CAMINHO CATALÃO: O ROTEIRO MAIS BEM SINALIZADO QUE PERCORRI NA ESPANHA E O DIFICÍLIMO DESCENSO APÓS O MONASTÉRIO DE SAN JUAN DE LA PEÑA!


CAMINHO CATALÃO: O ROTEIRO MAIS BEM SINALIZADO QUE PERCORRI NA ESPANHA E O DIFICÍLIMO DESCENSO APÓS O MONASTÉRIO DE SAN JUAN DE LA PEÑA! 




O Caminho Catalão tem seu início no Monastério de Montserrat, localizado próximo de Barcelona, que abriga a famosa imagem de Nossa Senhora do Monte Serreado, a padroeira da Catalunha, e me surgiu como uma excelente opção para o ano de 2017, pois no anterior eu percorrera o Caminho do Ebro, e, é de se notar, que seus traçados oblíquos se fundem num só roteiro, muito próximo de Saragoza.

Contudo, não era minha intenção reprisar o trecho final, localizado entre as cidades de Piña del Ebro e Logroño, assim e por sorte, há muito tempo, peregrinos criaram um ramal alternativo que, após, aproximadamente, 80 quilômetros, na cidade de Tárrega, desvia-se do caminho original, segue em direção ao Monastério de San Juan de la Peña e, mais abaixo, se enlaça com o Caminho de Santiago Aragonês, na cidade de Santa Cília de Jaca.

Os salvo-condutos firmados com os romeiros pelos reis de Aragón deixam evidente que esta rota jacobeia existe desde a Idade Média e pelos registros históricos, o primeiro que utilizou esse caminho foi o abade Cesáreo, que peregrinou desde o Monastério de Monteserrat até Santiago, no ano de 959.


Monastério de Montserrat, marco inicial do Caminho Catalão.

Esse roteiro foi recuperado em 1993 e, na atualidade, se encontra estupendamente sinalizado, dotado de uma boa rede de albergues e, nesse sentido, o Caminho Catalão surpreende pela sua enorme variedade paisagística, uma das mais belas na Espanha.

Partindo do Monastério de Montserrat em meados de abril, eu sobrepujei 288 quilômetros em 9 etapas, até aportar à belíssima vila de Loarre, onde pernoitei, depois, no dia sequente, enfrentei a mais difícil de todas as jornadas nesse belo Caminho, quando parti da Estación de Santa Maria y la Peña, onde encontrei tudo fechado e deserto, face ao horário extemporâneo, quando ali cheguei.

Como de praxe eu estava só e à mercê da proteção divina, então, naquele local, sob um frio congelante, compenetrado, fiz orações, alongamentos e, pasmo, verifiquei em um termômetro afixado numa das portas da estação, que a temperatura ali, marcava zero graus, com sensação térmica de -3ºC.

Imediatamente, para espantar o vento cortante, me pus a caminho apressadamente e o fiz seguindo por uma rodovia asfaltada e sem tráfego, por 1.600 metros, então, sob o lusco-fusco de uma manhã neblinosa e gelada, as flechas me direcionaram para uma trilha pedregosa e ascendente, em direção ao topo de íngreme elevação.

Eu estava diante da serra do Triste, numa senda que sobe uma colina, por um terreno escarpado e liso, e logo vivenciei momentos tensos, porque escorreguei várias vezes por conta das pedras soltas, alocadas no leito da traiçoeira vereda, entretanto quando atingi o topo do morro, eu já estava aquecido e sentia o suor porejar abundantemente pelas minhas costas e axilas.

Contudo, a partir dali, iniciou-se uma senda empedrada, que seguiu labiríntica pelas faldas da montanha, sendo que do meu lado esquerdo descortinava-se um grande precipício e, no fundo dele, corria um largo e rumorejante riacho, por isso segui com extremo cuidado e atenção redobrada, pois uma queda ali seria fatal.

O caminho muito bem sinalizado seguiu sempre dentro de um místico bosque de pinheiros, onde apenas o canto de pássaros quebrava o silêncio avassalador ali existente e em determinados locais vi pequenas construções em ruínas, que inferi fossem velhos abrigos de caçadores.

Duvidei que alguém pudesse residir naquele local ermo e de difícil acesso, porque não visualizei cultura agrícola de nenhuma espécie no entorno, assim, eu seguia apreensivo, meio aos trancos e barrancos, tropeçando de quando em vez nas pedras, mas, depois de 3 quilômetros num autêntico ziguezague pela floresta, acabei por desaguar numa larga estrada de terra, por onde segui mais tranquilo e confiante.

Inicialmente o clima se mostrava carrancudo, porém, o sol finalmente deu o ar da graça e depois de caminhar 10 quilômetros, sempre ascendentes, adentrei em Ena, pequeníssima aldeia, onde residem 50 pessoas e segundo o guia que eu portava, ali existe um excelente albergue, que disponibiliza 8 camas aos peregrinos.

Porém, não pude avaliar seu interior, pois a porta de entrada se encontrava fechada, e não avistei ninguém transitando pela minúscula aldeia, cujas casas são todos calafetadas externamente com pedras, sinal de que o inverno ali deve ser rigoroso, inclusive, com nevascas, pois ela está situada a quase 900 metros de altitude.

Prosseguindo, logo voltei a palmilhar sobre terra, por estradas largas e bem delineadas situadas junto a imensos bosques e apesar do sol, meu deslocamento seguiu agradável e fresco, temperatura na casa dos 10°C, ideal para uma excelente e produtiva caminhada.

Na parte final do trajeto, voltaram as grandes plantações de trigo, e foi caminhando entre elas que aportei a Botaya, outra minúscula aldeia sem comércio, localizada na vertente meridional da Serra de San Juan de la Peña, a quase mil metros de altitude e, embora meu guia afirmasse que ali residem 27 pessoas, não ouvi sons e nem avistei vivalma.

Depois, deixei o povoado por uma rodovia que segue em direção ao Monastério de San Juan, porém, um quilômetro acima, as flechas me direcionaram para a esquerda, em direção a uma senda ascendente, em cujo piso encontrei muitas pedras, e o roteiro seguiu sempre em meio a bosques, mas foi empinando gradativamente.

O local é ermo e inóspito, com trechos íngremes e perigosos, que venci com calma, fazendo pequenas pausas para recompor minha respiração, quando necessário, e por sorte, a ascendência, embora exigente, tem pequena extensão.

No topo da elevação, que atingi quase rastejando, eu detinha uma soberba vista do vale por onde viera ascendendo, de incomensurável beleza e esse foi, com certeza, o segundo maior obstáculo que enfrentei no Caminho Catalão, pois o primeiro, o mais extenso deles, estava por vir, ainda no final dessa jornada.


O Monastério Novo de San Juan de la Peña.

Mais um quilômetro percorrido, saí no belo parque que frondeia o Monastério Novo de San Juan de la Peña, um edifício de grandes dimensões, localizado a 1.210 m de altitude, cuja construção teve início no final do século XVII, depois que um incêndio ocorrido em 1675, devastou o Real Monastério, onde se destaca a fachada barroca de sua igreja, com uma profusa decoração e bonita simetria.

No local, alguns turistas perambulavam pelas imediações, fotografando o conjunto e contornando o imenso prédio para visitas guiadas, porém, eu já havia estado no interior dessa construção em 2004, quando provinha de Lourdes (França), portanto, fiz algumas fotos pelo lado externo, depois segui adiante, agora em descenso.

Para tanto, segui um caminho para pedestres que une os dois monastérios e está muito bem sinalizado, no entanto o descenso é ríspido e feito sobre pedras alocadas no leito da trilha, por isso há que se tomar muito cuidado, pois um simples escorregão pode redundar em violenta queda, então, mais abaixo, acabei por sair na rodovia e, alguns metros depois, me vi diante do Monastério Velho de San Juan de la Peña.

Também chamado de Real Monastério de San Juan de la Peña, ele está escondido entre as agrestes paredes rochosas da serra homônima, em um lugar que parece o último rincão do mundo e suas construções estão debaixo de uma enorme rocha que oferece uma proteção inquietante.


Chegando ao Monastério Velho de San Juan de la Peña.

Sua origem documentada remonta ao século X, com a fundação de um pequeno centro monástico, sob o patronato de São João Batista e durante o século XI o centro se ampliou, convertendo-se em panteão dos reis de Aragon e de Navarra, e em um dos monastérios mais importantes do Reino de Aragón.

Das numerosas lendas que têm esse cenóbio como protagonista, cabe destacar uma que afirma ter ele custodiado durante séculos o Santo Graal.

À época e visando a conservação de seu patrimônio histórico, esse Monastério só aceitava a visita de no máximo 50 turistas por hora e, na fila à minha frente, existiam mais de 100 pessoas aguardando, visto que havia alguns ônibus ali estacionados.

Eu não estava disposto a esperar tanto tempo, ademais, em 2004, eu visitara o local, amplamente, e sem pressa, dessa forma, fiz algumas fotos do lado exterior da emblemática construção, depois segui em frente, e o fiz por sendas maravilhosas, cobertas por frondentes árvores, em leve descenso.

O dia prosseguia nublado, o piso era em terra socada, a sinalização ótima, e tudo seguia tranquilo em minha caminhada, contudo, aos poucos o cascalho foi tomando conta do solo, e o tamanho de suas pedras também foi aumentando, trazendo o perigo de uma torção e, creia, o ritmo empregado na caminhada não podia ser seguidamente interrompido, pois o receio de não conseguir cumprir a etapa fez com que eu me concentrasse com maior vigor na marcha.

Então, mais abaixo, eu passei a ascender novamente até atingir o cume do Pico Quatro Caminhos, localizado a 1.220 m de altitude, e a partir desse marco, de onde eu detinha belas visões da paisagem que se descortinava a minha frente, principiei a descender com violência e encontrei o “calvário” dentre todas as jornadas que já vivenciei na Península Ibérica.


Descenso pedregoso e inóspito, um convite a uma torção.

Pois, esse trajeto derradeiro foi feito sobre pedras soltas, por uma senda perigosíssima, localizada ao lado de um imenso precipício, que se desenhava pelo meu lado direito e, por azar eu estava sozinho no caminho, assim, eu descendi com atenção extremada, porque uma queda era iminente a todo momento e custaria caro, com certeza.

Minha insegurança devia-se a instabilidade existente nas rochas alocadas no piso da senda que, infelizmente, se encontrava erodida e em péssimo estado de conservação, possivelmente, face às chuvas recentes, por isso foi, efetivamente, uma desescalada tensa e superada no limite de meu condicionamento físico e resistência muscular.

Ocorre que eu caminhava pela borda de um imenso abismo e, em alguns locais, a menos de um metro da profunda ribanceira e se porventura eu sentisse algum mal-estar ou torcesse meus membros inferiores, naturalmente, eu mergulharia nesse tétrico despenhadeiro, de onde, certamente, não retornaria vivo.

De fato, ali, algo tão banal quanto desmaiar ou perder a consciência poderia ser letal, vez que em determinado lugar, sentindo-me mais fraco do que o habitual, eu me desequilibrei em diferentes ocasiões e constatei algo como uma leve tontura passageira, e isso realmente me assustou, pois eu imaginava que se em algum momento eu perdesse a consciência, poderia rolar montanha abaixo.

Sem dúvida, foi este, de longe, o trecho de maior inquietude e perigo que sobrepujei em todo o Caminho Catalão, tanto que para vencer, aproximadamente, 2.500 metros, em ríspida descensão, eu gastei quase três horas laboriosas e estafantes ao extremo.

Em determinado patamar, finalmente, o caminho se aplainou e, utilizando uma rodovia vicinal, aportei em Santa Cruz de la Serós, minha meta para aquele aflitivo dia, e o cansaço era tanto que eu já não tinha ânimo nem para reclamar, pois meu corpo estava no limite da exaustação e um clima de nervosismo começou a se estabelecer.


A cidade de Santa Cruz de la Serós aparece abaixo, já quase chegando...

Eu estava irritado, com fome e algo parecia ter ressuscitado minhas bolhas, pois meus pés ardiam e ainda assim consegui, a duras penas, localizar o hotel de pernoite, depois de ter andado mais de 15 minutos além dos meus limites, em completo silêncio, pois já não tinha voz e nem forças nas pernas.

É nessas horas que o cajado assume um papel muito importante, porque sem ele seria quase impossível chegar, vez que meu corpo quase não conseguia se manter ereto, tamanho meu esgotamento físico.

Para piorar, o céu estava cinza, pressagiando chuva iminente, a temperatura havia caído bastante e minhas unhas queimavam, dentro das botas, porém, após um relaxante banho e a ingestão de um substancial almoço, regado a um indispensável vinho tinto, tudo voltou ao normal e, então, face ao violento esforço empregado na jornada recém-finda, deitei para um merecido descanso.

Á tarde, dei um breve giro pela frígida povoação, que além de estar situada a quase 800 m de altitude, dista parcos quilômetros dos Pireneus, que formam uma fronteira natural entre a França e a Espanha, e pude visitar a igreja de Santa Maria, uma belíssima construção integralmente preservada, mas logo retornei apressado ao local de pernoite, pois iniciou-se forte chuva, com vento e trovões, que seguiu noite adentro e, por conta desse atípico evento, a temperatura despencou novamente.

Já em meu quarto, refazendo a retrospectiva do dia, depreendi que nós não podemos se sentir angustiados ou preocupados, especialmente, se nos depararmos com um campo cheio de armadilhas ou dificuldades ao avançar em direção ao nosso objetivo. Muito pelo contrário, devemos entender que cada obstáculo é a prova de que estamos fazendo algo realmente valioso, que deve nos ajudar a reafirmar o nosso compromisso e nos manter conectados com o verdadeiro significado de nossa experiência, pois, muitas vezes, vale a pena acreditar que os problemas não estão lá para nos derrotar, mas justamente para nos fazer melhorar, fazer-nos crescer e ser mais fortes.

Com efeito, os desafios aos quais me proponho no âmbito da religião, aventura ou resistência obedecem, como parâmetro fundamental, ao propósito de atingir o limite que minha própria condição física e idade permitem, assim, aquela etapa, como todos aqueles dias carregados de múltiplas atividades, tanto físicas como mentais, parecia ter durado bem mais do que as 9 horas que gastei na caminhada.

Concluí, então, em oposição à crença popular de que o tempo passa mais depressa quando seus momentos são preenchidos por uma rotina saudável e assim anotei em meu diário, sobre o inesquecível e tenso percurso daquela data, onde percorri 27 quilômetros:

Uma etapa de razoável extensão, que reserva dificuldades altimétricas de altíssimas proporções, para o início e o final da jornada. O trajeto inicial, feito por sendas ermas e pedregosas, mostrou-se um abissal desafio para qualquer caminhante. Tanto quanto o íngreme ascenso em direção ao Monastério Velho de San Jun. Porém, a parte mais preocupante foi, sem dúvida, o “criminoso” descenso em direção à cidade de Santa Cruz de la Serós, de dificuldade máxima. No global, foi a trajeto mais difícil e desgastante que venci em todo o Caminho Catalão, contudo, percorrido sempre em meio a exuberante natureza, pleno de magníficas paisagens e monumentos históricos impressionantes e preservados.

Seguindo em frente, no dia seguinte eu cheguei em Santa Cília de Jaca, final do Caminho Catalão, após percorrer 345 quilômetros, e desaguei no Caminho Aragonês de Santiago que, após mais 4 jornadas, me levou até a cidade de Puente La Reina, já no Caminho Francês, por onde prossegui até Santiago.

Bom Caminho a todos!