2013 - A Etapa "Rainha" de Todos os Caminhos

A ETAPA “RAINHA MÃE” DE TODOS OS CAMINHOS



PRÓLOGO

 

“Cada dia que passa, mais me refugio no passado.

 Fenômeno curial na velhice, espécie de resposta à progressiva desadaptação que se vai processando entre o indivíduo e o meio, é sobretudo um reflexo subjectivo da juventude projetada sobre a fúria destruidora dos anos.

 O que embeleza o passado é a sua coincidência com os tempos áureos da mocidade, nada mais.

 Como da felicidade disse o poeta, que ela 

     “Existe, sim; mas nós não a alcançamos

     Porque está sempre apenas onde a pomos

            E nunca a pomos onde nós estamos”, 

assim também os tempos chamado belos só existem na nossa imaginação ou nas miríficas evocações que a memória guardou.

      O presente, para os jovens de agora, será a enfeitiçada miragem de amanhã. E, na realidade, o mundo atual abre às modernas gerações perspectivas de beleza e de gôzo material muito mais amplas e variadas do que antigamente.

        A monotonia, a fixidez, a regularidade cronométrica de tudo, das coisas, dos hábitos, dos costumes, das diversões, enclausuravam o homem em limites acanhados e imutáveis. Não se viajava, não se conheciam outras terras, pouco se praticavam outras línguas. Cada um vivia e envelhecia dentro do seu estreito âmbito doméstico. A vida era parada, repousante, patriarcal. Por isso mesmo os fatos e os acontecimentos fixavam-se na retentiva da coletividade. Frequentemente trazidos à citação, transmitiam-se, com pequenas variantes, de pai a filho, na cadeia dos tempos.

        Cresci ouvindo contar a chegada das tropas de Caxias a 1 de agosto de 1842, por ocasião do levante revolucionário chefiado por Feijó e pelo Brigadeiro Tobias, e a passagem de Pedro II, por Itu, a 25 de março de 1846.

        Hoje as ocorrências começam a envelhecer no dia seguinte àquele em que se passaram.

      O  que vai aqui contado, ou simplesmente relembrado, procede de reminiscências tradicionalmente conservadas no meio familial, de trechos vividos na minha infância e adolescência, de episódios de que participei – tudo marcado com leves tintas históricas e miudamente mais um passatempo de aposentado do que outra coisa qualquer.

        Memórias, só as escrevem velhos. Moços não têm o que recordar e têm muito com que se entreter.



(transcrito do livro “Crônica de Outrora”, página VII/VIII, Editora Brasiliense, edição de 1963)



REMEMORAÇÕES 


Dia destes, eu estava a ler de forma descontraída o livro supracitado, escrito pelo eminente médico Antônio de Almeida Prado (1889-1965), que fora adquirido num sebo aqui em minha cidade.

Por uma coincidência feliz, o autor é meu conterrâneo, pois, como eu, ele também nasceu em Itu.

Possivelmente, pela similitude de pensamentos, a passagem acima me fez relembrar de uma indagação feita alguns dias antes por um amigo.

Perquiriu-me ele, na ocasião, acerca de qual jornada mais me marcara ou, então, aquela que fora a mais dificultosa dentre tantas enfrentadas nos diversos Caminhos que eu já havia percorrido.

Obviamente, rememorando percursos pretéritos, me acorreram à mente uma série de trajetos que venci em caminhadas envidadas ao longo dos últimos 12 anos, alguns extremamente duros e extenuantes, em face das condições físicas, mentais e climáticas vivenciadas no dia.



Todavia, dentre todos, avultou em minha memória o trecho entre Carcaboso e Aldeanueva del Camino, que enfrentei na 12ª jornada da Via de La Plata, em 2008, quando caminhava de Sevilha à Santiago de Compostela.

Não por acaso, ele é nominado pelos Guias espanhóis, como a etapa “Rainha” de todos os Caminhos pela rudeza que impõe ao caminhante, bem como por sua expressiva distância, algo ao redor de 40 quilômetros.

Ocorre que seu percurso discorre por locais ermos, onde não há construções, comércio, e nem oferta de água em todo o seu traçado.

Por isso mesmo, ela é evitada, temida e respeitada por todos os peregrinos que ousam defrontá-la.


VIA DE LA PLATA – BREVE HISTÓRIA



 

A Via de La Plata é o caminho Jacobeu de maior extensão.

Passa pelas Províncias de Sevilha, Extremadura, Salamanca, Zamora, Ourense, Pontevedra e A Coruña, atravessando espaços naturais de grande beleza, com um rico patrimônio cultural e ecológico.

Na verdade, tudo começou com os “Tartessos”, uma das primeiras civilizações urbanas do ocidente a usar várias rotas comerciais na Península Ibérica.

No ano 218 a. C a Espanha foi conquistada pelos romanos que utilizaram esses roteiros, em particular, a via romana “La Iter ab Emérita Asturicam”, (séc I a. C), antecedente da Via de la Plata, para o deslocamento de tropas e comércio.

Octávio Augusto, nomeado Imperador em 25 a. C, mandou construir uma calçada que unisse Mérida (Emérita Augusta, capital da Província de Lusitânia) com o norte da Península, atravessando o leito dos rios Tejo e Douro, a fim de facilitar o transporte dos exércitos cuja missão era combater os bárbaros.

Esta Via chegou até Astorga (Asturica Augusta) e tinha mais de 500 quilômetros de extensão, sendo que, posteriormente, outros Imperadores, como Tibério e Trajano a ampliaram, em ambos os sentidos, até Sevilha e Gijón.

Com a queda do Império Romano, esses roteiros deixaram de ser utilizados.

No entanto, a invasão árabe do século VIII atingiu, inclusive, o noroeste da Península, culminando sua conquista com a queda de Santiago de Compostela, no ano 997.

Os árabes batizaram-na de Bal’latta (Blata), que significa “Caminho de Pedra”.

À medida que os cristãos iam reconquistando o território espanhol, restabeleceu-se as vias de “visitação” à Santiago, sendo que, por esta antiga calçada romana, iniciou-se a verdadeira Rota de peregrinação à tumba do Santo Apóstolo


A VÉSPERA

 

Pela Via La Plata, eu aportara à Carcaboso proveniente da cidade de Cañaveral, extremamente exaurido, fruto de longa e difícil jornada vivenciada naquela data, quando, os derradeiros 13 quilômetros do percurso foram trilhados sobre asfalto e debaixo de sol ardente.

Os alemães Karl e Walfrid, no caminho próximo de Galisteo

Durante o trajeto eu me encontrara com dois peregrinos alemães, porém, numa bifurcação oferecida pelo roteiro, eles optaram por transitar pela cidade de Galisteo, “la Ciudad Muralla”, onde pretendiam almoçar.

Por volta das 17 horas, eles adentraram à Pousada de Dona Elena onde eu também estava hospedado, e resolvi trocar ideias sobre a jornada seguinte, que tanta preocupação me trazia.

Assim, abordei Karl, que falava fluentemente o idioma inglês, posto que seu parceiro só se expressava na sua língua natal.

Para minha surpresa, o germânico afirmou que ambos fariam a etapa seguinte de ônibus, pois se encontravam exaustos e, além disso, seu colega Walfrid estava com muitas bolhas nos pés.

Assim, utilizariam o dia imediato para descanso e recuperação.

Conquanto me sentisse decepcionado com a informação, tentei não prejulgar a decisão por eles tomada, posto que como logo percebi, cada peregrino possui suas próprias idiossincrasias e faz o seu Caminho da forma que melhor lhe aprouver.

Ao revés, muitos caminhantes têm razões mais complexas e sutis a satisfazer, porquanto, certamente estão trilhando o Caminho de Santiago em busca de algo muito além do desafio físico e da glória.

Tanto isto é crível, que a maior parte desses cristãos, eu inclusive, não sabe dizer o que irá encontrar durante a jornada, além de um breve relance da impermanência e fragilidade da condição humana.


Dona Elena, de Carcaboso

Mais tarde, aportaram ao local dois ciclistas, ambos de procedência espanhola.

Ao interrogá-los amigavelmente, soube que não eram peregrinos, na verdade, estavam apenas aproveitando uma folga profissional com a finalidade de exercitar as pernas e, para tanto, utilizavam a estrutura e a boa sinalização da Via de La Plata.

Dessa forma, conforme me afirmaram, no dia seguinte eles seguiriam até o meio da jornada por asfalto, posto que o primeiro trecho dessa etapa é desaconselhável para o trânsito de bicicletas, pelo excessivo número de valas, muros e porteiras que se necessita ultrapassar.

Porém, após atingir o Arco de Cáparra, o ponto alto desse trajeto, não sabiam se iriam prosseguir ainda por asfalto, ou intentariam seguir o percurso oficial do roteiro, através de trilhas em terra.

Dessa maneira, em princípio, eu estaria integralmente solitário nessa perigosa etapa “Rainha”, e se algum mal me ocorresse, eu certamente estaria em apuros, pois não teria com quem me comunicar, posto que nem celular eu portava.


Bar Ruta de la Plata, em Carcaboso

Mais à noite, depois de ingerir frugal lanche no quarto, eu me dirigi até o bar Ruta de la Plata para me despedir de Dona Elena, que lá estava descansando, pois aquele estabelecimento comercial pertencia a um de seus genros.

Por sinal, é imprescindível destacar que Dona Elena Carrascal Repilado é uma senhora simpática, amável e de uma bondade infinda, que cativa a todos quantos dela se aproximam.

Tanto, que se tornou uma das principais “referências” da Via de la Plata, posto que trata os peregrinos com extremado carinho e apreço. 

Ao saber que eu partiria bem cedo na manhã seguinte, ela amavelmente retornou comigo à Pensão, me sortiu de algumas frutas, depois me deu uma breve benção através da leitura de um dos salmos da Bíblia.

Para finalizar, me proveu de uma série de conselhos e recomendações, centrados na virtude da sobriedade e singeleza, como: ficar atento à sinalização, levar água suficiente, fazer pequenas pausas contemplativas na caminhada, etc..

Suas palavras ditas em tom sereno e melífluo tiveram o condão de exorcizar a inquietação que me perseguia carregada de maus presságios, e pude sentir meu coração pulsando mais compassivo e tranquilo, o que muito me alegrou.

Afinal, simbolicamente esse músculo cardíaco tem sido considerado a fonte das motivações e da força para viver.

Porquanto, dele, fluem emoções que fazem da vida o que ela é: uma experiência saborosa e agradável, ou por vezes, uma caminhada difícil e atribulada.


Uma foto importante: com Dona Elena, senhora maravilhosa e amiga de todos os peregrinos

Findas nossas despedidas, agradeci-lhe emocionado pela acolhida e lhaneza.

Depois, já focado na jornada sequente, fui dormir.

  

A ETAPA “RAINHA”


 

Finalmente, me deparava nesse trecho com a etapa “Rainha” de todos os Caminhos.

Isso me deixou assaz preocupado e acabei não dormindo bem. 

Para complicar, a noite fora um tanto tumultuosa, posto que 5 quartos da pensão estavam ocupados, e, apenas um banheiro servia a todos os hóspedes.

Assim, como minha cama ficava ao lado da parede do sanitário, fui despertado várias vezes com o disparo da descarga.

Após o primeiro “tiro” eu acordei, e o relógio por mim consultado marcava ainda a primeira hora do dia nascente.

E foi imensamente custoso reatar o sono abruptamente interrompido.

Por isso, a madrugada passou agitada, meu descanso foi fragmentado e improdutivo.

Na realidade, eu apenas cochilei a maior parte do tempo, mas sem relaxar um único músculo.

De tão tensa, minha mente não teve espaço nem para vagar pelos sonhos nebulosos que normalmente acompanham minhas noites.

Por conta desse empecilho, às 5 h 30 min, já estava desperto me preparando para uma intensa e inesquecível jornada.

No dia anterior havia verificado a saída da cidade, de forma que resolvi partir ainda no escuro.

Afinal, depois do suspense e da tensão da preparação, seria um alívio estar em movimento novamente.

Assim, às 6 h 30 min, eu deixei a Pensão de Dona Elena, seguindo pela rodovia, à esquerda, por uns 100 metros.

Naquele horário, o vento e o frio eram meus companheiros permanentes.

Eu ainda estava com os olhos embaçados de sono, quando entrei à direita, na escuridão que antecede a aurora.

Então, na sequência, próximo de uma padaria, eu acessei a Rua Pozo, à direita, e segui adiante.


Manhãzinha, ainda escuro, início da estrada de terra

Quando a incipiente iluminação urbana se findou, eu adentrei em larga e plana estrada rural, muito bem sinalizada, situada entre imensas pastagens.

Segui adiante com minha lanterna, sob um céu maravilhoso, onde a Via-Láctea traçava a sua estrada fosforescente, e as estrelas brilhavam com intenso fulgor.

Eu me sentia aliviado por estar a caminho, depois da noite tempestuosa, carregada de sonhos aflitivos.

Afinal, naquele instante eu estava desempenhando meu papel de peregrino, a figura autêntica daquele que vai vencer as distâncias, a arte evanescente que marca os estágios de uma “viagem” física e espiritual.

Na verdade, toda partida para mais uma etapa, nada mais é que a limitação e a libertação para os trajetos diários vivenciados no Caminho.

Assim, naquela manhã memorável, eu tinha novamente a certeza de que paisagens inéditas se abririam diante de mim.

Por conta disso, sentia imenso júbilo e prazer por estar novamente em movimento, apesar de estar ciente de que a travessia demandava pés seguros e cabeça sólida.

Novecentos metros caminhados em bom ritmo, eu me vi diante de uma bifurcação.

Ali, observando cuidadosamente as flechas amarelas, eu prossegui à esquerda.



A manhã ainda estava fresca e, na luz pálida e limpa da aurora, o contorno das coisas já aparecia bem definido.

A partir desse local eu segui bordejando, ininterruptamente, um grande caudal de água, que fora desviado do rio Jerte, para fins de irrigação das propriedades ali existentes.

Mais um quilômetro percorrido, eu encontrei um cubo sinalizador fincado no chão, indicando que eu deveria seguir à direita.

Porém já sabendo de sua futilidade pelos mapas antes consultados, eu ignorei tal recomendação e prossegui em frente, posto que ele me faria dar uma volta de aproximadamente 1.200 metros, sem nenhuma razão específica.

O céu já estava claro, e fiapos distantes de nuvens brancas se dissolviam no firmamento como neblina.

No trecho seguinte em transitei em meio a enormes fazendas de criação de gado, delimitada por porteiras, onde pacíficos rebanhos de gado ruminavam mansamente. 

Em diversas ocasiões tive que passar ao lado das reses, sempre com muita cautela.

Mais à frente, quatro quilômetros percorridos em bom e animado ritmo, eu acabei por sair numa rodovia vicinal asfaltada.



Então, obedecendo as setas amarelas, eu girei à direita e segui por uns 200 metros, se tanto, até que as flechas me remeteram à direita novamente.

Então, por uma pequena ponte, eu ultrapassei o canal de Jerte, que possui um volume expressivo d’água, bem maior dos outros caudais que me haviam feito companhia anteriormente.

Na sequência, eu acessei uma agradável estrada de terra, em leve ascendência, situada em meio a um esparsado bosque de alcornoques, uma planta típica da Espanha, já dentro de uma imensa propriedade rural.

Ali eu prossegui guiando-me pelas flechas amarelas pintadas, quase sempre, no tronco das árvores.

O dia surgira fresco, com um sol bonito num céu azul manchado de raras nuvens brancas.

Eu me sentia mais livre por estar sozinho, não precisando acompanhar o passo de ninguém, vez que, assim, vivenciava melhor o ambiente e a intensa alegria que existia dentro de mim.



Após aproximadamente 1.500 metros vencidos, eu visualizei à direita, um pedestal em alvenaria, com um nicho envidraçado, onde existia um mapa explicativo, esclarecendo que por aquele local passava o antigo traçado da Calçada Romana.

Clarificava, ainda, que naquele lugar houvera, em priscas eras, um hospital peregrino.

Observei que no entorno, havia uma pequena cobertura, rodeada por alguns bancos, convidando os turistas e os peregrinos a repousar no local.

Até ali eu já percorrera 7 quilômetros, de maneira que aproveitei a estrutura existente para descanso e fotos.

Diga-se, por oportuno, que a primavera ainda estava no início, porém todo o lugar estava cercado por alta sebe em rápido crescimento, que me inibiram uma observação mais acurada dos arredores.



Assim, depois de ingerir uma banana e me hidratar, tranquilamente eu retornei à estrada de terra, e prossegui em frente.

Ocorre que a beleza da paisagem circundante e minha empolgação pelo sucesso da etapa até aquele patamar, induziram-me a divagar sobre amigos, família, trabalho, caminhos, etc..

Na verdade, uma centena de diferentes pensamentos, como flocos de neve, disputavam minha atenção.

Naquela luminosa manhã, exuberante de saúde e entusiasmo, eu seguia num ritmo confortável, enlevado, aspirando o ar balsâmico das flores, integralmente despreocupado, quando, após um tempo, estaquei assustado.

Pois, com o espírito perdido, num torvelinho de emoções que se chocavam, me invadiu um pressentimento de que me olvidara de algo fundamental.

Novamente conectado a realidade, me dei conta que há mais de 15 minutos eu não avistara uma única seta amarela a me guiar.

Porquanto, um princípio basilar no Caminho, é a máxima que reza: se o peregrino caminhar mais de cinco minutos sem encontrar uma flecha, ele deverá retornar até a última indicação por ele visualizada, no sentido de confirmar seu rumo.



Posto que, de uma maneira geral, as marcações sempre estarão pintadas numa distância de 50 a 100 metros, umas da outras.

Inicialmente, raciocinei que pela estrada por onde eu caminhava, não encontrara nenhum cruzamento que pudesse ter me induzido a cometer enganos.

E visto no contexto das condições prevalecentes, não havia a menor razão para achar que eu não estava certo.

Assim, entendi que a culpa de não me lembrar de quando avistara a última sinalização, fora por ter deixado meus pensamentos vaguearam ao acaso.

De plano, se não estivesse me sentindo tão tranquilo e confiante, eu retornaria até me reencontrar com as providenciais e consoladoras setas amarelas.



Este deveria ter sido meu procedimento, o que certamente evitaria uma série de intercorrências em minha aventura, como adiante se verá.

Embora parecesse óbvio e ululante que eu não estava no rumo certo, custa acreditar, mas eu me recusava a admitir que estivesse cometendo grave engano.

Assim, observando adiante, visualizei a distância de uns 500 metros um muro, e nele, uma grande portada.

Uma cortina de burrice e teimosia baixou sobre meus olhos, e apesar de todos os equívocos anteriormente aventados, resolvi prosseguir até aquele obstáculo para confirmar se nele existia algum tipo de sinalização.

E quando lá cheguei, pude verificar que ao invés de uma grande porta, tratava-se, na realidade, de dois portões independentes, que possibilitavam o acesso a propriedades diferentes.

Todavia, conquanto esquadrinhasse acuradamente os arredores, improfícuos foram os esforços no sentido de localizar alguma sinalização.

Porém, teimosamente, eu ainda não conseguia admitir que estivesse fora do roteiro.

O portão da esquerda estava fechado com grossas correntes presas por um cadeado, o que, de plano, inibiu meu ato de forçá-lo.

Curiosamente, no entanto, o outro estava sem bloqueios e quando o abri, visualizei outra grande herdade em descenso, onde, mais abaixo, sobressaia uma faustosa construção e, por trás dela, um imenso rancho.

É bem verdade que, salvo raras exceções, na Espanha ninguém reside em fazendas como aqui no Brasil, pois a legislação lá taxa com altos impostos àquelas alocadas fora do perímetro urbano.

Então, normalmente, as edificações existentes no campo servem apenas como abrigo para o gado, ou, ainda, para a guarda de material de trabalho.




Contudo, em face de uma chaminé fumegante que avistei na pseudo-residência, resolvi lá aportar no sentido obter maiores informações sobre minha rota, visto que ela distava uns 200 metros, se tanto, do local onde eu estava.

Hoje, lembrando-me desse fato insólito, desconfio que eu estava mesmo era querendo me perder.

Porque, bisonhamente, insistir em prosseguir naquela direção, simplesmente era contrariar o bom senso.

Afinal, eu detinha uma planilha daquela etapa e embora eu devesse caminhar no sentido oeste, meus passos firmes e resolutos estavam me levando descaradamente para o norte, certo de que os pontos cardeais iriam se ajustar à minha vontade.

Segui, então, por uma larga estrada de terra, localizada junto a um muro de pedras, enquanto de meu lado direito um pacífico rebanho leiteiro pastava mansamente.

Já diante do portão da casa, constatei que o mesmo se encontrava fechado à chave e, também, fui surpreendido pelo alarido produzido por 3 alentados pastores-alemães, que estavam confinados no corredor circundante.

Ainda assim, bati palmas, chamei, solicitei ajuda, embora a algazarra provocada pelos cães fosse ensurdecedora.

Todavia, debalde meus esforços, ninguém me atendeu ou ao menos deu sinal de vida.

Desanimado, finalmente ciente da erronia desmedida e desarrazoada que cometera até então, decidi retornar.

Porém outra desagradável surpresa me aguardava.

Não é usual a criação de porcos confinados numa mesma área onde há bovinos, aliás, eu nunca havia visto tal mescla por onde eu transitara, posto que se trata de animais diferenciados por  raça e comportamento.

Porém, para meu desespero, quando me virei para ir embora, verifiquei que eu estava cercado por uma vara de mais de 200 suínos famintos, que grunhiam e me rodeavam por todos os lados, certamente, pensando que eu viera ali para alimentá-los.

A sensação de desconforto em que eu já estava aumentou e, francamente, tive vontade de sair correndo dali.

Apavorado, enquanto seguia me espremendo contra o muro, fui abrindo caminho apressadamente com meu cajado em direção ao topo do morro.



Para complicar, o rebanho bovino, curioso e alvoroçado pelo tumulto que eu empreendera, deixara o pasto e se postara no meio da estrada, a aguardar por minha passagem.

Foram momentos tensos, de puro sufoco, contudo, sob as bênçãos divinas, consegui acessar o portão divisório.

Após ultrapassá-lo, fechei-o cuidadosamente, deixando tudo como havia encontrado.

Notei que minhas mãos estavam trêmulas por causa da descarga de adrenalina ou do frio, provavelmente pelos dois motivos.

E, sem mais delongas, disparei em retorno sobre meus passos.

Efetivamente, no regresso, embora procurasse atentamente, não consegui visualizar uma única flecha sinalizadora.

Isso tudo, confirmava que eu cometera grave equívoco no trajeto, mas não conseguia me lembrar em qual local.

Muito tempo depois, eu aportei novamente no lugar onde fizera uma pausa para descanso, o mesmo onde havia o mural explicativo.

Observando atentamente as imediações, visualizei no chão da estrada uma flecha de madeira me remetendo à direita, marco que eu não avistara quando por ali passara.

Logo adiante, e após um banco de concreto, nascia uma pequena e matosa senda, que seguia em direção a um muro, ao longe e à direita, onde pude avistar uma benfazeja flecha amarela.

O imbróglio estava resolvido, contudo, em face do erro e da angústia vivenciada, eu me encontrava tenso e apreensivo.

E não pude evitar a mesma sensação, como se tivesse levado um soco na boca do estômago, afinal, eu cometera uma grande estupidez.



Pois, levei novo susto ao consultar meu relógio de pulso e constatar que ele marcava agora 9 h.

Ao verificar o horário postado na foto que ali batera anteriormente, confirmei que entre ida e volta se passara, exatamente, 55 minutos.

Ou seja, eu caminhara aproximadamente 5 quilômetros “de graça”, algo que ira ser acrescido a minha jornada, possivelmente, com resultados funestos.

Além disto, em face do desânimo que tomara conta de meu ser, precisei fazer naquele local nova pausa e nela ingeri quase meio litro de água.

Por conta desse ato necessário, gastei exatamente metade do líquido que eu portava, e isto certamente seria outro fator a pesar negativamente no roteiro, pois não iria encontrar local de reabastecimento até o final do longo percurso a ser vencido.

Momentaneamente, uma sensação de tristeza e desalento me invadiu, afinal era difícil entender e impossível de compartilhar aquele drama solitário.

Para complicar, o sol estava já a pino, num céu azul e sem nuvens, prenunciando, ao revés dos dias anteriores, muito calor para depois das 12 horas.

Quando me sentei para reamarrar as botas, minhas emoções oscilavam entre uma antecipação nervosa e uma sensação de temor incontrolável, posto que toda a minha autoconfiança havia se esvaído após o infantil erro cometido.

Afinal, medo e ansiedade eram companheiros insuportáveis, e eu receava que o trajeto prosseguisse pleno das duas coisas.

Novamente retemperado fisicamente, eu segui em frente, agora utilizando uma trilha matosa que, mais à frente, seguiu paralela a um muro, tendo-o pelo meu lado direito por um bom tempo.

Depois de mais um quilômetro nesse pique, eu passei para outra propriedade através de um mata-burro.

Porém, prossegui ainda paralelo à parede de pedras, tendo-a agora, pelo meu lado esquerdo, dentro de uma imensa e plana campina, onde outro imenso rebanho de gado pastava.

Mais à frente, adentrei por bosques de “alcornoques” despidos de folhas e casca, onde havia enormes pedras repletas de musgos e ruínas da estrada romana, num trajeto plano, silencioso e verdejante.



Suave tranquilidade pairava alegre naqueles sítios aprazíveis, que pareciam ter sido criados para o gozo da contemplação serena e solitária da natureza.

Nesse tramo específico, eu transpus 4 grandes valas onde a água escoava nas intempéries, sempre utilizando pequenas pontes de pedra.

Porém, conforme previsto, não avistei humanos durante todo o percurso em que até ali vencera.

Depois de 12 quilômetros percorridos, no final de uma grande reta, eu encontrei outro portão, porém, desta vez, fechado a cadeado.

Contudo, as flechas sinalizavam que eu devia transpô-lo por cima, tanto que existia uma grande pedra colocada no chão, como forma de auxiliar a impulsão dos caminhantes.

Foi o que fiz e, já do outro lado, ultrapassei uma rodovia vicinal asfaltada que, à direita, segue em direção à cidade de Oliva de Plasência.


Chegando à sede da Fazenda Venta Queimada

E logo avistei do meu lado esquerdo uma grande construção, que é a sede da Fazenda Venta Queimada.

Porém, verifiquei que não havia possibilidade de conseguir mantimentos, posto que ali não se pratica nenhum tipo de comércio.

O fato é que os sitiantes da região dedicam-se, apenas, ao pastoreio e fabricação de queijos. 

Ademais, quando o leite está em processo de coalho, não podem interromper sua atividade para atender peregrinos que, amiúde, solicitam água no intuito de repor o precioso líquido no corpo.

Já ciente desse fato, fiz ali breve pausa para o lanche e alongamento debaixo de uma frondosa parreira, pois, sentia um princípio de cãibras na perna esquerda. 

Depois, revigorado, segui em frente. 

Em ritmo ainda tenso, porém uniforme, prossegui por mais 6 quilômetros, utilizando uma senda bem demarcada, que nesse intermeio coincide com a antiga Calçada Romana.


No trajeto entre Venta Queimada e o Arco de Cáparra, um trecho plano e arborizado

Nesse trecho específico, o roteiro seguiu sempre em leve descenso, integralmente solitário, entre árvores de grande porte, num trajeto fresco, agradável e sem maiores dificuldades. 

 

O ARCO DE CÁPARRA

 

Arco de Cáparra, na chegada

Às 11 h 30 min, depois de percorrer um total de 20 quilômetros, eu finalmente cheguei ao magnífico Arco quadriforme de Cáparra, o ponto alto desta jornada.

Trata-se de uma enorme construção solitária num grande planalto, em meio a um olival e ruínas de antigo “ayuntamento” romano. 

Num miliário próximo, recentemente recuperado, há uma inscrição do ano CX (60), época em que Nero era o Imperador de Roma.


Miliário Romano

O Arco situado no centro nevrálgico da antiga cidade romana, com suas portas no sentido norte-sul, coincidiam com a antiga Calçada Romana ou a Via de la Plata, e no sentido leste-oeste, suas aberturas laterais davam passagem à avenida central da localidade.

Segundo os historiadores, a povoação ocupava uma área total de 15 hectares e chegou a ter 2.000 habitantes, uma cifra muito superior à população de inúmeras cidades que cruzei pelo caminho, algumas das quais não superam uma centena de pessoas.

Existem grandes escavações sendo feitas próximo dali, pois Cáparra foi, durante séculos, motivo de atenção por parte de curiosos e eruditos, centrada especialmente em seu elemento mais atrativo e melhor conservado: o “Arco Tetrapylon”, único do gênero na Península Ibérica.

Em face dos escritos recuperados pelos estudiosos, a existência dessa cidade está muito bem documentada desde a antiguidade. 

Nesse sentido, Ptolomeu menciona-a como parte do território dos “vettones”, mas outros historiadores consideram-na pertencente ao território lusitano, podendo-se concluir por isso, que ela estava situada na fronteira entre os dois povos.

A partir do ano 74 d. C, quando o Imperador Vespasiano proclamou o Édito de Latinidade para as províncias hispânicas, a cidade ascendeu ao patamar de município de Direito Latina – “municipium comlatii ius menores” - embora o ano exato dessa promoção seja desconhecido.

Seus habitantes, adquirindo a cidadania romana, foram atribuídos à tribo Quirina

A partir desse momento, Cáparra iniciou a implantação real e desenvolvimentista de uma urbe, deixando muitos vestígios da época, sendo o mais famoso, o Arco, seu símbolo inconfundível.

Durante a Alta Idade Média, a cidade começou a se despovoar, acentuando-se seu abandono com a invasão muçulmana.

E não há nenhuma estatística comprovando que seu território tenha sido repovoado, após a reconquista da Espanha pelos reinos cristãos.

O conhecido “tetrapylum” é o edifício mais importante que sobreviveu até hoje. 

Trata-se de um arco quadriforme, o único em Espanha de suas características. 

Ele está situado no centro da cidade, rodeado pelo Fórum, os banhos públicos e outros monumentos importantes. 

É muito provável que ele tenha sido edificado na confluência das duas ruas principais: a do Cardo e a do Decumano.

Sua história se encontra muito bem aclarada, graças às inscrições preservadas nele e num pilar em concreto, situado à sua direita, onde existe uma alusão a “Marcus Fidius Macer”, a pessoa que ordenou sua edificação, cumprindo assim a vontade de seus pais.

Por outros escritos se sabe sobre a relevância deste cidadão Capera, porque ele é mencionado três vezes como juiz, duas vezes como “praefectus fabrum”, ou chefe de trabalhadores municipais, e que foi casado com Iulia Luperca . 

Extensas escavações em Cáparra

Como data final de sua construção, ela situa-se ao tempo do Imperador Flaviano, cujo reinado perdurou de meados até o final do primeiro século.

Suas dimensões importam em 8,60 m por 7,35 m, com uma altura estimada de 13,30 m em seu estado original.

Já, as termas públicas de Cáparra se localizavam no extremo noroeste dessa antiga cidade romana, junto à Via de La Plata.

Sua primeira fase de construção também corresponde à época “Fláviana”, quando a urbe adquiriu o status de município.

Trata-se de um edifício de planta quadrada com uma orientação norte-sul.

Os banhos propriamente ditos estavam situados no centro do complexo, que era complementado, tanto de um lado como do outro, por dependências anexas e que compreendem em sua totalidade o conjunto termal.

No lado sul ficava um grande auditório, enquanto do outro havia várias tabernas, bem como quartos para a guarda de lenha, e dependências administrativas.

Suas dimensões compreendiam 33 metros de comprimento, por 36 metros de largura.

O acesso às termas era feito pelo lado oeste, por uma das ruas que confluíam à “calle” Decumano, para a Avenida Cardo, a principal da cidade.

Atualmente, estão sendo feitas no local, intensas escavações arqueológicas, com o fito de recuperar objetos e melhor entender a pujança e derrocada dessa importante cidade.

Ela se acha incluída na proposta de reabilitação feito pelo Departamento de Patrimônio Histórico da Espanha, com financiamento do Banco Europeu de Investimento que visa, dentre outros objetivos, a recuperação da Via de La Plata.

As ruínas ali existentes se encontram isoladas, em toda a sua grande extensão, por uma alta cerca metálica que a protege dos curiosos e eventuais caçadores de tesouros.

No ambiente da antiga urbe foi construído um Centro Interpretativo, no intuito de esclarecer aos turistas que visitam esse imenso tesouro arqueológico, sobre os achados e as descobertas relativas à história desse importante assentamento romano. 

 

NOVAMENTE PERDIDO

 

Já deixando o imenso complexo de Cáparra

Fiz naquele ambiente secular uma pequena parada para fotos e lanche.

Naquela imensa cratera a céu aberto, avistei apenas um senhor, ao longe, se movimentando pela propriedade, que inferi ser o funcionário da vigilância e guarda do lugar.

Atualmente, segundo o que li na internet, foi instalada nesse local uma máquina automática para a venda de água e refrigerantes, destinada aos turistas e peregrinos que por ali passam.

Porém, à época em que por ali transitei, tal apoio não existia, de forma que logo eu prossegui adiante, pois o sol forte já principiava a incomodar.

Mais abaixo, eu atravessei uma rodovia vicinal asfaltada, que segue em direção à cidade de Guijo de Granadilla e prossegui por uma senda matosa, situada em meio a duas extensas pastagens.

Logo depois, para minha agradável surpresa, eu fui ultrapassado pelos dois ciclistas espanhóis, Victor e Bernau, que haviam pernoitado comigo na Pensão de Dona Elena.

Fizeram questão de travar suas “bikes” e me cumprimentar efusivamente, pois, segundo eles, eu vinha caminhando em bom ritmo.

Depois perguntaram se estava tudo bem comigo, ou se necessitava de algo.

O aparecimento inesperado desses amigos me serviu como um estimulante precioso para aquele duro dia.

Porém, na emoção e prazer pelo reencontro, eu me esqueci de pedir um pouco de água, apenas solicitei que uma foto minha fosse tirada, com o qual gentilmente acederam.


Foto batida pelos ciclistas espanhóis

Na sequência, em face do horário tardio, eles se despediram e rapidamente prosseguiram em frente.

Solitário novamente, para me consolar, eu lembrei da máxima que diz: “As peregrinações nada mais são que uma interessante e incessante série de encontros e desencontros.”


Meus amigos Victor e Bernau seguindo em frente. Ao fundo a “Sierra de Gredos” 

A partir desse marco, eu passei a transitar por um caminho plano e agradável, podendo observar ao fundo, a majestosa “Sierra de Gredos”, que é composta por uma impressionante cadeia de montanhas.



Nesse trecho eu cruzei por campos de pastagens, bem como ultrapassei vários riachos, inclusive, um deles, utilizando como apoio alguns blocos de cimento que foram alocados no leito do córrego.

Também, abri e fechei várias porteiras que cortam a trilha bem demarcada nesse estirão.

Em compensação, o sol era um disco bojudo que, inclemente, torrava o barro escuro que cobria esse árido trecho do Caminho.

E não havia nuvens para competir com ele no implacável céu azul.


Rodovia vicinal asfaltada à esquerda, ao fundo a “Sierra de Gredos”

Mais 7 quilômetros percorridos em boa marcha, acabei por sair, mais à frente, numa estrada vicinal asfaltada, que segue em direção à Zarza de Granadilla.

Porém eu prossegui caminhando por uma trilha matosa paralela pelo lado direito, até que no final, já sobre o asfalto, cheguei à minha velha conhecida, a N-630.

Nesse lugar crítico é necessário prestar muita atenção, porque ocorre um cruzamento de rodovias, e as obras ali, ainda em andamento, acabaram por me confundir, até porque o Guia que eu utilizava estava defasado relativamente a esse trecho. 

Atualmente, paralela à N-630, passa a “Autovia Nacional”, mas, a sinalização não foi modificada, o que induz o caminhante a erro, como ocorreu comigo.

Naquele local, as flechas indicavam que eu deveria passar por baixo de um pontilhão e depois transpor o rio Ambroz, sobre pedras.

Em seguida, observando as setas, saltei por cima de uma porteira fechada a cadeado e entrei numa extensa fazenda de gado, onde um enorme rebanho pastava. 

O correto teria sido acessar a “carretera” N-630, que esta à esquerda da Autovia, e por ela seguir mais 7 quilômetros, para aportar em Aldeanueva del Camino, minha meta naquele dia. 


Confusão no encruzo das rodovias, local em que me perdi novamente.

Contudo, num poste de cimento alocado no centro de um grande curral, três grandes setas amarelas indicavam o rumo a tomar.

Assim, segui as flechas que me remetiam em direção a um muro, mas, ao chegar ali, as marcações desapareceram.

O calafrio veio de repente, como uma centelha partindo dos pés e retinindo nas têmporas, aniquilando na vertical, a aparente calma que eu vinha mantendo.

Estou novamente perdido, foi o que pensei!

Era desanimador, pois parecia que novamente o dedo do fracasso teimava em apontar na minha direção. 

Desesperado, com meu estoque de água se findando, saltei mais 3 cercas sem saber para onde me dirigir, ficando ainda exposto ao mais ardente sol.

Por fim, sem ter outra opção, acabei, com grande dificuldade, transpondo um alto alambrado lateral, e saindo na “Autovia Nacional”.

Prossegui adiante, agora utilizando o acostamento da rodovia, no sentido contrário ao fluxo de veículos que, por sinal, passavam em grande velocidade, vez que ali se permite trafegar até a mais de 120 quilômetros por hora.

Pelo que me constava, o trânsito de pedestres pelo interior de autoestradas é proibido não só na Espanha, como em toda Europa, pelo imenso perigo físico a que se expõe o caminhante.

Assim, enquanto um tanto claudicante eu seguia em frente, me lembrei de um relato que havia lido no site da Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago-RJ (http://www.caminhodesantiago.org.br.), que para comprovar, transcrevo abaixo:

 

CAUSOS


Eu saí muito cedo de Arca, pois minha intenção era chegar em Santiago por volta das nove horas, fugindo assim do burburinho dos turistas! Eu queria a Praça do Obradoiro e a Catedral todinhas para mim!

Por isso saí por volta das 4 da manhã. Fui pela carretera todo o trajeto. O dia amanhecendo e eu na carretera. Logo já estava entrando na cidade. Tudo tranquilo, sem problema algum!

Na segunda vez, com o Mateus e a Taty, saímos mais tarde, por volta das 8 da manhã, andamos pelas trilhas como diz o guia, só que em um certo ponto saímos da trilha e seguimos pela carretera. Eu lembrava que havia passado por ali no ano anterior, então... No problem.

Notamos que os carros passavam por nós e alguns davam sinal de luz!

Nós bem alegres acenando, respondendo aos cumprimentos! (risos)

Alguns motoristas eram mais enfáticos e faziam sinais nada "amigáveis", buzinavam, etc... E eu mandando eles "beber" no "cone sul"!

Não demorou muito para aparecer um coche da polícia rodoviária e quase nos prender, pois segundo eles, aquela era uma rodovia Nacional (N alguma coisa) e era expressamente proibido (e perigoso) andar por ali!

Nos colocaram no carro, quase que à força e queriam nos levar até Santiago. Tive que brigar muito com eles até convencê-los a nos "colocar" de volta na rota. Ou seja, nos deixaram no monumento ao peregrino do João Paulo II.

Putz, fiquei sem saber onde me enfiar!

Passei uma vergonha do caramba!!! (risos)

Aí, começamos a lembrar eu mandando os coitados longe.... Putz, que micão!!

(Adriano – 12/09/2002 – 21:06)” 

 

Autovia Nacional, um local onde o trânsito flui perigosamente rápido

Bem, eu me encontrava dolorido, faminto, desidratado e extremamente esmorecido em face dos desgastantes contratempos vivenciados até ali.

Para completar, a mochila que parecera leve na saída, agora pesava sobre meus ombros como se estivesse cheia de grãos de chumbo, enquanto o sol do fim da tarde ardia intenso.

Assim, o final dessa jornada ganhou visos de dramaticidade, pois minha água se findou e também nada tinha para degustar, de maneira que eu me sentia atordoado e sedento.

Por isso mesmo naquelas horas sombrias me lembrei do que o peregrino e autor Guy Veloso confessa em seu livro: “... não andamos mais o caminho; é o caminho que nos anda.”

As botas eram relativamente novas, assim já sentia os dedos dormentes, doendo intensamente, enquanto minha cabeça latejava e os braços irradiavam espasmos de dor.

Eu seguia extenuado, encurvado sob a mochila, combalido, num mundo exclusivamente meu, isolado em minha dor, e numa determinação interior que nunca antes experimentara.

Ainda assim, intimamente, torci para que algum motorista prestimoso me denunciasse à Polícia Rodoviária, porque eu não teria preconceito nenhum em aceitar uma carona até meu destino final.

Ocorre que naquela terrível jornada, infelizmente, nada de novo ocorreu, e como sentia agudas pontadas nos membros inferiores, matutava se meus pés pareciam irresignados quanto à tarefa de me levarem até Santiago.

Assim, após mais uma hora bastante sofrida, sobre um asfalto quente e que emanava ondas de calor por conta da temperatura reinante, finalmente avistei Aldeanueva del Camino, minha meta para aquele dia.

Minha visão estava toldada pelo cansaço e todo o meu corpo era uma única dor lancinante.

Pontadas de dor mais intensa espalhavam-se pelo ombro direito, onde provavelmente distendera um músculo ao saltar a penúltima cerca, e minha exaustão já beirava o delírio.

E apesar do derradeiro esforço empregado, só adentrei a cidade propriamente dita uma hora depois.

Esse é o problema com os relevos pouco acidentados, de longe você vislumbra a povoação, mas anda, anda e não se aproxima do alvo.

Quando se está com sede, fome e várias bolhas nos pés, a visão é ainda mais dolorosa.

Passos sobre passos, dor sobre dor e o destino não chega.

E quando finalmente pude acessar o túnel por onde se processava o retorno dos veículos e adentrei à recôndita e silenciosa aldeia, eu já estava quase no final da esparramada cidadezinha.


Chegando ao Hostal Montesol, às 16 h 30 min

Assim, após solicitar informação a uma senhora que passeava com sua filha, acabei por me dirigir ao Hostal Montesol, situado à beira da rodovia N-630, mas longe do centro da cidade onde se situa o albergue de peregrinos.

Quando ali cheguei, às 16 h 30 min, sentia a língua inchada e rebelde na boca seca e amarga.

Os músculos das pernas e das coxas tremiam incontrolavelmente e minha visão se toldava com uma frequência cada vez maior.

Imediatamente, me dirigi ao bar e pedi ao atendente uma garrafa grande, com 1 litro e meio de água.

O gozado disso tudo é que as palavras saíram, mas, os sons me pareciam distantes e estranhos.

Eu coloquei o gargalo nos lábios, emborquei com gosto, e bebi todo o seu conteúdo, antes de depositá-la sobre o balcão.

Depois, mais relaxado, solicitei que ele me servisse uma taça grande de vinho tinto, como forma de aliviar as dores e atenuar minha tensão,

O efeito da bebida foi imediato, espalhando uma onda de calor sobre meu corpo.

Eu parecia um personagem de desenho animado, que de azul fica rosado em questão de segundos.

Com a dosagem alcoólica se elevando, senti uma instantânea mudança de humor, pois minha revolta desapareceu e foi substituída pela vergonha de haver adotado uma postura tão negativa, antes de ali aportar.

Quase instantaneamente, fui invado por uma agradável sensação de conforto e bem-estar, que desde a manhã eu não vivenciava.

Afinal, o que horas antes parecia ser uma perspectiva aterrorizante, transformara-se num triunfo extraordinário, fruto da tenacidade e obstinação, qualidades que me são adstritas.

Mais tarde, depois de tomar banho e lavar roupas, desci até o restaurante e ali me foi servido, em face do horário adiantado, um enorme prato tipo “PF”, substancial alimento que me serviu tanto de almoço como jantar.


Passeando por Aldeanueva del Camino, próximo do prédio del "Ayntamiento"

Vivificado e integralmente recuperado da maratona a que me submetera, fui dar uma volta pela graciosa vila, onde a maioria das habitações possui bem cuidados balcões floridos. 

Famosos, na localidade, são os ramos de castanheira que ali tem utilidade na fabricação artesanal de cestos, bengalas e cajados.

Aproveitei, então, para conhecer o albergue, onde carimbei minha credencial.

A hospitaleira Balbi, uma senhora simpática que reside próximo dali, me contou que havia chegado naquele dia, apenas dois ciclistas.

Porém, tinham seguido de táxi até Plasência para consultar um médico ortopedista, vez que um deles sofrera uma queda e estava com sérios problemas em um dos joelhos.


Igreja de Nuestra Señora del Olmo

No retorno ao local de pernoite, parei para conhecer as igrejas de San Servando e de Nuestra Señora del Olmo, ambas do século XV.

E, ainda ultrapassei a “puente medieval sobre la Garganta de la Buitrera”, a maior atração dessa simpática aldeia, onde residem 800 almas.


“Puente medieval sobre la Garganta de la Buitrera”

Trata-se de célebre construção de um só arco, cimentada sobre rocha viva, há mais de 2.000 anos.

É considerada uma joia da arquitetura militar romana.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


 

À noite, já no quarto, fiz breve balanço de todas as emoções e dissabores experienciados naquele dia, e constatei que eles haviam se originado tanto por teimosia minha, quanto pela má sinalização encontrada no “tramo” final.

Acresça-se que ao pesquisar na internet, para escrever esse texto, encontrei num site espanhol a informação de que recentemente essa etapa fora remedida, via GPS, tendo sido encontrada uma distância exata, de 40 quilômetros e seiscentos metros.

Assim, somando-se ao percurso que percorri enquanto estava perdido, seguramente eu caminhei mais de 45 quilômetros nesse dia.

Por isso mesmo, as dificuldades provocadas pelas reviravoltas surgidas ao longo da jornada e as peripécias praticadas para superá-las, acabam por tornar essa etapa tremendamente desgastante.

Muito embora, eu saiba que numa “viagem” desse naipe, não se busca a felicidade plena, e sim segurança, paz, realização de descobertas durante toda a locomoção e uma igual serenidade.

Porquanto, no global, toda peregrinação também se traduz numa rotina previsível, que consiste em caminhar, lavar a roupa, consultar mapas e, principalmente, estar sozinho sem ser solitário, seguindo em frente como um pássaro migratório que avança, lentamente, numa sequência de voos.



Mas, no “frigir dos ovos”, só retive as boas recordações dessa etapa, vez que lembranças carregadas de emoção ficam gravadas para sempre na memória.

Contudo, conforme já previra, caminhei sempre integralmente solitário, porque, exceto os dois ciclistas que me ultrapassaram no trigésimo quilômetro, eu não visualizei nenhum outro peregrino ou pessoa pelos locais em que transitei, a não ser trabalhadores no local de construção do novo ramal da Autovia Nacional.

E à noite, já no quarto, minha atenção voltou-se para a jornada seguinte, onde eu deixaria a altitude de 510 metros onde me encontrava, para percorrer mais 43 quilômetros, e pernoitar em Fuenterroble de Salvatierra.

Local de morada do Cura Blás, o maior ícone desse roteiro, localizada no cume de um morro, a mais de 1000 metros de altura.

Mas, não me sentia desanimado ante essa nova porfia, afinal num roteiro no quilate da Via de La Plata, o peregrino necessita “matar um leão por dia”, literalmente.

Depois, a gente tem a idade que sente ter e não aquela convencional marcada nas folhinhas.

Posto que o meu léxico diário não comporta as expressões cansaço e preguiça.

Ao menos, quando me levanto da cama!

E, ademais, caminhar é uma expressão essencial de algum aspecto estranho e imutável de minha personalidade que eu não conseguiria mudar, assim como não poderia trocar a cor de meus olhos.

 

FORÇA


"Tenha sempre presente que a pele se enruga, o cabelo embranquece, os dias convertem-se em anos...
Mas o que é importante não muda... a tua força e convicção não têm idade.

O teu espírito é como qualquer teia de aranha.

Atrás de cada linha de chegada, há uma de partida.

Atrás de cada conquista, vem um novo desafio.

Enquanto estiver vivo, sinta-se vivo.

Se sentir saudades do que fazia, volte a fazê-lo.

Não viva de fotografias amareladas...

Continue, quando todos esperam que desista.

Não deixe que enferruje o ferro que existe em você.

Faça com que, em vez de pena, tenham respeito por você.

Quando não conseguir correr através dos anos, trote.

Quando não conseguir trotar, caminhe.

Quando não conseguir caminhar, use uma bengala.

Mas nunca, nunca se detenha!”

(Madre Teresa de Calcutá)

 

EPÍLOGO


 

Rememorando minha aventura pela Via de La Plata, diria que poucas experiências se comparam a uma caminhada desse porte, que nos coloca em íntimo contato com nossos limites.

Parte projeto de engenharia, parte jogo de xadrez, parte ultramaratona, uma peregrinação de 1.000 quilômetros, a pé, nos faz exigências físicas e psicológicas que nenhum outro repto apresenta.

Após aportar em Santiago de Compostela, em 2008, passei a encarar os caminhos não tanto como um desafio pessoal ou uma catarse religiosa, mas como uma forma de arte ou, até mesmo, em sua expressão mais pura, um exercício preponderantemente espiritual.

Ou seja, uma versão moderna do ascetismo secular para purificar a alma por meio do afastamento dos confortos e conveniências mundanas, ao mesmo tempo em que nos aproximamos dos limites da mortalidade.

Afinal, nosso esforço ao enfrentar jornadas arriscadas e inóspitas, culminando em um efeito poderoso, é aquilo que os psicólogos humanistas descreveram como a conquista da autorrealização.

Qual seja, o auge da expressão pessoal que dissolve os grilhões de nossas vidas ordinárias e nos permite, ainda que fugazmente, “nos tornarmos aquilo que somos capazes de ser”.

Esse poder transformador é de certa forma, o motivo pelo qual as peregrinações religiosas têm uma importância simbólica tão importante para aqueles que as buscam.

E como a mitologia reinante sugere: quanto mais longo e penoso o Roteiro, mais desperta a nossa imaginação, e nos alavanca em direção aos nossos objetivos.

 

Bom Caminho a todos!

 

Jan/Fevereiro-2013 

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