido, passamos a conversar todos nesse idioma, que eles dominavam com fluência. Soube então que deixaríamos Santiago no mesmo dia, sexta feira, 11 de maio, eu retornaria com o avião das 16 horas, eles no trem que partiria às 20:00 horas.

Dia 09 fomos, de ônibus, a Finisterre e, lá, juntos, fizemos a cerimônia do "queima-roupa". À noite, novo jantar festivo. Na quinta feira, dia 10, fomos novamente à missa dos Peregrinos. Após o término desta, combinamos que almoçaríamos juntos novamente. Eles precisavam ir até ao banco, assim, ficamos de nos encontrar no Manolo's dali uma hora. Eu já aguardava quando eles chegaram, vestidos a caráter, com suas blusas vermelhas flamejantes.


 
Mostravam-se radiosos e me confessaram que haviam conseguido comprar as passagens e partiriam ainda naquela tarde para sua cidade de origem, com o trem das 16 horas. Eufóricos, anteviam o momento do reencontro, no lar, com seus entes queridos. De minha parte, não consegui controlar o profundo sentimento de tristeza que me invadiu. O almoço transcorreu, para mim, em clima nostálgico e, no final, fizemos o brinde derradeiro. Depois, discretamente, acertei a conta com o garçon, como deferência pela amizade conquistada.

Chegou então o momento da partida. Resolutos, arrumam os últimos detalhes, afivelam suas mochilas, empunham os cajados que haviam deixado guardados na entrada do restaurante. Lágrimas afluem intensamente a encobrir meus olhos. Confrange-me o coração o aparto derradeiro.
 
A despedida fazia doer à alma. Um abraço apertado em cada um, eu apenas a murmurar "until a one day" (até um dia), eles também emocionados, balbuciam palavras em francês desconhecidas para mim, lágrimas furtivas a escorrer pela face, a pressentir, como eu, ser esse adeus, muito provavelmente, definitivo em nossas vidas terrenas.
 
Partem altivos e empertigados, e antes de virarem a primeira esquina se voltam, me acenam, e me desejam em uníssono, um "ou revoir", que até hoje ainda ecoa em meus ouvidos. Atordoado, pela repentina perda, saí e caminhei a esmo e, quase por acaso, quando dei por mim, estava novamente defronte da majestosa Catedral de Santiago. Lentamente galguei os degraus que me separavam do seu interior e ali, solitário, num banco a contemplar a fulgurante imagem do Santo Apóstolo, fui me acalmando, sentindo uma grande paz interior a me invadir. Aquietava-se meu coração.
 
Evidenciava-se para mim, de forma cristalina, de maneira pungente, a transitoriedade das coisas neste mundo. O fato de estar ali naquele momento, nada mais era que algo circunstancial e intertemporal. Tal qual num filme, revi minha performance desde 33 dias atrás, quando vacilante e exausto aportava em San Jean para dar início à minha caminhada.
 
Seguiram-se dias de chuva, sol, neve, frio, porém sempre com gratas lembranças, a maior delas, os amigos que fui conhecendo ao longo da Rota, dentre todos, a luzir, os gentis franceses que agora me deixavam.
 
Compreendi, no fundo, somos todos viajores efêmeros por esse mundo de Deus, e o importante é que aproveitemos esses bons momentos que nos são oferecidos. Santiago havia me propiciado uma jornada sem percalços, e eu ao invés de lamentar, extasiado, pus-me a agradecer-lhe pelos incontáveis instantes mágicos vivenciados ao longo do Caminho.
 
Não me sentia mais triste, compreendia estar sim enriquecido, com a mente repleta de inesquecíveis lembranças boas, que só o Caminho pode nos proporcionar. Alegre, coração aliviado, deixei o templo e, no dia seguinte, retornei ao Brasil.

Hoje, quando são passados exatos quinhentos dias do meu abraço derradeiro a meus amigos franceses, e no Santo Apóstolo, uma saudade avassaladora invadiu meu ser, então, lembrei-me deste poema:

"Despedidas"
 
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas...
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. 
Para que sejam deles, para sempre...
Para que não haja mais partidas...
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantada as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços." (Ruben Alves)
    
Quem sabe, algum dia os reencontro! Se eu voltarei a revê-los? Só Santiago pode responder!
 
Por segurança, arquivei-os definitivamente em minha memória!
 
Por gratidão, os guardarei eternamente no coração!
    
Bom Caminho a todos!
 
 
Oswaldo Buzzo - Outubro/Novembro/2.002
 
* Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br