2011 - CAMINHO DO NORTE: UM GRANDE DESAFIO!


2011 - CAMINHO DO NORTE: UM GRANDE DESAFIO!

"No Caminho você nunca está só, no Caminho a comunicação é com os olhos, com sentimentos, solidariedade e união. Todos têm o mesmo objetivo, que é chegar no destino sem pressa e sem competição. O Caminho é feito de amor ao próximo. Todos os peregrinos, mesmo cada um sendo de um país diferente, possuem uma energia contagiante, tudo atribuído pelo fato, de sermos, no Caminho, um só, buscando o mesmo ideal: a paz interior." (José Caliman Neto)

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Algumas pessoas acreditam em destino, outras não. 

Às vezes temos a impressão de que dedos invisíveis nos movem como marionetes presos em cordas.

Porém, com certeza, não nascemos para ser manipulados.

Podemos agarrar as cordas e trilhar nosso próprio caminho escolhendo em cada encruzilhada a desbravar o desconhecido em qualquer estrada.

Ao ler essas divagações que escrevi há algum tempo, lembro-me do momento inicial e decisivo em minha liça peregrina: quando, indeciso e temeroso, desde a cidade de Saint Jean Pied Port me aventurei sozinho rumo a uma extensa jornada e a um futuro desconhecido, que finalizaria em Santiago de Compostela.

A partir de então e até hoje minha vida tem sido plena de peregrinações e aventuras interligadas como pérolas num fio.

Pérolas raramente aparecem em ostras servidas numa bandeja; é preciso mergulhar para encontrá-las.

Peregrinação pelo simples prazer da aventura nunca me atraíram, mas não rejeito um desafio quando ele cruza o meu caminho.


"Marco Zero" do Caminho do Norte, em Irún / País Basco - Partindo para a aventura!

Pois bem, em 2011, eu ”fiz” o Caminho do Norte desde Irún, meu 4º percurso em direção a Santiago de Compostela, um dos mais belos e emocionantes roteiros que já percorri, pois a maior parte da jornada transcorreu por estradas localizadas entre a montanha e o mar Cantábrico.

Ademais, as trilhas se compõem em quase toda sua totalidade de paisagens atrativas, onde o intenso verdor das elevações, salpicadas de um sem fim de povoações e aldeias que parecem estar perdidas no tempo, se funde com as inumeráveis cores do oceano.

No global, o caminho me impressionou, sobretudo, por sua beleza natural com as encostas escarpadas, as praias, as baías e os portos pesqueiros aí encravados como, por exemplo, as inesquecíveis vilas de Luarca e Cudillero.

De se ressaltar, todavia, que seu traçado é bem mais bruto e difícil que o tradicional Caminho Francês.

Posto que, com as faldas da cordilheira cantábrica se despencando de grande altitude até o mar, o caminho, mormente no País Vasco e nas Astúrias, se caracteriza por contínuas escaladas e descidas íngremes, tipo “tobogã”, que desafiam a resistência física do peregrino.

Acresça-se que ele discorre por um território com alta densidade urbana, perpassando por poucas cidades grandes ou médias; em compensação, contém extrema urbanização em seu percurso, um reflexo da intensa exploração urbanística intentada na costa espanhola, com consequências desoladoras aos caminhantes.

Nesse sentido, importante ressaltar que dos 840 quilômetros que caminhei, mais de 75% foram trilhados em asfalto, um tormento para os pés.

Apesar de todos esses fatores, retornei encantado com a recepção que o povo espanhol dispensou-me ao largo desse roteiro, bem como pelas belas localidades que tive a oportunidade de conhecer, com ênfase especial para a fantástica cidade de Gijón (Astúrias). 


Trinta dias mais tarde, chegada a Santiago!

Na derradeira etapa do Caminho do Norte eu parti de Pedrouzo/Arca e aportei antes das 10 h em Santiago, a tempo de tomar banho e assistir à Missa dos Peregrinos, que é realizada, diariamente, às 12 horas.

Após um lauto almoço, eu perambulava eufórico e meio sem rumo pela imensa Praça do Obradoiro, quando ali chegou um peregrino espanhol, forte e atarracado, que depois verter algumas lágrimas de alegria, solicitou-me que o fotografasse, com as torres da Catedral ao fundo, pois queria perpetuar aquele momento solene e único.

Antes, contudo, enquanto me estendia a máquina fotográfica, contou com grande alvoroço que estava encerrando o Caminho Primitivo depois de, “apenas”, treze etapas.

Treze etapas! Enfatizou ele outras duas vezes.

Eu sabia da existência desse roteiro, porém desconhecia sua extensão, portanto, não poderia opinar no quesito tempo; mesmo assim, o parabenizei pelo feito.

Após a sessão de fotos ele ainda fez questão de lembrar que percorrera esse milenar caminho em 13 dias e, prosseguiu, um tempo escasso e difícil de ser bisado.

Depois, em tom misterioso e até tristonho, me confessou que no dia seguinte iniciaria mais um Caminho, este muito mais áspero e difícil.

Confesso que levei um grande susto, já que aquele exaurido peregrino nem acabara de chegar e já estava pensando noutro grande desafio.

Curioso, lhe perquiri sobre o assunto.

Ele, então, me confidenciou que naquela noite retornaria de trem para a sua residência na Extremadura e, no dia sequente, além de reencontrar sua esposa, filhos, cães e agregados, voltaria a trabalhar logo cedo.

Chama-se o “Caminho da Vida”, disse-me tristemente; ato contínuo, ambos explodimos em estrondosas gargalhadas. 


No interior da Catedral Compostelana, diante da "Porta Santa".

Para finalizar, quando retornei ao Brasil, pesquisei, incessantemente, sobre o Caminho Primitivo e, fruto dessa aspiração, em maio de 2012 eu estava de volta à Espanha, mais especificamente, em Oviedo, para iniciar esse novo roteiro.

Trata-se de um percurso bastante exigente, mas que me desafiava a percorrê-lo em sua extensão de 333 quilômetros, com tranquilidade, segurança e, como fizera o peregrino espanhol, também, em 13 jornadas.

Que consegui cumprir, apesar dos acidentes altimétricos existentes no trajeto e de alguns empecilhos físicos.

Bem, mas sobre o Caminho Primitivo, que me legou a 5ª Compostela, comentarei num “post” futuro..

Bom Caminho a todos!

Janeiro/2020