2.004 - PEREGRINAR, POR QUÊ?

        HISTÓRICO

        Uma das mais nobres práticas humanas consegue atravessar os tempos, as diferentes religiões, as modificações tecnológicas e até os processos de massificação cultural. Essa tradição plena de significados e das mais profundas intenções é a peregrinação.

        O impulso de se fazer uma peregrinação é tão antigo quanto universal. Os egípcios viajavam para o santuário de Sekket em Bubastis; os gregos procuravam os conselhos de Apolo, em Delfos, e as curas de Asclépio, em Epidauro. Na América pré-Colombiana, Quetzal, Cuzco e Titicaca eram locais sagrados.



        No mundo muçulmano, a “hajj”, a viagem obrigatória do peregrino à Meca é um dos Cinco Pilares da Fé. Os budistas aventuram-se até o Bodh Gaya, onde o Buda atingiu a iluminação; os judeus curvam-se em oração diante da Muralha Ocidental do Templo; e os hindus buscam o solo santificado de Varanasi ou banham-se nas águas cheias de cinzas do sagrado Rio Ganjes.

        A tradição católica sempre atraiu os fíéis em direção à Terra Santa e Roma. Porém, a peregrinação como conhecemos hoje, em termos cristãos, ganhou ênfase após a descoberta do túmulo de Santiago, no ano 813 d.C.

        Embora os sisudos moralistas como Santo Agostinho e São Jerônimo costumassem exortar seu rebanho a permanecer em casa, advertindo que os danos de uma peregrinação, tanto físicos quanto espirituais, podiam também desfazer seus benefícios, o fato é que peregrinar, na Idade Média, passou a ser considerado um sinal de bom caráter.

        Afinal, a vida naquela época era monótona, triste, insípida, e não oferecia qualquer atrativo a não ser marchar para a guerra ou partir em direção a um local sagrado. Num manual de psicologia medieval, John de Burg escreveu: “Contra a acídia, o trabalho físico e as peregrinações a locais santos são benéficos.” O termo “Acídia” designa uma forma especial de ansiedade, abatimento, tédio, torpor e apatia que a Renascença rebatizaria, mais tarde, de “melancolia”.

        Cada religião tem seus rituais prescritos, mas a peregrinação, em particular, parece relacionar-se a movimentos instintivos do coração humano. A frase latina “ambulare pro Deo”, isto é, “caminhar por Deus”, é tão válida e conhecida para o peregrino muçulmano atraído ao santuário de Ka’ba em Meca, quanto para um budista andando em volta de uma “stupa” ou para o cristão que parte rumo à Santiago de Compostela.

        Os peregrinos na Idade Média que demandavam à Compostela, ficavam expostos a doenças e assaltos nas estradas. Eram envolvidos, não raro, nas batalhas entre mouros e cristãos, enganados por falsos profetas e vigaristas, perseguidos por bandidos e habitantes da trilha, e tinham, ainda, seus passos obstruídos por rios de travessia perigosa e animais selvagens, dentre tantos outros problemas que enfrentavam.

        No entanto, curiosamente, eram sempre bem recebidos pelos povos nômades que encontravam no Caminho. Afinal, peregrinos e nômades têm a mesma inquietação: ambos estão sempre chegando e partindo. Parar significa ficar preguiçoso, estagnar, morrer, sucumbir ao tédio.

        Cynthia Ozick escreveu: “O visitante passa através de um lugar, e o lugar passa através do peregrino”. Ao descrever a experiência mística, Meister Eckhart usou a peregrinação como uma metáfora: “O Caminho sem Caminho, onde os Filhos de Deus se perdem e, ao mesmo tempo, se encontram.” Esta é, numa frase, a meta de todo peregrino.


O Ano Santo Compostelano de 2004

        Peregrinos de todo o mundo estão já a antecipar a sua “peregrinação” ao Lugar Sagrado, contando os meses, semanas e dias que ainda os separam do início da jornada, seja ela feita por meio mecânico, animal, caminhada ou uma combinação deles.

        Por razões de fé, espiritualidade, busca pessoal, purificação da alma, aventura, turismo alternativo ou qualquer outra situação inerente a cada peregrino, os olhares estão fixos nos milenares caminhos que convergem em Santiago de Compostela.

        O ano presente se reveste de importância especial àqueles que irão demandar à Compostela, pois, após satisfeitas algumas exigências preconizadas pela Igreja Católica, como visitar a Catedral de Santiago, mais precisamente o Túmulo do Santo Apóstolo, rezar uma oração por intenção do Santo Padre o Papa, e receber os sacramentos da penitência e da comunhão, bem como assistir à celebração da Eucaristia, todo peregrino se habilita a receber a indulgência plenária, ou seja, a remissão de seus pecados.

        A palavra “pecado” vem de “pecus”, que significa pé defeituoso, pé incapaz de percorrer um caminho. A maneira de corrigir o pecado é andar sempre em frente, adaptando-se às novas situações e recebendo em troca todas as bençãos que Cristo dá com generosidade aos que lhe pedem.

        Já “indulgência” deriva de “indulgente”, que significa alguém que perdoa. A Igreja oferece o dom das indulgências nos Anos Santos para aqueles que sentem necessidade de conversão e de arrependimento de seus pecados. Com a indulgência, o cristão recebe, então, a purificação das penas que estão a atormentar sua alma, mesmo depois de haver cumprido o rito da Confissão.


Quem pode ir ao Caminho?

        Muitas pessoas devem se perguntar: Será que eu posso percorrer o Caminho de Santiago? O Caminho está aberto para mim? O que é necessário para poder ir, estar nele?

        Esclarecendo: O Caminho de Santiago está aberto a todas as pessoas, independentemente de idade, sexo, nacionalidade ou crença religiosa. É importante saber que esta viagem não é reservada a nenhum tipo especial de pessoa. Ninguém lhe pedirá explicações sobre o motivo de sua jornada, e você está livre para ir e caminhar até Compostela quando quiser, como quiser, com quem quiser, da maneira que lhe for mais conveniente ou gratificante.

        Não é necessário ser católico para empreender a caminhada e, nem mesmo cristão. Ser jovem, atleta ou esportista não é condição para ser um peregrino. Há histórias de adolescentes e idosos, sadios e doentes, famílias inteiras, fortes e fracos, e, sem dúvida, muitos, mas muitos mesmo, iguais a você que lê estas linhas.

        Também não é necessário que você saiba justificar porque está indo. Se você não souber o motivo, certamente, descobrirá ao longo do Caminho. Ou, quem sabe, ao longo da vida, seu já conhecido caminho.

        Por ser uma viagem totalmente aberta, não há inscrições ou reservas, prazos ou regulamentos. Não há guias turísticos, não há metas pré-determinadas, nem qualquer plano de viagem, pois este deverá ser feito pelo próprio peregrino.

        O Caminho está lá, você vai na época do ano que melhor lhe aprouver; inicia a caminhada do local mais aprazível sob seu ponto de vista, anda por dia o quanto seu corpo aceitar; alimenta-se, descansa e dorme onde a fome ou a noite lhe encontrar. Você será seu próprio guia. E seu espírito, caminhando, será também seu próprio caminho.

        É importante frisar que o peregrino está lá para caminhar e não para ostentar. Uma das lições importantes que se pode receber no Caminho é a capacidade de se sentir satisfeito com o absolutamente essencial. Porém, o essencial não se mensura pela quantidade de dinheiro, pois essa medida depende, fundamentalmente, das necessidades e preferências de cada pessoa. Por isso, seja comedido, não exagere!



Peregrinar à Santiago de Compostela, a pé

        A verdadeira “peregrinação” nasce de um convite divino plantado em nossa alma, e brota dela através de um desejo. Quanto mais ardente ele for, maior a chance desse anseio se tornar realidade e vir a ser bem sucedido.

        O peregrino dever ser fiel a seu sonho e perceber que sua força de vontade já começa a ser exercitada, antes mesmo de colocar os pés no Caminho de Santiago. Conseguir reunir determinação, dinheiro e tempo disponível necessários para se ausentar de seu país, deixar a família e os afazeres cotidianos, já faz parte do ritual do Caminho que, afinal, tem início a partir de sua decisão de realizá-lo.

        Quando você for percorrer o Caminho de Santiago, experimentará de uma maneira muito prática o ato de Renascer. Vivenciará situações completamente novas, o dia transcorrerá mais devagar e no início não comprenderá o linguajar das pessoas. Sentir-se-á, exatamente, como uma criança que acabou de sair do ventre materno.

        Com isto, você passará a dar muito mais importância às coisas que o cercam, porque delas dependerá a sua própria sobrevivência. Passará a ser mais acessível às pessoas, porque elas poderão ajudá-lo em situações complicadas. E receberá qualquer pequeno favor dos deuses com uma grande alegria, como se aquilo fosse um episódio para ser lembrado pelo resto da vida.

        O poder do peregrino não está no domínio da distância, mas na comunhão com tudo aquilo que está ao seu redor. Pensando que o destino final é seu objetivo maior, o peregrino muitas vezes não se deixa envolver pelo percurso, e não percebe que toda a caminhada é sagrada, não apenas o endereço da chegada.

        Estar consciente em relação aos objetivos do Caminho, permite que as forças autocurativas e auto-reguladoras da psique operem a renovação criativa de hábitos, atitudes, ressentimentos, somatizações, etc...

        As lições do Caminho estão geralmente nas pequenas coisas. Surgem como a luz penetrando na neblina, anunciando a chegada de mais um dia. São lições que ensinam antigos segredos a quem observa o vôo dos pássaros e o oscilar dos trigais ou, que despertam a adormecida consciência daquele que contempla o trabalho solitário dos pastores.

        Nesse passo, deve-se prestar muita atenção na real situação daquele que se encontra na Rota, pois o Caminho é um momento completamente diferente da nossa vida cotidiana. Assim, nossa conduta deve se pautar a esse espírito. Nunca esquecer a razão, porém ouvir sempre o coração.

        Contudo, para que essa “aventura” seja coroada de êxitos, é importante enfatizar alguns aspectos que não devem ser desprezados ou separados do plano global, sob pena de se colocar em risco o sucesso da empreitada. Múltiplos detalhes devem ser priorizados, pois qualquer descuido de um deles, poderá colocar em derrocada toda a programação planejada.



        Para aqueles que desejam trilhar o Caminho de Santiago, alguns fatores merecem relevo, como por exemplo:

        Mental/Emocional: preparar-se psicologicamente para as dificuldades que irá encontrar na Europa, seja na alimentação, falta de privacidade, temperatura hostil, saudade de casa, etc..;

        Preparação Física: um bom condicionamento físico lhe dará confiança para caminhar e, também, desfrutar dos cenários e belezas naturais que você encontrará no dia a dia;

        Equipamentos: devem ser leves, modernos e de material resistente; Monetário: face à crescente valorização do euro em relação ao dólar, tornou-se um fator limitador e preocupante, porém, jamais deverá ser motivo de desânimo;

        Profissional: adequar o tempo disponível para a viagem com a distância a ser percorrida;

        Espiritual: a fé, além de ajudá-lo a perseguir seu sonho, vai auxiliá-lo, também, a não desistir do seu intento antes de concluída a jornada. Para vivificá-la, uma boa sugestão é ler sobre a vida do Santo Apóstolo, seus ensinamentos, exemplos e, também, suas cartas bíblicas;

        Burocráticos: passaporte, credencial peregrina, cartão de crédito etc.

        Os fatores acima elencados e comentados com brevidade, além de outros mais, poderão ser melhor estudados, compreendidos e digeridos, com total amplitude do tema, no ícone “Peregrino a Pé” aqui mesmo no Portal Peregrino, onde está esmiuçado em pormenores, sendo recentemente revisado pelo seu autor, o brilhante peregrino Walter Jorge.


Minha experiência pessoal

        A cada dia que passa compreendo melhor que percorrer o Caminho em 2001, foi, realmente, um acontecimento gratificante na minha vida. Enquanto avançava em direção a Santiago, vim a considerar o mundo convencional do qual eu estava afastado, pelo menos temporariamente, caótico e sem objetivos; e o mundo da peregrinação, ao contrário, era marcado pela pureza de propósitos apesar das condições freqüentemente precárias.

        O Caminho de Santiago não foi apenas uma viagem fisicamente desgastante, mas, um providencial exercício de comunhão comigo mesmo. Embora eu seja cristão de nascimento e católico praticante, minha fé era repleta de profundas dúvidas, e minha peregrinação ajudou-me, realmente, a saciar um sensação sempre crescente, embora mal definida, de anseio espiritual.

        Achei o Caminho de Santiago pontilhado de epifanias sutis, que eu percebia, eram milagrosas. É significativo, por exemplo, que “Javé” signifique “Deus do Caminho”. Não é por acaso que Cristo e seus apóstolos caminharam, com intensidade, pelos montes e vales da Palestina pregando o Evangelho e exercitando a fraternidade.

Um Conselho

        Para finalizar, uma mensagem lúcida e objetiva: se o Caminho está a lhe chamar, não vacile, vá em frente! As aventuras e o conhecimento interior que o esperam certamente valerão o esforço, e a viagem, por si só, mudará sua vida!

        Boa sorte, ou melhor, Ultreya!

Buzzo/Oswaldo - janeiro/2004

Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br