Passos de Anchieta

2007 - Os Passos de Anchieta, a Pé, em 4 Etapas


    

Enquanto peregrino, o desejo de reviver os “Passos do Beato Padre José de Anchieta”, no Estado do Espírito Santo, sempre ocupou lugar de destaque em meu ideário de caminhante.

Entrementes, tal anseio capitulava diante de um obstáculo intransponível, qual seja, a data atempada para a realização do evento, que ocorre apenas uma vez por ano, jamais coincidia com meu período de férias profissionais.
     
Assim, foi com agradável surpresa que ao acessar o “site” da ABAPA (www.abapa.org.br) em janeiro último, deparei-me com a notícia de que poderia fazer o roteiro tão desejado, sozinho ou acompanhado de um guia credenciado pela Associação que administra esse caminho. Por segurança e comodidade, optei pela segunda alternativa.

Contatos telefônicos foram feitos com Carlos Magno de Queiroz (Lilico), atual Coordenador da ABAPA, e aprazamos a caminhada para a primeira semana de abril. Concomitantemente, ele se comprometeu a fazer as reservas dos hotéis/pousadas nos locais de pernoite, mediante a remessa antecipada de 50% do montante a ser despendido.

Também, destacou Valcyr Bargas para me acompanhar durante todo o trajeto, mediante a remuneração de R$60,00/dia. Esse guia, profundo conhecedor do percurso, conta em seu currículo a proeza de ter conduzido, dentre outras personalidades, a ex-senadora Heloísa Helena, quando lá esteve em sua peregrinação pelos “Passos”, realizada no período de 07 a 10/01/2007.



PADRE JOSÉ DE ANCHIETA


Vamos relembrar um trecho da história do Brasil.

Esse conhecido pastor nasceu em Lã Laguna de Tenerife, nas Ilhas Canárias, em 19 de março de 1534, filho de pai basco, de família pobre, e de uma jovem nativa. Aos 14 anos, foi enviado pelo pai para estudar em Coimbra, onde revelaria prodigiosos dotes intelectuais.

Estátua do Padre em tamanho natural
Ingressou na Companhia de Jesus e foi designado para servir no Brasil em missão colonizadora, no ano de 1553. Contava 19 anos quando desembarcou em Salvador, rumando posteriormente para a Capitania de São Vicente. Ali, em 25 de janeiro de 1.554, juntamente com o Padre Manoel da Nóbrega, fundaria o Colégio de Piratininga, embrião da cidade de São Paulo.

Destaca-se o papel de Anchieta como catequizador dos índios brasileiros, ressaltando que a utilização de recursos teatrais nessa tarefa lhe rendeu o pioneirismo nas artes cênicas no Brasil. 

Quanto ao seu papel colonizador, há controvérsias, contudo, raciocina-se: “...é certo que, por ser filho de uma união informal, Anchieta influenciou para que a relação entre conquistadores e nativos fosse mais humana e menos ideológica...”.

Além da cidade de São Paulo, também fundou Guarapari, São Mateus e de Rerigtiba, sendo que esta última, mais tarde se tornaria Anchieta, em homenagem ao beato. 

Sua obra literária, reunindo principalmente cartas, poemas e autos, é classificada como a mais importante do século XVI. É considerado o pai da nossa literatura, pois, foi autor do primeiro Dicionário em Tupi-Guarani do Brasil. 

Pode ser considerado também o primeiro cientista brasileiro, por ter descrito a função da bolsa dos marsupiais, os canais e as glândulas de veneno das serpentes, dentre outros. 

Realizou notável obra nas áreas de ciências naturais, lingüística, diplomacia, antropologia, arquitetura e artes. Vale lembrar, no tocante à arquitetura, que ele construiu as Santas Casas de Misericórdia do Rio de Janeiro e de Vila Velha, bem como, as Igrejas Matrizes de Guarapari e Rerigtiba (hoje, Anchieta).

Junto com os Goitacás, marchou contra os tamoios, expulsando-os para Ubatuba (então Iperoig), onde foi mantido refém, para negociar a paz. Nessa época, escreveu o famoso Poema da Virgem, com 5.786 versos latinos. 

Juntamente com Araribóia, combateu os franceses no Rio de Janeiro, expulsando-os em 1567. Escolheu a cidade que leva o seu nome, no litoral capixaba, e ali permaneceu os dez últimos anos de vida. 

Com problemas na coluna vertebral, que o impedia de andar a cavalo, ainda assim fazia freqüentemente o trajeto agora institucionalizado como “Os Passos de Anchieta”.

Morreu em 9 de junho de 1597, aos 63 anos, e seus restos mortais seguiram até o campo santo, em cortejo, carregado por cerca de três mil índios. 

Beatificado pelo Papa João Paulo II, em 22 de junho de 1980, José de Anchieta, com toda justiça denominado “O apóstolo do Brasil”, pode vir a tornar-se santo, posto que, o Vaticano elabora seu processo de canonização.
 


MINHA VIAGEM


Obstáculos burocráticos, físicos e profissionais superados, no dia ajustado, uma sexta-feira à noite, embarquei num avião em São Paulo com destino à Vitória/ES. 

Meu coração ia em festas, pois, estava prestes a realizar mais um sonho longamente acalentado. Aduza-se, a esperança de lindos dias de sol, a tranqüilidade de horas inesquecíveis, distante dos flagelos do cotidiano, em verdade, um oásis no deserto de minha perversa azáfama diária. 

Quanto aos “Passos de Anchieta”, finalmente iria sulcá-lo de ponta a ponta, já antegozando as delícias dos “imprevistos” que me aguardavam.

Embora minha partida sofresse significativo atraso por conta da greve dos “Controladores de Vôo”, aportei ao meu destino animado e confiante, mesmo sendo 2 h da madrugada.


    Vitória do Espírito Santo, desde o Convento da Penha


O taxista que me conduziu até o Hotel Cannes, garantiu ser Vitória, uma das três ilhas-capitais do Brasil, povoação segura e tranqüila. Durante os 15 quilômetros percorridos em alta velocidade entre o aeroporto e o local de pernoite, traçou-me um perfil animador da atual administração da cidade.

Ao saber a intenção de minha “viagem”, discorreu sobre o itinerário geográfico dos “Passos”, bem como, complementou suas assertivas com outras informações interessantes, concernentes ao roteiro que eu iria percorrer. 

No sábado, levantei-me cedo e visitei demoradamente o “centro velho” da urbe. Aproveitei para conhecer seus principais monumentos, mormente a Catedral Metropolitana, local de minha partida no dia seguinte. 

Lamentei o clima reinante, quente e abafado, pois, segundo as informações obtidas, não chovia no Estado há mais de 40 dias.

Mesmo assim, curioso por conhecer o trajeto urbano e como forma de “aquecer os músculos”, caminhei os primeiros 6 quilômetros do percurso, até me aproximar da “Terceira Ponte”, de onde retornei, prudentemente, de ônibus coletivo.

À tarde, descansei e depois fiz rápido “tour” pela orla que circunscreve a linda capital, com ênfase à belíssima praia de Camburi. Encerrei o dia com um jantar no Shopping Vitória, decantado centro de compras localizado no bairro Enseada do Suá.

Ao retornar, sentia-me agitado, tomado de uma tensão íntima, desassossegado, como se achasse às vésperas de um acontecimento singular e decisivo, o que em absoluto não era o caso por se tratar de uma excitação puramente física, sem motivos na alma.


A fim de espairecer, já no hotel, li alguns versos do poema em louvor à Virgem Maria escritos pelo “Beato”, em 1.567:

“Ó Virgem, humilde, singela e prudentíssima por que o temor da dúvida assim te apregoa? 
     
Justamente porque és humilde: e humilde tudo temes de tua ingenuidade: por demais ingênuo, o coração da jovem deixa-se enredar às vezes, em diversos ardis tudo temes em tua prudência:

  Tu, ponderando tudo à sua luz, temes que alguma aragem de pecado te bafeje a alma, que, prestando-lhe atenção, como Eva à serpente, venhas a cair em suas malhas. 
  Porém nenhum laço há aqui: o céu não engana: não há na cidade de Deus lugar para a mentira. 
  Não há, aqui, monstro algum que te engane em música falaz, que te cegue os olhos d´alma, como à primeira mulher. 
  Já o Senhor pôs em ti o seu olhar: do alto da esfera celeste, sua pupila descansa nas pequenezes desta Terra.
  Quanto mais te crê indigna, tanto mais digna te ergues para o Céu, e tua fronte brilha, quanto mais se esconde. 
  A simplicidade humilde e a humildade simples do teu pensar enamora o Espírito de Deus. 
  Por que te admiras de te fazerem Rainha no Céu, se estás sempre a escolher, na Terra, o último lugar? 
  De admirar seria se tivesses o peito intumescido de soberba e se, apesar disso, o Senhor te contemplasse. 
  Abre, portanto, o coração confiante à mensagem celeste: quanto é de ti mais digna, tanto menos deve temê-la”.  (Pe.J.Anchieta) 

E, como refrigério ao espírito, recolhi-me cedo, já prelibando o desenrolar da aventura que encetaria na manhã seguinte.



1ª Etapa – Vitória a Barra do Jucu – 25 quilômetros

Acordei às 4 h e, ainda na cama, passei a matutar sobre a data em si, e me lembrei que já era dia 1º.

Começou abril, pensei, como costumam se iniciar os meses. A sua entrada é, no fundo, bem discreta e completamente silenciosa. Sem sinais nem fogueiras, eles insinuam-se sem fazer ruído, de um modo que facilmente escapa à atenção de quem não esteja muito alerta. 

Em realidade, o tempo não tem marcas, não há trovões nem trombetas ao início de um novo mês ou de um novo ano. E na própria estréia de um novo século somos unicamente nós, os homens, que soltamos foguetes e repicamos os sinos.

Essas digressões escritas por Thoman Mann em seu livro “A Montanha Mágica”, me acudiram vivamente à memória, enquanto me paramentava para a “viagem” que iria iniciar. Afinal, aquele momento me era especialíssimo. 

Os aprestos para a partida foram executados com celeridade e, em seguida, já com a mochila nas costas, desci à recepção do hotel. Ali fui informado pelo porteiro que infelizmente o café somente seria servido após 6 h. E, mesmo o “pretinho puro” que eu havia implorado no dia anterior, não fora preparado por esquecimento, alegou-me.


Paciência, ponderei conformado. Certamente encontraria alguma padaria na avenida por onde iria caminhar e, então, faria meu desjejum. Assim, parti por ruas desertas e logo acima galguei uma grande escadaria que leva o nome de lendária figura defensora da ilha no episódio da Invasão Holandesa de 1625, a “Escadaria Maria Ortiz” que, hoje, é um dos principais acessos ao Centro Histórico de Vitória.


 01/04/2007 - Caminhando pelo calçadão da Praia da Costa


Já no topo, segui por uma rua plana, larga e silenciosa. Logo depois chegava à Catedral Metropolitana. A igreja está localizada na Cidade Alta, dispõe de vitrais valiosos e, no seu subsolo, há uma capela onde estão enterrados os bispos do Espírito Santo. 


Naturalmente, o templo se encontrava fechado àquela hora. Ajoelhei-me, então, nos seus seculares degraus e silenciosamente fiz minhas orações, clamando proteção à jornada que iria iniciar.

Findas estas, alonguei-me por alguns minutos e, exatamente às 5 h, parti orientando-me pelas placas indicativas da ABAPA que ali existem. 

Mais abaixo passei defronte ao magnífico edifício do Palácio Anchieta, atual sede do Governo do Estado, que se encontrava feericamente iluminado. Exatamente nesse local funcionou o antigo Colégio de São Tiago, do qual Anchieta foi nomeado Superior em 1593, e onde se encontra seu túmulo.

Após descer acentuada ladeira utilizando a “Escadaria Bárbara Lindemberg”, já embaixo, acessei a Avenida Beira-Mar e por ela segui em frente. A cidade se encontrava estranhamente movimentada por veículos que certamente retornavam das “baladas” noturnas. Quase sempre, em alta rotação, pois, inexistem redutores físicos ou controles eletrônicos de velocidade instalados nas principais vias de rolamento. 

Logo adiante, KM 2, no trecho conhecido por “Curva do Saldanha”, defronte ao antigo Forte de São João, observei do outro lado do braço de mar, em posição frontal, um enorme maciço rochoso denominado de Penedo, com 132 metros de altura, acidente geográfico que assinala naquele local, o ponto mais estreito do canal de Vitória. 

Uma hora depois, 6 quilômetros percorridos, cheguei próximo à “Terceira Ponte”. Esta espetacular obra de engenharia, com 3.339 metros de extensão, demorou 11 anos para ser concluída e foi inaugurada em 01 de agosto de 1989. 

A belíssima edificação que se assemelha muito à Ponte Rio-Niterói, está situada no perímetro urbano de Vitória, ligando a capital do Estado do Espírito Santo, localizada na Ilha de Vitória, à cidade de Vila Velha no continente. Para se ter uma idéia de sua importância para o desenvolvimento da região, sua construção encurtou a ligação entre as duas localidades em 18 quilômetros. 

Próximo de suas pilastras dobrei à esquerda e logo depois chegava ao edifício do pedágio que controla o acesso à ponte. O trânsito de pedestres por seu leito é proibido, de maneira que, obrigatoriamente, eu necessitaria ultrapassá-la num veículo motorizado.
Segundo a história, o Padre José de Anchieta fazia tal travessia sempre numa piroga, em cujos remos os índios se revezavam. Nos dias atuais, recomenda-se ingressar num ônibus no Terminal Dom Bosco que se localiza próximo dali. 

Entretanto, para ganhar tempo, tomei um táxi que, pós 15 minutos e por R$16,00, deixou-me próximo à “Prainha”, já do outro lado do canal. 

Caminhei então em direção ao Convento de Nossa Senhora da Penha, um dos Santuários mais antigos do Brasil, já que foi fundado em 1558, pelo Frei Pedro Palácios, franciscano de origem espanhola.

A manhã se afigurava a rigor, translúcida de sol, com um friozinho remoto que me trouxe saudade de outras peregrinações. 

Conforme combinado no dia anterior, defronte o Portão 2 de acesso ao Convento, encontrei-me com o guia Valcyr, caprichosamente “paramentado” para a aventura.  

De pronto, dois detalhes chamaram minha atenção: Observei que além de dispensar o relógio, calçava apenas um par de surradas sandálias, por cima de grossas meias. Era, no mínimo, um traje um tanto estranho para um caminhante de longas distâncias, vez que, também, não carregava mochila, apenas uma avantajada pochete cingida na cintura.

Após as apresentações de praxe, iniciamos a subida do morro pela famosa “Ladeira da Penitência”. A ascensão é árdua e realizada por sobre um calçamento em pedras, datado de 1.643. 

O convento recebe milhares de romeiros especialmente, durante a festa de Nossa Senhora da Penha, que se celebra na semana da Páscoa, e estávamos, coincidentemente, no Domingo de Ramos. Muitos peregrinos por ela transitavam, a maioria subindo lentamente devido seu alto grau de dificuldade. 

São, no total, sete voltas, simbolizando as sete alegrias de Nossa Senhora (a anunciação, a visita de Isabel, o nascimento de Jesus, o recebimento do Espírito Santo por Jesus, a apresentação de Jesus no Templo, a ressurreição de Jesus e a ascensão de Nossa Senhora como Rainha).

Já no topo, fui surpreendido pela beleza da visão que de lá se descortinava. Divisava, como num cartão postal, toda a orla marítima de Vitória, bem com a imponente Terceira Ponte, num cenário realmente emocionante, de “encher os olhos” e revigorar o espírito.

O templo infelizmente se achava repleto de pessoas, de forma que resolvemos deixar para visitá-lo numa ocasião mais propícia. Uma lanchonete localizada junto ao complexo turístico, com a finalidade de atender os visitantes, se encontrava ainda fechada.

Assim, optamos por partir, vez que o calor já se fazia presente. E o fizemos, então, por um caminho empedrado, traçado no lado oposto ao de minha subida, agora pela mesma via destinada aos veículos para acesso ao Santuário. Foram 1.200 metros, vencidos rapidamente, em franco e desabalado descenso.

Após transpor a Portaria 1, visualizei junto às barracas que comercializam lembranças e relíquias aos romeiros, um bar com salutar condições de higiene. Assim, fizemos ali breve pausa para lanche e café.

Saciados e refeitos, às 7 h reiniciamos nossa jornada. Seguimos inicialmente por ruas calçadas e após transpor a avenida principal de Vila Velha, acessamos uma estradinha de terra, ladeada de novas e amplas construções em quase toda sua extensão.


 "...reserva de Jacarenema (jacaré-fedorento, na língua indígena), uma área de preservação.."


Prosseguimos beirando a orla, observando, agora por baixo, o outro lado da Terceira Ponte. Daquele lugar, também tínhamos uma vista privilegiada da entrada da belíssima Baía de Vitória. 

Infelizmente, um cheiro repugnante de maresia impregnava o ambiente, de forma que nossa contemplação foi breve e, após algumas fotos, prosseguimos apressadamente em frente.

Depois de contornar pela base, o morro do Moreno que, com seus 274 m de altura, se tornou famoso por abrigar rampas de decolagem de asa delta e parapente, adentramos em ruas asfaltadas, já na pequena e bucólica praia do Ribeiro, ponto de atracação de barcos pesqueiros.

Segundo o guia, próximo dali, ainda existem ruínas do local onde residiu Vasco Fernandes Coutinho, o primeiro donatário da Capitania do Espírito Santo.

Olhando em direção ao mar, bem em frente e não muito distante, visualizei bonita e acolhedora ilha. Confidenciou-me o guia, que a Xuxa, conhecida apresentadora de TV, havia tentado comprá-la algum tempo atrás. Por razões desconhecidas, a transação não se concretizara.

No final da orla fomos obrigados a fazer brusca conversão à direita, vez que toda a área ali circunvizinha, tem seu acesso restrito, pois, abriga a casa do Governador do Estado do Espírito Santo, atualmente, o Sr. Paulo Hartung. 

Voltamos, então, por uma rua asfaltada, e ao adentrar em uma ruazinha lateral, à esquerda, saímos diretamente no início da Praia da Costa, KM 12,5, exatamente às 8 h.

A vista dali era realmente maravilhosa, pois a orla, de águas claras e rasas, uma espécie de “Miami Beach” brasileira, é considerada uma das mais bonitas do país, e concentra em seu arcabouço, o maior número de restaurantes, bares, boates e hotéis de Vila Velha.

Era domingo, muitas pessoas faziam sua caminhada matinal e no local já havia intenso movimento de ciclistas. Alguns moradores passeavam com seus cães, outros traziam os filhos e cadeiras em direção à praia que já se encontrava repleta de banhistas.

Seguimos sobre o calçadão que margeia toda orla, num percurso plano e agradável, tendo à nossa direita belos edifícios, alguns recém inaugurados, outros ainda em construção. 

O sol, já no alto, crestava minha epiderme, incomodando sobremaneira. Sob uma providencial sombra, parei para renovar o protetor solar e me hidratar.

Em seqüência, no quilômetro 15, adentramos pela Praia de Itapoã e, logo à frente, divisei a ilha Itatiaia (ou do Boqueirão), de formação rochosa, importante área de preservação ambiental, local onde as andorinhas do mar de bico-amarelo e bico-vermelho nidificam, anualmente, no período compreendido entre maio e setembro. Concernente a esse fator, é considerado o maior sítio reprodutivo do Atlântico Sul. 

Às 9 horas, no KM 18, chegamos ao final do calçadão. Paramos, então, no último quiosque para ingerir água de coco e usar sanitários. Revigorados, prosseguimos em frente, preocupados com a intensidade solar e o calor reinante.

Um céu magnífico estendia-se por sobre minha cabeça e o sol irradiava com uma intensidade tão veemente, que meu boné, já, àquela hora, não oferecia um abrigo suficiente contra o astro abrasador.

A partir dali, caminhamos pela praia de Itaparica, por sobre um tosco calçamento, tendo à esquerda um mar azul-escuro, cuja principal característica são as ondas fortes, constantes e encavadas, denunciadoras de local profundo.

Às 10 h, no KM 21, adentramos a reserva de Jacarenema (jacaré-fedorento, na língua indígena), uma área de preservação de restinga, manguezal, estuário e campos rupestres, que são vegetações importantes para a Mata Atlântica.  

Ali pode também ser visto um fenômeno inusitado, vez que o rio Jucu (que cruza a reserva), deságua no mar, provocando uma pororoca, ainda que de pequenas proporções.

O percurso é feito longe da orla marítima, por sobre uma estrada larga de terra batida, ladeada por uma vegetação baixa e seca. Segundo o guia, um dos locais mais ermos e perigosos para aqueles que se atreverem a trilhar o roteiro, desacompanhados. Ainda, comentou que a freqüência daquela orla é predominantemente de “gays”, por ser um local protegido, discreto, restrito e de difícil acesso.

Na metade do caminho precisamos desviar de uma aglomeração de urubus que se banqueteavam com restos de ossos e carniças, ali descarregados possivelmente por algum apedeuta. À minha direita, no horizonte, pude divisar pequena lagoa que, assemelhando-se a uma fita de prata, resplandecia ao sol.

Finalmente, às 10 h, atravessamos sobre o rio Jucu, utilizando a Ponte de Madalena, recentemente reconstruída. Seu nome homenageia a famosa música gravada por Martinho da Vila, composição essa, imortalizada pela banda de congo local.

O calor que sentia naquele momento era, simplesmente, terrificante.


                                                                                                                                                                                                   01/04/2007 - Com o guia Valcyr em Barra do Jucu - Vila Velha/ES


O Bairro do Jucu é um pequeno distrito de Vila Velha. Antiga vila de pescadores, sua praia é dos “points” preferidos pelos surfistas, que se arriscam em suas águas agitadas, junto ao morro da Concha. 

Seguimos por uma rua empedrada até desaguar numa grande praça que abriga a simpática e antiquíssima igrejinha local. Prosseguimos por uma rua calçada em pedras, que margeia a praia, até chegarmos, exatamente às 10 h 30 m, na Pousada Koala, local onde ficaria hospedado.

Dona Jane, a proprietária, nos recebeu à porta e não escondeu sua surpresa. Isto porque, conforme confessou, não nos aguardava tão cedo. Afirmou, desculpando-se, que geralmente os caminhantes costumam aportar ali em torno das 14 h. Tanto assim, que ainda não havia arrumado o apartamento onde eu pernoitaria, pois, o Valcyr seguiria para sua casa, vez que reside naquele distrito.

Enquanto ela providenciava a limpeza e arrumação do quarto, vesti meu short de banho e fui dar um passeio pela praia fronteiriça. Os barzinhos localizados defronte a orla registravam expressivo número de freqüentadores. Num deles, o mais animado, uma música regional estridente e em alto volume, “rolava” solto.

O dia estava claro, o sol a pino, e devido ao calor sufocante não resisti e adentrei ao mar. Porém, as fortes ondas que quebravam diretamente no sopé da arrebentação, aliada a intensa correnteza de repuxo, me desestimularam a permanecer por muito tempo dentro d’água. Assim, pós-relaxante banho, retornei à Pousada e já encontrei tudo nos conformes. 

É de se enaltecer o tratamento que me foi dispensado por minha anfitriã que, com seu invulgar cão Kronic, de raça “Collie”, compõem uma dupla simpaticíssima. Pois, a boa receptividade das pessoas e animais domésticos, nos faz muito bem.
 

Para almoçar utilizei os serviços do “Brega’s Bar", ambiente gostoso, de indiscutível qualidade e sabor.

À tarde retornei ao centro do distrito e pude conhecer em detalhes sua igrejinha, datada de 1.818. Aproveitei, também, para adquirir numa mercearia ingredientes para um lanche, já que não pretendia jantar.

Mais tarde, pós-refeição, sentei-me na sacada do apartamento, de onde detinha esplêndida vista. Pude apreciar, então, a enorme lua nova nascendo sobre o mar. As primeiras luzes acabavam de ser acesas, enquanto o crepúsculo avançava rapidamente. Reinava no ambiente aquele estado de transição, enquanto a noite, inexorável, trancava rapidamente suas mandíbulas.

Sentia-me um privilegiado, pois, no dia seguinte, uma segunda-feira, não comporia o “time” daqueles que retornariam ao labor. Pensativo, pus-me a matutar sobre o tema e ocorreu-me à mente, versos do interessante poema “Seqüência”, que pareceu retratar um pouco a minha vida profissional. 
Para ilustração, transcrevo-lhe o núcleo:

“Dormir, acordar, lutar; lutar sempre, sempre assim, até o fim.

A rotina da vida vai passando, vai rolando, empurrando sempre, sempre para frente.

Impassível, o tempo que se espera. Contra tempo que exaspera, desespera. E vai passando, aceitando inexorável, inflexível: o vai e vem da vida. A seqüência dos dias, o cotidiano das horas, a fuga dos minutos, a eternidade de um segundo.

A vida se esvai no atropelo das gerações, na corrente dos anos, na ânsia dos impossíveis, removendo as pedras, cavando trincheiras, construindo o caminho do futuro ”.   (Cora Coralina)

AVALIAÇÃO PESSOAL: Uma etapa quase toda cumprida em solo urbano, qual seja, calçamento ou asfalto. Afora pequeno trecho nas imediações do morro do Moreno, apenas, os derradeiros 4 quilômetros são trilhados sobre terra fofa e arenosa. No geral, tirante a subida da “Ladeira da Penitência”, um percurso agradável e com baixo grau de dificuldade, sem qualquer acidente geográfico importante.


 

2ª Etapa – Barra do Jucu a Setiba – 28 quilômetros

 
                                                                                                                                                                                    
02/04/2007   -   Despedindo-me de Kronic

Levantei às 4 h e logo depois, pronto para a aventura, descia as escadarias em direção ao refeitório da Pousada, de onde recendia agradável aroma.   

Dona Jane, já em pé, providenciava o saboroso café, que logo depois ingeri, em profusão, acompanhado de algumas frutas. Havia combinado com o Guia Valcyr que partiríamos exatamente às 5 h.

No entanto, quando este horário chegou, ele ainda não havia aparecido. Embora sabendo que residia naquele Distrito, desconhecia seu endereço. Preocupado, liguei em seu celular, porém, constatei-o na “caixa postal”. 

A mão dum mau pressentimento me pressionou de leve o peito. Estranhei sua demora. Afinal, profissionalismo pressupõe responsabilidade, cuja principal vertente é a pontualidade.

Não cogitava aquele imbróglio, contudo, precisava me decidir, posto que, o tempo urgia. Cronic, o cão, apareceu à porta rosnando, alegre e impetuoso. Enquanto ponderava sobre a ocorrência, fiz-lhe carinhos, acalmando-o.

Depois de lacônica reflexão, resolvi partir sozinho. Afinal, o roteiro se desenvolve pelo litoral, então, a orla marítima seria sempre minha referência maior. Assim, após calorosa despedida, segui beirando a praia por uma rua empedrada, até sair numa grande área agreste e desabitada. 

A iluminação urbana havia ficado para trás e não consegui vislumbrar nenhuma placa indicativa. Na dúvida entre seguir pela orla ou pela gleba campestre, escolhi a segunda opção. 

Percebi em mim, um profundo e estranho sentimento, misto de entusiasmo, receio, pressa, curiosidade e contentamento
.

 
"...resolvi caminhar pela praia, utilizando a polida e clara faixa que.." 

A lua brilhante me auxiliou e caminhei tranqüilamente por uma estrada de terra batida, rodeada de arbustos. Mais à frente o caminho apresentou-se obstruído por alta cerca e, então, sem alternativas, fleti em direção ao mar.


02/04/2007 - Balneário de Ponta da Fruta


E, sob a luz diáfana da madrugada, observei emocionado o estertorar silencioso da noite que se findava e a claritude da alvorada iniciante. 

No nascente, recortadas contra as profundezas do céu ainda escuro, as nuvens pareciam flocos de neve debruados de ouro. Da mesma coloração, esguios farrapos de contornos esbatidos, flutuavam mais alto. Já era dia claro, porém do sol, só via, ainda, suas labaredas incendiando as nuvens.

O caminho localizado por cima do barranco que na seqüência acessei, mostrou-se extremamente dificultoso pela quantidade de areia fofa nele contido. Além disso, a vegetação rasteira composta por intrincados ramos que se estendiam em todas as direções, amiúde, se enroscava em minhas botas e por várias vezes quase fui ao chão. 

Diante de mais esse empecilho, resolvi caminhar pela praia, utilizando a polida e clara faixa que se entendia entre o oceano e as dunas. Porém, ali, também, não encontrei guarida. A areia cedia facilmente e minhas botas afundavam, dificultando sobremaneira meu avanço. Fui labutando, entremeando as trilhas, na tentativa de encontrar melhor escolha, porém, sem sucesso. 

Finalmente, às 6 h, pouco mais de 3 quilômetros percorridos, desemboquei em calçamento urbano. 

Este foi, sem dúvida, o trecho mais difícil e cansativo que venci em todo o percurso.

De algum tempo ouvia gritos e assobios em minha retaguarda e quando me voltei para verificar sua origem, visualizei o Valcyr que vinha a passos rápidos em meu encalço. 

Aguardei-o pacientemente e, ao aproximar-se, contou-me que havia perdido hora por conta de falha no despertador. Face ao imprevisto, seguira minhas pegadas pela praia e correra um bom trecho até conseguir me avistar. 

A partir dali, seguimos juntos, enquanto o astro-rei já apontava sobre o telhado das casas. Logo à frente dobramos à direita, porquanto, a passagem pela praia estava obstruída por um grande muro. Segundo me ilustrou o guia, trata-se de uma área de estudo de vida e fauna marinha, mantida pela Universidade Federal do ES.

Não me sentia bem. Já há algum tempo, ligeiro mal-estar me atazanava, certamente reflexo da ingestão desmedida do café pela manhã. Enquanto ladeávamos o extenso Campus, fui invadido por uma intensa dor estomacal, acrescida de náuseas.

Concomitantemente, meu coração disparou e ficou a bater em assustada fúria, ao mesmo tempo em que sentia um aperto na garganta, um estonteamento momentâneo, certamente causado por ligeira queda de pressão.

Prontamente, degluti uma barra de chocolate que portava, enquanto fazia um esforço enorme para controlar a voz e os pensamentos, evitando que minha sintaxe seguisse o desordenado ritmo cardíaco. Sentia-me apreensivo por uma angústia e incômoda indisposição física, cuja origem e extensão desconhecia.

Mas, por obra divina, lentamente a dor foi arrefecendo e já me sentia melhor, quando depois de contornar todo o terreno destinado à pesquisa oceânica, retornamos a bordejar o mar, desta vez, caminhando por ruas habitadas, ladeadas por construções recentes.


"....favorecendo sobremaneira nossa caminhada, que..."

    

O piso, em terra batida, estava socado e firme, favorecendo nossa locomoção. Num ritmo uniforme, às 7 h chegamos à Ponta da Fruta, último balneário de Vila Velha, localizado no KM 36 do caminho.

Uma singela capelinha, localizada no alto do morro, serve como ponto de referência para a região. Segundo a história, Anchieta costumava pernoitar nesse local quando de sua peregrinação quinzenal à Vitória.

Após contornar o promontório, acessamos pequena colônia de pescadores, porém, o comércio local se encontrava ainda fechado àquela hora. E, os sanitários destinados aos turistas, instalados junto a um muro, se achavam trancados a cadeado, impedindo que os utilizássemos. O jeito foi prosseguir em frente. 

A partir dali o roteiro seguiu sempre pela praia, que ali possui larga extensão. Era uma segunda-feira com pouquíssimos banhistas à beira-mar. A maré estava baixa e a areia grossa mostrava-se firme e pilada. 

O dia estava translúcido e do mar soprava gostosa brisa, favorecendo sobremaneira nossa caminhada, que prosseguimos em compasso tranqüilo e uniforme.

 
"...Assim, íamos nos alternando durante o percurso, ora ele à frente, ora..."


O Valcyr estava de poucas palavras, taciturno, envolvido num silêncio recalcitrante. Assim, íamos nos alternando durante o percurso, ora ele à frente, ora eu, numa cadência livre e ampla. Ambos calados, cada um imerso em seus mais profundos pensamentos. 

Sobre um piso endurecido pela preamar, passamos em seqüência pelas praias Rasa, Dunas d’Ule, Tropical, da Baleia, e a da Reserva Paulo César Vinhas, área de preservação ambiental. Num total de 14 quilômetros, que vencemos num ritmo constante, em 3 h.

O Guia persistiu com a cara amarrada durante todo esse trajeto e andava visivelmente possuído de um humor elegíaco. O motivo dessa tristeza toda não me declinou e eu, por delicadeza, não lhe indaguei.

Às 10 h 30 m, chegamos na Pedra da Tartaruga, um exótico maciço de penhascos com a forma deste animal, que avança até o mar, obstruindo a passagem de veículos e pedestres. 

Suas rochas se encontram imbricadas e amalgamadas com total solidez, que não foi difícil escalá-lo e, ao transpô-lo, descemos defronte a Lagoa dos Caraís, também conhecida como da Coca-Cola ou Abaeté, devido à coloração escura de suas águas. 
 
Imediatamente, o Valcyr se livrou das papetes, camiseta, apetrechos e, ainda de bermudas, fez demorada imersão no caudal avermelhado. Não resisti ao convite que ele me fez e, sem descalçar as botas, deitado da margem, imitei-o, imergindo toda parte superior de meu corpo, alcançando, de imediato, agradável refrigério.

Após um tempo de mergulhos e descontração, recolocamos as vestimentas e prosseguimos caminhando. Longo à frente, no KM 51, deixamos a orla, adentrando à direita por uma estradinha de terra e, trezentos metros depois, exatamente às 11 h, aportávamos à pequena vila de Setiba, final de nossa etapa naquele dia.

Ali, fiquei hospedado na Pousada do Paulista, num “flat” bastante confortável. O proprietário, conterrâneo, de peculiar sotaque capixaba, me acolheu festivamente, com muito carinho e apreço. 

Para almoçar utilizei a barraca do Alemão, um quiosque edificado junto à orla da praia que se encontrava em processo de faxina e manutenção, pós-intenso movimento domingueiro. Mesmo assim, serviu-me comida simples, porém, farta e saborosa. 

Enquanto degustava a refeição debaixo de enorme amendoeira, tinha uma visão privilegiada e inesquecível de toda costa capixaba que iria percorrer no dia seguinte. A minha frente superpunha-se o horizonte a não ter fim.

A atmosfera de sossego e paz que me envolviam, além da magnífica “fotografia” com que era contemplado, compunham um quadro extremamente harmonioso, onde o homem e a natureza se complementavam. Sem dúvida, um dos mais belos “cenários” que desfrutei durante toda a caminhada. 

Setiba é um distrito de Guarapari, e seu nome provém da junção de Cer ou Ser = concha usada na confecção de brincos, e TYBA = sufixo que indica quantidade, significando “conchas em abundância”.

Ali, o mar forma pequenas enseadas de águas cristalinas, verdes e calmas, praticamente sem ondas, ideal para crianças e prática da pesca de arremesso. Faz parte do Parque Estadual Paulo Vinhas, reserva que reúne restinga, lagoa, praia e arquipélago.

Mais tarde, após descansar, tomei um ônibus circular que ali faz seu ponto final, e fui até a “city”. Lá, aproveitei para visitar suas praias centrais, ir ao banco sacar dinheiro, bem como adquirir mantimentos, parte do qual utilizaria para preparar meu jantar.

No retorno, com o sol quase se pondo, fiz um calmo giro pelas imediações. Depois, parei para conversar com meu anfitrião. Este, alegremente, serviu-me uma “branquinha”, pura e especial, enquanto, entre sorrisos, relatava-me a seguinte história:

Certa vez alugara um de seus apartamentos, para um período de 4 dias, a um tradicional inquilino mineiro que ali comparecia com freqüência em companhia da família.



02/04/2007 - Maciço da Pedra da Tartaruga - Setiba/ES


Este trouxe dois garrafões de pinga para consumo e, como reconhecimento da longa amizade, deu-lhe um de presente, confiante de que aquele que trouxera para si seria suficiente no interregno de permanência nas acomodações da praia.
  
Entretanto, logo na manhã do terceiro dia apareceu o amigo “das Gerais” pedindo-lhe, encarecidamente, que lhe “devolvesse” o garrafão doado, enaltecendo a qualidade do “aguardente” e, por conta disso, confessando que o seu já havia se “evaporado”. Naturalmente, prometia trazer-lhe nova e dobrada oferenda, na próxima visita.

Contudo, meu hospedeiro invocando o pretexto de que: “presente é presente, e não comporta devolução”, mesmo sob insistentes apelos, recusou-se a restituir a dádiva recebida. 

E a “pinguinha” que alegremente degustávamos naquele momento, conforme confessou entre boas risadas, era proveniente daquele “famoso” mimo.      

Mais tarde preparei saboroso lanche na cozinha do “flat”, meu jantar daquele dia. Ao fechar a janela notei que a noite apresentava-se cálida e perfumada. E o céu rutilante de estrelas, refletia a beleza da lua, clara e enorme.

Pouco antes de deitar, enquanto fazia minhas anotações, o Paulista gentilmente apareceu trazendo uma bandeja contendo uma garrafa térmica, bem como frutas e pães, provendo antecipadamente meu café do dia seguinte. Às 21 h, exaurido pelas emoções do dia, adentrei em sono profundo e restaurador. 

Dele fui desperto brutalmente na madrugada, pós-tormentoso pesadelo e, por conta do sobressalto advindo, quase caí da cama.

Suor copioso escorria-me pela fronte. Sentia arrepios de frio e, nesse despertar súbito, dentro da brusca transição entre o incubo atroz e a realidade, senti-me confuso por momentos. 

Mais recomposto enchi os pulmões de ar, respirei fundo, ingeri um copo d’água e, vagarosamente fui me acalmando, até conciliar o sono novamente.

IMPRESSÕES PESSOAIS – Uma etapa agradável, mormente pelo percurso cumprido na areia, passando por praias desertas, sob a égide da reserva Paulo César Vinhas. Porém, como os demais, sem nenhuma sombra. E, a relembrar o trecho vencido logo após a Barra do Jucu, entre os KM 27 e 30, para mim, o mais árduo de toda a jornada.


 
3ª Etapa – Setiba a Meaípe – 24 quilômetros


Como de costume, levantei às 4 h e após a ingestão do desjejum e breve alongamento, partimos, eu e o Valcyr, às 5 h.

Inicialmente, seguimos por uma estrada de terra arenosa beirando a praia de Setiba. A iluminação urbana nos auxiliava e depois de 15 minutos, após percorrer algumas ruas ladeadas por habitações simples, atravessamos a ponte sobre o rio Una, já no KM 57.
 


Então, abandonamos a estrada, fletimos à esquerda e seguimos caminhando pela areia, já na famosa praia de Santa Mônica. O piso estava firme e a maré baixa, de forma que às 6 h adentrávamos o bairro do Perocão, cujo nome é uma homenagem ao chefe da tribo que ali vivia.

No local, o mar forma piscinas naturais na maré baixa, tornando-a especialmente apropriada para pesca. Inclusive, abriga em sua orla, típica aldeia de pescadores.

Após transitar por algumas ruas estreitas e desertas, acabamos por sair novamente à beira-mar, entretanto, num local cheio de pedras e árvores que impedem a passagem de transeuntes, já na praia do Boião.

Seguindo a sinalização, subimos por dentro de um pasto, atravessamos pequeno bosque, saltamos algumas pedras e acessamos as Três Praias que conforme o nome diz, são três orlas separadas por pequenos rochedos, praticamente sem ondas, com água esverdeada e transparente, compostas por areia fina e escura. Atualmente, o acesso de veículos se encontra fechado, por conta de disputas judiciais.

Na aurora cálida do amanhecer, só o pipilar das aves notívagas e a arrebentação ininterrupta das ondas pareciam dar um sopro de vida à paisagem sombreada que dali divisávamos.

 


A primeira praia, de nome Saco ou Ancoradouro, com 160 metros de extensão, foi vencida pela areia, à beira de um muro recém erigido por uma imobiliária. Segundo o guia, ali será brevemente construído um luxuoso “Resort”.

Após transpor um cimo pedregoso, acessamos a segunda, nominada praia de Leontina (nome da antiga proprietária e residente da fazenda local), de exótica conformação, com extenso gramado sombreado por coqueiros e 280 metros de comprimento, que também vencemos pela orla. 

Em seguida, atravessamos a praia Mateus Lopes, que com 400 metros de extensão, é a maior das três. O local é poético e famoso, pois, na década de 70, foi palco de um importante Festival de Música Brasileira, conhecido como MPB-Shell.

A partir dela, já na praia dos Adventistas, o caminho torna-se realmente dificultoso, todo ele vencido sobre rochedos. Explica-se, pois, o seletíssimo e fechado “Condomínio Aldeia da Praia”, construiu seus muros até quase a beira do mar, restringindo a passagem em seu interior.

Havia ali, aquela beleza violenta, sincera, das coisas puras e selvagens. No entanto, foi, um trecho deveras cansativo, verdadeiro “rally” serpenteante pelas pedras, algumas delas limosas e, por isso mesmo, extremamente escorregadias, exigindo muito cuidado e atenção, agravado pelo peso da mochila que carregava.

Nesse toque, vencemos as praias dos Capixabas, dos Campinhos, das Conchinhas e a de Netuno, em cuja orla, fincada sobre uma grande pedra, dentro da água, existe uma estátua dessa divindade, que segundo os gregos, presidia o mar.



   

Finalmente, após alguns sustos, resvalos, deslizamentos e malabarismos, às 7 h, chegamos na simpática praia da Cerca, de pequena vastidão, já na zona urbana da cidade de Guarapari.

Após ladear pequeno rochedo, saímos diretamente na grande e bela praia do Morro. Com 4 quilômetros de extensão, sua orla está muito bem estruturada, com inúmeros quiosques, bares, restaurantes e bem cuidadas passarelas para pedestres.

Numa padaria logo adiante, paramos para tomar café. Aproveitei para ingerir um analgésico, pois o joelho direito, em razão do esforço envidado, estava bastante dolorido. O Valcyr me imitou, vez que também sentia dores na virilha e cãibras nas panturrilhas.

Bem dispostos, com novo ânimo, prosseguimos pelo calçadão, em ótima cadência, até desembocar na praia de São Pedro, na verdade, um grande ancoradouro para barcos pesqueiros.

O trecho ali era todo urbano, assim, seguimos ladeando a praia por ruas calçadas até uma grande avenida. Por ela, atravessamos a ponte que transpõe um braço de mar, ligando a ilha ao continente.

 


Prosseguimos por uma rua ascendente até o cimo do morro Atalaia, em cujo pé, do lado oposto, encontra-se o local onde os padres costumavam matar a sede. Descemos o barranco por uma escada de madeira, segundo o guia, recentemente construída para facilitar o acesso ao “Poço dos Jesuítas”, que se localiza na praia de mesmo nome.

O “Poço de Beber” como é chamado, guarda uma nascente de água potável, com uns 40 cm de profundidade, cujo excesso escorre pelas pedras. Tal cavidade foi aberta em meados do século XVI, e a construção que a abriga, em forma de cúpula, foi erigida com pedras e massa composta de areia, conchas trituradas e óleo de baleia, resguardando preservada a concepção arquitetônica da época, para tal tipo de edificação.

Após, breve pausa para observação e fotos, continuamos pela estreita orla e, logo à frente, por um rochedo, galgamos novamente à urbe, seguindo, então, por uma rua asfaltada até a ladeira Salvador Souza.

 


Ao final desta, encontramos fincada no topo do morro, a igreja de Nossa Senhora da Conceição, também conhecida por “Igreja das Conchas”, construída pelo Beato José de Anchieta, com a ajuda dos índios, em 1585, quando da fundação da cidade, e que servia para residência dos padres em missão e catequese.

Prosseguindo, mais abaixo visitamos as ruínas de uma igreja edificada em 1677, a mando do donatário da capitania, Sr. Francisco Gil de Araújo. Infelizmente, um incêndio impediu o término de sua construção e dela restam apenas o “frontis”, todo esburacado, o campanário, e as ruínas sobrepostas que, inclusive, já foram utilizadas como cemitério e cadeia. 

Guarapari, também conhecida pelo codinome de “Cidade Saúde”, tem seu nome derivado de Guará, que na língua indígena quer dizer garça, e pari, armadilha, ou seja, significa, armadilha para pássaros. Conta atualmente com 120 mil habitantes.
 
Após curta pausa para hidratação na Estação de Tratamento de Águas da cidade, continuamos por ruas urbanas, agora em rápido descenso, retornando, mais abaixo, à orla marítima. 

Caminhando novamente pelo calçadão, passamos em seqüência pelas praias das Virtudes e, depois, pela das Castanheiras, que com sua extensão de 140 m, é a mais freqüentada da cidade.

O calor estava opressivo e eu transpirava abundantemente quando, depois da praia dos Namorados, às 9 h, transpusemos a última praia urbana, talvez a mais conhecida dentre todas, a das “Areias Pretas”, fruto de sua cor escura. Explica-se tal fenômeno pelo fato de ser constituída por areias monazíticas, de alto teor radioativo.

No final da orla ascendemos por uma longa escada, já na Pedra do Crisoste, retornando à zona urbana. Mais à frente acessamos uma rodovia e por ela seguimos, utilizando seu acostamento, em sentido contrário ao fluxo de veículos. Face o exíguo espaço destinado ao pedestre, caminhamos em fila indiana, cada um em seu ritmo.

Sob um sol impiedoso, prosseguimos sem pausa, tendo à nossa esquerda, a uns 200 metros de distância, a famosa praia do Riacho, um dos bons recantos pesqueiros daquela orla, sendo pouco freqüentada por banhistas devido as suas fortes ondas. 

Carros e caminhões passavam em alta velocidade ao nosso lado, preocupando-nos com nossa segurança, obrigando-nos a prestar atenção redobrada no trânsito e, por conta disso, dificultando a introspecção.

No céu, indiferente, o astro-rei realizava seu ciclo diário. Seus raios tostavam minha epiderme. Desanimado, daria tudo naquele instante, por uma nesga de sombra, todavia, nenhuma se apresentava no horizonte. Nessas horas, há que se afrontar o caminho com intrepidez, sofrer as privações com paciência e suprimir as distâncias pela pertinácia.

Depois de caminhar por 5 quilômetros numa cansativa toada, às 10 h, no Bairro Ipiranga, KM 74 da Rota, sempre por ruas asfaltadas, adentramos a um nobre bairro, denominado “Nova Guarapari”. 

Em seqüência, passamos pelas belíssimas praias de Guaibura, Peracanga (Bairrista), Mucunã e Bacutia, seletas componentes da famosa “Enseada Azul”. Sempre sob a tortura do sol calcinador que denunciava, pela força desusada de seus dardos, quiçá, algum temporal em formação.

Após galgar difícil elevação e transpor a praia dos Padres, finalmente, às 11 h, KM 78, chegamos a Meaípe, que quer dizer “rio do povo”, final de nosso trajeto do dia. Segundo os moradores locais, “o pedaço de mar” mais disputado de Guarapari.

Constituída por areias grossas, e sombreada por castanheiras, é a praia mais famosa e badalada do Sul capixaba, devido os seus “agitos” noturnos na alta temporada.  Com efeito, sua orla de 4 quilômetros é de incomum beleza, sendo recortada por inúmeros recifes que compõem, pelo contexto, um cenário muito poético. 

Ali fiquei hospedado na Pousada Solar de Meaípe, de excelente estrutura, onde fui distinguido com um tratamento de primeira classe.


                      03/04/2007 - Chegando em Meaípe/ES

Estava exausto e desidratado, porém, pós-demorado banho, o cansaço desapareceu e somente a fome atazanava-me, ferozmente. Assim, por comodidade, almocei no próprio restaurante do hotel. Por sinal, num “buffet” composto por grande diversidade de legumes e carnes, todas de excelente qualidade e sabor.   

Depois de merecido descanso, saí a passear pelas ruas do balneário que, por sua fama e riqueza, abriga um número considerável de pousadas e hotéis, a justificar a pujança de sua orla e a expressiva afluência de turistas.

É unanimidade ali, os visitantes apreciarem o delicioso “bolinho de aipim” produzido e comercializado no quiosque da Zezé, que se localiza defronte ao Restaurante Cantinho da Curuca. Inclusive, catalogado no “Guia Quatro Rodas”, como o melhor acepipe desse gênero vendido no Espírito Santo. 

Todavia, mesmo consciente de sua celebridade, abstive-me de prová-lo por ser alérgico a frituras.

Quando retornava ao hotel, observei a tarde caindo triste sobre o mar agora muito azul, coroado de espumas, nas quais os raios solares punham uma coloração rósea.

Como que tangido por uma força centrífuga irrefreável, postei-me de frente para o sol que começava a se aproximar do horizonte, pronto para seu mergulho diário no mar. 

Lentamente, o céu tornou-se avermelhado e as águas se tingiram de um ouro brilhante, pulsando em ondas harmônicas, proporcionando-me um espetáculo tão surpreendente, quanto instigante.

Para jantar, preferi degustar apenas um lanche que adquiri nas imediações de onde me encontrava hospedado.

Extenuado, deitei-me por volta das 20 h 30 m, e a noite fluiu maravilhosa, calma, sedativa.


IMPRESSÕES PESSOAIS: Foi, sem dúvida, a etapa mais difícil de todo o percurso. Primeiramente, pela desgastante transposição dos rochedos que compõem as Três Praias e seqüentes. Depois, o cansativo percurso vencido em zona urbana. E, finalmente, o longo trecho percorrido sobre o asfalto após a cidade de Guarapari. Acresça-se, ainda, o opressivo calor reinante, naquele dia. Mesmo assim, uma jornada de incomum beleza, com notável valor histórico pelos monumentos visitados.


 
4ª Etapa – Meaípe a Anchieta – 23 quilômetros

Aquele seria o último dia de jornada, por isso mesmo, cercado de grande expectativa. Como nos dias anteriores, levantei-me pontualmente às 4 h e, após ingerir frutas e uma xícara de café, partimos às 5 h, aproveitando o frescor da madrugada. 

Inicialmente, seguimos por terra, perfazendo a orla da praia de Meaípe, até o final. Num promontório, desviamos à direita e, logo acessamos o asfalto, seguindo, então, pelo acostamento da rodovia.

Quarenta e cinco minutos de caminhada, 4 quilômetros percorridos, passávamos defronte a entrada do pequeno distrito de Aldeia Maimbá, que se situa às margens de imponente lagoa de mesmo nome, a segunda maior do estado, e ainda pertencente ao município de Guarapari.

Prosseguimos em ritmo uniforme e às 6 h, atravessávamos defronte a portaria da Samarco Mineração, sólida e importante empresa que se dedica ao beneficiamento, pelotização e exportação de minério de ferro. Fundada em 1977, seu controle acionário pertence à Companhia Vale do Rio Doce (maior exportadora de minério de ferro do mundo) e a BHP Billinton (terceira maior produtora mundial de minério de ferro), cada uma detendo 50% das ações. 

Os primeiros raios solares já deslizavam suavemente pela atmosfera, levemente embaciada, começando a dourar a fimbria das águas que dali divisava.

Mais dois quilômetros de cansativa caminhada e, finalmente abandonamos a rodovia, adentrando à esquerda, seguindo, então, por uma larga estrada de terra batida, enquanto os raios solares iluminavam por completo o dia nascedouro, transmitindo mensagem de vida.

Rapidamente, vencemos uma pequena elevação e, no KM 89 da rota, adentramos em Ubu, uma pequena vila que já pertence ao município de Anchieta. Localizada em uma aldeia de pescadores, é uma praia de águas calmas, com uma fonte de água doce e diversas castanheiras.

O distrito encontra-se celebrizado por um episódio envolvendo o esquife do Padre Anchieta. Conduzido em procissão por três mil índios desde Rerigtiba para o Colégio de São Tiago onde seria sepultado, o esquife tombou naquela orla fazendo os índios exclamarem Abá Ubú! Abá Ubú! ("o santo caiu, o santo caiu").


 04/04/2007 - Caminhando pela orla da Praia de Guanabara


Nosso estômago reclamava por alimento, todavia, face à notoriedade da hora, não vislumbramos nenhum comércio aberto onde pudéssemos aplacar a fome que nos corroía internamente. 

O dia estava fresco, com uma brisa leve soprando do oceano e, assim, prosseguimos em bom e animado ritmo. Em seqüência, sempre por uma estrada de terra, passamos pela praia de Parati que abriga um lugarejo típico, com um casario antigo encravado entre as pedras.

E, depois, na da Guanabara, orla de mar aberto e com poucas residências, que deve seu nome à embarcação brasileira ali naufragada em 1.930. No KM 91, passamos defronte a sede do Projeto Tavivamar de Anchieta, que trabalha com o objetivo de proteger e preservar as tartarugas marinhas da espécie Caretta-caretta, que utilizam aquela área para desova, por isso não foi permitida a construção de quiosques em sua orla.

A agradável estradinha de terra seguiu paralela ao mar e logo à frente, aportamos à praia de Castelhanos, em cuja ponta se avista a imensidão do mar em um ângulo de 180 graus, numa visão de rara beleza do mundo das águas. De areia branca e águas cristalinas, totalmente livres da poluição, é famosa por sua limpeza e preocupação com o meio ambiente, tanto que é uma das duas únicas praias do Espírito Santo a obter a certificação de “Bandeira Azul”.

O diploma é de grande valia, devido ser um selo de qualidade ambiental que atende exigências internacionais. Tal símbolo ajuda a população a identificar com mais facilidade as condições da praia que freqüenta, além de elevar seu padrão de qualidade, contribuindo também para atrair o turismo interno e externo.

Atravessamos a orla de 2 quilômetros pelo calçadão e no KM 93,5 dobramos radicalmente à direita, e um quilômetro à frente saímos, diretamente, na praia da Boca da Baleia. A partir dali o trajeto é feito por dentro de linda mata ciliar que acompanha toda a orla.


 04/04/2007 - O caminho por trás da praia da "Boca da Baleira" - Anchieta/ES


O sol estava a pino e o calor já começava a incomodar. Todavia, as sombras ofertadas pelas árvores que ladeavam a estradinha proporcionavam um clima ameno e agradável, avivando nossa disposição.

Finalmente, às 9 h, deixamos a estrada de terra e adentramos em área urbana. De longe, numa curva, sob grande emoção avistei a foz do rio Benevente e, fincado numa pequena elevação conhecida como Morro da Igreja, o Santuário, ponto final de minha aventura.

Isto me infundiu novo alento e, animados, seguimos caminhando pela orla, ora em terra, ora em asfalto até que, finalmente, às 9 h 30 m, chegamos ao portal da Igreja de Nossa Senhora da Assunção.

Após, poses para algumas fotos, subi por breve ladeira até o átrio do Complexo Religioso. A capela e anexos foram construídos em 1.597 pelo padre Anchieta em seu último ano de vida com a ajuda dos índios tupis. Na obra foram usadas pedras de recife, unidas com argamassa feita de cal, mariscos e óleo de baleia.

Depois de adentrar ao templo e fazer demorada oração em agradecimento, fui conhecer a cela em que o primeiro andarilho brasileiro vivia. Ao lado da ermida, conjugado à edificação, se encontra o Museu de Anchieta que reúne objetos utilizados pelo Beato, bem como outras peças sacras de grande valor histórico.

Pude visitar, também, um oratório inaugurado em 2.002, nas dependências da igreja, dedicado ao “Apóstolo do Brasil”. Este local especial abriga duas relíquias significativas: parte de um fêmur do jesuíta, além do manto largamente utilizado em suas incessantes jornadas catequéticas. 

Nesse local sacro encontram-se expostos, ainda, uma cópia de sua certidão de batismo, bem como uma imagem de Nossa Senhora da Candelária, padroeira das Ilhas Canárias, local de nascimento do Padre.


                                                                                                                                                                                                        04/04/2007 - 09:30 h - Chegada ao Santuário em Anchieta/ES 


Mais uma “viagem” chegava ao fim, novamente sem intercorrências ou transtornos de qualquer espécie. Todavia, quem lê um simples relato como este, jamais poderá avaliar, quais e quantos os esforços, sacrifícios, renúncias e fadigas a fim de se alcançar o escopo desejado.

Por conta disso, havia uma canção de alegria em meu coração. Na alma, um misto de gratidão e orgulho por mais esse sonho realizado. Era hora de comemorar e o fiz cumprimentando e agradecendo vivamente o Valcyr pela companhia, orientação e prestatividade.

Ali, também, encerrava-se seu trabalho de Guia. Após, fraternas despedidas, cada um seguiu seu destino. Ele em direção à rodoviária local, pois pretendia retornar incontinenti ao seu lar. Eu, para a Pousada Vomar, onde ficaria hospedado.

À tarde passeei tranqüilamente pela cidade, fiz compras e aproveitei o tempo para, também, conhecer o distrito de Iriri, que além de ser composto por três belíssimas praias: Santa Helena, dos Namorados e Costa Azul, é famoso pela agitação de seus carnavais. Está localizado numa linda baía a apenas 8 quilômetros de sua sede.


IMPRESSÕES PESSOAIS: – Sem dúvida, a etapa mais curta e de menor intensidade que cumpri em todo o percurso. Vencida em consonância com a emoção da chegada, foi superada em tempo recorde face a peculiariedade de seu roteiro, bem como pelo fato do desgastante trajeto inicial pelo asfalto, ter sido sobrepujado enquanto não havia sol.


 
O PÓS-CAMINHO

    

No dia seguinte bem cedo, tomei um ônibus em direção à Vitória, hospedando-me novamente no Hotel Cannes, onde deixara guardada minha bagagem com os demais apetrechos que não utilizaria na caminhada.

Na verdade, a viagem de retorno num veículo motorizado foi muita rápida e pareceu-me um tanto estranha. Difícil descrever o que é ver a paisagem, literalmente, “voando” a meu lado, depois de passar quatro dias, laboriosamente, “palmilhando” as estradas até atingir meu objetivo final. 

Afinal, os 100 quilômetros que aproveitara intensamente, minuto a minuto, passo a passo, e me havia consumido 25 horas de caminhada, foi vencido pelo confortável “Waybus” em, apenas, 1 h 30 m.


Com Carlos Magno (Lilico) na ABAPA - Vitória /ES


Indubitavelmente, sofrível e frustrante readaptar-se novamente à civilização.

Mais tarde, conforme havia combinado por telefone, compareci à sede da ABAPA e lá tive o prazer de me encontrar com o Sr. Carlos Magno (Lilico), o atual responsável por essa Instituição. 

A recepção foi festiva, cordial, amiga. O abraço longamente represado, encontrou largas naquele momento.

Encadeamos uma conversa produtiva e interessante, onde, depois de suas concatenadas explanações, pude aquilatar todo o esforço e trabalho articulado em prol da 10ª edição dos “Passos de Anchieta”, que iria acontecer nos primeiros dias de junho.

Para fechar com “chave de ouro” minha viagem, por indicação do próprio Lilico, fui degustar a melhor moqueca capixaba de Vitória, no restaurante Partido Alto, localizado na praia de Camburi.

E, no dia seguinte retornei ao conforto de meu lar.


        

FINAL

  Palácio Anchieta - Vitória /ES

Reprisar os “Passos de Anchieta”, de admirável conotação cênica e histórica, bem como desvendar um pedaço do Estado do Espírito Santo ainda desconhecido para mim, confluiu-se numa agradável e indelével surpresa que muito me comprazeu.

Porquanto, sinto que construí ao longo desses poucos dias, edifícios de amizade, compreensão e tolerância. Também, travei e venci inúmeras batalhas, quase sempre solitárias e silenciosas.

Por isso, depois de percorrer o último “Roteiro” de grande porte traçado no Brasil que me faltava conquistar, sentia-me eufórico e gratificado. 

O ciclo, então, se fechou, perquiria-me?

De maneira alguma, respondeu prontamente meu espírito peregrino! 

A vida não é estática, mas dinâmica, pródiga de novos desafios, sempre em constante mutação e evolução.

Assim, ainda há cinzas a fumegarem, desejos de reencontros com os amigos, talvez, proibidos pelo desgaste do tempo ou pelo longe da distância.

No entanto, minha velha bota ainda persiste a acalentar e aquecer o sonho de estar, ser e caminhar ano vindouro, em busca de novos horizontes. 

Por derradeiro, uma singela homenagem às “personas” especialíssimas que conheci e com quem convivi durante minha aventura:

“Há pessoas que nos falam e nem as escutamos.

 Existem outras que nos ferem e nem cicatrizes deixam.

 Contudo, há aquelas que simplesmente aparecem em nossa vida e nos marcam para sempre!"   

(Cecília Meirelles).


04/04/2007 - Com o Guia Valcyr em Anchieta. Emoção na hora da chegada


     

Junho/2007
 
* Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br