A ENERGIA ESPIRITUAL QUE O CAMINHO NOS PROPORCIONA

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UMA ABORDAGEM PESSOAL SOBRE OS MITOS DO CAMINHO DE SANTIAGO



01. “QUANDO VOCÊ DECIDE FAZER O CAMINHO DE SANTIAGO, AS FORÇAS CÓSMICAS COMEÇAM A TRABALHAR EM SINERGIA, DE MANEIRA QUE VOCÊ CONSIGA REALIZAR SEU SONHO” – Mme. Debrill (Grande Incentivadora do Caminho, falecida em maio/2000).

Ao aproximar-se meu quinquagésimo aniversário procurava uma maneira de comemorá-lo de uma forma diferente do convencional. Talvez uma viagem, porém a dúvida, para aonde? Contatei várias agências de viagem, li inúmeros guias de turismo, e quanto mais me aprofundava no assunto, mais indeciso ficava. Então, inexplicavelmente, por três noites seguidas sonhei com o Caminho de Santiago. Sabia vagamente o que representava, porque anos antes lera o livro de Paulo Coelho. Gostara do conteúdo, mas entendi à época que o assunto era um tanto exótico e fantasioso. Curioso pela intensidade do sonho, resolvi pesquisar sobre o tema, iniciando minhas diligências pela Internet. Tudo o que eu encontrava era impresso e arquivado numa pasta que mantinha secreta, já que não dei conhecimento a ninguém dos meus planos, nem mesmo a minha família. A leitura do material colhido era sempre feita de manhãzinha quando todos em casa ainda dormiam. E como forma de me concentrar naquilo que realizaria, resolvi fazer um pequeno sacrifício no sentido de melhor me preparar, para alcançar o objetivo almejado. Assim, eu outrora um carnívoro contumaz, deixei de ingerir qualquer tipo de carne e derivados. Nesse ínterim, meus conhecimentos relacionados ao Caminho progrediram muito, meus horizontes se ampliaram, e no revellion do novo milênio tive a certeza de que meu sonho maior para 2001, era fazer o Caminho de Santiago. Como ex-seminarista e católico praticante, estivera em Jerusalém e Roma em 1997. Já era, portanto, romeiro e palmeiro. Faltava-me o diploma de concheiro. Expectante, imaginava o dia de conhecer Santiago de Compostela. Agora essa possibilidade parecia-me mais real. O problema crucial a ser enfrentado era conseguir tempo necessário, já que pensava iniciar o Caminho a partir de Saint Jean (Fr), o que me ocuparia entre viagem e caminhada, em torno de 35 dias. Minhas férias já marcadas para Abril/2001, concediam-me apenas 25 dias. Observando o calendário e fazendo alguns cálculos, descobri que se conseguisse faltar mais três dias, graças a Semana Santa, teria o tempo necessário para a empreitada. Mas antes, era preciso autorização do meu chefe. Sabia difícil o intento, vez que trabalhávamos há muito tempo, com nosso quadro de funcionários deficitário. Demorei alguns dias para falar com meu superior hierárquico, mas finalmente dia 08/01/01 reuni disposição, e fui entrevistar-me com ele, sabendo de antemão que uma negativa de sua parte colocaria todo o meu plano por água abaixo. Como precaução havia deixado uma vela acesa em homenagem a Santiago. E qual não foi minha surpresa, quando ao expor o meu pedido (sem explicitar o motivo das faltas), ele me olhou demoradamente por longos minutos, e depois sem nada perguntar, aquiesceu ao meu pleito. Ao sair de sua sala tinha uma única certeza, que meus sonhos concretizar-se-iam. Nesse momento, meu coração e minha alma transbordavam de alegria, pois recebia minha primeira graça. Já podia reservar a passagem, o que fiz de imediato. E assim, três meses depois, dia 08.04.2001, sozinho e esperançoso, deixava o Brasil rumo à Espanha. 


02. “A FÉ DISSIPA A DÚVIDA E A HESITAÇÃO, LIBERTA-NOS DO SOFRIMENTO E NOS CONDUZ À TERRA DA PAZ E DA FELICIDADE” - Dalai-Lama (Líder Espiritual).

A chegada a Saint Jean, pequena e acolhedora cidadezinha francesa de 1.500 habitantes, onde as cores: verde, vermelho e branco estão presentes em todos os locais, a lembrar-nos que estamos no país Basco-Francês, foi um marco, porque sabia ser ali o final de uma fase de expectativas, ansiosidades, sacrifícios. E o início da finalidade maior, tão almejada e acalentada a ser cumprida: chegar incólume a Santiago de Compostela.

No albergue onde me hospedei, 30 horas após deixar minha residência, tentei em vão descansar. A todo momento chegavam novos peregrinos, e o ruído dos preparativos para o dia seguinte, a conferência do material na bagagem, a arrumação da mochila, fizeram com que meu sono se esfumaçasse. Meio a contragosto, levantei-me e saí conhecer aquele lugar distante da minha realidade. Até a hora do jantar completei três voltas por dentro da cidade indo ao encontro das muralhas que a circundam, perfazendo um total aproximado de 10 quilômetros. Isto funcionou como aquecimento para meus músculos inativos, pois desde a saída de minha casa, não me exercitava.

Antes de me recolher, após o jantar, fui até a Associação dos Amigos do Caminho onde me apresentei ao chegar, e fiquei sabendo que naquela dia haviam sido carimbadas e emitidas 39 credenciais. Essas pessoas iniciariam o Caminho no dia seguinte, sendo que 25 a pé, entre elas eu, as demais, de bicicleta. Como curiosidade, pude verificar também, que no domingo dia 08.04 haviam partido 76 peregrinos. Sentia-me fisicamente muito bem, fruto dos quatro meses de treinamento que fizera no Brasil. E assim, diferentemente dos relatos que tive oportunidade de ler, dormi sereno e confiante, e levantei-me, no dia 10.04.2001, extremamente otimista e animado para iniciar meu périplo.

Apesar do dia amanhecer nublado, com um vento frio e uma chuvinha fina, alegremente fiz meu café na cozinha do albergue e às 7 horas eu parti, descendo pela Rue de La Citadelle. Alguns metros à frente os sinos da igreja de Notre-Dame badalavam. Estávamos na Semana Santa, e fiéis acorriam para a via sacra matutina. Entrei rapidamente no templo e fiz uma prece: que Santiago me concedesse a graça de vê-lo no altar-mór, em todo seu esplendor, são e salvo, ao final do percurso, noutra igreja, em outro país, oitocentos quilômetros adiante, na majestosa Catedral de Santiago de Compostela, esse era o meu ideal maior. A fé era a minha companheira fiel, me orientando firme e segura, óbice algum me faria desistir do meu sonho. Resoluto, saí da igreja e iniciei minha caminhada, transpondo as muralhas que circundam a cidade, pela Ponte D`Espagne. Ao longe, os Pirineus envoltos àquela hora numa bruma espessa, a me aguardar.


03. “O CAMINHO ESTÁ ACIMA DE QUALQUER DIFERENÇA ÉTNICA OU CULTURAL, E SERVE PARA UNIR TODOS OS CAMINHANTES NUMA JORNADA DE FÉ” – Padre Javier Navarro (Prior do Monastério de Roncesvalles).

A chegada em Roncesvalles é sempre um alívio para nosso corpo dolorido pela marcha, e um bálsamo para nosso ego. Vencida à duras penas a primeira batalha, eufórico procurei pousada no albergue que se localiza dentro do Monastério de Santa Maria de Roncesvalles. Essa maravilhosa construção, uma das primeiras em estilo gótico de toda a Europa foi consagrada em 1219. Em seu interior, acolhe-nos para a tradicional missa dos peregrinos que se realiza diariamente às 20 horas. Na emocionante cerimônia que assisti, concelebrada por três padres, foram feitas invocações em latim e solfejados soberbos cântigos gregorianos. Ao final da celebração os peregrinos são chamados à frente do altar-mór e em tom solene, è-nós dirigida a primeira benção em solo espanhol, exatamente da mesma forma, com os mesmos ritos e fórmulas feitos na Idade Média. Nessa hora mágica, nosso cansaço como por encanto desaparece, robustecidos sentimos nossa fé aumentar um pouco mais. Alcancei Pamplona no terceiro dia de caminhada, e após ultrapassar suas largas e altas muralhas e transpor o rio Arga por uma majestosa ponte romana, entrei na cidade pela “Porta da França”. É a primeira grande metrópole da Rota e nos surpreende pela beleza de suas construções antigas, algumas preservadas desde a fundação da cidade, vinte e cinco séculos atrás.

No outro dia à tarde chegava à Puente de La Reina, depois de fazer um pequeno desvio para conhecer a belíssima capela de Eunate, um dos maiores ícones do Caminho. Era Sexta-Feira Santa, e à noite acompanhei, por suas ruas tortuosas e becos escuros, a tradicional procissão que lá se realizava, reafirmando no meu entender, a universalidade dos ritos e religiões. Apenas como curiosidade, na Espanha, diferentemente do Brasil, as velas acesas nos templos são inflamadas eletricamente. Insere-se uma moeda no valor condizente com a quantidade de velas que se deseja ver iluminadas, e elas permanecem ignescentes por vinte e quatro horas. Prático, limpo, e não poluente. 




04. “TER FÉ SIGNIFICA MANTER A FIDELIDADE, MESMO NÃO ENTENDENDO O QUE ESTÁ ACONTECENDO, MESMO QUANDO O MAL PARECE SER MAIS FORTE” - Biblia Sagrada (Eclesiástico).

Carregava em minha mochila mapas e diferentes guias sobre o Caminho. Um deles dividia a Rota em 30 etapas e o outro em 31. No início imaginei fazer um Caminho mais light, em 31 dias. Porém, em Los Arcos, no sexto dia, sentindo-me fisicamente preparado e espiritualmente motivado, resolvi vencer o percurso todo em 30 etapas. No oitavo dia saí ao amanhecer de Nájera na expectativa de alcançar Santo Domingo de La Calzada antes das 13 horas, isto porque precisava cambiar dinheiro e sabia que os bancos fechavam mais cedo. O tempo estava bom, e às 12h30min. cheguei em meu destino. Após passar pelo banco, fui conhecer a bela igreja da cidade, famosa pelo casal de aves vivas que conservam até hoje no altar principal, lembrança do milagre lá ocorrido no século XI. E enquanto estive no recinto, o galo cantou por várias vezes, o que representa segundo a lenda, bons fluídos a quem lá estava presente. Visitei também o túmulo onde o Santo encontra-se enterrado, está localizado debaixo desse altar, e segundo a tradição para se alcançar uma graça é preciso dar doze voltas ao redor da lápide. Assim o fiz, e meu pedido foi novamente dirigido a Santiago, no sentido de me proteger e me conduzir são e salvo até sua Catedral.

No albergue da cidade, enquanto preenchia a ficha de entrada, chegou um peregrino venezuelano, que também havia deixado Nájera naquela manhã. Convidou-me para acompanhá-lo até Granon, oito quilômetros adiante, posto que desejava entrevistar-se com o Padre daquela localidade, famoso pelos conselhos que proferia. Era ainda muito cedo para me albergar, então aceitei seu convite, seguindo-o. Duas horas depois, chegávamos à pequena vila, porém para nossa decepção, soubemos que o Padre se encontrava fora da cidade e só retornaria no dia seguinte. Frustado, mas ainda com algum ânimo, decidi seguir sozinho até Montes de Oca, quatro quilômetros à frente. Depois de andar por mais duas horas sem encontrar a cidade, exausto, decidi parar e conferir o mapa do percurso, que por comodidade havia guardado na mochila. E para minha surpresa, constatei que já havia caminhado 36 quilômetros, Montes de Oca estava na etapa do dia seguinte, e eu me encontrava a 9 quilômetros de Belorado, a cidade mais perto. Como o próximo albergue ficava lá, mesmo estando extremamente estafado, segui em frente. No Caminho, durante o percurso, pedia ajuda a Santiago, orando com muita fé. Exausto, cheguei às 19 horas em Belorado. O albergue encontrava-se completamente lotado. Sem alternativa, pernoitei num colchão que fora colocado no chão, pelo hospitaleiro, e jamais tive um sono tão reconfortante. Antes de dormir, refiz mentalmente a jornada sobre-humana cumprida, constatei que sem planejar, havia caminhado duas etapas num único dia, perfazendo um total de quarenta e cinco quilômetros, e por isso, se não ocorresse nenhum contratempo, alcançaria Santiago de Compostela em 29 dias. Esse avanço realmente foi necessário? O tempo encarregar-se-ia de provar-me, que sim.


05. “O CAMINHO É UMA EXPERIÊNCIA SUPERIOR, ALÉM DAS RELIGIÕES, QUE REAFIRMA A CADA PESSOA O SEU VERDADEIRO DESTINO: SER FILHO DE DEUS” – Tomás Martinez de Paula (Hospitaleiro do refúgio de Manjarín).

Saindo de Belorado no dia seguinte, fui ultrapassado por um grupo de quatro pessoas que andavam num ritmo acelerado, todos com uma lata de tinta spray na mão. Conversando com o chefe do grupo, Sr. Luis, informou-me que eram membros da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago, e residiam em Burgos. Disse-me que a cada seis meses conseguiam uma semana de férias, que utilizavam, voluntariamente, para remarcar o Caminho da Província de Burgos. Como norma, cada Província tinha o dever de manter o itinerário, dentro do seu território, em perfeitas condições de uso. Com ele caminhavam sua esposa, seu pai, um senhor muito bem disposto de 70 anos, e seu filho de 16 anos. Andavam lépidos, estavam sempre alegres e prestativos, e percebi que após sua passagem, os sinais se tornaram mais nítidos e minhas dúvidas quanto à direção a seguir no Caminho haviam se dissipado, com a revitalização das setas amarelas. Presto minha homenagem e meu sincero agradecimento a esses voluntários anônimos que silenciosos realizam um importantíssimo trabalho em prol dos peregrinos.

Em San Juan Ortega, após a missa das 18 h, celebrada pelo famoso padre Dom José Alonso, foi servida no recinto do Mosteiro que lá existe, como de praxe, a famosa “sopa de alho”. Reunimo-nos, 36 peregrinos, na ocasião, e a pedido do Padre cada um disse sua nacionalidade. Éramos provenientes de 11 países distintos, e o milagre segundo o cura, seria explicar porque tantas pessoas de diferentes países, credos e raças estavam juntos naquele dia, naquele lugar, unidos pelo mesmo objetivo. Depois indagou-nos o motivo que nos movia a fazer o Caminho. Após ouvir as mais variadas assertivas, de modo enigmático, concluiu, enquanto apontava o indicador para o alto: cada um de nós fora chamado para aquele desafio, e estávamos simplesmente a se orientar naquele período, por desígnios do Altíssimo. Segundo ele, a explicação lógica do porquê cada um estava fazendo o Caminho, nós somente saberíamos quando o finalizássemos.

No dia seguinte, 20.04.2001, levantei-me cedo e segui em direção a Burgos, a maior cidade que o Caminho atravessa. Fazia muito frio, e ao chegar em Villafria, cidade em conurbação com a metrópole, observei um termômetro público a exibir naquela hora a temperatura de zero grau. Caía uma nevasca fina e eu combalido pela caminhada que nesse dia vence os Olmos (pedras) de Altapuerca, trilhei o Caminho que perpassa toda a urbe, para ir me hospedar no Albergue Municipal localizado no outro extremo da cidade, aninhado no seio de um parque. A hospedeira Maria, brasileira de Minas Gerais, recebeu-me radiosamente. Após um reconfortante banho e um aromático chá quente, retornei debaixo de chuva, para conhecer a Catedral de Burgos, cuja construção em estilo gótico teve início nos anos 1221, porém só foi concluída no século XVI. É uma das mais belas e conhecidas nesse estilo, somente comparável às de Paris, Viena e Colônia. Externamente apresenta dezenas de pináculos e torres rendilhadas de gárgulas direcionadas para o céu, numa exuberância a deixar qualquer olhos encantados com tanta beleza. No seu interior, inúmeros arcobotantes sustentam o colosso, ricamente adornados com imagens de santos e reis. Uma cúpula gigantesca terminada em forma de estrela com oito extremidades intercepta as naves laterais e central. Em seu interior, encontra-se o túmulo de El Cid, e em uma de suas inúmeras capelas, perante uma escultura de Jesus pregado na cruz, pude orar envolto num clima tão real, que me recordei da lenda em que os cabelos e as unhas do Cristo crescem, como se fosse um ente vivo. Mais um fenômeno místico a alimentar nossa crença, pois dizem que ali já se realizaram incontáveis milagres. De minha parte, avaliei que o verdadeiro milagre era eu estar lá, em terras sagradas ibéricas, trilhando a pé uma rota milenar. Milagre era estar lá há quase duas semanas, buscando meu sonho, não obstante tantas dificuldades. Milagre era o bem estar do corpo, eu não ter desistido nos Pirineus e não ter cedido a muitas tentações para abandonar a Rota. Milagre é essa perene tradição, tão antiga, ainda sobreviver nos dias de hoje, fazendo com que homens e mulheres caminhem pelos campos da Espanha e mudem suas vidas.


  

06 – “VOCÊ NÃO PODE SEGUIR O CAMINHO ANTES DE TER SE TORNADO O PRÓPRIO CAMINHO” – Sidartha Gautama (o Buda).

Depois de Burgos, iniciam-se as planuras sem fim, a famosa meseta espanhola, que se acentua, quando se transpõe o rio Pissuerga, logo após a cidade de Castrojeriz, ao adentrarmos à Província da Palência. Em Frómista, a igreja de San Martin, uma das pérolas do estilo romântico na Espanha, emocionou-me pela sua simplicidade e beleza. Partindo de Carrion de Los Condes no décimo quinto dia de caminhada, trilhei sozinho e silencioso os 16 quilômetros de uma infindável planície nua e totalmente despovoada, sem árvores, sombras ou fontes, sob um áspero solo pedrogoso, até aportar em Calzadilla de la Cueva. Foram muitas horas na mais completa introspecção, quebradas apenas pelo barulho das minhas botas contra o duro chão. Em Sahagun onde me hospedei, o Hospitaleiro ao me ver triste e melancólico, filosofou: “A vida é como esse Caminho. Há momentos difíceis, outros mais fáceis. É preciso ter paciência e esperar trechos do Caminho que despertem mais entusiasmo e confiança na busca interior”. No dia seguinte, atravessei a cidade de El Burgo Ranero, caminhando por uma reta longuíssima, nela fui ultrapassado por um trator cuja velocidade não era superior a 20 kms/hora. Fixei o olhar no meu relógio de pulso, e decorridos 30 minutos, ainda conseguia distingui-lo no horizonte, além de ouvir o ronco do seu motor. Acredito que se encontrava distante mais de 8 quilômetros a minha frente, numa planície vazia e árida. Nessa ocasião senti viver uma provação física e espiritual, pois o Caminho parece-nos uma imensa esteira rolante, onde apesar das passadas resolutas, a paisagem persiste austera e imutável. Nessas horas o tempo resiste em não passar, reflexivo, eu voltava meus pensamentos para dentro de mim, então meditava sobre minha vida, meu mundo, todas as minhas conquistas e desacertos, enfim, realizava uma retrospectiva de tudo o que tinha vivido até aquele momento.

No dia ulterior cheguei, finalmente, a Leon, cidade próspera e aprazível, com uma belíssima Catedral Gótica, afamada por seus soberbos vitrais com mais de 780 conjuntos recobrindo 1800 metros quadrados de paredes. À tarde visitei seus inúmeros monumentos, iniciando pela Igreja de San Isidro, indo até o Mosteiro de São Marcos, hoje um imponente Hotel.
 

07. “FELICIDADE COMEÇA COM FÉ” – Moacir Franco (Cantor e Compositor).

Em Leon, fiquei ao anoitecer a verificar os mapas do Caminho, sentia-me disposto fisicamente, então animado, resolvi redimencionar as próximas três etapas propostas no guia, em apenas dois dias. Essa redução de um dia tinha contornos de desafio! Com o plano arquitetado em minha mente, no dia seguinte pernoitei na cidade de Órbigo, famosa pela imensa ponte romana que atravessa o rio que tem o mesmo nome do lugar, e também famosa pelo episódio “El Paso Honroso”, ali ocorrido no ano de 1434. Conforme programado, no dia seguinte parti com destino a Rabanal del Caminho onde pretendia pernoitar, e quatro horas de caminhada me levaram até Astorga, cidade importante da Rota, com mais de 2000 anos de história. Logo na entrada da cidade identifiquei o albergue, porém, continuei animado em meu caminho, então atravessei toda a urbe indo ao encontro do outro extremo da cidade junto as suas muralhas. Ali em frente à Catedral gótica do século XVI, situa-se ao seu lado o famoso Palácio Episcopal, sendo este mais uma maravilhosa obra do arquiteto Gaudi, cujo interior hoje abriga o “Museu dos Caminhos”. Era sábado, e após visitar demoradamente os monumentos, embora tivesse planejado caminhar mais 20 quilômetros até Rabanal, senti uma inexplicável vontade de ali pernoitar. A sensatez e a disciplina exigiam que eu seguisse em frente, porém o corpo e o coração pediam para que eu ficasse. Indeciso entre essa ambivalência de sentimentos antagônicos, voltei meus olhos para o azul do céu, tentando encontrar um indício que pudesse iluminar minha decisão. Como não o identifiquei, resolvi pedir ajuda a Santiago: se encontrasse abrigo nas imediações, ficaria. Trilhei o caminho até deixar a cidade, seguia as setas amarelas, olhando detidamente para todas as ruas convergentes, indagando, verificando esperançoso todas as placas em destaque, porém em vão, não encontrei nenhum hotel, hostal ou pensão naqueles bairros adjacentes ao Caminho. Inferi, então, que deveria seguir em frente, e enfarruscado, caminhei por mais cinco horas até Rabanal del Caminho, onde pernoitei. Antes de repousar, avaliava se realmente fizera bem em seguir em frente. Novamente o futuro iria me mostrar que, embora dividido e inseguro, havia tomado a decisão acertada. 


08. “CONSIDERO O CEBREIRO O LOCAL MAIS IMPORTANTE DO CAMINHO DE SANTIAGO” - Paulo Coelho (escritor).

Demandei ao Cebreiro, dia 01.05.2001, uma terça feira. Fazia um sol pálido, porém havia chovido muito na noite anterior. Assim, resolvi seguir a trilha pelo acostamento da rodovia. Como o Brasil e o mundo, a Espanha também guarda feriado nessa data, e o trânsito ameno, propiciou-me desenvolver uma boa velocidade nas passadas. Após caminhar cerca de 20 quilômetros sempre pelo asfalto, finalmente cheguei ao sopé da montanha no vilarejo de Herrerias e iniciei a subida, agora por terra. Estava um pouco tenso, mesmo depois de já ter caminhado 650 quilômetros, porque a serra do Cebreiro sempre foi um mito. Talvez por ser a última grande dificuldade a ser enfrentada no Caminho, ou porque abre ao peregrino as portas da Galícia. A ascensão é feita por forte aclive, é a trilha usada apenas por homens e animais. O terreno estava fortemente encharcado pela chuva recente, e foi com extrema dificuldade que galguei os primeiros metros. Na metade da trilha, exausto, parei para contemplar a paisagem circundada por morros, todos ainda com neve no topo. Às 16 h finalmente alcancei o meu objetivo, adentrar o pequeno vilarejo, onde coexistem a igreja de Santa Maria La Real e umas poucas casas de pedra, além do albergue. Na praça defronte da capela havia alguns ônibus de turismo estacionados, e crianças brincavam na neve sobre pequenos montes remanescentes da nevasca que precipitara ali em 28.04. Após um providencial banho, senti-me revigorado, decidi, então, ligar para minha família, para dar notícias e saber de todos. Enquanto estava na cabine telefônica, iniciou-se um forte vento, e repentinamente tudo escureceu. Cinco minutos depois, quando deixei o local, parecia que a noite havia caído, era um negrume só a minha volta. Começou naquele momento, então, violenta nevasca, e corri para abrigo seguro, no albergue. À noite saí para jantar envolto em todos agasalhos que dispunha, já que a temperatura externa marcava 4 graus negativos, e a neve continuava a cair em grande quantidade. Após a refeição, fui visitar a famosa igreja, cujo milagre lá ocorrido por volta do ano 1300, tornou-a célebre, quando durante uma missa o pão transformou-se em carne, e o vinho do cálice, em sangue de Jesus. Numa redoma, encontra-se ao centro um relicário de vidro e ouro, que guarda o milagre consagrado. Ao lado, no mesmo altar, estão depositados também o cálice – chamado o “Santo Graal” dos peregrinos – e a patena, originais da maravilha exaltada. Assim como os outros, também fiquei a contemplar, in loco, a carne e o sangue de Cristo, absorvido em meus pensamentos diante dos mistérios da vida.

No dia seguinte, ainda sob forte nevasca, fiz o percurso até Triacastela, trecho de 26 quilômetros, sempre caminhando pela rodovia, já que a neve havia encoberto todas as flechas indicadoras do Caminho. Lá chegando, aconcheguei-me num banco da praça para deglutir meu lanche, enquanto refletia se devia ou não seguir até o Monatério de Samos, nove quilômetros à frente. Porém, antes de me decidir, resolvi fazer um câmbio no Banco Pastor. Ali, fui surpreendido, quando o caixa se identificou como sendo também o pároco da cidade, Padre Augusto, e convidou-me para ali pernoitar, e assistir a missa que ele celebrava diariamente. Às 19 horas, compareci na pequena igreja de Santiago e assisti compenetrado a celebração. A homilia é lida pelos fiéis em tantas línguas quantas são as nacionalidades dos concheiros. Sendo eu o único brasileiro entre os 15 peregrinos ali presentes, tive o privilégio de fazer a leitura do texto em Português. Foi emocionante, lágrimas insistiram em brotar de meus olhos, ao ouvir minha língua pátria ecoando num país distante, num local estranho, ao lado de inúmeros rostos desconhecidos, ao som de uma voz tão peculiar, por mim conhecida. Sem dúvida, uma experiência única e gratificante, que só o Caminho nos oferece. 


09. “NÃO ESTRANHE OU RENEGUE NENHUM DOS ENCONTROS, DIÁLOGOS E EXPERIÊNCIAS VIVIDAS DURANTE A JORNADA, SEJA COM PEREGRINOS OU COM OS HABITANTES DA REGIÃO” - (Oitavo Mandamento Peregrino).

Dia 06.05.2001, saí de Palas de Rei com previsão de caminhar 28 quilômetros. e dormir em Arzúa, cidade que dista 40 quilômetros de Santiago. Era domingo, e pensava em chegar cedo ao meu destino a tempo de fazer minha refeição num restaurante. O tempo estava ótimo, e eu previa cumprir o percurso em 7 horas. Assim, saí às 6h30 min da manhã e às 9h45min atravessava a ponte sobre o rio Furelos que margeia a cidade de Mélida. Alguns metros à frente avistei uma pequena igreja, onde um sino repicava chamando o povo para a missa das 10 h. O Caminho passava ao lado da igrejinha, e avistei casais, alguns acompanhados de crianças, que vinham em direção à igreja com suas roupas domingueiras. O bimbalhar do sino confrangeu meu coração, e resolvi entrar no templo para orar e agradecer a Santiago. Na Espanha o “Dia das Mães” é comemorado no primeiro domingo do mês de maio. Talvez por esse motivo, encontrei o ambiente feericamente iluminado e repleto de fiéis, e ao adentrá-lo, percebi olhares curiosos e mudos a mirar-me, detendo-se em minhas botas empoeiradas e em meus trajes humildes de peregrino. Após fazer a oração, saí da igreja, e absorto como estava, segui por uma rua asfaltada, sem conferir a direção apontada pelas setas amarelas. A minha frente mais pessoas demandavam o templo. Divisei um grupo que vinha mais ao longe, nele um padre compartilhava do cortejo em animada conversa. Ao me ver, separou-se abruptamente do grupo, e literalmente, correu em minha direção. Aguardei surpreso, ao ser interpelado por ele, disse-me: venha à igreja assistir à missa que vou celebrar, e após a ela dialogaremos. Respondi-lhe que já havia feito uma visita ao templo, e estava seguindo em direção a Santiago. Porém, asseverou-me que o Caminho nascia em frente da igreja e seguia por outro lugar diferente daquele, e que se eu estava ali, era porque, mesmo inconscientemente, precisava ouvir-lhe a palavra. Argumentei que necessitava chegar cedo a Arzua, e por isso não podia assistir à missa. Ele então pediu que eu retornasse pelo menos para carimbar minha credencial. Acedi, entrando na sacristia, por uma porta lateral. Lá dentro, depois de relacionar o país de origem com a língua, identificando-me como brasileiro, no 27º dia de peregrinação, distante do Brasil e da família, já tendo caminhado 750 quilômetros, impediu-me de prosseguir e praticamente intimou-me a assistir àquela missa. E assim, meio contristado, deixei a mochila e o cajado na sacristia, e sentei-me num lugar de honra por ele providenciado, no primeiro banco da igrejinha. A missa foi rápida e agradável, no sermão ressaltou-me como exemplo de determinação, para exortar o povo a ter mais fé, nominando-me como modelo a ser seguido, que, segundo ele, fizera eu “questão de compartilhar com as pessoas ali presentes, aquela celebração”. Minha tez queimada pelas intempéries e minha roupa puída e amassada, denunciavam minha condição de peregrino, e ao final da missa fui ovacionado com uma salva de palmas. Saí da igrejinha leve e eufórico, tendo o cuidado, desta vez, de verificar cuidadosamente, para onde as setas amarelas apontavam. 




10. “HÁ MUITOS CAMINHOS. CADA PESSOA TEM UMA PERSPECTIVA DIFERENTE. AS EXPERIÊNCIAS DIVERGEM. DE CERTO SÓ O QUE EXISTE SÃO AS PEDRAS, OS CAMPOS, AS MONTANHAS, AS IGREJAS MEDIEVAIS, AS FASCINANTES PESSOAS DE CADA VILAREJO ESPANHOL. O RESTO VARIA DE ACORDO COM A SENSIBILIDADE DE CADA UM” – Santiago de Tejada (Peregrino Francês).

No 28º dia de caminhada, 07.05.2001, parti de Arzúa com destino a Santiago de Compostela, distante 40 quilômetros, com intenção de percorrer 30 quilômetros, deixando o restante para o dia seguinte, no intuito de chegar a tempo para assistir a famosa “Missa dos Peregrinos”, que se realiza na Catedral de Santiago diariamente às 12 h. Chegando em Lavacola às 14 h sentei-me numa escadaria para lanchar, visto que o albergue só abriria às 15 h. E enquanto me alimentava, sentindo Santiago tão perto, a apenas 10 quilômetros de distância, conjecturava, porque não chegar naquele mesmo dia. O cansaço era grande e a vontade de pernoitar ali era maior. Então, lembrei-me do peregrino alemão que morreu em 1999, a apenas 33 quilômetros de Santiago, cuja sepultura havia visto de manhã, senti um calafrio na alma. Ocorreu-me então, um pensamento tétrico: se eu morresse naquela noite e não chegasse a Santiago, minha meta maior? Enquanto absorto decidia, volvi minha cabeça em direção ao sul e vislumbrei nuvens escuras aproximando-se, lentamente. Era sinal de que dentro em pouco poderia chover forte, e ante mais essa ameaça, resolvi rapidamente o impasse: iria ver Santiago, naquele mesmo dia. Levantei-me com rapidez, apanhei meus pertences, e praticamente disparei em direção a Santiago. Após uma breve passagem pelo Morro do Gozo, para conhecer suas estupendas instalações e carimbar minha credencial, demandei à Catedral de Santiago em ritmo acelerado. Exatamente às 17 h 15 min chegava à imensa Basílica e ignorando todas as tradições adentrei a igreja pela porta lateral, a primeira que avistei. O templo estava quase deserto, e instintivamente me encaminhei em direção ao altar do santo, subi alguns lances de uma pequena escada, e, literalmente, abracei-me a estátua de Santiago e ali permaneci imóvel a chorar copiosamente por longos minutos, extravasando toda minha emoção pela chegada, são e salvo. Meu sonho havia se realizado, e sentia-me extremamente gratificado. Ao me desprender do Santo, observei uma pequena fila de pessoas que aguardavam a vez de também abraçar o apóstolo, mas respeitosamente e em silêncio, esperavam o fim do meu gesto efusivo. Lentamente me apartei da estátua, e saí do templo pela mesma porta por onde havia entrado. Calmamente, então, desci pela rua lateral da igreja e alcancei finalmente a Praça do Obradoiro, onde estupefato contemplei a magnífica Catedral de Santiago de Compostela pela face externa. Após a apoteótica visão, cumprindo a tradição peregrina, subi a escadaria com 33 degraus, adentrei pela porta principal, toquei a coluna central do “Pórtico da Glória”, onde a fé peregrina “cavou” o mármore em um formato similar ao de cinco dedos, e novamente me dirigi ao altar de Santiago, desta vez para visitar a cripta que guarda seus ossos em uma urna de prata. Agradecido por aquele momento singular, sentei-me num dos bancos da Catedral e experimentei o gosto da vitória e da felicidade plena. Aquela que todos nós algumas poucas vezes vivenciamos e, naquele momento fugaz, imaginamos que irá durar para sempre. 


11.”NO CAMINHO APRENDI QUE MERAS COINCIDÊNCIAS NÃO EXISTEM, QUE LÁ, NADA OCORRE POR ACASO” – Guy Veloso (Escritor e Peregrino).

Minha chegada prematura ao final do Caminho propiciou-me ficar por três dias em Santiago de Compostela, durante os quais aproveitei para conhecer, em detalhes, a cidade e seus monumentos. Também pude ir até Finisterre, bem como visitar La Corunha, a bela Capital da Galícia. Tive tempo para assistir à duas “Missas do Peregrino”, com direito de observar a secular cerimônia do Botafumeiro, também visitei o majestoso templo várias vezes à tarde, ao encontro dos peregrinos que diariamente chegavam da longa caminhada. E foi conversando com aqueles com os quais eu tinha compartilhado o Caminho que fiquei sabendo o quanto meu sacrifício ao adiantar minha jornada, não havia sido feito em vão. Isto porque, os peregrinos que subiram a serra do Cebreiro no dia dois de maio e seguinte, tiveram problemas e atrasos, uma vez que a forte nevasca, tornou a trilha intransitável, obstaculizando o acesso por aquela via, a obrigar os peregrinos a chegar ao topo utilizando a estrada de rodagem, empecilho que aumentou sobremaneira aquela etapa. Como dispunha de 31 dias para fazer o Caminho todo, possivelmente não conseguiria terminá-lo a tempo, não fossem as duas jornadas extras vividas, uma feita quase por acaso, e a outra que honrei pela minha disciplina. Mais uma vez então tive a certeza de que fui abençoado por Santiago, não só em todo Caminho, como também no meu propósito maior, que era chegar até sua Catedral, ileso, a caminhar pelas minhas próprias pernas. 




12. “A PESSOA QUE FAZ O CAMINHO, JAMAIS SERÁ A MESMA” – Ditado Popular.

Transcorridos alguns meses de minha chegada a Santiago, completos um ano dos meus sonhos premonitórios, confesso que o Caminho ainda permanece indelevelmente impregnado em minha memória. O eco das emoções lá vividas persistem a reverberar em meu espírito.

Bem sei, nem tudo no Caminho foram flores. Para superar as dificuldades e suportar as dores físicas, precisei de muita fé e firmeza em meus propósitos, e senti inúmeras vezes a presença do Santo a me amparar e proteger, atendendo-me sempre, quando por vezes lancei meu grito silencioso de socorro. Foi também um período de intenso aprendizado interior, onde compartilhar foi o verbo mais conjugado, e solidariedade, a palavra que reputo como a mais indicada para resumir o que de melhor vivi na Rota. Além de experimentar o êxtase da fé, exercitei a humildade, a tolerância, o desapego, e reaprendi a perseverar em meus propósitos.

O verdadeiro Caminho de cada um, começa realmente quando retornamos ao lar. Voltei mais forte com razão, porque quem se propôs vencer 800 quilômetros sob tantas dificuldades, pode superar com tranqüilidade os obstáculos que nos são impostos no dia a dia. Voltei também mais próximo de Deus, e mais otimista em relação ao “Caminho da Vida”. No fundo, o Caminho acaba sendo um pretexto para mudanças, para uma grande virada de rumos, sonhos e aspirações, sacudindo a poeira do tédio e da rotina sufocante do nosso cotidiano, que tanto nos angustia, sufoca e limita. Por isso, mais do que nunca, tenho a certeza de que fazer o Caminho, foi a decisão mais acertada que tomei na minha vida.

Bom Caminho a todos! Ultreya!
 
Oswaldo Buzzo - Outubro / 2001
 
* Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br